O darwinismo e a transformação da medicina

Uma maior integração da microbiologia, biologia evolutiva, ecologia e outras ciências transformaria nossas práticas médicas

A teoria darwinista da evolução tem muitas aplicações práticas. A atenção a essa dimensão prática revela dificuldade distinta de um problema mais comumente comentado, a proposição de supostas alternativas pseudocientíficas (como o design inteligente), frequentemente associadas a uma compreensão limitada e/ou equivocada da natureza da ciência. Trata-se de que mesmo aqueles que aceitam a teoria darwinista, ou estão engajados em debates de fato científicos a seu respeito, por vezes perdem de vista seu papel na abordagem de problemas sociais e ambientais importantes. O ensino de evolução, em todos os níveis de escolaridade, poderia fazer mais para superar esse estado de coisas, se concedesse mais espaço a aplicações da teoria. Recursos para isso não faltam, a exemplo de livro de Douglas Futuyma disponível em português, em publicação da Sociedade Brasileira de Genética, que aborda o assunto. Continue Lendo “O darwinismo e a transformação da medicina”

Darwin e a Síndrome da Domesticação.

Se você prestar atenção, perceberá que os animais domésticos têm algumas características em comum, tais como orelhas caídas, pelagem apresentando manchas brancas e focinhos mais curtos. Você já se perguntou o porquê dessas similaridades, conhecidas como Síndrome da Domesticação?

A Teoria da Evolução de Charles Darwin, publicada em 1859 sob título de “A Origem das Espécies”, não discorre ao longo de suas mais de quinhentas páginas sobre os mecanismos hereditários que seriam subjacentes a sua revolucionária ideia. No entanto, em seu livro seguinte “A Variação das Plantas e Animais Domesticados”, de 1868, Darwin realiza um detalhado estudo sobre hereditariedade ao analisar espécies domesticadas, apenas poucos anos após a elaboração das Leis da Hereditariedade por Gregor Mendel.
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Sociedades individuais de indivíduos sociais

Apesar de nos sentirmos muitas vezes como gênios incompreendidos, nossa genialidade está no conjunto, que no mais das vezes é mais que a soma das partes

Ao invés de nos vangloriarmos de nossa inteligência pessoal, dos grandes gênios de nossa cultura, Darwin, Einstein, Machado de Assis, talvez ganhássemos mais se percebêssemos que gênios nascem onde são semeados, e que uma boa colheita requer muito investimento contínuo, em uma escala de tempo histórica.

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Dois cérebros para pensar: a evolução da inteligência em aves e mamíferos

Assim como nós, primatas, algumas aves brincam, resolvem problemas, usam ferramentas, aprendem a cantar e se reconhecem no espelho. Este nível de sofisticação comportamental, ausente em outros animais, evoluiu independentemente nas linhagens das aves e dos mamíferos. Quais mudanças no cérebro estão subjacentes à sua evolução? Continue Lendo “Dois cérebros para pensar: a evolução da inteligência em aves e mamíferos”

Em busca da vida eterna

Em amplo estudo sobre a expectativa de vida dos ratos-toupeira-pelados, cientistas revelam que esses roedores desafiam a lei que rege o envelhecimento biológico, pois suas taxas de mortalidade não se alteram com a idade.

A morte é uma verdade inexorável para qualquer ser humano. A certeza da morte está sempre presente nos nossos inconscientes e contribui de forma importante para as sensações de ansiedade que sentimos no nosso cotidiano, como argumenta Irvin D. Yalom em sua obra “Staring at the Sun: Overcoming the Terror of Death”, traduzida para o português, em 2008, sob o título “De frente para o Sol”.

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Por que devemos compreender evolução? (repost em homenagem ao aniversário de Darwin)

Não compreender a teoria da evolução e suas implicações para o entendimento de nós mesmos e do mundo ao nosso redor é tão grave quanto pensar que a Terra é plana. E pensar sobre isso nos leva ainda além…

A ciência não é somente uma fonte de utensílios que usamos em nosso dia-a-dia ou de curiosidades para acalentar nossas noites sem sono. Ela é parte fundamental do legado cultural da modernidade. Não entender ideias científicas é estar limitado em nossa formação cultural. Continue Lendo “Por que devemos compreender evolução? (repost em homenagem ao aniversário de Darwin)”

Para genomas, tamanho é documento?

Há 50 anos, pensava-se que a quantidade de DNA em um genoma tinha uma correlação positiva com a complexidade de um organismo, ou seja, quanto mais complexa fosse uma espécie, mais DNA era necessário para armazenar aquelas informações que seriam traduzidas em fenótipos hierarquicamente mais complexos. O que pensamos hoje dessa ideia? Continue Lendo “Para genomas, tamanho é documento?”

O conhecimento e a verdade

O conhecimento científico não é estático. Aquilo que ensinamos hoje pode ser alterado amanhã, à medida que novos estudos são feitos. Conviver com essas mudanças faz parte da atividade científica. No estudo da biologia evolutiva não é diferente.

Uma ideia comum sobre a ciência é a de que ela é uma atividade que “busca a verdade”. A intuição por trás dessa afirmação é a seguinte: cientistas buscam explicações que devem estar, de alguma forma, em conformidade com a forma como o mundo funciona. Esse “encaixe” entre as explicações que damos e o mundo que nos rodeia seria, segundo essa concepção, uma instância de “encontrar a verdade”. Continue Lendo “O conhecimento e a verdade”

A conquista do mundo pelos gatos

A Mesopotâmia foi o berço da nossa civilização e dos primeiros gatos domésticos, mas foi a partir do Antigo Egito que essa espécie começou a conquistar o mundo.

A história do gato doméstico (Felis silvestris catus) desenvolveu-se de maneira paralela à da nossa espécie, mas sem grande interferência humana por um longo tempo. Enquanto os ancestrais dos cães aproximaram-se e foram cooptados por bandos de caçadores-coletores há cerca de 20-40 mil anos, os gatos só passaram a fazer parte de nossa história após  o surgimento da agricultura, há cerca de 10 mil anos. Continue Lendo “A conquista do mundo pelos gatos”

Cérebros sociais ou sociedades cerebrais?

Mini-cérebros podem se unir em superpoderosos mega-processadores biológicos?

No que depender das neurociências, parece que nem Pink, nem o Cérebro, os inesquecíveis ratos brancos dos laboratórios ACME, conseguirão conquistar o mundo. Dominar o mundo é coisa séria, e para viver em ambientes diferentes como Tundra, Taiga, Floresta Temperada, Floresta Tropical, Savana, Pradaria, Caatinga e Deserto, um ser vivo precisa ser capaz de se ajustar a muitas situações distintas. É coisa de gente grande, e não de rato pequeno. Continue Lendo “Cérebros sociais ou sociedades cerebrais?”