Sociedades individuais de indivíduos sociais

Apesar de nos sentirmos muitas vezes como gênios incompreendidos, nossa genialidade está no conjunto, que no mais das vezes é mais que a soma das partes

Ao invés de nos vangloriarmos de nossa inteligência pessoal, dos grandes gênios de nossa cultura, Darwin, Einstein, Machado de Assis, talvez ganhássemos mais se percebêssemos que gênios nascem onde são semeados, e que uma boa colheita requer muito investimento contínuo, em uma escala de tempo histórica.

 Quando cultuamos a genialidade de alguns poucos, vivemos esperando o grande salvador da pátria, o grande gestor, o mago da economia, o deus que impedirá o aquecimento global, livrai-nos senhor em sua glória, amém. Esta sociedade mágica, à espera do milagre, é em parte fruto de uma concepção de inteligência como algo que depende fundamentalmente de uma loteria genética, que alguns poucos sorteados ganhariam em bênção. Não quero aqui discutir concepções racistas de inteligência, visto que há boas análises que mostram o quanto tais concepções estão erradas. Quero aqui discutir um ponto ainda mais básico: será que a história é mesmo feita de grandes gênios? Será que “andar no ombro de gigantes” é o que conta? Ou será que, inversamente, os gênios, ou os gigantes do saber são, em realidade, o produto de uma cultura?

Viver em sociedade é um desafio, pois temos que compreender uma hierarquia, um conjunto de relações sociais, memorizar atitudes e amizades dos outros, fomentar hoje o apoio social de amanhã. Dado o tamanho deste desafio cognitivo, temos em geral a expectativa de que animais sociais deveriam ter o cérebro maior que animais solitários. Isto se mostra verdadeiro entre primatas, e o ser humano sempre despontou como um caso exemplar de animal com um cérebro particularmente desenvolvido. No entanto, como vimos em uma publicação anterior deste nosso canal Darwinianas, há animais, como as vespas, em que o oposto ocorre: vespas sociais têm o cérebro menor que as solitárias. Como fazer sentido destes resultados contraditórios? Afinal, viver em sociedade é um desafio ou uma comodidade para os cérebros individuais?

Para responder a esta questão, Feinerman e Traniello modelaram os efeitos do tamanho da colônia, da operária, e do cérebro, bem como os efeitos da habilidade na busca de alimento, na aptidão de colônias de formigas. As colônias poderiam aumentar sua aptidão (ao longo do processo evolutivo) através de aumentos no tamanho corporal e cerebral das operárias, com uma respectiva expansão no repertório de tarefas que cada indivíduo poderia resolver, ou então através de aumentos no tamanho da colônia, com uma consequente expansão na solução coletiva de tarefas. Seus modelos matemáticos mostram que ambientes pobres em recursos alimentares favorecem a primeira via: a evolução de pequenas colônias, cujas operárias apresentam múltiplas habilidades, bem como cérebros grandes e, consequentemente, energeticamente custosos. Já ambientes com muitos recursos alimentares favoreciam a evolução de grandes colônias de formigas pequenas, com menos habilidades individuais e com pequenos cérebros.

Tais resultados permitem explicar a contradição que levantamos acima: viver em sociedade é um desafio cognitivo apenas se estamos em grupos pequenos, que evoluíram em um contexto de escassez de recursos e, ao contrário, viver em sociedade reduz os desafios cognitivos do indivíduo se ele evoluiu em grandes colônias selecionadas em ambientes ricos em recursos naturais. O cenário de escassez de recursos se assemelha àquele no qual nós humanos originalmente evoluímos: primatas que viviam em grupos pequenos e que saíram da floresta para a savana, sofrendo com isso maior restrição alimentar. Assim, extrapolando o modelo de Feinerman e Traniello para o contexto humano, poderíamos dizer que nosso cérebro particularmente avantajado entre os restantes primatas é uma decorrência das particulares condições ecológicas que nos selecionaram. Desta forma, neste momento inicial de nossa evolução, grandes cérebros estariam de fato sendo selecionados, e podemos então dizer que neste contexto a genialidade individual estaria sendo premiada pela seleção natural.

Mas o mais interessante ainda está por vir: se prosseguimos com o modelo matemático resulta que, quando os recursos alimentares se tornam abundantes, a seleção natural passa a premiar pequenos cérebros vivendo em colônias gigantescas. E não é que é aproximadamente este o cenário com qual a humanidade se deparou a partir da domesticação de plantas e animais, há cerca de 10 mil anos atrás? Com o nascimento das civilizações começa a haver um excedente produtivo que garante um aumento exponencial das populações humanas, que passam então a viver em grandes colônias, ao redor de grandes fontes de recursos alimentares culturalmente obtidas. Neste novo contexto, o que o modelo prevê é uma seleção direcional para cérebros pequenos: uma seleção que premia a solução de problemas não mais pelo indivíduo, mas pela interação entre os indivíduos, ou seja, através da organização social.

Se este raciocínio está correto, estamos há mais de 10 mil anos sendo selecionados para uma redução cerebral, associada a uma crescente organização social. Claro, obter alimento não é o único desafio da vida em grupo, de modo que outros fatores (obtenção de parceiros sexuais, cuidado parental extensivo, ampliação de repertório cultural necessário à sobrevivência e reprodução) poderiam estar selecionando cada um à sua maneira o tamanho do cérebro, de modo que somente a análise cuidadosa poderia evidenciar o balanço final dessas pressões evolutivas. No entanto esta minha análise parece robusta, pois conclui, juntamente com Michael Tomasello ou Boyd e Richerson, por uma redução da relevância da cognição individual, ao tempo em que indica uma ampliação do papel da cognição coletiva nas conquistas tecnológicas da humanidade. Assim, seguindo estes autores, não seria nossa genialidade individual, mas sim o acúmulo histórico que a cultura propicia, aquilo que nos torna poderosos; seriam formas particulares de imitação, com foco na cópia do processo, e não do produto, que permitiriam o acúmulo de cultura. Além disso, haveria também questões de escala envolvidas: quando temos grupos sociais pequenos, uma descoberta importante pode ficar confinada a alguns poucos especialistas do grupo, e portanto poderia se perder caso um acidente retire do grupo estes poucos indivíduos que dominam uma técnica particular. Já grandes grupos contam com a probabilidade a seu favor: não apenas eles têm uma chance menor de que grandes descobertas se percam por acaso, mas também eles têm uma chance maior de que novas descobertas sejam realizadas, simplesmente porque são muitos os indivíduos que estão tentando solucionar os novos problemas. Assim, há todo um conjunto de fatores que estão acima e além do indivíduo, e que são responsáveis pelo sucesso estrondoso da humanidade.

A capacidade de resolver problemas coletivamente, claro, não é exclusividade da humanidade: formigueiros, cupinzeiros, colméias, todos são exemplos impressionantes de propriedades emergentes do nível social, de construções elaboradas sem um plano prévio completo no cérebro de qualquer dos indivíduos da colônia. O que impressiona na humanidade é que o coletivo que elabora intricados edifícios do pensamento envolve indivíduos que nunca se viram nem se verão: envolve indivíduos que viveram em outras épocas, frequentemente séculos atrás. O que causa espanto é que inventamos feromônios impressionantes, que marcam trilhas por milênios; o que nos define é que nossos feitos surgem de uma trama de trilhas de todos os tempos, amalgamadas sempre no agora, sob os efeitos da paisagem do momento. O que impressiona é que cada ser humano é um coletivo, um feixe atemporal de pensamentos, um museu único de ideias colhidas em uma vida, e que se fertilizam para gerar o novo. Na dimensão social agigantada que vimos adquirindo após o surgimento das civilizações, somente coletivos têm força para mover a humanidade, não importando serem coletivos de indivíduos, ou indivíduos coletivos que, por serem tantos, movem a todos.

Hilton Japyassú (UFBA)

Para saber mais

Boyd, R., & Richerson, P. J. (1988). Culture and the evolutionary process. University of Chicago Press.

Feinerman, O. and Traniello, J. F. A. (2016). Social complexity, diet, and brain evolution: modeling the effects of colony size, worker size, brain size, and foraging behavior on colony fitness in ants. Behav. Ecol. Sociobiol. 70, 1063-1074.

Feinerman, O., & Korman, A. (2017). Individual versus collective cognition in social insects. Journal of Experimental Biology, 220(1), 73-82.

Tomasello, M. (2009). The cultural origins of human cognition. Harvard University Press.

Uma consideração sobre “Sociedades individuais de indivíduos sociais”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s