Sobre cães, humanos e genética

Humanos e cães se relacionam há dezenas de milhares de anos. Durante esse tempo foi estabelecida uma parceria que deixou marcas nos genomas de ambas as espécies.

Entre 20 e 40 mil anos antes do presente, ocorreu no noroeste do continente europeu um evento que marcaria a história evolutiva de duas espécies. Um pequeno grupo de lobos-cinzentos (Canis lupus) aproximou-se de um grupo de caçadores-coletores e passou a segui-lo. Iniciou-se assim o processo de domesticação dos cães (Canis lupus familiaris).  Ao longo de tal processo, esses animais foram vitais para o sucesso na expansão de nossa espécie ao redor do globo. A inclusão de matilhas de cães nos grupos caçadores-coletores trouxe duas vantagens imediatas: a primeira foi a possibilidade de aviso prévio à chegada de predadores, e a segunda foi o auxílio nas estratégias de caça de grandes animais. Os cães ajudavam os caçadores a encontrar a presa com mais facilidade, bem como encurralavam a presa para que ela pudesse ser abatida.

A história evolutiva dos cães pode ser dividida didaticamente em dois estágios. O primeiro se refere ao contexto mencionado anteriormente, no qual ocorreu a aproximação entre as duas espécies, cães e homens. O segundo é relativo aos dois últimos séculos, quando foram criadas raças com características específicas agradáveis aos humanos. Esse segundo estágio levou a uma grande diversificação morfológica dentro da espécie, resultante do intenso processo de seleção artificial ao qual a mesma foi submetida. Atualmente são reconhecidas pelo American Kennel Club cerca de 190 raças de cães, nenhuma das quais existia há 150 anos.

Diversos estudos genéticos têm sido realizados na tentativa de entender as mudanças genéticas que resultaram desse processo de seleção artificial, que levou a uma grande diversificação em poucas   gerações. A maioria deles aponta para mutações de grande efeito em genes específicos, tal como o IGF1. Uma única variante desse gene parece contribuir para a redução do tamanho do corpo de algumas raças de cães, como Pinscher e Chihuahua, por exemplo. No entanto, o estudo mais completo sobre o assunto revela que em torno de 50 regiões diferentes do genoma estariam associadas a grande parte da diversidade criada artificialmente nos últimos séculos.

Enquanto estudos relacionados à variabilidade morfológica atual das raças caninas são abundantes, existem poucos estudos visando elucidar as mudanças genéticas associadas à transição de lobos para cães. Dois estudos publicados nos últimos anos buscam esclarecer as consequências da coevolução entre humanos e cães para as duas espécies. Recentemente, um grupo de pesquisadores estadunidenses estudou com maior profundidade uma região no cromossomo 6 dos cães que apresenta os sinais mais fortes de seleção natural no seu genoma. Nesse estudo, essa região do cromossomo 6 foi comparada entre cães e lobos-cinza. Os resultados foram surpreendentes: constatou-se que lobos possuem menos variação genética na região do gene GTF21 do que os cães e, dentro do grupo de cães estudado, o aumento da sociabilidade do animal estava correlacionada a um aumento na variação encontrada nesse gene. Ou seja, cães hipersociáveis apresentavam mais mutações do que cães mais ariscos, e esses dois grupos apresentavam mais mutações no gene GTF21 do que os lobos.

O gene GTF21 está relacionado ao desenvolvimento da Síndrome de Williams-Beuren em humanos. Tal síndrome, além de causar deficiência cognitiva, faz com que os indivíduos afetados tendam a ser muito amigáveis e a confiar plenamente em outras pessoas. É válido destacar que o grau de severidade dessa síndrome depende do número de mutações ocorridas nesse gene, o que cria um paralelo interessante com a relação entre hipersociabilidade canina e variabilidade no mesmo gene. Provavelmente, a grande variabilidade encontrada nessa região do genoma possibilitou o aparecimento de lobos mais sociáveis, que se aproximaram dos humanos e passaram a considerá-los parte da matilha, ajudando na sua proteção e na caça em bando.

Em outro estudo, foram encontradas evidências de evolução paralela entre as duas espécies: muitos dos genes identificados em cães como alvos de seleção natural durante a domesticação se sobrepõem a genes que foram alvo de seleção natural em humanos. Foram identificados genes relacionados a metabolismo, digestão, processos neurológicos e câncer. Tais adaptações paralelas provavelmente se deram pela fato das duas espécies compartilharem os mesmos ambientes e pressões seletivas ao longo de suas histórias evolutivas. Os cães participaram da expansão do Homo sapiens a quase todos ecossistemas: existem indícios fósseis de cães acompanhando sociedades de altitude, desertos e regiões árticas.

A coevolução entre humanos e cães ao longo das gerações moldou o comportamento de ambas as espécies, levando ao grande sucesso evolutivo das mesmas. Sendo assim, conhecer os processos e fatores envolvidos na história evolutiva dessa espécie tão próxima pode também nos dar pistas importantes sobre o passado de nossa espécie.

 Tábita Hünemeier (USP)

PARA SABER MAIS:

Deer, M. (2013) How the Dog Became the Dog: From Wolves to Our Best Friend. The Overlook Press, 1st edition. 288pp.

http://www.huffingtonpost.com/mark-derr/dogs-domesticated_b_1146340.html

Range F and Virányi (2015) Tracking the evolutionary origins of dog-human cooperation: the “Canine Cooperation Hypothesis”.  Front Psychol. 5: 1582.

http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fpsyg.2014.01582/full

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