Filósofo muçulmano descobriu teoria de Darwin mil anos antes do naturalista inglês?!

Não exatamente. Se compreendemos como funciona a ciência e o que é uma teoria científica, podemos colocar tais afirmações sensacionalistas em perspectiva.

Recentemente, os meios de comunicação divulgaram, com ampla disseminação via Whatsapp, notícias de um filósofo muçulmano, al-Jāḥiẓ, que teria formulado a “teoria da evolução” mil anos antes de Darwin. Há de fato uma vasta tradição de ciência e filosofia árabes que é com muita frequência, mais do que deveria, ignorada pelo ocidente. Muito se fala da contribuição da filosofia grega para a modernidade, que de fato foi importante, mas se negligencia a enorme influência árabe sobre as universidades medievais, que tiveram papel relevante na revolução cientifica do século XVII, ou o fato histórico de que, quando os escritos gregos estavam perdidos na Europa, foram pensadores árabes que reintroduziram ideias de Aristóteles, Platão e outros pensadores da Grécia clássica. Continue Lendo “Filósofo muçulmano descobriu teoria de Darwin mil anos antes do naturalista inglês?!”

Retornando à Verdade, Superando um Mundo Pós-Factual

Verdade absoluta é um conceito inútil para entender o conhecimento humano. Noções alternativas à de “verdade absoluta” seriam mais úteis?

Há ideias sobre o mundo que são tão bem apoiadas por evidências que podem ser consideradas “fatos”, algo de que tratamos  em postagem anterior. Lá, nosso argumento foi o de que “verdade” é um conceito inútil para entender o conhecimento humano. A razão para isso deve-se à própria natureza do conhecimento, que é construído com base em nossa capacidade de captar informações e interpretá-las. Nossos limites perceptivos e cognitivos, assim como o fato de que todo conhecimento é construído com base em conhecimentos prévios dos quais dispomos, restringem o entendimento que podemos construir. O resultado é que possuímos uma “rede interligada de ideias sobre o mundo”, que nos permitem construir teorias e modelos que frequentemente guiam de modo eficaz nossa ação. Isso é algo bastante diferente da ideia de uma única e definitiva verdade.

Descartar a verdade como conceito útil para pensar o conhecimento humano carrega em si uma série de simplificações. Essas simplificações são úteis para veicular ideias sobre como cientistas (e também outros agentes humanos) constroem conhecimento. Entretanto, não deve causar espanto que, por limitar o conceito de verdade à ideia de uma verdade absoluta, elas também têm suas próprias limitações. Quando escrevemos o texto anterior, não tratamos de tais limitações, por causa de nosso desejo de enfatizar algumas ideias. Esta foi uma decisão que deve ser entendida à luz da retórica.

A retórica pode ser considerada a arte da persuasão. Ela diz respeito à capacidade de usar a linguagem para se comunicar de modo eficaz e convincente. Para isso, devemos construir nossos argumentos tendo em mente um público. Para quem estamos escrevendo? Sem ter isso em vista, não é fácil ser persuasivo. Estudiosos da retórica, como Chaïm Perelman, destacam assim o papel da audiência na retórica: todo texto que visa a persuasão deve ser escrito com uma audiência em mente. Isso implica, entre outras coisas, tomar decisões sobre o que dizer e o que não dizer, em vista da persuasão pretendida.

No caso de nossa postagem anterior, pretendíamos que ela fosse convincente sem demandar dos leitores que se engajassem em discussões filosóficas para além da simples lição que tínhamos em foco: quando abandonamos os fatos ao lidar com o mundo, corremos muitos riscos.

Contudo, essa decisão não é sem custos. Na postagem de hoje, explicitaremos um custo que pagamos e tentaremos então ir além das simplificações que fizemos na postagem da semana passada. Nosso foco muda um pouco, passando a recair sobre a exploração do significado da verdade de modo mais rigoroso, dando atenção ao fato de que podemos nos referir à verdade de diferentes formas. Esse esforço valerá a pena, esperamos, pois poderá ser revelador sobre como o conhecimento é produzido.

Novos significados para a verdade

Uma simplificação comumente feita ao tratar do termo “verdade” é considerá-lo como sinônimo de “verdade absoluta” (que foi o que fizemos em nossa postagem anterior). Essa noção de verdade é pouco útil quando buscamos entender o conhecimento humano. Como vimos, somos seres limitados, com ideias sobre o mundo que são dependentes umas das outras, de tal maneira que não podemos pensar no conhecimento como uma simples revelação sobre a realidade. Podemos acrescentar: nenhum conhecimento pode ser construído se não a partir de alguns princípios primeiros, de certos pontos de partida. Esses princípios são tomados como dados, no sentido de que, para desenvolver novas ideias, não os questionamos, assumimos que podemos tratá-los como corretos, como auto-evidentes. Muitos dos nossos maiores debates referentes ao conhecimento dizem respeito a esses princípios primeiros. O problema é que discutir princípios primeiros é geralmente de utilidade muito limitada.

Diante desse conjunto de argumentos, podemos então concluir que discutir o conhecimento humano tomando como base a ideia de “verdade absoluta” não nos leva a lugar algum. Nada é verdadeiro em sentido absoluto, e pretender ser detentor de verdade absoluta nada mais é que um artifício de poder. Mas repare que, na postagem anterior, quando tratamos da verdade, não escrevemos “verdade absoluta”. Essa qualificação (“absoluta”) é importante? Vejamos.

Assumir a verdade como absoluta e então recusar sua utilidade para pensar o conhecimento pode levar a inconsistências. Como? Nós também destacamos, na mesma postagem,  a importância de distinguir entre conhecimento (episteme) e opinião (doxa). Citamos Platão sobre a importância dessa distinção no campo da política, lembrança muito pertinente para o mundo de hoje, perdido nas brumas da pós-factualidade. Mas, note-se, este também é dito um mundo da pós-verdade. Estaríamos concordando com a ideia de pós-verdade, ao dizermos que a verdade é inútil para entender o conhecimento humano? Longe disso. Está claro, então, que precisamos dizer algo mais sobre a verdade.

Para além disso, o próprio Platão argumenta que, sendo tanto conhecimento quanto mera opinião tipos de crença, o que diferencia conhecimento de opinião é que o conhecimento é crença verdadeira e justificada. A contradição bate à nossa porta quando, no mesmo argumento, recusamos a verdade e apelamos ao conhecimento (nas palavras de Platão, crença verdadeira e justificada).

Uns adoram viver em contradição nesse mundo pós-factual. Mas não estamos entre estes. Por isso, é importante hoje retornarmos à verdade para dissipar essa contradição. Para isso, discutiremos noções mais fracas de verdade. Ou, como se costuma dizer na filosofia, noções “deflacionadas”. Isso quer dizer que são verdades mais fracas do que a verdade absoluta. E, dada a nossa convicção da inutilidade da “verdade absoluta”, podemos dizer “apropriadamente” mais fracas. Sem ser absolutamente verdadeiras, porque nada o é, essas formas deflacionadas de verdade são muito importantes, porque mostram como é possível ter confiança na ausência da verdade absoluta. Recorrer a tais formas de verdade constitui, inclusive, forma mais precisa de fazer referência ao que chamamos, na postagem anterior, de “fatos”.

Uma primeira noção deflacionada de verdade pode ser denominada “verdade pragmática”.

Verdade pragmática

Na noção de “verdade pragmática”, a base para determinarmos se uma afirmação sobre o mundo é verdadeira ou não reside na eficácia de sua aplicação prática, ou seja, nas consequências de sua aplicação para nossas ações. Não se trata de rejeitar a noção de verdade, mas de entendê-la de modo distinto da ideia de verdade absoluta. Como nossa mente é ativa na busca de entender o mundo, o conhecimento não pode ser um espelho da natureza. A relação entre conhecimento e realidade não pode ser como um reflexo num espelho, sendo então um reflexo perfeito igual a uma “verdade absoluta”. Como então deixar clara a relação entre conhecimento e realidade?

A ideia de uma verdade pragmática é que essa relação pode ser esclarecida por um apelo às consequências das afirmações para as nossas ações. Seria pragmaticamente verdadeira uma afirmação que leva de modo geral a consequências eficazes e (também frequentemente) positivas sobre o mundo. Por “positiva”, podemos entender uma ação que aumenta nossas chances de sobrevivência, como seres que têm no conhecimento sua principal forma de adaptação ao mundo.

Vamos exemplificar a verdade pragmática retomando um caso que discutimos na postagem anterior: a negação pelo presidente sul-africano Thabo Mbeki de que a AIDS é causada por uma infecção viral. A ideia de que a AIDS não é uma doença viral é falsa em termos pragmáticos, como mostram as consequências negativas que acarretou: milhares de mortes, milhares de crianças nascidas com AIDS. Em contrapartida, a ideia de que a AIDS é causada por vírus é pragmaticamente verdadeira: é uma ideia que catalisou a adoção de medicamentos antivirais em outros países africanos, levando milhões de soropositivos a não desenvolverem AIDS.

Similarmente, a ideia de que a Terra não é plana é pragmaticamente verdadeira, como mostra o simples ato de nos orientarmos usando GPS em nossas vidas cotidianas. O Sistema de Posicionamento Global (GPS) pressupõe que a Terra não é plana. As afirmações de que a AIDS é uma doença viral e de que a Terra não é plana são crenças verdadeiras e justificadas, e podemos dizer isso sem apelar à ideia de verdade absoluta, e sim a uma ideia apropriadamente mais fraca, de verdade pragmática. As afirmações de que a AIDS é uma doença viral e de que a Terra não é plana são, pois, conhecimentos. As afirmações de que a AIDS não é uma doença viral e de que a Terra é plana são, por contraste, meras opiniões. Curiosamente, esta importante distinção é inadvertidamente confirmada pelos crentes na Terra plana que pretendem embarcar num cruzeiro para chegar aos limites do planeta que imaginam: a embarcação se orientará, decerto, usando GPS e, ao fazê-lo, eles estarão inadvertidamente confirmando a verdade (pragmática) de que a Terra não é plana!

A noção de verdade pragmática nos permite introduzir, de modo bastante útil, a ideia de graus distintos de confiança. Algumas ideias, como a de que AIDS é causada por vírus, merecem muita confiança. Isso porque suas consequências mostram repetidamente sua verdade pragmática.

Outras ideias, mesmo que possam ser ditas conhecimentos, em termos pragmáticos, merecem menos confiança, porque mesmo tendo consequências que as apoiam, falham mais nas implicações que trazem para nossas ações. É o caso, por exemplo, do papel de vários fármacos no tratamento de doenças. Eles são “parcialmente eficazes”, porque embora sejam eficazes em muitos casos, têm sua confiança erodida por contra-exemplos nos quais falham. Esses contra-exemplos expõem o fato de que há lacunas em nosso conhecimento sobre o funcionamento de nossos corpos, algo normal e esperado quando conhecimento não corresponde a verdade absoluta.

Um exemplo é o caso da sinvastatina, largamente utilizada para controlar níveis de colesterol. É uma droga que em vários pacientes é pouco eficaz, além de resultar em efeitos colaterais, desencadeando doenças musculares. Deixa de “ser verdade” que a sinvastatina é capaz de controlar o colesterol? Não, mas é uma verdade (pragmática) para a qual há contra-exemplos, que por sua vez também podem ser estudados pela ciência. Há estudos, por exemplo, que identificaram genes que, quando mutados,  alteram o transporte do fármaco nas células, influenciando sua eficácia.

As falhas dos fármacos são aceitáveis, porque são consistentes com a enorme complexidade do tratamento de doenças e a variabilidade entre indivíduos na forma como respondem a tratamentos. Não deixa de ser uma verdade pragmática o papel dos fármacos nos tratamentos, mas é uma verdade que merece menos confiança do que a verdade pragmática de que a AIDS é uma doença viral. É extremamente útil uma noção de verdade que, diferente da verdade absoluta, permite que entendamos os diferentes graus de confiança que merecem nossas afirmações sobre o mundo e as ações que se fundamentam nelas.

A verdade como ideal regulativo

Concluiremos essa postagem com algumas palavras sobre outra visão deflacionada sobre a verdade, que encontramos, entre outros pensadores, em Charles S. Peirce, que, aliás, também é uma das fontes da ideia de verdade pragmática. A verdade pode ser entendida como um ideal. Isso significa que a verdade não será jamais alcançada, atribuindo-se ao termo “verdade” nesse caso o sentido de ser absoluta. Contudo, o que é importante sobre a verdade não é alcançá-la. O que é importante é que a verdade regula nosso pensamento. Ou seja, tudo o mais sendo igual, nós somos pensadores mais poderosos se almejamos a verdade, como meta ideal, apesar de inalcançável. A verdade é, então, um ideal que regula nosso pensamento, um ideal regulativo que tem sua importância em seu papel face ao nosso pensamento. Nada há de importante na proposta de alcançar a verdade, nesse sentido absoluto em que ela aqui comparece. Apelando a ela, apenas nos tornamos mais capazes de gerar, aqui e agora, o conhecimento que nos é possível.

Note, inclusive, que os dois significados deflacionados de verdade discutidos aqui não são mutuamente exclusivos. Afinal, a verdade como ideal regulativo cria a possibilidade de produzir conhecimentos que correspondem a verdades pragmáticas.

Deve estar claro, agora, que nossos argumentos de que a produção do conhecimento não deve recorrer à noção de que há uma verdade absoluta, que poderia ser alcançada, em nada se aproxima da ideia de que devemos aceitar viver num mundo da pós-verdade. Devemos seguir regulando nosso pensamento pelo ideal da verdade, como todos os humanos devem fazer, em especial se ainda se pretendem racionais, e devemos seguir em busca de verdades pragmáticas, com as consequências mais positivas para as nossas ações e a nossa sobrevivência. Desprezar os fatos ao lidar com o mundo, abandonar a racionalidade e o respeito à evidência são, não temos dúvidas, ideias falsas, porque não geram consequências positivas para nossa sobrevivência. Ao contrário, nos precipitam desabalados rumo à perda de qualidade em nossas vidas, possivelmente até mesmo rumo à extinção.

 

Charbel N. El-Hani

Instituto de Biologia/UFBA

Diogo Meyer

Instituto de Biociências/USP

 

PARA SABER MAIS:

Barker, G. & Kitcher, P. (2013). Philosophy of Science: A New Introduction. Oxford: Oxford University Press.

Dutra, L. H. (2009). Introdução à Teoria da Ciência (3ª Ed.). Florianópolis: UFSC.

Hacking, I. (1983). Representing and Intervening. Cambridge: Cambridge University Press.

Imagem: Placa indicando a cidade de Truth or Consequences, no Novo México, Estados Unidos

Num mundo sem fatos, corremos riscos

Através da ciência geramos conhecimento sobre o mundo. A decisão de implementar políticas e tomar decisões negando esse conhecimento é uma característica do mundo “pós-factual”. Esta característica traz sérios riscos.

Através da ciência, aprendemos sobre o mundo à nossa volta. Ela não é a única maneira de aprender sobre o mundo, como ilustrado, por exemplo, pela riqueza de culturas indígenas ao redor do globo, incluindo as muitas presentes no território brasileiro. Contudo, a ciência certamente oferece respostas profundas e importantes sobre questões que atiçam nossa curiosidade: como os primeiros seres humanos chegaram à América do Sul? Que espécies de animais vivem escondidas em nossas casas e quintais? Mas, além disso, a ciência também gera conhecimento que é importante para nossas vidas, num sentido bastante concreto, respondendo a perguntas como: qual a relação entre desmatamento e secas? Ser afrodescendente altera suas chances de encontrar um doador de medula? Continue Lendo “Num mundo sem fatos, corremos riscos”

Arqueogenética do Povo de Luzia

A arqueogenética tem ajudado a recontar histórias das populações humanas com dados moleculares, e recentemente essa abordagem foi utilizada para lançar luz sobre os Povos de Luzia.

Arqueogenética é o estudo da genética molecular para tentar entender o passado humano. Tais estudos têm contribuído para que possamos entender melhor a dispersão e diversificação humana nos diferentes continentes. A América foi o último continente povoado pela nossa espécie, há aproximadamente 15 mil anos, e pouco se sabe sobre como se deu o início da história humana em nosso continente. Várias questões relacionadas a esse assunto ainda estão em aberto, tais como: quem foram os primeiros americanos? De onde vieram? Eram uma ou mais populações as que entraram na América? Continue Lendo “Arqueogenética do Povo de Luzia”

Nunca estamos realmente sozinhos

Em levantamentos sobre a biodiversidade, muitas regiões geográficas acabam sem uma boa amostragem das espécies que nelas vivem. As remotas ou com um número muito grande de espécies entram nessa lista. Outro local com uma diversidade ainda pouco descrita é, surpreendentemente, a nossa própria casa. Pesquisas recentes se concentraram na caracterização de comunidades bacterianas em ambientes fechados. Dentro de uma casa, cozinhas e banheiros geralmente têm comunidades microbianas distintas uns dos outros. Além disso, a composição de microorganismos em uma determinada casa (ou num cômodo específico dentro da casa) pode ser influenciada por quem a utiliza, e pela presença de animais de estimação. Esses ambientes criados por nós oferecem novos habitats não só para microorganismos como bactérias, archaea e fungos, mas também para artrópodes. Cientistas da Universidade Estadual da Carolina do Norte (NC State), em Raleigh, nos Estados Unidos, observando suas próprias casas, perceberam que os lares poderiam abrigar uma ampla diversidade de vida além dos habitantes humanos, plantas e animais de estimação. Eles então investigaram 50 casas na cidade de Raleigh em busca desses moradores e encontraram mais de mil espécies nas residências, incluindo inúmeras espécies de aranhas, formigas, besouros, ácaros, moscas e mosquitos (Figura 1). Dentre os artrópodes mais comuns estavam: besouros, aranhas, sciarídeos, formigas e cecidomiídeos (Figura 2). Em uma única residência, foram encontradas mais de duzentas espécies! Continue Lendo “Nunca estamos realmente sozinhos”

Financiamento da ciência: dos impostos para a bancada

Nos últimos anos, cientistas brasileiros vêm alertando sobre cortes no financiamento à ciência e inovação no país. No final de 2017, uma petição com mais de 80 mil assinaturas foi entregue a representantes da câmara de deputados e do senado. A petição afirmava que os cientistas estão “mobilizados contra o desmonte que ameaça a universidade pública e a área de ciência, tecnologia e humanidades”. Ainda alertava que com “o menor orçamento dos últimos 10 anos e novos cortes de recursos e em programas de pesquisa sendo anunciados todos os meses, a sociedade brasileira está rapidamente perdendo sua estrutura de produção de conhecimento e formação profissional”. Quase um ano depois, recebemos a notícia de cortes orçamentários ainda mais profundos e, no dia 2 de setembro, assistimos à destruição do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que tinha um papel fundamental na construção e divulgação do conhecimento científico gerado no país. Os últimos acontecimentos reacenderam a discussão do investimento em ciência. A discussão, no entanto, seria enriquecida com uma melhor compreensão das formas de financiamento e sistemática para a distribuição de verbas.

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Comunicação, verdade e poder

Os meios de comunicação, ou o quarto poder (ao lado do executivo, legislativo e judiciário) têm sido pulverizados pelas novas mídias sociais. Enquanto muitos louvaram tais mídias como uma alternativa aos oligopólios de comunicação, o recente império das notícias enganosas (fake news), ou da venda de dados pessoais pelas redes sociais, abalando a reputação de democracias sólidas como a dos Estados Unidos, deixa claro que não há muito nada de muito novo nestas ‘novas’ mídias: elas promovem apenas uma reorganização do quarto poder. O poder da comunicação é o de movimentar organizadamente os organismos, criando movimentos uniformizados e harmônicos. Aqui, já não importa muito a verdade, pois as pessoas até mesmo em movimento equivocado são em si uma nova ‘verdade’, uma realidade que se impõe. O problema mais fundamental, portanto, não diz respeito à relação entre a mídia e a verdade, mas sim, e fundamentalmente, à relação entre comunicação e conhecimento.

A comunicação é a manipulação de signos, que costumam representar porções do mundo: a palavra bola se refere a um objeto redondo que pula no pé. Da manipulação mental de signos, esta espécie de comunicação interna ao nosso cérebro, chegamos a soluções e planos para o mundo concreto sem que precisemos manipular o mundo em si. Isto é vantajoso, já que manipular signos se constitui em uma operação muito mais simples que a de manipular os objetos do mundo concreto. Mas o sucesso desta operação com signos depende, em primeira instância, da certeza da relação entre o signo e o objeto. Se esta relação é posta em dúvida, se o signo é um fantasma sem representante no mundo, se algumas partes do mundo estão inflacionadas, enquanto outras, ao contrário, estão ausentes no universo dos signos, aí começamos a ter problemas, e a manipulação mental de signos passa a ser uma ferramenta ineficaz para a previsão de aspectos do mundo. Surge a dúvida quando nossas previsões, baseadas nos melhores conceitos e melhores modelos de mundo, se mostram incorretas.

Esta dúvida fundamental pode ser formulada em termos de sistemas teóricos acerca da linguagem. Se concebemos a relação entre o signo e o objeto como uma relação direta, se entendemos que a cada signo corresponde um objeto e vice versa, se entendemos que a relação entre a linguagem e o mundo tem uma origem divina ou, de maneira menos teológica, se entendemos que a lógica da linguagem, sua sintaxe, advém diretamente da articulação entre os objetos (de suas interações no mundo real), neste caso temos confiança no signo, que passa a ser praticamente um novo objeto, de tão colado ao mundo real: a palavra move montanhas. Este é um universo algo mágico, onde manipular as palavras do jeito correto, no momento adequado, com as devidas honrarias, equivale a manipular os objetos do mundo: abracadabra. Diz-se desta uma concepção diádica, na qual existem apenas dois elementos no processo comunicativo: os signos e os objetos aos quais se referem. Agora, se concebemos a relação entre o signo e o objeto como passando por um sujeito (diz-se uma relação triádica) ou, de forma mais ampla, se concebemos a relação entre a linguagem e o mundo como passando pela história da humanidade, então temos motivos de sobra para duvidar da linguagem como fonte de conhecimento. A história mostra inúmeros erros e acertos da humanidade, e a linguagem assim humanizada estaria contaminada por erros e acertos sucessivos.

Há quem imagine uma linguagem pura, não contaminada por qualquer conteúdo que seja. Para estes, a linguagem é um meio neutro, que permite a transmissão de qualquer conteúdo, e para estes a mídia também é neutra, não afeta o conteúdo da notícia. Seria mais ou menos a idéia de que o conteúdo de uma música pode estar em diversas mídias, pode estar em um chip, em um DVD, em um dispositivo de memória portátil, em um televisor ou mesmo nas contemporâneas nuvens digitais: em todas estas mídias a música é a mesma. A mídia não afeta, é independente do conteúdo que veicula. Dada esta independência, a mídia pode veicular qualquer conteúdo.

Do mesmo modo, mas de um ponto de vista mais amplo, há quem pense que o sujeito não existe, ou não importa, para o fenômeno da comunicação. Há quem entenda que a comunicação atravessa os indivíduos, que são meras marionetes na mão de um processo muito mais amplo, joguetes de correntes históricas que se digladiam para além deles próprios. Nesta visão, os indivíduos são apenas veículos transitórios de informações; os contos e as brincadeiras infantis, por exemplo, passam de indivíduo a indivíduo por séculos, e seria pouco razoável, dizem, supor que trocar um efêmero indivíduo por um outro qualquer, neste trajeto histórico, teria algum efeito importante sobre os contos e brincadeiras que, estes sim, permanecem no longo tempo. Esta é uma abordagem curiosa, que pressupõe, por exemplo, que não importa o locutor, apenas a mensagem: seria algo como supor que bobagens que eu diga no meu twitter no meio de uma noite insone sejam equivalentes aos surtos verborrágicos noturnos de Donald Trump, manchetes seguras na manhã seguinte.

Por mais que pareça estranha esta abordagem, conceber-nos como marionetes da história, ou supor uma gramática isenta de conteúdo, não é uma posição assim, digamos, totalmente indefensável. De fato, contos perduram mais que os indivíduos que os contam, mas a questão que cabe pensar é: contamos toda e qualquer história para nossos filhos? Dito de forma mais genérica: somos uma mídia tal qual um CD, que aceita qualquer conteúdo? Somos um avatar que, tal como no filme de James Cameron, pode receber pensamentos e sensações de outros navi, ou de seres humanos, ou até mesmo da árvore mãe de Pandora? Será que um corpo navi, com um cérebro e estrutura diferente da do ser humano, pode traduzir perfeitamente nossos pensamentos? Desconfio que não, e tenho certeza que a história fantástica de Franz Kafka, da metamorfose de um humano que acorda como uma barata, apenas que continua pensando como humano, não passa de uma história fantástica, pois o sistema nervoso de uma barata não poderia comportar pensamentos que não fossem de baratas. O que temos aprendido repetidamente em etologia, na ciência que estuda o comportamento animal, é que animais diferentes têm diferentes capacidades comunicativas e cognitivas, e que aquilo que um chimpanzé tem dificuldade em aprender, uma arara o faz com facilidade. A etologia nos diz que não somos organismos inespecíficos, neutros, mas que sim somos altamente seletivos em relação àquilo que aprendemos, que nossa atenção é voltada para aspectos do mundo aos quais outras espécies não dão a mínima. Diferentemente dos computadores que projetamos, não lidamos de forma idêntica com todo e qualquer conteúdo com o qual nos deparamos: não somos transmissores passivos. Nos relacionamos com o mundo de forma específica, o que termina por gerar um sistema nervoso também específico, voltado às nossas necessidade mundanas pessoais. Diferentemente dos computadores que construímos, não somos operadores genéricos de signos.

Até aqui, nada muito especial. Nada de novo saber que, sim, nossa espécie tem uma perspectiva sobre o mundo, e que esta perspectiva foi selecionada em nosso passado evolutivo. Agora, como tudo que é relevante evolutivamente, esta perspectiva sobre o mundo deve ter variabilidade dentro da população. Indivíduos diferentes devem ter perspectivas ligeiramente distintas, e é inclusive por isso que a comunicação é necessária. Não nos entendemos perfeitamente, tal qual um computador entende a outro. Precisamos, para nos fazer entender, dar voltas à linguagem, retomar o tema, circunscrevê-lo a partir de outro ângulo, de modo a gradualmente tornar claro ao ouvinte o nosso complexo e particular ponto de vista. Diferentemente da comunicação entre idênticos, realizada pelas nossas máquinas, nossa comunicação, e a de todos os animais, se dá entre diferentes, entre seres desiguais, e a função da comunicação é justamente suplantar estas diferenças, inventar meios de fazer saber, a um outro, aquilo que me é único. Diferentemente da comunicação entre máquinas, a comunicação humana, e animal, é eminentemente criativa: ela tem que criar para poder comunicar, sempre, o novo. E, cá entre nós, comunicar o novo é em geral muito mais interessante que comunicar o já sabido.

Tudo isso indica que nossa linguagem não é fruto de uma lógica pura e abstrata, não é de um modo geral independente do conteúdo que veicula (talvez seja realmente mais fácil filosofar em alemão, como já cantou Caetano). Indica, insisto, que a linguagem não evoluiu como uma ferramenta inteiramente abstrata, pois temos, como qualquer espécie animal, um ponto de vista: não somos uma mídia neutra, não somos um chip regravável, não somos um computador superpoderoso. Para ressaltar esta diferença homem/máquina, é bom dizer o óbvio: somos muito mais que linguagem. Antes de toda e qualquer fala existem os atos concretos sobre o mundo. Formigas podem construir boa parte de seu formigueiro, coletivamente, sem se comunicar: uma deixa um bloco de terra sobre o qual a outra coloca um novo bloco, ao qual se soma uma terceira, e assim sucessivamente, sem contato entre as formigas. As ações se entretecem em formigueiro. Este concatenamento de ações gerando um conjunto harmonioso pode prescindir de comunicação, signos, ou o que o valha. Antes de falar sobre o mundo, manipulamos o mesmo, e assim descobrimos suas propriedades. Não há porque falar sobre o mundo quando ele está presente, à nossa frente. Boa parte do que fazemos tem esta qualidade do presente, qualidade sob a qual a linguagem empalidece, pois os pores de sol são poesia mais que suficiente para os dias.

Talvez os formigueiros, com suas ações entretecidas de silêncios, nos sirvam de antídoto para as ruidosas e virtuais redes sociais, para este império da linguagem no qual as notícias enganosas e os rancores extremistas têm feito sua morada. Quando a comunicação traz prejuízos regulares para o receptor da mensagem, o silêncio pode ser mais construtivo que a comunicação. Menos palavras virtuais, e mais atos coletivos, entretecidos com a vida concreta de pessoas de carne e osso, podem nos ajudar a criar estruturas sociais novamente confiáveis, e a fazer minguar o cinismo que a mentira recorrente tem estimulado em nossas mídias digitais.

Entre as palavras e as coisas, as coisas têm precedência. O mundo existe antes de nós mesmos. Devemos parar de agir como se o mundo fôssemos nós, como se pudéssemos destruí-lo sem consequência alguma, pois ele continuará a existir, depois que nossa ruidosa caravana passar. As palavras apenas recobrem as coisas, e não podemos deixar que elas recubram um imenso vazio, sob a pena de vivermos sobre uma fina superfície sem sentido. Se deixamos as palavras falsearem todo o tempo, se acharmos que tudo bem, porque tudo é apenas uma construção social, se erigirmos edifícios cada vez mais altos, sobre superfícies cada vez mais ocas: bem, mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco, afinal.

Hilton Japyassú

Para saber mais

Favareau, D. (2010). Essential readings in biosemiotics: Anthology and commentary (Vol. 3). Springer Science & Business Media.

Shettleworth, S. J. (2010). Cognition, evolution, and behavior. Oxford University Press.

Wasserman, E. A., & Zentall, T. R. (Eds.). (2006). Comparative cognition: Experimental explorations of animal intelligence. Oxford University Press, USA.