Pandemia na era da cibernética

Modelagem do movimento urbano em diversas metrópoles nos Estados Unidos revela padrões de comportamento de diferentes grupos sociais e pode ajudar no desenvolvimento de políticas de saúde pública mais equitativas durante a atual pandemia

Desde 1992, o Gil já cantava: “Antes longe era distante / Perto, só quando dava / Quando muito, ali defronte / E o horizonte acabava / Hoje lá trás dos montes, den de casa, camará”. Na música Parabolicamará, Gil utilizou a imagem da antena parabólica para simbolizar a interconectividade do mundo digital e a difusão da parabólica pelo Brasil, influenciando não apenas a paisagem urbana, mas também os padrões de comportamento social. O desconhecido podia agora ser acessado por meio digital, do conforto e segurança do lar. As distâncias, antes quase intransponíveis, podiam agora ser virtualmente percorridas em questão de segundos. E a antena parabólica foi apenas o começo dessa era de globalização digital: internet, computadores portáteis, celulares, carros e casas inteligentes permeiam o cotidiano de todos nós, criando o que McLuhan chamou, quase que profeticamente, trinta anos antes da invenção da internet, de aldeia global.

O desenvolvimento de aplicativos digitais capazes de não apenas reunir, mas também transmitir dados entre si, levou Kevin Ashton, em 1999, a propor o conceito de Internet das Coisas (do inglês, Internet of Things). Esse conceito ressalta que, para além da interconectividade entre pessoas, o mundo digital gerou, em paralelo, a interconectividade entre objetos físicos, dispositivos, sistemas e serviços. Hoje, podemos, dos nossos celulares e de praticamente qualquer lugar, controlar a temperatura da nossa casa, cozinhar o jantar, ou até mesmo estacionar nossos carros. Na era digital, a portabilidade de dispositivos como o celular nos permite carregar a internet a qualquer lugar, e com isso permanecer constantemente conectados. E foi exatamente essa permanente interconectividade que permeia a vida da maioria da população atual que permitiu a realização do estudo que venho aqui dividir com vocês.

Nesse estudo, publicado essa semana na revista Nature, cientistas coletaram dados de localização de celulares de 98 milhões de indivíduos em 10 metrópoles norte-americanas, e utilizaram modelos de mobilidade, associados a modelos epidemiológicos de propagação do vírus, para entender a relação entre os padrões de deslocamento de diferentes grupos sociais para pontos de interesse, como restaurantes, lojas, supermercados e instituições religiosas, e os padrões de disseminação do vírus causador da COVID-19, o SARS-CoV-2. O modelo gerado foi capaz de predizer com acurácia os padrões observados de disseminação do vírus até então, sugerindo ser um bom modelo para testes de estratégias de re-abertura e reestabelecimento das atividades econômicas e sociais.

Ao utilizar o modelo para testar planos de reabertura e contenção da propagação do vírus, os cientistas observaram que a magnitude da redução da mobilidade é tão importante quanto o momento em que essas medidas são implementadas. Por exemplo, caso a região do metrô de Chicago não tivesse observado uma redução de ~54% de mobilidade durante o primeiro mês da quarentena, o número de casos poderia ter aumentado em mais de 6 vezes o número atual. E se a redução da mobilidade tivesse iniciado uma semana mais tarde, o número de casos seria quase duas vezes maior do que o observado. O modelo de dinâmica de movimento social desenvolvido nesse estudo sugere também que uma pequena minoria dos pontos de interesse é responsável pela grande maioria das infecções, possibilitando a identificação de eventos de super propagação. A ideia de eventos de super propagação (do inglês superspreader events) de COVID-19, no entanto, não é nova. O acúmulo de dados a respeito da pandemia de COVID-19 levou cientistas a proporem a ideia de que eventos de super propagação explicam os padrões de disseminação do vírus SAR-CoV-2. Eventos de super propagação são eventos nos quais um ou poucos indivíduos contaminam um número significativo de pessoas em um único encontro. É possível que um único indivíduo contaminado, em ambiente fechado, resulte na contaminação secundária de milhares de pessoas.

Se a minoria dos pontos de interesse (isto é, restaurantes, lojas, bares, supermercados, academias, instituições religiosas etc.) é responsável pela grande maioria dos casos, uma clara política pública é a reabertura desses pontos com restrição da capacidade máxima de ocupação desses locais. Ao testar cenários de reabertura sem redução da capacidade de ocupação, utilizando o modelo gerado, os cientistas foram capazes de prever um aumento de aproximadamente 32% de infecções na mesma região de Chicago. Ainda, a redução da ocupação reduz significativamente o risco de infecção, sem necessariamente alterar os padrões de mobilidade da região. Nessa mesma região, o modelo prevê que a restrição da capacidade de ocupação em, no máximo, 20% da capacidade total é capaz de reduzir o número de novas infecções em aproximadamente 80%, resultando em apenas 42% na restrição de mobilidade na região, sugerindo que a redução da capacidade de ocupação de pontos de interesse pode ser mais eficaz do que a restrição da mobilidade irrestrita da população.

Além disso, o modelo aponta para o risco relativo de reabertura de determinadas categorias de pontos de interesse, já que nem todos os pontos de interesse estão associados igualmente a eventos de super propagação. Devido ao fato de que apenas uma minoria dos pontos de interesse são responsáveis pela maioria dos eventos de super propagação nas regiões metropolitanas estudadas, entender a relação entre esses pontos de interesse e a propagação do vírus é fundamental, particularmente para locais que usualmente recebem uma grande quantidade de indivíduos, ou nos quais indivíduos tendem a passar longos períodos de tempo.

O modelo ressalta também os padrões de disparidade nas taxas de infecção entre diferentes grupos sociais, resultando na acentuação das desigualdades sociais preexistentes. O modelo corretamente previu maiores taxas de infecção entre grupos socioeconomicamente desfavorecidos, baseando-se apenas padrões de deslocamento dos diferentes grupos. De acordo com os dados de mobilidade, grupos socioeconômicos menos favorecidos não foram capazes de reduzir sua mobilidade tanto quanto grupos sociais privilegiados, e tenderam a frequentar locais de maior aglomeração, resultando assim em maior exposição e um aumento significativo no risco de infecção. O reconhecimento de que grupos sociais já cronicamente desfavorecidos são os mais afetados pela atual pandemia de COVID-19 também não é uma novidade. Desde Abril desse ano, estudos epidemiológicos já apontavam para a disparidade nas taxas de infecção e mortalidade nos Estados Unidos entre grupos socioeconômicos e raciais. Disparidades socioeconômicas semelhantes foram observadas no Brasil, onde as taxas de incidência e mortalidade por COVID-19 foram mais elevadas em unidades federativas com maior desigualdade econômica. Dessa forma, políticas justas de reabertura durante a pandemia precisam considerar o impacto díspar da pandemia nos diversos grupos socioeconômicos para o planejamento de ações que intencionalmente reduzam as taxas de infecção nas comunidades menos favorecidas e mais afetadas. Segundo os autores, são medidas importantes o estabelecimento de limites de ocupação mais restritos em restaurantes, lojas, academias e outros pontos de interesse, a criação de centros de distribuição de alimentos para a redução da densidade populacional em pontos de interesse super propagadores, como lojas e supermercados, a oferta ampla e gratuita de testes, principalmente em regiões metropolitanas de alto risco, e a melhoria das políticas públicas de suporte ao trabalhador doente, visando a redução da sua mobilidade durante a doença. Além disso, já sabemos que outras medidas são também efetivas, como o distanciamento social e o uso irrestrito de máscaras. Este último contribui significativamente para o controle da propagação do vírus causador da COVID-19, por reduzir a emissão de saliva e aerossóis das vias respiratórias de indivíduos infectados, porém com sintomas amenos ou moderados.

Infelizmente, perdemos a oportunidade de resolver a pandemia antes da morte de centena de milhares de pessoas em países como os Estados Unidos e o Brasil, mas modelos como os apresentados por Chang e colaboradores podem balizar políticas de saúde pública eficazes na contenção da propagação do vírus, pois permitem testar computacionalmente o impacto das medidas de reabertura em diferentes regiões e grupos sociais antes da efetivação das mesmas, principalmente em países cujos chefes de estado não foram capazes de atuar prontamente no controle inicial e na eliminação da disseminação do vírus. Veja-se, por exemplo, o caso da Nova Zelândia. A Nova Zelândia é o país com a menor taxa de mortalidade por COVID-19 (apenas 4 por 1 milhão de habitantes) entre os 37 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Em apenas 103 dias, e após um período de quarentena nacional, o país decretou, no início de Junho desse ano, o final da pandemia no território nacional, tendo registrado apenas 1.569 casos e 22 mortes por COVID-19. A impressionante contenção da pandemia na Nova Zelândia, resultado da implementação imediata e severa de medidas de saúde pública informadas pela ciência, foi reconhecida pela Harvard University com o Prêmio Gleistman em liderança e ativismo social de 2020, outorgado à Primeira Ministra Jacinda Ardern, que liderou, de forma exemplar, o país durante a crise.

No entanto, se vamos passar a utilizar padrões de movimento social inferidos a partir de dados de celular para propor e planejar políticas públicas, não podemos deixar de discutir questões ligadas à privacidade de cada um de nós. Em muitos casos, informações a respeito dos nossos padrões de mobilidade e comportamento são compartilhadas por aplicativos e dispositivos digitais sem que tenhamos clara consciência do fato. E com o avanço da interconectividade e da Internet das Coisas, esses eventos de compartilhamento de informações pessoais se tornam cada vez mais comuns. Mas, pessoalmente, acredito que precisamos atentar para uma questão ainda mais importante:  é imperativo garantirmos a inclusão digital de todos os setores da sociedade, para que todos estejam representados equitativamente nesses modelos, se é que eles balizarão futuras tomadas de decisão.

Ana Almeida

California State University East Bay

(CSUEB)

Para saber mais:

Chu, Derek K, et al. 2020. Physical distancing, face masks, and eye protection to prevent person-to-person transmission of SARS-CoV-2 and COVID-19: a systematic review and meta-analysis. The Lancet, 395(10242): P1973-1987.

Greenhalgh, Trisha. et al. 2020. Face masks for the public during the COVID-19 crisis. BMJ, 369: m1435

Ornes, Stephen. 2016. Core Concept: The Internet of Things and the explosion of interconnectivity. PNAS, 113 (40) 11059-11060.

Santos, Milton. 2000. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. São Paulo: Editora Record.

Schadt, Eric. The changing privacy landscape in the era of big data. Molecular Systems Biology, 8:612

O que será da ciência sem o seu chão de fábrica?

Todo ano, programas de pós-graduação do Brasil repetem uma tarefa recompensadora: a seleção de uma tese de doutorado que representará o seu programa no prêmio CAPES de tese. No programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas (Biologia Genética) do Instituto de Biologia da USP, três teses defendidas em 2019 cativaram a comissão de seleção. Uma das teses descreve o uso do vírus Zika para o desenvolvimento de um tratamento para tumores embrionários do sistema nervoso central, a principal causa de morte relacionada ao câncer infantil. Outra tese mostra o processo de produção em laboratório de fígados humanos funcionais usando bioimpressão em três dimensões e células tronco como uma alternativa para pacientes em fila de espera de transplante de fígado. Uma terceira tese mostra como efeitos genéticos interagem para formar um padrão de variação de características complexas e como esse padrão evolui sob seleção. Essas três teses são uma pequena amostra das milhares que foram defendidas em todo o país apenas no ano de 2019. São pesquisas desenvolvidas por estudantes de pós-graduação durante sua formação, e que podem contribuir para a construção do conhecimento científico (pesquisa básica), mas também permitem o desenvolvimento de tecnologias na indústria, melhoria da saúde e bem-estar, e criação de políticas públicas.

O Brasil ocupa o 13º lugar no mundo em termos de produção de artigos científicos. Somente em 2018, pesquisadores brasileiros publicaram mais de 50.000 artigos, como descrito em um relatório da empresa Clarivate Analytics encomendado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Esse mesmo relatório revela que as universidades públicas são a principal fonte de publicações de pesquisas no Brasil. As 15 universidades com maior produção de pesquisa, todas públicas, produzem mais de 60% da produção total de pesquisa nacional. Estima-se que 80% dessa produção é realizada no contexto dos programas de pós-graduação. O protagonismo do país na produção científica em diversas áreas se deve em grande parte aos esforços dos alunos de mestrado e doutorado. Mesmo tendo papel essencial para o desenvolvimento científico, está cada vez mais difícil atrair e manter os estudantes em sua vocação.

Os estudantes que desenvolvem os projetos científicos estão matriculados em cursos de Pós-graduação Stricto Sensu, que compreende os cursos de mestrado e de doutorado. Durante o curso de mestrado ou de doutorado, os estudantes cursam disciplinas, mas passam a maior parte do tempo (24 a 36 meses para mestrado e 48 a 60 meses para o doutorado) desenvolvendo seu projeto de Dissertação ou Tese. As exigências dos cursos raramente permitem um vínculo empregatício e a única fonte de renda da maioria dos estudantes é a bolsa de estudos concedida por uma agência de fomento à ciência, a qual não pode ser acumulada com a maioria das atividades com remuneração. Em um post anterior aqui no Darwinianas comentei sobre as diferentes agências de fomento à pesquisa atuantes no Brasil. No Brasil, a CAPES e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) são os principais financiadores de bolsas de pós-graduação. Um estudante em um curso de mestrado pode receber recebe R$ 1.500,00 da CAPES ou do CNPq e um estudante matriculado em um curso de Doutorado uma bolsa de R$ 2.200,00. O último reajuste no valor dessas bolsas ocorreu em 1º de abril de 2013. Em sete anos não houve sequer correção da inflação. Como não tem vinculo empregatício, o estudante não tem direito a férias remuneradas, 13º salário, seguro saúde, ou fundo de garantia. Como se já não bastasse o baixo valor das bolsas e o trabalho precário, há um grande contingente de estudantes cursando a pós-graduação, realizando pesquisa, porém sem receber bolsa. Infelizmente, esse número de pós-graduandos que não são pagos só tem aumentando nos últimos anos. Usufruir de uma bolsa enquanto trabalha para ciência e geração de riquezas para o país está se tornando exceção para o chão de fábrica da ciência.

Até 2015, o número de bolsas de pós-graduação vinha aumentando gradualmente. Em 2005, mais de 27 mil estudantes foram contemplados com bolsas da CAPES (dados do GEOCAPES). Em 2015, mais de 92 mil estudantes recebiam bolsas. Mesmo com o aumento, ainda havia um grande déficit de estudantes atendidos pela CAPES, mesmo com as bolsas oferecidas pelo CNPq e pelas agências estaduais. Em seu auge, o CNPq oferecia 38.339 bolsas. De 2015 para cá, a redução do investimento em ciência assusta os cientistas em formação e seus supervisores. Desde 2019, os cortes de bolsa resultantes de mudanças de regra de distribuição se tornaram comuns. Em 9 de maio de 2019, 3.474 bolsas foram “contingenciadas” e pouco tempo depois, em 4 de junho, mais 2.724 bolsas foram bloqueadas. Em 2 de setembro, outras 5.613 bolsas foram congeladas. Ainda em setembro, houve a devolução de 3.182 dessas bolsas para cursos mais bem avaliados, sem recuperar o número de bolsas do ano anterior (92.008 bolsas). As bolsas cortadas pertenciam a estudantes que haviam terminado seus cursos e seriam destinadas àqueles em espera ou que haviam ingressado nos processos seletivos.

Essas mudanças não foram discutidas com a comunidade acadêmica e foram divulgadas sem anúncio prévio, não dando sequer espaço para planejamento de coordenadores de programa, orientadores e estudantes. Programas com processos seletivos que contavam com bolsas disponíveis para os ingressantes se viram com listas de espera por bolsas que talvez nunca cheguem. Estudantes que se deslocaram de suas cidades para realizar sua matrícula e iniciar seu curso descobriram apenas em seu destino que a sua bolsa já não existia mais. Em março de 2020, foram publicadas novas portarias da CAPES, alterando os critérios de distribuição de bolsas para programas de pós-graduação. Mais uma vez, a portaria impactou a pesquisa em diversas áreas do conhecimento, incluindo  pesquisas  para o enfrentamento da covid-19. Em julho, foi a vez do CNPq anunciar uma mudança drástica na forma de distribuição de bolsas. Mais uma vez, a mudança inesperada com prazo exíguo para apresentação de propostas e sem critérios claros, preocupou a toda comunidade. A chamada de propostas foi alterada, mas ainda não se sabe qual será a extensão do corte de bolsas decorrente da chamada. Em 2017, o número de bolsas de pós-graduação financiadas pelo CNPq já havia caído para 17.256.

As agências de fomento estaduais que contribuem com uma pequena parcela de bolsas, também correm risco. Em São Paulo, por exemplo, um projeto de lei, PL 529/20, tramita na assembleia legislativa do estado. Em seu artigo 14, o projeto prevê a retirada de recursos das universidades estaduais e da FAPESP, alegando ser um saldo não utilizado. Porém, esse valor tratado como se fosse uma “sobra” é um recurso com destino planejado para a FAPESP e as universidades estaduais. Não é uma sobra. O projeto pune a boa gestão dos investimentos públicos e, caso aprovado sem alterações, terá um impacto desastroso na pesquisa e na pós-graduação nas universidades públicas paulistas.

Todos os ataques sofridos pela pós-graduação e sentidos pelos pós-graduandos em sua renda — fundamental para a realização de suas pesquisas— têm pouca repercussão na popularidade dos governos que as implementam. Os resultados dessas pesquisas chegam à sociedade em longo prazo. Certamente poucos cidadãos estão cientes do papel dos pós-graduandos na geração de conhecimentos e riquezas para o país. Poucos sabem do papel deles no desenvolvimento diagnósticos e tratamentos de doenças, nas alternativas para transplante de órgãos e na investigação dos processos evolutivos que atuam sobre os organismos. Poucos sabem do papel dos estudantes no enfrentamento da Covid-19, em pesquisas que visam, por exemplo, o desenvolvimento de novos testes para diagnóstico da doença, a criação de aplicativo para identificar sintomas, criação de  mapa interativo para monitorar casos da doença, mitigar transtornos de humor e sedentarismo durante o isolamento social e no desenvolvimento de produtos para reduzir a transmissão do coronavírus.

A médio/longo prazo, os projetos realizados por estudantes bolsistas retornam à sociedade. Os cortes nas bolsas representam o encerramento de projetos como esses e a interrupção da formação dos recursos humanos em ciência. Deixaremos de formar futuros cientistas do país. Futuros professores que cumpririam o papel de formação de novos núcleos de pesquisa. Futuros cientistas que priorizariam os interesses de sua comunidade em sua pesquisa. Os cortes terão impacto negativo duradouro para a toda comunidade cientifica já fragilizada com os cortes acumulados. Devemos apoiar os estudantes e suas iniciativas para a defesa da pós-graduação e lutar para preservação do orçamento em ensino e ciência, defendendo os interesses de nosso país. O ataque aos alunos é um ataque à própria ciência.

Tatiana Teixeira Torres (USP)

Para saber mais:

– Herton Escobar (2019) 15 universidades públicas produzem 60% da ciência brasileira. Jornal da USP, 05/09/2019.

Matéria que descreve o levantamento da empresa Clarivate Analytics sobre produção científica encomendado pela CAPES. A matéria ressalta que 15 universidades, todas elas públicas, produzem mais da metade da ciência brasileira.

– Herton Escobar (2020) Mudanças no CNPq e Capes preocupam pós-graduação da USP. Jornal da USP, 31/07/2020.

Matéria publicada no Jornal da USP, explicando as alterações nas regras para concessão de bolsas e recursos das principais agências de fomento à pesquisa do governo federal, a CAPES e o CNPq.

Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP

Repositório de Teses e Dissertações defendidas na Universidade de São Paulo. O banco de dados público contém mais de 90 mil documentos, sendo 54244 Teses, 37832 Dissertações e 676 Teses de Livre Docência.

O que a pandemia nos ensina sobre o papel da ciência em sociedades democráticas?

Em tempos de pandemia, o imperativo de basear as decisões e políticas para enfrentamento da COVID-19 em conhecimento científico virou discurso político e é amplamente advogado nas redes sociais. Mas o que significa – e o que é necessário para – basear em ciência a tomada de decisão?

Após tempos de descrédito na ciência, a pandemia do novo coronavírus trouxe de volta a ciência para o centro do debate público e tem contribuído para o aumento da confiança da sociedade na pesquisa científica (veja aqui e aqui). Esse cenário não só colocou os cientistas em papel de destaque na mídia e no suporte à tomada de decisão, como desencadeou a formação de amplas redes de parceria e colaboração entre cientistas em todos os níveis – local, regional e global – na busca por testes, tratamentos e vacinas. Continue Lendo “O que a pandemia nos ensina sobre o papel da ciência em sociedades democráticas?”

A ciência no centro das atenções

Por que devemos confiar na ciência? O que fortalece e fragiliza a sua capacidade de nos oferecer respostas? A experiência da COVID-19 dá urgência a essa discussão

Frente à pandemia da COVID-19, tornou-se comum defender que decisões devem ser “guiadas pela ciência”, bem como afirmar que dependemos do trabalho dos cientistas para encontrar soluções, através de políticas sanitárias, vacinas ou remédios. Dada a responsabilidade que estamos atribuindo a ela, cabe perguntar: por que devemos confiar na ciência?

A resposta comum é que a ciência “baseia-se num método científico”, o qual balizaria, então, sua objetividade. Essa visão, entretanto, é antiquada e refutada pelos filósofos da ciência. A razão é que não há “um método científico” único que garantiria a objetividade e confiabilidade da ciência. O conhecimento gerado pelos cientistas é fruto de uma imensa diversidade de estratégias, e não é possível identificar “um método” que atribua objetividade àquilo que chamamos de ciência (como já tratamos antes, neste blog).

Felizmente, a filosofia da ciência nos oferece uma outra forma de entender o que torna o conhecimento científico objetivo. Para autoras como Helen Longino e Naomi Oreskes, o conhecimento científico é confiável quando resulta dos esforços de uma comunidade diversa, aberta e afeita ao exercício do debate e da crítica mútua. Nesse ambiente, cientistas individuais podem acertar ou errar, mas as trocas coletivas da comunidade constroem um conhecimento que constantemente se corrige. Nas palavras de Oreskes, “os fatos científicos são afirmações a respeito das quais cientistas estão de acordo”.

A forma como estamos lidando com a pandemia COVID-19 diz muito sobre como o conhecimento científico é construído, sobre como ele pode ser atacado ou fragilizado, e quais seus potenciais e limites. Vamos analisar três histórias recentes, que jogam luz sobre esses temas.

O caso da cloroquina

Antes da atual pandemia, a cloroquina havia se mostrado eficiente para tratar algumas infecções virais e diminuir estados inflamatórios. Portanto, foi natural perguntar se seria eficiente para tratar a COVID-19. Para responder a essa pergunta, sabemos o que fazer: administrar a droga a alguns pacientes e observar se eles sobrevivem mais e/ou têm melhoras mais acentuadas do que aqueles que não receberam a droga. Ainda não dispomos de um consenso sobre a eficiência da cloroquina; porém, um crescente número de estudos vem mostrando que ela é pouco eficaz, trazendo pouco ou nenhum benefício ao paciente com COVID-19.

Então por que a cloroquina tornou-se alvo de tamanho frenesi e empolgação? Vale revisitar estudos feitos no início da pandemia, que atraíram imenso interesse. Numa série de três trabalhos, células cultivadas em laboratório tiveram um decréscimo na quantidade de vírus quando tratadas com cloroquina ou hidroxicloroquina (e aqui vão os links para eles: 1, 2, 3).  Em dois trabalhos que causaram bastante alvoroço, um pequeno estudo francês mostrou um efeito protetivo da hidroxicloroquina (artigos aqui e aqui); porém, foi criticado por não realizar controles estatísticos desejáveis, como a randomização dos indivíduos recebendo o tratamento.

Não obstante, há muitas pessoas advogando a favor do extenso uso da droga. Citando os achados científicos e resultados vistos como promissores, governantes apresentam a cloroquina como solução para uma grave crise sanitária. No Brasil, o presidente apareceu em rede nacional elogiando o remédio. O presidente da França visitou o laboratório que havia obtido os resultados promissores (e que desde então são vistos com cada vez mais ceticismo), fazendo reverências ao pesquisador que havia liderado os estudos.

Esse movimento tem buscado fazer com que a veemência se sobreponha à evidência, o que vai na contramão dos processos que permitem gerar conhecimento confiável. O resultado de experimentos específicos não é sinônimo de “conhecimento científico” num sentido mais amplo. Sim, há estudos científicos que mostram que a cloroquina diminui a carga viral em células. Sim, há estudos indicando possíveis efeitos protetores. Mas o conhecimento não emerge de um ou outro experimento, mas de um consenso construído pela teia de experimentos, de um processo de crítica mútua, que transforma as visões de uma coletividade de especialistas até que se alcance conhecimento confiável. O conhecimento objetivo precisa ser amadurecido pela crítica rigorosa de uma coletividade de pessoas capazes de julgamento treinado.

Frente a esses argumentos, a queixa comum é a de que, em momentos de crise, não podemos nos dar ao luxo de esperar o lento processo científico. Aqui, novamente, uma reflexão filosófica nos ajuda. Se a decisão errada pode ter consequências desastrosas, o amadurecimento da resposta científica (e a espera pelas fundamentais provas clínicas, discutidas em outro post de Darwinianas) nos traz segurança. É o caso da cloroquina: ela não é inócua quando administrada em altas doses, e possui graves efeitos colaterais. Se for administrada de modo descuidado, mais pessoas poderão padecer dos efeitos colaterais do que se beneficiar da prevenção.

Em outros casos, podemos nos dar ao luxo de usar um conhecimento científico ainda não consensual. Por exemplo, considere o pouco que ainda sabemos sobre quanto tempo o vírus SARS-CoV-2 sobrevive em superfícies de cartolina ou plástico, ou se o contágio através dessas superfícies é comum. Será que devemos sempre limpar pacotes que trazemos do mercado? Nesse caso, os custos e benefícios são bastante distintos do caso da cloroquina: limpar recipientes e pacotes com álcool é chato, mas um preço pequeno a se pagar. Se a ciência estiver errada, e o contágio através dessas superfícies for muito raro, teremos perdido alguns minutos de nossas vidas fazendo algo tedioso. Se a transmissão por superfícies for comum, os benefícios serão imensos. Na dúvida, fazer a limpeza parece uma boa aposta. Mas apresentar um conhecimento que não é consensual e que carrega riscos, como o tratamento com a cloroquina, como se fosse cientificamente sólido é uma estratégia política, que pode trazer altos custos: distorce-se o que é conhecimento científico, e a população pode ser exposta a riscos de saúde.

A ciência do distanciamento físico

Planejar e definir a forma de distanciamento físico, estimar seu impacto sobre a saúde humana, prever o seu impacto social e planejar a transição para uma etapa de distanciamento reduzido são desafios imensos no contexto da COVID-19. As decisões a serem tomadas a respeito do momento e da forma de fazer a transição não são simples e envolvem a análise de perdas e ganhos em frentes de saúde, economia e educação, entre outras. A ciência tem ferramentas para auxiliar: modelos matemáticos constroem cenários e fazem previsões da transmissão da doença, dependendo do grau de isolamento adotado.

Como a ciência está sendo ferida nesse caso? Os governantes, as pessoas a quem delegamos a responsabilidade para tomar decisões em benefício da sociedade, muitas vezes tomam decisões com base naquilo que seus cálculos políticos identificam como desejável. O recurso exclusivo à opinião pessoal numa questão em que há argumentos técnicos significa ignorar a ciência, é diminuir sua importância, é desprezar sua forma de chegar ao conhecimento. Poderíamos ir além: recorrer à opinião exclusivamente pessoal para fundamentar decisões que afetam a coletividade é eticamente reprovável e, ademais, fere a racionalidade. Fica patente nesse caso porque Platão, ao tratar da política, insistiu na distinção entre conhecimento (episteme) e opinião (doxa), como já discutimos em outra postagem de Darwinianas.  

Entretanto, os achados científicos nem sempre conduzem a decisões objetivas. A dificuldade no planejamento de políticas sanitárias frente à COVID-19 é um bom exemplo. Há consenso de que o distanciamento é uma medida preventiva para a propagação da doença, mas como faremos a transição para sair dele? Qual nível de relaxamento é tolerável? Qual grau de ocupação de UTIs sinaliza que o relaxamento pode ser considerado? Quais atividades devem ser consideradas básicas, por trazerem benefícios para a população que justificam os riscos ao qual os funcionários estão expostos? Essas respostas não virão exclusivamente da ciência, mas de sua estreita convivência com instâncias políticas e de tomadas de decisão. É desejável que decisões sejam tomadas baseadas na ciência, mas a ciência, por si só, não prescreve um único curso de ação. Como discutido em outro post, é necessária uma visão integrada do problema, dentro da academia e para além dela.

O design inteligente e a cloroquina se encontram

A ciência é atacada por diversos grupos. Um deles é o dos criacionistas que defendem o design inteligente, que negam a teoria darwinista da evolução e invocam um designer. O debate com eles é difícil, e não pelas boas razões que tornam conversas difíceis instrutivas, mas porque suas críticas à evolução não são construídas considerando-se o que propõe de fato a ciência, mas a partir de uma visão de mundo prévia que os leva a questionar a objetividade da ciência. Estas costumam ser conversas pouco produtivas, porque nenhum dos lados parece em posição de aprender com o outro e transformar suas visões.

Será que há semelhanças entre a negação da ciência feita por criacionistas que atacam a evolução com pseudociência, e daqueles que sustentam a eficácia da cloroquina, apesar de evidências contrárias? Nós achamos que sim. Em ambos os casos, ignora-se o que é um consenso sólido na comunidade científica. No caso do criacionismo, a teoria evolutiva darwinista é tratada como uma ideia frágil e pouco corroborada, apesar de ser consensualmente apoiada. No caso da cloroquina a falta de consenso é deixada de lado, apesar de ser evidente que há muitas dúvidas sobre a eficácia da droga. 

Ambas são distorções graves do que constitui conhecimento científico. Tanto no design inteligente, quanto na defesa da cloroquina, as posições estão sendo construídas não a partir da ciência, mas a partir de interesses políticos ou crenças pessoais. Isso é grave, pois introduz dúvidas infundadas sobre a credibilidade da ciência, e semeia-se dúvida sobre sua objetividade. Atacar um instrumento tão valioso como a ciência, quando dela precisamos para resolver problemas tão imediatos, é um comportamento que só podemos chamar de autodestrutivo.

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Dependemos de uma vigilância constante –e de recurso à filosofia da ciência– para decidir qual conhecimento é objetivo. Precisamos estar atentos à forma como o conhecimento científico pretende ser usado, para decidir se aceitamos incertezas. Precisamos distinguir ciência de pseudociência, para não minar nossa confiança nesse instrumento. Mas precisamos também distinguir entre diferentes formas de conhecimentos que devem ter seu valor reconhecido, científicos ou não-científicos. Precisamos de uma dose de humildade, ao lembrar que o conhecimento científico não tem voz própria, e constitui apenas um –sem dúvida importante– elemento no processo de tomada de decisões. Em crises complexas, não há “balas de prata”, que tudo resolvem.

Diogo Meyer (USP) e Charbel Niño El-Hani (UFBA)

Sugestões de Leitura

Alonso Soto. Cuando la vehemencia supera la evidencia: el caso del uso de hidroxicloroquina para el tratamiento del COVID-19. Acta Med Peru  2020

Naomi Oreskes. Why Trust Science? Princeton University Press, 2019

Desinformação, o falso dilema saúde-economia e o paradoxo do isolamento social

Como a desinformação e os argumentos pseudocientíficos podem impactar na percepção da população sobre as políticas de combate à pandemia COVID-19.

Os primeiros relatos de infecção pelo vírus SARS-CoV-2 em humanos surgiram no final de dezembro de 2019, na cidade de Wuhan, província de Hubei, China. No momento em que escrevo esse texto, a pandemia COVID-19, doença causada pelo SARS-CoV-2, parece estar longe do fim. O número de pessoas diagnosticadas com COVID-19 no mundo passa de 3.4 milhões, com quase 240 mil óbitos notificados (clique aqui para ver os números atualizados). No Brasil, de acordo com informações disponibilizadas pelo Ministério da Saúde e reproduzidas pelo site Our World in Data, já foram registrados cerca de 108 mil casos e mais de 7 mil óbitos. Apesar de sabermos quando a pandemia de COVID-19 começou, não é possível determinar quando e como ela terá um fim. Embora a crise sanitária atual ainda se apresente como um cenário de incertezas, é possível extrair informações valiosas de outras epidemias que afetaram a nossa espécie. Por exemplo, sabemos que o curso de uma epidemia é principalmente afetado por fatores biológicos, como a evolução do patógeno e a reposta imunológica do hospedeiro, e por decisões no campo da saúde, como o uso de medicamentos ou vacinas e o isolamento social.

O fato é que realmente não sabemos as consequências da atual pandemia. Além disso, vivemos na ‘Era da Informação’, com as redes sociais representando os principais meios de comunicação entre grupos de pessoas. Esse ambiente, em teoria mais democrático, fomenta a diversidade de ideias e o compartilhamento de opiniões. Contudo, o material veiculado nessas plataformas dificilmente têm suas fontes verificadas, o que pode facilitar a disseminação de informações de baixa qualidade e de desinformação deliberadamente veiculada com intuitos políticos e de outras ordens. Em tempos de COVID-19, por exemplo, esse tipo de situação pode rapidamente ofuscar as informações de entidades científicas e suas recomendações para o enfrentamento da pandemia. É possível observar também que debates em torno de informações científicas têm se tornado campos férteis para todo tipo de manipulação e interpretações inadequadas de evidências. Realizar verificações e rebater o grande volume de desinformação sem o auxílio das empresas de mídia social é tarefa praticamente impossível. Joan Donovan (Harvard Kennedy School, EUA), em comentário publicado na prestigiosa revista Nature, relata resistência dessas empresas em implementar políticas rigorosas de combate a fraudes no campo da informação. Como mencionado pelo colega Diogo Meyer, nesse mesmo blog, a propagação de argumentos pseudocientíficos em tempos de grave crise sanitária é particularmente preocupante.

Apesar de percorridos pouco mais de 4 meses desde o surgimento dos primeiros casos de COVID-19 na China, o esforço conjunto de cientistas de diversas áreas criou um corpo de conhecimento relevante sobre a doença. Mesmo assim, diversas informações cruciais para o enfrentamento da pandemia carecem de estudos conclusivos. Ainda existem dúvidas sobre os períodos de incubação e de transmissibilidade do vírus, sobre as taxas de transmissão e de mortalidade e sobre o potencial de disseminação da infecção por indivíduos assintomáticos. Até o momento, não existem alternativas profiláticas ou terapêuticas com eficácia contra a COVID-19 bem apoiada por evidências. Além disso, não é possível determinar a real dimensão da pandemia, visto que a subnotificação de casos é regra entre os países afetados. No Brasil, essa realidade parece ser ainda mais alarmante. Os números mais recentes apresentados pelo Ministério da Saúde mostram que, até o dia 20 de abril, somente 132 mil testes para a COVID-19 haviam sido realizados pela rede pública de saúde. Considerando essa quantidade de testes, o Brasil, que hoje figura entre os 10 países mais afetados pela doença (em número de casos), apresentaria na data citada uma taxa de 0,63 testes para cada mil habitantes, valor muito inferior aos que eram praticados até o dia 20 de abril por países recordistas em número de casos, como Itália (23,1) e EUA (12,2). Uma análise realizada pelo consórcio COVID-19 Brasil, que reúne pesquisadores de diversas instituições brasileiras, estimou que o número de infectados no Brasil deve ser 15 vezes maior do que o número de casos notificados. Considerando todos esses aspectos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza o isolamento social como principal medida para conter o avanço do SARS-CoV-2. Alinhado com a orientação da OMS, Maurício Barreto, Professor Emérito da UFBA, Pesquisador da FIOCRUZ, um dos maiores epidemiologistas do nosso tempo, afirma que o isolamento social, associado a um sistema amplo de proteção das camadas sociais mais vulneráveis, é a única opção contra a catástrofe.

É possível antecipar que as desigualdades sanitárias e socioeconômicas, notadamente presentes na sociedade brasileira, serão fatores determinantes para a gravidade da epidemia no Brasil. Devem ser considerados os ambientes em que a maioria das pessoas vive, os empregos que têm, a prevalência de condições de saúde (como obesidade, cardiopatias e diabetes) e a desigualdade de acesso a testes e a atendimento médico. Nesse sentido, a COVID-19 já tem se mostrado desproporcionalmente letal para os afro-americanos em situação de vulnerabilidade nos centros urbanos dos EUA.

Aqui, faz-se importante ressaltar que é infundada a oposição construída em torno da saúde e da economia. Esse falso dilema tem sido abordado por equipes transdisciplinares que indicam que o arrefecimento da economia global seria uma realidade, mesmo que em menor escala, na hipótese de não aplicação de medidas de isolamento social. Pesquisadores da Universidade Northwestern, nos EUA, e da Free University, da Alemanha, desenvolveram modelos econômico-epidemiológicos para avaliar os possíveis impactos humanos e financeiros da COVID-19 nos EUA (leia comentário sobre esse estudo). Os autores sugerem que o enfrentamento da crise deve buscar padrões econômicos de equilíbrio entre custos e benefícios, e afirmam que em todos os cenários avaliados foi mais vantajoso introduzir o isolamento social.

No Brasil atual, em crescimento acelerado do número de casos e óbitos pela COVID-19, e em eminente colapso dos sistemas de saúde de muitos estados, foi constatada queda considerável do apoio da população ao isolamento social amplo (também conhecido como ‘isolamento horizontal’). Fatores econômicos e sociais têm grande peso prático na percepção das pessoas sobre a crise. Poderiam argumentos pseudocientíficos agravar essa percepção? Considero aqui o modelo de ‘isolamento vertical’, que mesmo sem evidências que o sustentem cientificamente, vem sendo tratado como alternativa ao isolamento horizontal. Nesse modelo ‘alternativo’, apenas idosos e pessoas nos grupos de risco ficariam isolados. As graves limitações dessa proposta, sobretudo para implementação no Brasil, já foram discutidas aqui por Charbel El-Hani e Virgílio Machado. Em um modelo como esse, não é possível garantir que somente indivíduos jovens e sadios sejam infectados. Além disso, é considerada a infecção da maior parte da população (60-70%) de forma não-controlada para o desenvolvimento da chamada imunidade de rebanho (efeito obtido quando algumas pessoas são indiretamente protegidas pela imunização de outras). Esse volume de infecções simultâneas seria particularmente dramático no caso da COVID-19, já que 2-5% dos pacientes necessitam de cuidados hospitalares. Desse modo, um grande volume de pessoas necessitaria de internação simultânea, implicando um colapso dos sistemas de saúde dos países. Consideremos o exemplo da China, que em localidades com disponibilidade de leitos em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), apenas 20% dos pacientes em estado crítico morriam. Já na cidade de Hubei (epicentro da doença no país), que apresentou colapso do sistema de saúde e limitações de acesso a leitos de UTI, cerca de 90% pacientes em estado crítico acabavam morrendo.

Simulações feitas no Brasil por pesquisadores do Grupo de Trabalho COVID-19 (UFMG) mostram que os cenários de isolamento vertical são quase tão ruins quanto os cenários em que não há nenhum isolamento, e muito piores do que os cenários de isolamento horizontal. Todos esses estudos consideram realidades muito semelhantes à do Brasil, com transmissão comunitária do vírus (aquela em que não é possível localizar a origem da infecção) e com grande parte dos indivíduos infectados e seus contatos não identificados ou isolados. O Reino Unido, que inicialmente adotou estratégia de isolamento vertical, diante da hipótese de colapso precoce do sistema de saúde e do crescimento acelerado do número de óbitos, optou por suspender diversas atividades não-essenciais, com bloqueios ainda mais rígidos a partir do dia 23 de março (evitando assim um cenário ainda mais trágico do que o que tem sido observado). A Coréia do Sul é muitas vezes citada como exemplo de sucesso na aplicação do isolamento vertical. Realmente, esse foi um dos únicos países que teve êxito no combate à COVID-19 sem adotar medidas rigorosas de restrição de mobilidade da população. Contudo, o sucesso da Coréia do Sul se deve sobretudo à implementação precoce de testes em massa para identificar e isolar os indivíduos infectados, além de seus contatos. Esta é uma realidade muito diferente da maioria dos países afetados pela doença.

Ressalto que o sucesso do isolamento social depende sobretudo da magnitude das políticas de não aglomeração de pessoas, da extensão da paralisação de atividades não-essenciais e do engajamento da sociedade. O paradoxo do isolamento social é pautado pela ideia de que, se ele for eficaz, as pessoas podem achar que ele não é necessário. Além disso, se ele for proposto e a diminuição da taxa de transmissão do patógeno não for percebida pela população, pode-se ter a impressão de que ele não funcionou. Não à toa, começam a surgir afirmações de que as medidas de isolamento social não têm surtido efeito no combate à COVID-19 no Brasil. Distante dessa postura negacionista, ao que tudo indica, a diminuição da adesão ao isolamento social em todo o Brasil, que ocorre desde o início de abril, tem contribuído substancialmente para o insucesso do controle da epidemia no território brasileiro. O efeito da desmobilização social parece bater à nossa porta. Em breve, é possível que medidas mais duras de restrição da mobilidade social sejam necessárias para conter o avanço da doença em diversas localidades do Brasil.

Pablo R S Oliveira

Instituto de Biologia (IBio), Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (CIDACS), Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ)

 

PARA SABER MAIS:

Boletim CoVida #4 – Fortalecer o Sistema de Saúde para Proteger a População. Rede CoVida – Ciência, Informação e Solidariedade.

Eichenbaum, M. S., Rebelo, S. & Trabandt, M. (2020). The Macroeconomics of Epidemics. NBER Working Paper n. 26882.

Yancy, C. W. (2020). COVID-19 and African Americans. JAMA.

A covid-19, a ciência e populismo no governo e na oposição

O Covid-19 representa um inimigo invisível, mas real, que tem obrigado os governos de todo o mundo a tomar decisões sem precedentes e expor-se ao debate sobre o papel da ciência na politica. Estes são desafios ainda maiores para os populismos, inclusive quando estão na oposição.

Cas Mudde considera que o Covid-19 não implica o fim do populismo, principalmente porque o populismo não é unívoco, mas ambíguo, e inclui vários fenómenos políticos. Para citar, por exemplo, o populismo de direita inclui variados fenômenos que estão no governo de alguns países (como Brasil, EUA, Índia, Hungria) e na oposição de outros (por exemplo, Itália, França, Alemanha, Espanha). Assim, como é que o populismo de direita reage quando tem de enfrentar um inimigo real em lugar dos inimigos ‘imaginários’? Ou seja, o que acontece quando o discurso político já não é centrado principalmente nos símbolos identitários (nação, povo, religião, história gloriosa etc), mas em dados de propagação da pandemia e medidas de contenção concretas que devem ser definidas em diálogo com cientistas? Para responder vamos focar brevemente em dois casos de governo (Brasil e Hungria) e um caso de oposição (Itália).

As medidas tomadas pelo presidente Bolsonaro contra a pandemia, que implicam uma biopolítica populista, enfrentam insatisfação por parte da opinião pública e das próprias pessoas que, em lugar de sentir-se mais ‘seguras’ no combate ao vírus  por um governo que tem a premissa da segurança, sentem-se mais vulneráveis. Enquanto a ascensão populista baseia-se no discurso sobre a necessidade de proteger e favorecer o ‘nosso’ e ‘nós’, e para tal deve ostentar a lógica dos inimigos ‘externos’, ao enfrentar o inimigo invisível, mas real, os populistas acabam por se mostrar incapazes de fazer a coisa que mais prometeram: proteger. Isso pode enfraquecer a sua política. A falta de decisões centrais por parte da Presidência da República leva a uma fragilização das respostas à pandemia, algo que aconteceu em vários outros países. Das narrativas da segurança da nação, passa-se à política de insegurança e desmantela-se assim uma das chaves do sucesso político destes fenômenos. A pandemia condena a superficialidade para com a ciência, a relação naïve do populismo com indicadores e a sua objeção a conformar-se ao discurso politicamente correto.

Há outras respostas do populismo de direita de governo, como, por exemplo, implementar as suas ambições autoritárias, ultrapassando assim os “obstáculos” democráticos. O caso da Hungria é um exemplo muito interessante porque integra uma instituição supranacional, a União Europeia, que nasceu para evitar exatamente que os autoritarismos voltassem a questionar as perspetivas democrático-liberais na Europa. O que acontece no parlamento Húngaro mostra como a pandemia favorece uma virada autoritária do regime, apelando-se a métodos e discursos bem mais extremistas. Neste caso a resposta populista ao inimigo pandêmico é apenas uma cobertura, a ciência se torna o argumento para reforçar e levar ao extremo as ambições de domínio.

Nos países onde os populistas de direita estão na oposição, como é o caso de muitos países europeus e nomeadamente da Itália, as medidas de segurança tomadas pelo governo neutralizam os inimigos imaginários populistas, porque focam a opinião pública no inimigo real, a Covid-19. A narrativa populista de segurança baseada na sublimação do nacionalismo simbólico é invisibilizada pelo patriotismo geral necessário no confronto com a crise. Isto é reforçado pela solidariedade nacional expressa entre pessoas que sofrem do mesmo confinamento, e que agradecem ao pessoal que trabalha em primeira linha na resposta à pandemia, a exemplo das e dos trabalhadores da saúde. Esta solidariedade usa símbolos que servem ao fortalecimento do orgulho pela comunidade, necessário ao enfrentamento dos constrangimentos. A nível internacional, a ‘solidariedade de intervenção’, mostrada por países como Albânia, China, Cuba, Rússia e EUA para com a Itália, oferecendo ajuda sanitária, minimiza o espírito residual de exclusão e vitimização dos discursos patrióticos populistas. Mas a falta de ‘solidariedade estrutural’ pode reverter a situação em prol de uma nova e mais vigorosa narrativa populista. O exemplo é dado pelos egoísmos nacionais mostrados pelos estados membros da União Europeia no limitar o uso do Mecanismo Europeu de Estabilidade. O MEE foi pensado para “ajudar” países Europeus em dificuldade económica a restabelecer as suas contas e implica implementação de medidas de austeridade (como aquelas que a Grécia teve de aceitar em 2015), que os países do Sul da Europa não admitem contemplar para enfrentar a pandemia. Se não há “união” baseada na solidariedade, a Europa sai derrotada. Frente a esta instabilidade, e na medida em que o governo italiano reduz as regras de contenção na sociedade, as narrativas populistas re-articulam o medo para poder depois afirmar a sua perspetiva securitária.

O populismo caracteriza as democracias representativas, e as suas respostas à Covid-19 desvenda algo interessante, porque não existe uma resposta política “certa” para a pandemia. Isto é devido ao fato de que os indicadores da ciência não são incontornáveis, mas podem ser usados como argumentos e contra-argumentos. João Arriscado Nunes explica que os números da Covid-19 são ambíguos, variáveis, e que, embora possam ser cientificamente inquestionáveis, são epistemologicamente discutíveis. Isto tem a ver, por exemplo, com a definição de morte pela Covid, uma vez que nem todas as mortes são identificadas por falta de teste prévio, o que tem a ver com protocolos que definem quem deve ser testado. Os indicadores são estimativas de números reais bem maiores. Isto mostra como, na interligação entre ciência e democracia, as decisões científicas são necessariamente de política (científica) e como as decisões políticas, mesmo quando baseadas em evidências científicas, implicam considerações que vão além da ciência. A pandemia ajuda assim a desmontar a suposta sobreposição de objetividade e neutralidade, um passo necessário para alterar radicalmente paradigmas sociais no futuro pós-pandêmico, sobretudo porque da suposta inevitabilidade do caminho do progresso científico – como se fosse algo unívoco e inevitável – surgiram as maiores contradições sociais, que levaram à opressão de muitos e muitas. Este progresso científico cria grandes reservas de sofrimento – amplificado pela pandemia – por aquelas e aqueles ao sul da quarentena, e finalmente permite ao populismo erguer-se como resposta descartável.

Cristiano Gianolla

Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal

https://ces.uc.pt/en/ces/pessoas/investigadoras-es/cristiano-gianolla

 

PARA SABER MAIS:

Nunes, J. A. (2020). A política dos números, ou: quem conta na pandemia? Alice News, 28/04/2020.

Santos, B. S. (2020). Ao sul da quarentena, Público, 09/04/2020.

Fonte da imagem.

Demorado, né minha filha? O longo caminho dos medicamentos até você

Na última semana, a discussão sobre o uso da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19 tomou grandes proporções, com posições apaixonadas e torcidas como as de clássicos do brasileirão. É possível que lhe acusem de defender o vírus se você apenas apontar que não há testes convincentes sobre a eficácia da droga. Torcidas à parte, de fato, não temos até o momento estudos apropriados sobre a eficácia da droga contra a covid-19.

Alguns estudos já relataram que moléculas como a cloroquina e a hidroxicloquina seriam ativas contra uma variedade de vírus. Sua eficácia foi atribuída a diferentes mecanismos. Um dos mecanismos propostos é que a droga poderia alterar a glicosilação da enzima conversora de angiotensina-2, o mesmo receptor que o vírus SARS-CoV-2 usa para entrar nas células. Dados os relatos prévios de que a cloroquina teria um papel anti-viral, foi um passo natural investigar se ela seria útil no tratamento da covid-19. Passando para os testes em voluntários humanos, um grupo chinês relatou em um periódico científico que “até agora, resultados de mais de 100 pacientes mostraram que o fosfato de cloroquina é superior ao tratamento controle na inibição da exacerbação de pneumonia”, sem fornecer mais detalhes. Após essa carta, um estudo francês, com 20 pacientes, colocou a cloroquina nos principais noticiários.

No Brasil, em meio a calorosas discussões, um paciente influente relata que foi tratado com um conjunto de medicamentos: antibiótico, anticoagulante, corticoide (anti-inflamatório) e também a hidroxicloroquina. O paciente não precisou passar para a Unidade de Terapia Intensiva. De acordo com ele, “fui melhorando, dois, três, quatro, cinco dias… depois eu fiquei relativamente bem”. Esse paciente era um médico e decidiu, após essa experiência, “defender [o uso da hidroxicloroquina] para os pacientes internados. Ele acredita não se pode aguardar por muitos meses até que sejam publicados grandes estudos sobre o medicamento”. Em nossa era de alta conectividade, relatos pessoais podem ganhar grande visibilidade e influenciar a percepção das pessoas sobre uma possível droga, mesmo nos casos em que estudos científicos ainda são inconclusivos.

Analisando o exemplo, podemos dizer o que levou à melhoria do quadro do paciente? Foi o antibiótico, o anticoagulante, o corticoide ou a hidroxicloroquina? Como seria a progressão natural da doença sem nenhuma medicação? Afinal, viroses costumam seguir um curso natural até seu término, caso não haja maiores complicações (por exemplo, infecção bacteriana, choque séptico, descompensação de outras doenças) e a maioria dos casos de covid-19 têm sintomas mais leves, não sendo de espantar, em termos de probabilidade, que alguém não siga para a UTI. Fica claro, em suma, que não é possível afirmar se a melhora pode ser atribuída à administração da cloroquina com base nas observações de um único caso. Para prevenir essas arbitrariedades são necessários experimentos controlados. Qualquer medicamento, antes de sua aprovação, deve seguir estritamente as etapas de um ensaio clínico, isto é, uma análise sistemática dos seus efeitos em voluntários humanos. Os objetivos dos ensaios clínicos são sustentar a eficácia e a segurança de um fármaco. Em suas várias etapas, os ensaios visam descobrir ou confirmar os efeitos da droga, identificar as reações adversas e estudar a farmacocinética dos ingredientes ativos.

No Brasil, os ensaios clínicos são regulamentados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O regulamento para a realização de ensaios clínicos com medicamentos no Brasil (RDC 09/2015) foi publicado no Diário Oficial no dia 03 de março de 2015 e segue as diretrizes internacionais do setor. Esses ensaios precisam ser aprovados não somente pela Anvisa, mas também pelos Comitês de Ética em Pesquisa, para garantir a conduta ética no decorrer do ensaio, assegurando direitos, segurança e bem-estar dos participantes da pesquisa.

Antes de serem testados em voluntários humanos, os medicamentos potenciais são identificados em etapas chamadas de “pré-clínicas”. Essas pesquisas envolvem metodologias que buscam por princípios ativos, que são então testados em culturas de células e/ou animais. Nessa fase pré-clínica são testados os efeitos farmacológicos e terapêuticos da droga e também a toxicidade em animais. No caso da cloroquina, em culturas de células e estudos com animais, os efeitos contra diversos vírus foram variáveis. Em células infectadas pelo vírus Epstein-Barr, a cloroquina aumentou a replicação viral. Em outro estudo, a droga reduziu a transmissão do vírus Zika para a prole de cinco camundongos infectados. A cloroquina também inibiu a replicação do vírus Ebola in vitro (isto é, em células em cultura), mas causou um rápido agravamento da infecção em porquinhos-da-índia e não fez diferença na mortalidade em camundongos e hamsters. Na infecção pelo vírus chikungunya, a cloroquina teve resultados promissores em estudos de laboratório, mas piorou o curso clínico da infecção em macacos.

Por mais que um achado em culturas de células ou num animal de laboratório seja promissor, isso não garante que o remédio será eficaz ou seguro em humanos. Para isso, são necessários outros ensaios. Assim, após a fase pré-clínica, são iniciados os ensaios clínicos com quatro fases distintas:

– Fase I: avaliação da tolerância e segurança do medicamento, em um número restrito (20 a 100) de voluntários sadios. Nessa fase, são estudados também os perfis farmacocinéticos do princípio ativo, ou seja, todo o caminho percorrido pela molécula no corpo, desde sua absorção até sua excreção.

– Fase II: avaliação da eficácia da medicação em voluntários portadores da condição, ainda em número restrito (100 a 300), para avaliar a eficácia terapêutica. É nessa fase que são determinadas as doses da medicação e o regime terapêutico. A segurança continua a ser avaliada nesse grupo um pouco maior de voluntários.

– Fase III: levantamento de mais informações sobre segurança e eficácia, estudando diferentes grupos de voluntários e diferentes dosagens, e usando o medicamento em combinação com outros. O número de voluntários geralmente varia de centenas a cerca de dez mil pessoas. Nessa fase é realizada a demonstração ou confirmação do benefício terapêutico do medicamento. Ela pode durar de meses a anos e, dependendo do risco-benefício do tratamento, o medicamento pode ser aprovado.

– Fase IV: acompanhamento do produto já no mercado. Nessa fase, há otimização do uso do medicamento, avaliação de interações medicamentosas e de efeitos adversos adicionais. De milhares a milhões de usuários entram na análise, também chamada de farmacovigilância.

O planejamento da fase III é extremamente importante para garantir resultados confiáveis. É essencial que esses estudos incluam um grupo controle que não receberá a medicação. O grupo controle e o grupo experimental devem ser idênticos em todos os aspectos relevantes, exceto pela medicação a ser testada grupo experimental. Muitas doenças (e esse também é o caso da covid-19) podem ter uma evolução diferente em pessoas diferentes. É possível que os efeitos das medicações também sejam diferentes entre faixas etárias, sexos e até grupos com diferentes ancestralidades. A farmacocinética do princípio ativo também pode ser diferente nesses grupos. Assim, o resultado descrito pelo paciente influente referido acima não necessariamente será o mesmo em outros pacientes. Por isso, os ensaios clínicos usam grandes grupos idênticos para a comparação. A comparação dos resultados do grupo experimental com o grupo controle, por sua vez, ajuda a descartar efeitos aleatórios. Um efeito facilmente descartado nessas comparações é a cura espontânea da doença, que no caso da covid-19, acontece em 85% dos casos. A pergunta que a fase III dos ensaios busca responder é se os voluntários que receberam a medicação tiveram uma evolução do quadro melhor do que os voluntários que não receberam.

Outro aspecto importante dessa comparação dos grupos controle e experimental é o familiar efeito placebo. O efeito placebo é a melhoria mensurável, observável ou sentida na saúde que não é resultado da ação do princípio ativo. Há inúmeras explicações para o efeito placebo, incluindo uma diminuição da percepção dos sintomas pela simples confiança no tratamento e interação com o médico. Por isso, em muitos estudos os grupos controle e experimental recebem pílulas de aparência idênticas, mas apenas as do grupo experimental contêm o medicamento que está sendo testado; o outro grupo recebe uma pílula placebo (sem o medicamento). Se os dois grupos tiverem os mesmos indicadores da doença, o medicamento não tem ação contra ela. Os dois grupos podem ter evolução diferente da doença quando comparados a um terceiro grupo sem nenhum tipo de intervenção. Esse resultado positivo é justamente o efeito placebo. Outro fato curioso é que as pessoas que administram as pílulas também influenciam, involuntariamente, as observações e medições. Os estudos ideais são duplo-cegos, ou seja, nem os voluntários e nem os agentes de saúde sabem quem recebeu o placebo até a conclusão do teste. Essa informação é de acesso exclusivo aos organizadores do ensaio clínico.

A hidroxicloroquina já é um medicamento aprovado e liberado para condições como malária, lúpus, artrite reumatoide e outras doenças inflamatórias. Portanto, sua segurança já foi avaliada em ensaios clínicos na fase I. O amplo uso de hidroxicloroquina expõe alguns pacientes a efeitos raros, mas potencialmente fatais, incluindo reações cutâneas adversas graves, insuficiência hepática fulminante, perda de visão e arritmias ventriculares (especialmente quando prescritas com azitromicina).  Hospitais da Suécia interromperam o tratamento com cloroquina devido aos efeitos colaterais e um editorial publicado no importante periódico The BMJ, afirma que o uso da cloroquina ou hidroxicloroquina no tratamento da covid-19 é prematuro e potencialmente prejudicial.

Mesmo nos ensaios realizados para o tratamento de outros vírus, a tradução dos estudos in vitro para clínica levou a decepções. Por exemplo, a cloroquina inibiu o vírus da dengue em algumas culturas celulares, mas falhou em reduzir a doença em um estudo controlado com 37 pacientes. Embora estudos in vitro sugerissem atividade contra o vírus da influenza, a cloroquina não impediu a infecção em um grande estudo randomizado (1496 voluntários), duplo-cego, controlado por placebo. No caso da covid-19, a carta publicada pelo grupo chinês, relatando o efeito da droga em 100 pacientes, não apresentava nenhum detalhe sobre os ensaios. Um estudo randomizado controlado por placebo usou duas doses diferentes de hidroxicloroquina em 62 pacientes. Nesse estudo, ainda não revisado por pares (isto é, por outros especialistas) para a publicação, foi relatada uma melhoria pequena no grupo de tratamento com doses mais altas. No entanto, há falha na descrição do protocolo, os resultados no grupo de doses baixas não foram descritos e o estudo parece ter sido interrompido prematuramente. O estudo mais citado, de um grupo francês, tratou 20 pacientes e relatou um resultado positivo. O relato é alvo de várias críticas: seis pacientes abandonaram o tratamento; a medida de eficácia foi a carga viral, e não um resultado clínico; e as avaliações foram feitas no sexto dia após o início do tratamento. Portanto, sem os testes controlados em grandes grupos de voluntários, é muito difícil compreender a eficácia da medicação, particularmente quando os efeitos são pequenos. Atualmente, pelo menos 80 ensaios de cloroquina, hidroxicloroquina ou ambos, às vezes em combinação com outros medicamentos, foram registrados em todo o mundo. No Brasil, os ensaios clínicos em andamento podem ser acessados na página da Anvisa. Há dois ensaios autorizados pela Anvisa para estudar a eficácia da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19.

O longo caminho envolvido na aprovação de um medicamento parece frustrante, particularmente quando estamos imersos numa pandemia e queremos o uma cura disponível rapidamente. No entanto, as provas clínicas existem para proteger nossa segurança e bem-estar, não para nos privar de acesso a medicamentos. Num momento em que a ansiedade para resolver a doença pode nos levar a tomar decisões irracionais, contar com ensaios clínicos é particularmente importante. Isso não quer dizer que não podemos fazer ajustes aos protocolos num momento de crise. De fato, houve implementação de mudanças para agilizar todo o processo nas principais agências do mundo. A Anvisa definiu normas extraordinárias para avaliação de pedidos de registro de medicamentos e produtos biológicos para prevenção e tratamento da covid-19. Os protocolos de pesquisa sobre a covid-19 também estão sendo analisados em caráter de urgência e com tramitação especial na Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Enquanto isso, a Academia Brasileira de Ciências e a Academia Nacional de Medicina alertam em carta que o uso precipitado de um medicamento baseado apenas em resultados preliminares, pode trazer consequências graves e irreparáveis para a população.

Não há evidências de que a hidroxicloroquina impeça a transmissão do vírus SARS-CoV-2 e tampouco seja uma cura para a covid-19. No momento não há evidências conclusivas de que ela seja eficaz para pacientes em caso grave, mas é uma decisão médica se ela deve ou não ser administrada. Seu uso nessas situações será melhor apoiado quando forem concluídos ensaios clínicos, que podem levar ainda algum tempo para sua conclusão. O mais importante é que, mesmo nos cenários mais otimistas sobre a sua eficácia no tratamento da covid-19, o uso da cloroquina será uma medida complementar. Não esperamos que ela cure todos os pacientes, ou que seja o tratamento mais eficaz disponível. O principal tratamento, hoje, para um paciente em estado critico é a respiração mecânica. Mesmo que a hidroxicloroquina fosse um tratamento que não oferecesse riscos (o que não é o caso), o principal dano, dada as proporções das discussões, seria a falsa esperança que pode resultar no relaxamento das medidas de isolamento, realmente eficazes contra a propagação do vírus. Outro perigo potencial está no incentivo ao autodiagnóstico e autotratamento. Infelizmente, ainda não temos um tratamento eficiente ou uma vacina neste momento e o que pode evitar o colapso do sistema de saúde é o isolamento social. Fique em casa, se puder.

Tatiana Teixeira Torres (USP)

Para saber mais:

Revisão mostrando um histórico da regulamentação sobre os ensaios clínicos no Brasil, apresentando os marcos e últimas atualizações. Para a revisão foram utilizados trabalhos publicados entre 2010 e 2016 e que tratando da regulamentação da pesquisa clínica no Brasil, seu histórico e formas de avaliação.

Matéria do jornal digital Nexo, com o histórico da polêmica da cloroquina no tratamento da covid-19. Também inclui uma entrevista com a pesquisadora Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, uma organização voltada pata a divulgação científica.

Editorial do periódico BMJ (British Medical Journal), discutindo as principais publicações alegando eficácia das duas moléculas, cloroquina e hidroxicloroquina, no tratamento de infecções virais, em particular a covid-19.

Como enfrentar o novo coronavírus? Ouvindo cientistas. Investindo na ciência. Refutando a pseudociência.

O conhecimento e a ciência são nossa melhor vacina para enfrentar crises, como a pandemia do novo coronavírus

A epidemia do novo coronavírus gera muitas perguntas. De onde veio o vírus? Como (e com qual rapidez) a doença que ele causa se espalha? Como nosso sistema imune pode derrotá-lo? Remédios ou vacinas são viáveis? Não são perguntas quaisquer: as respostas vão informar políticas públicas. Se as políticas forem bem implementadas, fazendo uso correto das respostas encontradas, vidas serão salvas.

As respostas virão do trabalho de cientistas. O caminho que será percorrido é cheio de desafios, e o sucesso não é garantido. Entretanto, para responder a perguntas sobre o novo coronavírus, a ciência é nosso melhor instrumento. Dada a importância da ciência nesse momento de nossas vidas, cabe perguntar: como a ciência consegue construir o conhecimento a respeito do coronavírus?

De onde veio o vírus?

Nos primeiros momentos da epidemia, amostras de pacientes foram colhidas e o genoma do vírus foi sequenciado. A partir dessas sequências, foram construídas filogenias, que são árvores que expressam o parentesco do novo vírus com outras espécies. Essas análises evolutivas mostraram que o novo vírus é muito semelhante a tipos de coronavírus que infectam pangolins e morcegos. O vírus presente em animais silvestres sofreu mutações, e essa versão modificada tornou-se eficiente para infectar humanos.

Há muito conhecimento prévio embasando esses estudos. Há décadas usamos sequências de DNA para inferir a história evolutiva de diferentes espécies, sejam vírus, plantas ou animais. Essas análises usam ferramentas computacionais e matemáticas, desenvolvidas por biólogos, estatísticos e cientistas computacionais. A compreensão de que vírus de animais podem invadir humanos é outro tema intensamente estudado, e o alarme já foi soado várias vezes para a seriedade dessa ameaça. A rápida identificação das linhagens que chegaram ao Brasil foi feita por análises genômicas conduzidas por pesquisadores do Instituto de Medicina Tropical e do Instituto Adolfo Lutz de São Paulo, graças a experiência adquirida em estudos anteriores com o vírus Zika.

O sucesso em rapidamente identificar o vírus causador das pneumonias nos hospitais de Wuhan só existiu porque a ciência já possuía uma sólida base no sequenciamento e na análise de genomas, no estudo de evolução viral e em análises epidemiológicas. E, no caso do esforço brasileiro para sequenciar o vírus, vale acrescentar: o trabalho foi possível porque duas pós-doutorandas, que recebem bolsa de estudos, estavam treinada e prontas para fazer as análises.

Com que velocidade a doença se propaga?

Essa talvez seja a principal pergunta que enfrentamos nessa crise. Se o vírus se propagar lentamente teremos tempo e condições de tratar os doentes, e a crise será mais tolerável. Entretanto, uma propagação rápida irá sobrecarregar o sistema de saúde, e a mortalidade será elevada. Então é crítico responder: com base no que sabemos sobre o comportamento do vírus, quantos novos infectados esperamos na próxima semana? Como reduzir a taxa de propagação da doença? Para responder a essas questões, usamos modelos matemáticos que conjugam fatores que determinam a taxa de propagação: o número de pessoas que um indivíduo contaminado infecta, a facilidade de contágio, a frequência com que pessoas interagem, e o grau de imunidade na população. De posse dessas informações, fazemos contas e usamos simulações para fazer as previsões.

As previsões da propagação da doença feitas pelos modelos são imensamente importantes para políticas de saúde pública. Um trabalho  feito por pesquisadores do Imperial College previu que haveria uma imensa sobrecarga no sistema de saúde do Reino Unido, a não ser que medidas rígidas de distanciamento social fossem impostas. Esse trabalho influenciou governantes do Reino Unido e dos Estados Unidos, que passaram a apoiar medidas mais efetivas de distanciamento social. Tal estudo só foi possível porque havia um grupo de pesquisadores treinados em epidemiologia, com conhecimentos computacionais e matemáticos. O pesquisador que liderou o trabalho do Imperial College é formado em física teórica, um campo extremamente matemático e que também lida com dados cheios de incertezas.

A eficácia das rígidas restrições a deslocamentos implementadas na China neste ano também já foi avaliada num estudo científico. Utilizando dados sobre deslocamentos individuais, fornecidos pela Baidu (uma empresa chinesa de telecomunicações), um grupo internacional mostrou que a redução na mobilidade está relacionada com o decréscimo na taxa de expansão do vírus. Novamente, é interessante notar que o cientista que liderou a pesquisa é professor num departamento de zoologia, e utiliza abordagens ecológicas evolutivas no estudo de doenças infecciosas.

Aqui no Brasil também há grupos trabalhando na modelagem da COVID-19. Na Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), um grupo do Programa de Computação Científica modelou o impacto do isolamento. Um outro grupo, que reúne médicos e epidemiologistas da UnB, UFRJ e USP, fez uma nota técnica sobre diferenças entre municípios brasileiros na propagação da doença. Um grupo baseado em São Paulo vem divulgando publicamente prognósticos para a doença, com base em seus modelos matemáticos. Nessa equipe, há físicos, ecólogos, e evolucionistas. Novamente, o mesmo recado: pesquisadores formados em diversas áreas – algumas distantes das áreas médicas ou do estudo de vírus – possuem conhecimentos que, reunidos, ajudam a alcançar respostas sobre a pandemia.

Teremos remédios?

Para decidir quais drogas devemos usar, precisamos entender como cada uma funciona, como interagem com as moléculas do vírus, e quais drogas existentes são seguras. Um grupo do Laboratório Nacional em Biociências está triando milhares de fármacos, em busca daqueles que, de acordo com simulações computacionais de interações moleculares, podem interferir em proteínas essenciais para a reprodução do vírus. Alvos promissores serão testados em células infectadas pelo coronavírus. Nessa empreitada, estão unidos pesquisadores especializados em biologia computacional, modelagem molecular, bioquímica, biologia celular e virologia. Outra frente envolve testar a eficácia de drogas previamente empregadas para outras doenças, mas cuja eficácia ou segurança para tratar o COVID-19 ainda é desconhecida, como é o caso da cloroquina. No Brasil, novos tratamentos com drogas já conhecidas estão sendo testados para a COVID-19, em trabalhos que envolverão 18 laboratórios, coordenados pela FIOCRUZ. Para comprovar a eficácia de uma droga, dependemos de especialistas em farmacologia, estatística, saúde pública e ética em pesquisa. Sem profissionais treinados nessas diversas frentes e sem instituições de pesquisa bem organizadas e financiadas, não avançamos.

Conseguiremos produzir uma vacina? 

Muitas doenças humanas foram essencialmente erradicadas pelo emprego de vacinas. Conseguiremos o mesmo feito com a COVID-19? Neste exato momento há muitos grupos de cientistas tentando desenvolver uma vacina. Um deles é a equipe do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração, em São Paulo.

A estratégia desse grupo é imunizar as pessoas com proteínas que são semelhantes às do vírus, estimulando o corpo a produzir anticorpos e células imunes especializadas em atacar e neutralizar o invasor. Qual proteína viral usar? Eles apostam numa que está presente na cápsula viral, sendo justamente aquela usada pelo coronavírus para entrar nas células humanas. A estratégia vai funcionar? Não sabemos. Isso depende de como a proteína é capaz de ativar o sistema imune, da segurança de injetá-la em humanos e também da duração da imunidade gerada. Somente investigando poderemos saber a resposta.

Sabemos que qualquer chance de chegar a uma vacina só existe porque há uma comunidade científica altamente treinada — tanto no exterior, quanto no Brasil — com experiência em imunologia e bioquímica. Se não houvesse especialistas nessas áreas no Brasil, se seus laboratórios não estivessem equipados e suas equipes treinadas e financiadas, não poderíamos participar desse processo.

Dá para tolerar a pseudociência?

Há outra forma, distinta do recurso à ciência, para responder às perguntas sobre o coronavírus e a COVID-19? Respostas que recorrem ao sobrenatural podem trazer conforto a alguns, funcionar como placebo a outros, mas não vão gerar vacinas eficazes, não vão fazer predições precisas sobre a taxa de expansão viral, não vão permitir que drogas tenham sua eficácia testada. A ciência não é a única forma de ver o mundo, e tampouco nos dá todas as soluções, mas ela é capaz de oferecer respostas instrumentais e poderosas no processo de tomada de decisões.

Diante do atual cenário de pandemia, é curioso lembrar que há dois meses uma das mais sólidas áreas do conhecimento científico, a teoria da evolução, foi atacada num artigo publicado na Folha de São Paulo (ao qual eu e outros respondemos). O autor do ataque, Marcos Eberlin, é um criacionista, e crê que as formas vivas na terra são fruto do trabalho de um “planejador”, cuja identidade não conhecemos. Suas críticas à teoria da evolução são uma série de argumentos pseudocientíficos, sequer endossados por teólogos ou religiosos. Eberlin é coordenador do “Núcleo de Pesquisa de Design Inteligente”, sediado na Universidade Presbiteriana Mackenzie. O que esse núcleo de pesquisa anti-evolucionista produziu recentemente? Não se tem notícia de que algo útil para enfrentar o coronavírus tenha saído de lá.

Por que retomo esse frustrante negacionismo científico, dirigido à evolução, no contexto da COVID-19? Retomo porque a pseudociência não ajuda em tempos de crise, apenas confunde. Há como rejeitar evolução, mas ao mesmo tempo usar uma árvore filogenética para entender a origem e evolução do vírus? Rejeitar a seleção natural e investigar a resistência às drogas antivirais? Impossível. Não dá para negar evolução e ao mesmo tempo querer que a ciência nos ajude num momento de apuro. Afinal, a ciência que nos ajuda a lutar contra o vírus é a mesmíssima que sustenta a teoria da evolução. Negando-se uma, nega-se a outra. Nesse momento de crise devemos entender finalmente que é importante que recursos públicos não sejam desviados da ciência para a pseudociência. Devemos também entender que, sem apoio à sua comunidade científica, nas mais diversas áreas, inclusive nas ciências humanas e sociais, um país fica privado de dar resposta a muitas ameaças, como as novas doenças que nos acometem. Não financiar a ciência nacional é correr riscos.

Seis lições vindas de uma pandemia

É preciso reconhecer a importância da ciência, pois ela nos traz informação baseada em evidências, fundamentais para a tomada de decisões.

Precisamos afastar a pseudociência, que confunde e distrai, tirando nosso foco das questões que devem nos ocupar.

É preciso entender — agora e no futuro — que apoiar a ciência não consiste apenas em despejar recursos para resolver o problema que agora se apresenta (ainda que esses recursos sejam necessários). A resolução de problemas depende de uma comunidade científica previamente treinada, cobrindo uma gama ampla de especialidades, e com recursos para manter seus laboratórios e equipes. Sem essa base, não há como esperar resultados a curto prazo.

Os caminhos da ciência não são lineares. Investimento em física teórica forma pesquisadores que modelam pandemias. Treinamento em teoria evolutiva permite a compreensão da origem do novo coronavírus. Pesquisa em ciências humanas e sociais ajudam a entender a tomada de decisão e os comportamentos das pessoas. Pesquisa filosófica nos auxilia a entender e, fundamentalmente, a lidar com dilemas éticos que uma situação de crise, como a de uma pandemia, nos apresenta. Para resolver problemas complexos precisamos de um amplo leque de disciplinas.

De fato, as humanidades e as ciências sociais— tão atacadas pelo atual governo, por serem supostamente “pouco úteis” — dão contribuições cruciais. Na hora de definir estratégias de isolamento, é essencial saber a densidade populacional em diferentes bairros, a composição típica das famílias em diferentes classes sociais, a distribuição etária em diferentes regiões do país e do mundo, a melhor estratégia de transmitir conhecimento ao público. É necessário aprender com pandemias passadas, como a gripe espanhola de 1918, investigando os erros e acertos daquela época. Esses desafios são o domínio de geógrafos, demógrafos, sociólogos, educadores, historiadores e filósofos.

Finalmente, é preciso ser crítico e atento aos limites da ciência. Por exemplo, os modelos matemáticos usados para prever a propagação da doença não são precisos. Isso é esperado: os modelos dependem dos dados de que dispomos, que muitas vezes são imperfeitos, como é o caso do número real de infectados em cada país, ou a facilidade com que os indivíduos se tornam imunes. Essas incertezas tornam mais difícil o processo de tomar decisões. Ainda assim, é importante que governantes saibam que as decisões baseadas em ciência, mesmo carregando incertezas, são preferíveis à alternativa de decisões sem embasamento científico, fundamentados somente em opiniões e preconceitos.

O recado é claro: uma sociedade com cientistas bem treinados, instituições científicas bem equipadas e financiadas, e com investimento na educação de jovens, habilitando-os a serem os cientistas de amanhã, estará mais preparada para enfrentar crises. Neste momento vivemos a pandemia do novo coronavírus. No futuro, poderá ser outra doença, o aquecimento global, ou os efeitos da poluição.

 

Diogo Meyer

Universidade de São Paulo

 

Sugestões de Leitura

The proximal origin of SARS-CoV-2”, de Kristian G. Anderson e coautores, publicado na Nature Medicine em 17 de março.

É um artigo que situa o novo coronavirus em relação àqueles que infectam outras espécies.

 

Why Trust Science?” De Naomi Oreskes. Princeton University Press, 2019.

Um livro livro discute a forma como a confiança no conhecimento científico é construída.

 

Imune” de Matt Richtel.  Harper Collins, 2019.

Um livro que apresenta de modo acessível os princípios básicos do funcionamento do sistema imunológico

A origem de novos vírus: A COVID-19 e outras histórias

Assim como muitos outros vírus, estudo recente aponta que o vírus causador da COVID-19 evoluiu a partir de um hospedeiro animal e não de manipulação humana intencional.

Escrevo esse post da minha casa, em São Francisco (Califórnia), onde desde o inicio da semana passada o governo decretou quarentena para todos os moradores. Sei que muitos de vocês, leitores, estão em uma situação parecida: em casa, sem poder ir ao trabalho, a bares e restaurantes ou ao cinema, e com filhas e filhos sem aulas presenciais, demandando nossa atenção e nosso cuidado a todo minuto. Apesar de tentar estabelecer uma nova rotina, é inegável que a situação atual gera apreensão e desconforto. Então, saiba que você não está sozinha ou sozinho nesse momento: o mundo todo está vivendo essa mesma angústia. Mas, nunca é demais reforçar que as medidas de isolamento social que tomamos hoje, por mais duras que possam parecer, salvarão a vida de muitos nos próximos meses. E que é extremamente necessário, talvez mais do que nunca, ouvirmos os cientistas e seguirmos suas recomendações. Voltarei a esse ponto ao final do texto.

Primeiro, vamos dar “nome aos bois”. Ao estudar em detalhe esse novo vírus e compará-lo a outros vírus já conhecidos, o Grupo de Estudos de Coronaviridae do Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus, entidade mundial responsável pela classificação dos vírus, decidiu nomear essa nova espécie viral de SARS-CoV-2, devido à semelhança genética entre esse novo vírus e aquele causador da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS). E se olharmos com um pouco mais de cuidado, o nome faz muito sentido:  SARS vem do nome da manifestação clínica causada pelo vírus, CoV indica que esse vírus é um coronavírus, e 2 pois já conhecemos um outro coronavírus, causador da pandemia de SARS em 2003, cujo quadro clínico é semelhante ao que observamos nos pacientes de COVID-19 de hoje. E de onde vem o nome COVID-19? Em Fevereiro desse ano, a Organização Mundial de Saúde (OMS) decidiu nomear a doença de COVID-19, seguindo os acordos internacionais estabelecidos entre a OMS e outros órgãos internacionais. E essa escolha também faz sentido: COVI de coronarus, D de doença (ou disease em inglês) e 19 do ano de 2019, ano em que o primeiro caso de COVID-19 foi identificado.

Mas antes de nos debruçarmos sobre a origem do SARS-CoV-2, como sugere o título desse post, vale lembrar que vírus são partículas compostas majoritariamente por dois tipos de moléculas: ácidos nucleicos (DNA ou RNA) e proteínas. Alguns vírus possuem também um envelope de lipídios, como no caso do coronavírus (Figura 1).

Figura_1
Figura 1 – Ultra-estrutura do SARS-CoV-2. Os coronavírus são vírus de RNA cujo envelope lipídico possui numerosos “espinhos” (do inglês spikes), dando a impressão de uma “coroa” quando vistos sob microscópio eletrônico (veja também a imagem de abertura desse post). Daí vem o nome desse grupo de vírus, os coronavírus. Fonte: Imagem modificada de Alissa Eckert, Dan Higgins; Jan 2020 (Center for Disease Control, CDC).

Vírus são agente infecciosos, causadores de milhares de doenças em animais, plantas, fungos e bactérias. Conhecemos hoje mais de 200 mil tipos diferentes de vírus, e o número de novas espécies virais continua a crescer significativamente todo ano. Os vírus são considerados parasitas intracelulares obrigatórios, pois apesar de inertes quando fora de células vivas, um único vírus é capaz de cooptar o metabolismo celular para a produção de milhares de novas partículas virais em poucas horas. Nos últimos meses, cientistas têm estudado intensamente o SARS-CoV-2, não apenas para entender sua origem como também em busca de um caminho para o desenvolvimento de uma vacina ou de um tratamento eficaz, e desde o início do ano centenas de artigos já foram publicados. Assim, já conhecemos o suficiente do SARS-CoV-2 para afirmar com convicção que, até o momento, não existe qualquer evidência sugerindo que o SARS-CoV-2 é fruto de manipulação humana intencional. Na realidade, os dados apontam para um processo evolutivo por seleção natural, resultando na transferência zoonótica do SARS-CoV-2 para humanos a partir de um hospedeiro animal. Assim, no restante desse post, buscarei apresentar as evidências que temos, até o momento, de que o SARS-CoV-2 surgiu por transferência zoonótica, assim como contextualizar a transferência zoonótica em relação ao surgimento de outros vírus capazes de infectar humanos.

Que evidências temos, até o momento, de que o SARS-CoV-2 surgiu por transferência zoonótica? O coronavírus causador da pandemia que atravessamos hoje, o SARS-CoV-2, é um entre pelos menos seis outros coronavírus que infectam humanos. Apesar de muitos coronavírus, como 229E, NL63, HKU1 e OC43, causarem apenas sintomas leves, dois outros coronavírus são responsáveis por doenças respiratórias graves em humanos, o SARS-CoV e o MERSCoV. O SARS-CoV foi o agente responsável pela pandemia da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) de 2003, que acometeu dezenas de países e resultou na morte de mais de 700 pessoas. Já o MERSCoV é o responsável pela Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), inicialmente identificada em 2012. Segundo a Organização Mundial de Saúde, até Novembro de 2019 foram diagnosticados mais de 2.400 casos de MERS, resultando em mais de 800 mortes.

Nessa última semana, um artigo publicado na revista Nature comparou uma parte importante do genoma do SARS-Cov-2 ao de outros coronavírus de humanos e de outros hospedeiros animais, com ênfase na sequência de aminoácidos da proteína do espinho proteico (Figura 1). O espinho proteico do coronavírus está intimamente relacionado à capacidade do vírus de penetrar células humanas, e tem sido alvo importante no desenvolvimento de vacinas contra o SARS-CoV-2.  A sequência de aminoácidos do espinho proteico de SARS-CoV-2 de humanos é semelhante às sequências encontradas em coronavírus de morcegos e pangolins (Figura 2), sugerindo fortemente a transmissão zoonótica do vírus. Visto que a sequência em humanos difere, mesmo que minimamente, da sequência dos vírus nessas outras linhagens, ainda não sabemos ao certo a partir de qual hospedeiro animal o SARS-CoV-2 se originou.

Figura_2
Figura 2 – Estrutura do genoma viral com foco especial no gene relacionado ao espinho proteico. Duas regiões do espinho proteico do SARS-CoV-2, destacadas na figura acima, ressaltam a semelhança entre a sequência de aminoácidos da proteína do vírus em humanos (seta vermelha) e em morcegos e pangolins (setas azuis). Ainda, a região chamada de “domínio de ligação ao receptor” (do inglês receptor-binding domain), parte da estrutura proteica do espinho, liga-se ao receptor ACE2 na superfície de células humanas e facilita a infecção das células pelo vírus [Fonte: Modificado de Andersen et al. 2020. Nature].
Além disso, a região do espinho chamada de “domínio de ligação ao receptor” (Figura 2, “Receptor-binding domain”) é a parte do espinho responsável pela ligação do vírus ao receptor ACE2 presente na superfície de células humanas. É a ligação da proteína viral ao receptor ACE2 que permite que ele invada células humanas. Curiosamente, a sequência de aminoácidos do SARS-CoV-2 humano, quando comparado àquela de morcegos e pangolins, apresenta modificações que aumentam a afinidade dessa proteína ao receptor ACE2, sugerindo claramente que essa região é o resultado da seleção natural dessa proteína, tornando-a bastante eficaz na infecção de humanos.  Apesar de termos técnicas capazes de produzir em laboratório agentes infecciosos, tais como um novo vírus, não há qualquer evidência, na região analisada na Figura 2, ou no restante do genoma do vírus, que sugira manipulação genética intencional, visto que os produtos dessas técnicas laboratoriais podem ser facilmente identificados. Além disso, seria esperado que, se um novo vírus fosse criado intencionalmente, este seria criado a partir de sequências de outros vírus já sabidamente patogênicos, como o SARS-CoV e o MERSCoV, e não a partir de genes de pangolins ou morcegos, parcamente conhecidos em relação ao seu potencial patogênico em humanos. Assim, o conjunto de evidências que temos hoje aponta para a transferência zoonótica do SARS-CoV-2 para humanos a partir de um hospedeiro animal.

Não há nada de novo nessa ideia: vários outros vírus já largamente conhecidos, tais como o SARS-CoV e o MERSCoV, o HIV, o Ebola e o H1N1, são exemplos de vírus que tiveram origem em outros grupos animais e, como resultado de processos evolutivos, passaram a infectar o homem. E não pára por ai: a transferência zoonótica está também na origem do sarampo, da varíola, da dengue, da zika, da raiva, e de muitas outras doenças virais. Apesar de uma parte significativa das infecções zoonóticas estarem concentradas nos trópicos, a pandemia atual é um exemplo de como transferências zoonóticas, principalmente em um mundo tão interconectado, podem afetar o globo, com grande impacto na saúde pública, na economia, e na vida de todos nós. Vale ressaltar também que a emergência de novas doenças por transferência zoonótica está associada a intensificação da agricultura e a mudanças ambientais, ou seja, a intensificação da agricultura em várias partes do globo e o impacto ambiental gerado pela pressão de urbanização e pelas mudanças climáticas aumenta o risco de emergência de novas doenças por transferência zoonótica.

Certamente, esse não será o ultimo episódio em que teremos que enfrentar um novo vírus que, anteriormente infectando outros organismos, adquire a capacidade de infectar humanos. E volto, assim, à ideia importante que discuti no final do primeiro parágrafo: apenas com investimento sério em ciência poderemos compreender em detalhes a evolução viral tanto em humanos como em hospedeiros não-humanos. Estudando como os diferentes vírus evoluem em seus hospedeiros não-humanos poderemos, quem sabe um dia, antecipar os eventos de transmissão zoonótica, evitando, ou ao menos nos preparando melhor para pandemias como as que vivemos hoje. Investimento em ciência permite, também, entendermos os mecanismos de infecção viral, guiando o desenvolvimento de novas vacinas e novos tratamentos. Investimento em ciência nos ajuda também a entender como as modificações ambientais que impomos ao planeta interferem nos processos evolutivos, porventura facilitando o surgimento de novas doenças, ou reavivando doenças já erradicadas em determinadas regiões do globo. E, em um momento tão difícil quanto o que estamos vivendo, precisamos, cada um de nós, fazer a nossa parte e levar a sério o isolamento social. Estamos todos juntos no combate a COVID-19 e, quanto mais cedo seguirmos as recomendações dos cientistas, mais vidas serão salvas.

 

Ana Almeida

(Cal State University East Bay, CSUEB)

 

Para saber mais:

Ellwagner, J.E. & Chies, J.A.B. 2018. Zoonotic spillover and emerging viral diseases –time to intensify zoonoses surveillance in Brazil. The Brazillian Journal of Infeccious Disease, 22(1): 76-78.

Holmes, E.C. 2011. What does virus evolution tell us about virus origins? Journal of Virology, 85(11): 5247-5251.

Stated Clearly. 2020. Coronavirus disease (COVID-19). Youtube.

Tesini, B.L. 2020. Coronavírus e síndromes respiratórias agudas (COVID-19, MERS, e SARS). Ministério da Saúde.

World Health Organization. 2020. Coronavirus disease (COVID-19) pandemic. Último acesso em 22/03/2020.

 

Imagem de abertura: Micrografia eletrônica de partículas virais do SARS-CoV-2, causador da pandemia COVID-19 que vivemos hoje, emergindo de células cultivadas em laboratório, coletadas de um paciente nos EUA. Fonte: NIAID-RML, Wikipedia.

O menor dinossauro do mundo (ou não)

A capa da revista Nature desta semana traz a foto da cabeça de dinossauro de apenas catorze milímetros, preservada em âmbar. Os autores estimam que o comprimento total do animal, do focinho ao rabo, era de nove centímetros. É a menor espécie fóssil de dinossauro já encontrada, do tamanho de um colibri-abelha, a menor espécie de ave existente. Os cientistas a batizaram de Oculudentavis khaungraae.

O pequeno dinossauro mumificado dentro da resina vegetal fossilizada foi encontrado em Myanmar, no sudeste asiático, e cedido aos cientistas por um colecionador. Mais de mil espécies de animais preservadas em âmbar provenientes desta mesma localidade foram descritas nas últimas décadas, incluindo aves, lagartos, sapos, aranhas e insetos. Estes fósseis são uma janela única para a vida no planeta há 100 milhões de anos, mas as minas de âmbar, onde eles são encontrados, são exploradas em péssimas condições de trabalho, em uma região de conflito armado, gerando dilemas éticos quanto à sua utilização na ciência.

Para poder aceder aos detalhes morfológicos da cabeça de Oculudentavis, os cientistas usaram um tomógrafo computadorizado alimentado por um acelerador de partículas para produzir imagens de alta resolução (Figura 1). Os olhos eram relativamente enormes, como nas aves, mas os pequenos ossos que cobriam a globo ocular, chamados de ossos escleróticos, tinham forma de colher, mais similar aos dos lagartos. O cérebro também era grande, dominado pelo telencéfalo, muito parecido ao das aves modernas. O focinho era alongado e fino, com muitos dentes. O nome Oculudentavis se refere à presença de dentes na parte posterior da boca, já debaixo dos olhos, uma característica ausente em outros dinossauros.

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Figura 1: Tomografia computadorizada da cabeça de Oculudentavis.

Outras características chamaram a atenção dos especialistas. Os dentes não tinham raízes inseridas em alvéolos, mas estavam grudados à superfície do osso, uma condição chamada de acrodontia, comum em outros répteis, mas não em dinossauros e aves. O número de dentes supera o de qualquer outra espécie de dinossauro. E não havia uma abertura na frente da órbita, chamada de fenestra anterorbital, presente em todos os dinossauros, incluindo as aves.

A análise das relações de parentesco apresentada pelos autores sugere que o fóssil é uma espécie basal de ave, um pouco mais derivada que Archaeopteryx. Não foram encontradas penas.

Ou não?

O sociólogo da ciência Robert Merton, há muitos anos, propôs que a atividade científica é guiada por alguns princípios éticos comuns. Um deles é o ceticismo organizado, definido como a análise crítica e sem preconcepções do próprio trabalho.

Assim que o artigo foi publicado, outros especialistas levantaram dúvidas se Oculudentavis seria de fato um dinossauro. Uma das críticas aponta que os autores assumiram previamente que era um dinossauro, e não analisaram outras possibilidades. Várias características de Oculudentavis não estão presentes em dinossauros, mas são comuns em outros répteis. Por exemplo, lagartos não têm fenestra anterorbital, têm ossos escleróticos em forma de colher e acrodontia. Não seria então Oculudentavis um lagarto, com algumas características de aves? Neste caso, olhos e cérebros grandes, focinho alongado e região pós-orbital curta seriam convergências evolutivas, relacionadas a um modo de vida especializado, altamente visual.

Oculudentavis é talvez o menor dinossauro já encontrado e suas características incomuns seriam consequências da sua miniaturização, como sugerem os autores. Ou talvez estamos naquele momento em que chapeuzinho-vermelho percebe que olhos, nariz e boca são grandes demais para ser a vovó. O ceticismo organizado da comunidade científica vai nos trazer uma resposta em breve.

 

João F. Botelho (PUC de Chile)

 

PARA SABER MAIS: 

Xing, L., O’Connor, J.K., Schmitz, L. et al. Hummingbird-sized dinosaur from the Cretaceous period of Myanmar. Nature 579, 245–249 (2020). https://doi.org/10.1038/s41586-020-2068-4