Ciência é atividade imaginativa, não “receita de método científico”

Visões caricatas da ciência, que nutrem mito de método científico como sequência linear de passos, ocultam papel da imaginação na ciência e contribuem para rejeição da ciência pela sociedade

Desde os primeiros anos da escolaridade, somos inculcados com a ideia de que fazer ciência seria seguir uma série mecânica de passos, começando com observações, a partir das quais são levantadas hipóteses, das quais são deduzidas consequências, as quais são testadas por meio de experimentos, como se o trabalho científico fosse a mesma coisa que seguir uma receita de bolo. Uma vez analisados os resultados do teste, uma conclusão seria então obtida, mantendo-se ou abandonando-se a hipótese.

A ciência pode, de fato, envolver a chamada lógica hipotético-dedutiva, mas testar consequências previstas a partir de uma hipótese também não é uma atividade mecânica feita sempre na mesma sequência e nem hipóteses resultam necessariamente de observação! Aliás, prefiro falar em lógica ou raciocínio em vez de método hipotético-dedutivo, por considerar a primeira expressão mais precisa, quando queremos nos referir a um modo lógico de proceder na pesquisa.

Propor que a ciência seria caracterizada por um método científico entendido como uma rígida e recorrente sequência de passos tem inúmeros problemas. Muitos críticos dessa proposição sobre como a ciência funciona se referem, então, a um mito do método científico. Estas críticas têm sido feitas tanto na literatura técnica, quanto na popularização da ciência.

Primeiro, obscurece que ciência se faz de várias maneiras, e não necessariamente seguindo uma lógica hipotético-dedutiva. Podemos, por exemplo, obter grandes séries de dados sobre algum fenômeno (como expresso na metáfora big data) e, a partir delas, extrair algum padrão regular, como fazemos, por exemplo, quando inferimos a presença de um determinado padrão de expressão de genes de um tipo celular com base em grandes conjuntos de dados sobre os RNAs presentes em células daquele tipo. Nesse caso, estamos usando uma lógica indutiva e, evidentemente, seguimos fazendo ciência.

Podemos observar algum padrão na natureza, por exemplo, uma concentração estranhamente alta do elemento químico irídio nas mesmas camadas geológicas em diversos locais do mundo e perguntar qual seria a melhor explicação para esse padrão, concluindo, digamos, que a queda de um grande meteorito com a mesma datação das camadas geológicas constitui a melhor explicação. Estamos usando, então, uma lógica abdutiva, inferindo a melhor explicação a partir dos dados, e, claramente, continuamos fazendo ciência.

Podemos considerar funcionamento mental de crianças, por exemplo, o modo como elas usam determinados modos de pensar ao longo do tempo e perguntar pela gênese desses modos de pensar, entendendo, por exemplo, como se desenvolve o pensamento conceitual na formação da mente humana. Estamos usando, então, uma lógica genética (não no sentido de ‘genes’, como regiões do DNA, mas no sentido de ‘gênese’) e, é claro, estamos fazendo ciência!

Segundo, o mito do método científico favorece uma ideia perniciosa, que se arraigou na formação de cientistas em muitas áreas e universidades, infelizmente: a de que aprender a fazer ciência seria aprender um conjunto de técnicas e protocolos para executar testes empíricos. Certamente, o trabalho científico inclui técnicas, protocolos, testes empíricos, mas limitá-lo a isso é ignorar que ciência também se faz tendo ideias, pensando novas teorias, imaginando novos modelos, supondo a existência de fenômenos nunca antes observados, em suma, que ela envolve muito mais do que apenas testar hipóteses. Frequentemente, essas visões caricatas da ciência também são acompanhadas de uma redução do teste empírico ao experimento, ignorando-se que testes empíricos rigorosos podem não ser experimentais: por exemplo, posso testar uma hipótese sobre a história evolutiva de um grupo de organismos examinando sistematicamente a distribuição de caracteres entre eles, usando o chamado método comparativo, e não um método experimental.

Terceiro, sugere que a ciência é uma atividade protocolar, uma repetição enfadonha dos mesmos passos prescritos. Já deve ter transparecido no parágrafo anterior, contudo, que ciência é tudo menos um trabalho mecânico. A ciência é uma atividade profundamente criativa, uma tentativa de entender o desconhecido com nossos melhores recursos cognitivos, incluindo nossa imaginação. A ciência não consiste na busca apenas de testar ideias que já tivemos, mas é uma aventura ousada de tentar ter ideias que nunca jamais ninguém teve, frequentemente alcançadas combinando-se de modo criativo uma série de ideias que já estavam disponíveis anteriormente. Foi assim, por exemplo, que Darwin e Wallace tiveram a ideia da seleção natural como força criativa no mundo vivo (criativa de adaptações e espécies) a partir de um conjunto de ideias já muito conhecidas, sobre crescimento populacional, herança, relações entre organismos, relações dos organismos com o meio etc.

A crise de confiança na ciência, que tem levantado bastante preocupação, tem a ver, ao menos em parte, com o modo como ensinamos ciência às pessoas. Pesquisa executada pelo Instituto Gallup, encomendada pela organização britânica Wellcome Trust, verificou que 75% dos brasileiros desconfiam da ciência e 23% consideram que produção científica pouco contribui para desenvolvimento econômico e social do país. Muitos desses são brasileiros que possivelmente amam ficar em seus telefones celulares sem nem desconfiar que não haveria celular sem ciência, ou ganham seu pão do dia-a-dia em muitas atividades que somente existem ou são praticadas do modo como o são hoje por causa da ciência, como a medicina, por exemplo, ou a engenharia, ou a agricultura, ou….. A lista é imensa! Como pode ter surgido tal descompasso entre o que se pensa e o modo como se vive?

Uma explicação plausível é que essas pessoas não estabelecem conexão entre o que aprenderam ser ciência na escola e todos esses produtos de seu cotidiano, ou mesmo com suas atividades profissionais. Podemos então não estar ensinando ciência de modo apropriado. Esta me parece uma conclusão importante. O problema tem certamente muitas raízes. Não seria possível dizer que o mito do método científico como atividade mecânica seja a única causa do problema. Mas parece-me que é parte da causa, porque apresenta de modo assustadoramente pobre uma das atividades mais instigantes da humanidade, fazer ciência.

 

Charbel N. El-Hani

Instituto de Biologia/UFBA

 

PARA SABER MAIS:

Bauer, H. H. 1994. Scientific Literacy and the Myth of the Scientific Method. University of Illinois Press.

Godfrey-Smith, P. 2003. Theory and Reality. The University of Chicago Press.

Numbers, R. L. & Kampourakis, K. 2015. Newton’s Apple and Other Myths about Science. Harvard University Press.

 

Figura: Mito do método científico como receita de bolo é algo tão divulgado que está presente em uma série de páginas da Wikipedia. Esta imagem, por exemplo, se encontra na página sobre pseudociência, em inglês

Qual será a importância da estupidez na pesquisa científica?

“Já que você é cientista, me diga aí…”. Essa é uma frase que nós cientistas ouvimos muito, em vários lugares. Dos nossos parentes, amigos, de pessoas que conhecemos. Seja sobre o Universo, máquina de lavar, forno micro-ondas, aquecimento global ou sobre a fruta que estamos comendo. Mas será que temos tantas respostas assim? Como é que nos sentimos perante a nossa ignorância?

Motivado pelo ensaio intitulado “The importance of stupidity in scientific research” (em tradução livre “a importância da estupidez na pesquisa científica”), escrito por Martin A. Schwartz, professor do Departamento de Microbiologia da Universidade de Virginia (EUA), que me foi enviado pelo querido amigo Danilo Coimbra, refleti um tanto e escrevo este post. No seu texto, o Prof. Schwartz nos conta que depois de anos encontrou uma amiga, que fez pós-graduação na mesma época que ele, e com muito espanto soube que ela desistiu de ser cientista para fazer direito e trabalhar como advogada. Abismado com a notícia ele perguntou o motivo e ela revelou que se sentia estúpida o tempo inteiro, por isso mudou de área. É importante destacar que ela, desde aquela época, era muito competente e que essa competência se reflete na posição que ela ocupa hoje. Isso tocou o Prof. Schwartz, que ficou refletindo sobre o assunto por dias e percebeu que este é um sentimento bem comum para ele. Mas por que será que ele continua? Continue Lendo “Qual será a importância da estupidez na pesquisa científica?”

Glória a Darwin nas alturas

Gostaria de falar hoje para aqueles que abraçam a ciência, aqueles que entendem que a ciência é fonte de crescimento econômico. Gostaria de falar para aqueles mais exigentes, que raciocinam em seu dia a dia, que buscam fundamento em fatos, experimentos, na história, na análise criteriosa. Isso inclui todas as ciências humanas, exatas e biológicas, toda a filosofia e a epistemologia, e todas as pessoas instruídas e de bom senso: é muita gente. Quero falar com pessoas razoáveis e inteligentes, porque não quero aqui ficar defendendo o óbvio, não quero ter que me postar a defender Darwin quase dois séculos depois de ele ter convencido a humanidade de que a vida é uma grande árvore de parentescos. Quero sim é honrar Darwin, e nada melhor para honrá-lo que desafiá-lo permanentemente, pois é assim que a ciência funciona.

O pilar central da teoria evolutiva é a seleção natural. Spencer cunhou a expressão “a sobrevivência do mais forte”, adotada por Darwin. Muitos esquecem, no entanto, que Spencer e Darwin tinham visões distintas sobre o significado de seleção natural. Para Darwin, a seleção natural é principalmente um processo que atua lentamente através de gerações sucessivas. Para que esta seleção natural darwiniana funcione, deve haver uma população de indivíduos que variem entre si com relação a uma característica (indivíduos com miopia ao lado de indivíduos com hipermetropia), devem existir mutações aleatórias nesta característica (olhos mutantes com astigmatismo ou visão normal), e deve haver herança desta característica (filhos devem herdar dos pais tais características da visão). Assim, as características mais aptas (os melhores olhos) vão se fixando por seleção natural, que vai gradualmente criando as adaptações a partir de uma massa de variações inicialmente amorfa, como um artista que cria da pedra amorfa as mais perfeitas esculturas. Ao focar na capacidade criativa da seleção natural, muitos darwinistas insistiam que características isoladas, como um olho, uma asa, ou uma garra, evoluiriam cada uma delas para um funcionamento perfeito: para uma melhor visão, para um voo ou uma captura cada vez mais eficazes. O que evolui nesta perspectiva são as partes do corpo. Para entender isso melhor, imagine cada parte do corpo como uma das cartas de um baralho, algumas mais rotas, outras riscadas, outras ainda em perfeito estado. Um indivíduo é um baralho completo, e há muitos indivíduos formando uma população de baralhos. Quando um indivíduo se reproduz, seu filho é uma mistura do pai e da mãe: é como se gerássemos um novo baralho (o filho), escolhendo dentre as cartas do baralho pai e do baralho mãe, só que o filho pode também conter cartas novas (mutações), que diferem das de seus pais. Como todos da população se reproduzem normalmente, temos um grande embaralhamento acontecendo a cada geração, e a seleção natural vai escolhendo, geração após geração, sempre as partes do corpo (cartas) que melhor desempenham sua função. Assim, como as melhores mutações (as melhores cartas) favorecem a sobrevivência, ao final de sucessivos embaralhamentos as características serão perfeitas: não haverá mais cartas rotas ou marcadas na população.

Já para Spencer, é o indivíduo, e não uma população amorfa, que é o foco da seleção. Se eu digo que me adaptei a uma nova situação, estou usando a palavra adaptação da forma que Spencer a usava. Ao invés de focar, como muitos darwinistas da síntese moderna, em características isoladas, como um olho, uma asa, ou uma garra, Spencer acreditava que a integração entre as várias partes de um organismo era o principal desafio para a sobrevivência. Para continuar na metáfora do baralho, podemos dizer que para Spencer o fundamental não é ter cartas perfeitas sem marcas ou riscos: o mais importante é termos uma boa cartada, é termos na mão o zap e o sete de copas (para os truqueiros), ou uma quadra de ases (para quem joga pôquer), ou uma sequência de ás a rei (para quem gosta de buraco). A qualidade de cada carta (cada parte do corpo) é menos relevante, pois é o conjunto (a quadra de ases, mesmo que o ás de copas esteja meio riscado) que dirá se o indivíduo será o mais apto (vencerá) na luta pela sobrevivência. Para Spencer, a seleção natural escolhe as melhores cartadas, não as melhores cartas: os melhores indivíduos, não os melhores caracteres.

Estas diferentes concepções de seleção natural foram exploradas em texto recente por David Depew, que mostra que Darwin inclusive se arrepende, em cartas, por não ter dado o devido valor a esta visão de Spencer que coloca o indivíduo, e não apenas a população, no foco do processo evolutivo. Estaria Depew dizendo então que o indivíduo evolui? Não, nada disso. O que evolui é a espécie: o ponto de Depew é que o indivíduo pode ser ativo, pode se ajustar ao ambiente, pode mudar o ambiente. O indivíduo não é apenas selecionado, ele seleciona, ele tem um papel no processo evolutivo, pois ele cria através de suas atividades o material sobre o qual a seleção natural poderá trabalhar. Este ponto é fundamental. Para que a seleção natural seja a força criativa (a artista) do processo evolutivo, as mutações, as novas variações, devem ser aleatórias. Se as mutações são aleatórias, burras, se os variantes atiram para todos os lados e portanto não visam atingir alvo algum, não visam resolver o problema biológico (enxergar melhor, capturar melhor, etc.), e se mesmo sendo assim aleatórias as variações, após inúmeras gerações os sobreviventes acertam o alvo sistematicamente, ou seja, após inúmeras gerações uma solução otimizada para o problema surgiu (olhos que evoluíram para enxergar melhor), repito, se os indivíduos não sabem o que fazem mas ao final da seleção natural todos acertam a resposta, a força criadora não está nos indivíduos, e sim na própria seleção natural, que seria de fato a criadora das adaptações, a artífice deste processo evolutivo. Agora, se os variantes não são aleatórios, se os variantes já estão ativamente resolvendo os problemas biológicos novos da melhor maneira possível (estão todos já de cara tentando acertar o alvo), então não é a seleção natural que está criando as soluções, pois os próprios indivíduos que já estão adaptados. Neste caso são os indivíduos que criam as soluções: seja por tentativa e erro, seja por aprendizagem social, os indivíduos encontram boas soluções para o problema adaptativo, e são sobre soluções já razoáveis que a seleção natural vai finalmente trabalhar.

Sei que muitos biólogos vão querer brigar comigo. Poxa, deu tanto trabalho fazer as pessoas entenderem que a seleção natural é a força criadora da evolução, que não há nenhum outro criador inteligente, e vem você agora querer, literalmente, embaralhar novamente as ideias? Entendo perfeitamente esta preocupação. Entendo, curto, e compartilho. Mas … a evolução precisa evoluir. As pessoas instruídas já são capazes de entender que pode haver criação sem um criador divino. A biologia venceu esta batalha, apesar de haver bebês chorões esperneando ainda por aí. Como disse no início, não estou escrevendo aqui para pessoas que defendem absurdos como a terra plana, o negacionismo do clima, o desígnio inteligente, a leitura direta (“sem interpretação”) das escrituras sagradas, ou seja, não estou buscando falar com gente que nega a ciência no facebook pela manhã, e pela tarde vai à sua consulta médica, para resolver cientificamente seus problemas de saúde. Estou me dirigindo aqui a pessoas que entenderam a revolução que aconteceu lá atrás no século XVII, gente que sabe que só lançamos foguetes e manipulamos genes graças às ciências (humanas, exatas, biológicas, todas elas). A estas pessoas sensatas pergunto: como fazer a biologia avançar?

Acho que os evolucionistas precisam abandonar a metáfora da chave e da fechadura. Explico. Frequentemente, ao explicar seleção natural, dizemos que o ambiente é uma fechadura, e os organismos vão lentamente evoluindo até encontrarem a chave que abre a porta e resolve aquele problema biológico específico. A adaptação (a carta no baralho, na metáfora explorada acima) seria uma chave que lentamente evolui para abrir a fechadura (p.ex., capturar o alimento). Falamos isso, porque entendemos que existe uma chave ideal para abrir aquela fechadura. No entanto, na natureza, chave e fechadura se co-determinam. As propriedades do ambiente estão conectadas às propriedades dos organismos que nele vivem primeiramente em um sentido bem direto, dado que os organismos constróem ou modificam seu próprio ambiente seletivo. Em um sentido mais refinado, sabemos que não compartilhamos todos um mesmo ambiente efetivo. Cada espécie animal vive em um bolha perceptual, e realça do ambiente algumas propriedades. Se cada espécie vive em um ambiente efetivo diferente, qual é este ambiente externo que está selecionando todas as espécies? Se são os organismos que criam inteligentemente seu ambiente seletivo, onde está esse ambiente externo aos organismos, onde está esta fechadura que não se molda, estas pressões seletivas que não são selecionadas? As relações entre organismo e ambiente precisam ser reformuladas, e quando encontrarmos uma formulação adequada para o entrecruzamento entre ontogenia e evolução, entre aprendizagem e pressão seletiva, a ideia atual de seleção natural estará ultrapassada: mas ainda assim permaneceremos todos evolucionistas.

Hilton Japyassú (UFBA)

Para saber mais:

Depew, DJ (2017). Natural selection, adaptation, and the recovery of development (pp.37-67). In: Huneman, P. & Walsh, DM. (2017). Challenging the modern synthesis: adaptation, development, and inheritance. Oxford: Oxford University Press.

Pocheville, A. & Danchin, É. (2017). Genetic assimilation and the paradox of blind variation (pp. 111-136). In: Huneman, P. & Walsh, DM. (2017). Challenging the modern synthesis: adaptation, development, and inheritance. Oxford: Oxford University Press.

Love, AC. (2017). Evo-devo and the structure(s) of evolutionary theory (pp. 159-187). In: Huneman, P. & Walsh, DM. (2017). Challenging the modern synthesis: adaptation, development, and inheritance. Oxford: Oxford University Press.

Imagem produzida por ocasião do aniversário de 135 anos da morte de Charles Darwin.

Quanto custa evitar a catástrofe ambiental?

A comunidade científica tem mostrado sistematicamente os riscos que corremos de uma catástrofe ambiental. Quanto custa evitá-la?

Nesta postagem, discuto o estado do mundo e nossas perspectivas de ação diante dos riscos crescentes de catástrofe ambiental. Esse assunto se tornou foco de negacionismo nesses tempos da pós-verdade. Mas como diz o ditado, não adianta tapar o sol com peneira. As evidências de que estamos nos encaminhando para uma catástrofe ambiental são claras, inegáveis até, e o que boa parte da humanidade está fazendo diante da situação me faz pensar em metáforas como a de um avestruz enfiando a cabeça num buraco ou numa cena do filme Titanic, inspirada em fatos reais (em contraste com a metáfora do avestruz), na qual se ordena à orquestra que siga tocando enquanto o navio afunda.

A comunidade científica tem avisado repetidamente sobre tal risco. Em 1992, a União de Cientistas Preocupados (Union of Concerned Scientists), incluindo a maioria dos Prêmios Nobel então vivos, publicou um aviso à humanidade (World Scientists’ Warning to Humanity). O intuito era encorajar uma diminuição da destruição ambiental de modo a evitar substancial miséria no futuro de nossa espécie e do restante da biosfera. Há 25 anos, os cientistas buscavam cumprir seu papel ao expressar preocupação com os prejuízos ao planeta Terra relativos à diminuição da camada de ozônio, da disponibilidade de água doce, da vida marinha, das florestas, da biodiversidade, bem como à mudança climática. Eles nos lembravam de que mudanças fundamentais eram necessárias para evitar que nos aproximássemos de muitos limites de tolerância do planeta e da biosfera, a partir dos quais grandes e irreversíveis prejuízos poderiam ocorrer.

Em 2017, 15.364 cientistas de 184 países lançaram um segundo aviso (versão em português aqui). Fui um dos signatários. Passados 25 anos daquele primeiro aviso, a análise da série temporal de dados mostrou que, com exceção da estabilização da camada de ozônio, a humanidade havia fracassado em realizar progressos suficientes para fazer frente aos desafios ambientais. Antes pelo contrário, muitos dos problemas causadas por nosso sistema de produção e consumo e nosso estilo de vida haviam piorado. Se uma catástrofe ambiental era visível num horizonte ainda relativamente distante em 1992, em 2017 estava claro que estávamos rumando a passos largos a um estado de transição do sistema planetário de graves consequências, com uma janela de oportunidade limitada para alterar o curso da deterioração das condições de funcionamento do planeta Terra, de manutenção da biosfera e de preservação de nossas condições de vida.

Embora não constituam de modo algum os únicos problemas que o sistema Terra agora enfrenta, alguns desafios foram colocados em destaque naquele segundo aviso: a trajetória de mudança climática, claramente atribuível ao aumento da concentração de gases estufa (para quem se deixa seduzir pelo canto da sereia negacionista, sugiro ler “Mercadores da Dúvida”, Merchants of Doubt, de Naomi Oreskes e Erik Conway, ou “Avaliando ‘Mudança Climática Perigosa’”, de James Hansen e colaboradores, ou assistir falas de Naomi Oreskes, no You Tube e no TED); a perda de vegetação nativa, a perda de biodiversidade associada (correspondente a uma extinção em massa) e seus muitos impactos sobre os serviços que os ecossistemas propiciam à humanidade; e os impactos do modelo dominante de produção agrícola, especialmente da pecuária associada a dietas baseadas no consumo de carne.

A perda de biodiversidade causa especial preocupação. Desde 1998, a WWF publica a cada dois anos o Relatório Planeta Vivo, uma compilação muito informativa e útil sobre o estado do planeta, leitura fundamental tanto para o público em geral quanto para tomadores de decisão. Entre as muitas fontes de informação compiladas nesse relatório temos o Índice Planeta Vivo (Living Planet Index), que fornece uma medida do estado da diversidade biológica do planeta com base nas tendências populacionais de espécies de vertebrados de diferentes habitats terrestres, marinhos e de água doce.

No Relatório Planeta Vivo de 2018 (sumário em português aqui), podemos ver que, de 1970 a 2014, a abundância média de 16.704 populações monitoradas em todo o globo, pertencentes a 4.005 espécies, sofreu um declínio médio de 60%. No caso das populações de espécies de água doce, tivemos o pior declínio no mesmo período (em média, 83%). Para espécies marinhas, o declínio médio, de 1970 a 2012, foi de 36%, conforme relatado no Relatório Planeta Vivo de 2016 (sumário em português aqui). No mesmo relatório, vemos que, para espécies dependentes de terras úmidas (wetlands), esse declínio foi de 39%; para espécies terrestres, de 38%; e para espécies de florestas tropicais, de 41%.

A situação a que chegamos é muito séria, de fato comparável a uma extinção em massa. Este ano foi divulgado que até 1 milhão de espécies estão ameaçadas de extinção, muitas nas próximas décadas. 5,9 milhões de espécies terrestres (9% de tais espécies) não têm habitat insuficiente para sobrevivência a longo termo a não ser que seja feita restauração. Na história do planeta, esta é a segunda extinção em massa causada por seres vivos. A primeira foi causada pela evolução da fotossíntese em cianobactérias, que levou à extinção de uma grande diversidade de espécies anaeróbicas obrigatórias, no chamado holocausto do oxigênio. Mas, diferente de nós, as cianobactérias não tinham opção de não realizar fotossíntese e, assim, a elas não se poderia imputar responsabilidade pela extinção de outras espécies. Nosso caso é muito distinto, porque à nossa espécie cabe tal responsabilidade, dado que temos opção de fazer as coisas de modo diferente.

Mas qual seria o problema de tal perda de biodiversidade? De um lado, essa perda se mostra problemática pelo valor intrínseco da vida e de sua diversidade, de cada espécie que compõe a biosfera. Valor intrínseco tem sido objeto de controvérsia, pela dificuldade de sua mensuração, o que – argumentam alguns – dificulta que tenha papel importante nos debates sociais, políticos e econômicos. Não podemos perder de vista, contudo, que o valor intrínseco coloca uma questão central em foco, a qual é perdida de vista quando nos prendemos apenas aos valores instrumentais que a biodiversidade tem para nossas vidas: trata-se precisamente da questão de nossa responsabilidade, como seres capazes de deliberação e escolha, pela perda das outras formas de vida com as quais dividimos o planeta. Mas mesmo que o valor intrínseco da vida não cale fundo no seu ser, ainda assim você teria boas razões para se preocupar com a perda da biodiversidade, por conta dos chamados valores instrumentais, ou, dito de outra maneira, pelos serviços ecossistêmicos fornecidos pela vida. Afinal, sem os sistemas ecológicos e seres vivos, não poderíamos permanecer vivos, quanto mais manter a qualidade de nossa existência.

Introduzido em 2009, o conceito de limites planetários busca definir limites ambientais dentro dos quais a humanidade pode operar com segurança. Trata-se de uma maneira de sumariar os desafios que enfrentamos e buscar influenciar o desenvolvimento de políticas globais que possam propiciar uma transição para a sustentabilidade. Na última versão do modelo de limites planetários, que pode ser visto na imagem de abertura, foram incluídos nove limites, relativos a integridade da biosfera, mudança climática, novas entidades (novas substâncias, novas formas de substâncias preexistentes e formas de vida modificadas com potencial de gerar efeitos geofísicos e/ou biológicos indesejáveis), diminuição da camada de ozônio, carga de aerossóis na atmosfera, acidificação dos oceanos, fluxos biogeoquímicos (de fósforo e nitrogênio), uso de água doce e mudanças nos padrões de uso da terra. O modelo é capaz de mostrar quando a humanidade está num espaço de operação seguro em relação a um dado limite do planeta (cor verde), quando se encontra numa zona de incerteza, com risco crescente de ultrapassar um dado limite (cor amarela), e quando um limite já foi ultrapassado, levando nossa operação para além da incerteza (cor vermelha), com grande risco de que levemos o sistema Terra a operar em um novo estado, no qual serviços fundamentais para a nossa sobrevivência e qualidade de vida podem desaparecer. A análise dos limites planetários em 2015 mostrou que, conforme nosso melhor conhecimento, já estávamos operando para além da zona da incerteza, em alto risco, em três deles. Ultrapassamos os limites de integridade da biosfera e de funcionamento dos fluxos de fósforo e nitrogênio (especialmente pelo extensivo uso de fertilizantes contendo esses elementos químicos), a ponto de acarretar um novo estado de funcionamento. Em dois outros limites importantes, já operamos na zona de incerteza: mudanças climáticas e dos padrões de uso da terra.

O modelo dos limites planetários propicia uma maneira muito útil de entender os riscos e descompassos associados ao modo como as sociedades humanas têm operado em sua relação com a biosfera e o sistema Terra. Ele reforça o aviso lançado em 2017 por cientistas que buscaram mostrar como estamos ameaçando nosso futuro ao não enfrentarmos o problema do consumo dos recursos do planeta, bem como de suas marcantes desigualdades em termos geográficos e demográficos. Não se trata, contudo, de apenas emitir um aviso, mas de sugerir caminhos para a solução da atual crise socioambiental, mencionando-se naquele artigo a limitação do crescimento populacional, a reavaliação de politicas econômicas baseadas no crescimento (por exemplo, do PIB, em contraste com modelos de desenvolvimento sem crescimento), a redução das emissões de gases estufa, o incentivo ao uso de energias renováveis, a proteção dos habitats naturais, a restauração de ecossistemas, o controle da poluição, o combate à perda de animais (defaunação) e o controle das espécies invasoras.

Entre as expectativas dos que assinaram o artigo, havia a ação sociopolítica, incentivando-se cientistas, influenciadores na mídia e cidadãos em geral a insistirem para que governos tomassem medidas imediatas em relação aos problemas postos, como um “imperativo moral diante das gerações atuais e futuras de seres humanos e das outras formas de vida”. Mas também havia uma expectativa para cada um de nós, em nossos modos de vida: de que reexaminássemos e buscássemos mudar nossos comportamentos individuais e padrões de consumo.

Esses eram passos urgentes em 2017, num esforço de salvaguardar o planeta e a biosfera de crescentes e substanciais ameaças, e são ainda mais urgentes hoje, quase dois anos depois. Uma diferença muito importante é que uma quantidade crescente de líderes mundiais e também da população em geral se recusa a escutar a comunidade científica em tempos recentes. Diante da gravidade da situação em que se encontra o planeta e, por consequência, nossa própria existência, quanto estaríamos dispostos a investir para resolver ou mitigar os problemas ambientais que nos desafiam?

Quanto custa a conservação de áreas protegidas?

Por mais que seja interessante considerar essas estimativas relativas ao custo de manter áreas protegidas, é evidente que elas não são suficientes para fazer frente aos desafios que o estado do planeta nos coloca. Para fazermos uma transição rumo à sustentabilidade, necessitamos mudar nosso sistema de produção e consumo.

Avaliar o custo da gestão de áreas protegidas nos países em desenvolvimento não propicia, decerto, uma estimativa global de quanto custaria resolver ou mitigar todos os problemas ambientais contemporâneos. Contudo, fornece uma perspectiva relevante acerca da distância a que nos encontramos dos investimentos necessários. Uma estimativa disponível na literatura estabelece que seriam necessários 13 bilhões de dólares por ano para manter uma extensão suficiente de áreas protegidas nos países em desenvolvimento. Esse valor está bem além dos investimentos anuais em tais áreas protegidas. Contudo, não é difícil mostrar que esses investimentos podem ser alcançados, sobretudo se os compararmos com outros gastos globais. Por exemplo, 13 bilhões de dólares equivalem a 1% do que governos de todo o mundo gastam por ano em subsídios prejudiciais ao meio ambiente. Para usar outra comparação que mostra como, diante do estado do mundo, temos alocado recursos financeiros de modo equivocado, esse valor corresponde a 2% do que os norte-americanos gastam por ano em refrigerantes. Por fim, uma análise somente dos custos das áreas protegidas não considera os benefícios que essas áreas oferecem, inclusive de ordem econômica. Em muitos casos, a proteção de áreas biologicamente importantes pode gerar renda que supera os custos de sua criação e manejo.

Mudar sistema de produção e consumo… Mas em que direção?

Uma métrica muito interessante para pensar nosso impacto sobre o planeta Terra é a pegada ecológica. Ela mede o impacto das atividades humanas em termos da área de terra e água biologicamente produtivas necessária para produzir os bens consumidos e assimilar os rejeitos gerados por aquelas atividades. Ela corresponde, pois, ao ambiente necessário para produzir os bens e serviços necessários para suportar certo estilo de vida. É possível cada um calcular sua pegada ecológica. Combinando-se a pegada ecológica de todos os humanos, podemos calcular a pegada ecológica global.

Em 2014, estimou-se que a pegada ecológica global era de cerca de 20 bilhões de hectares, o que corresponde a uma Terra e meia. Isso torna muito evidente nossa insustentabilidade. Obviamente, não temos uma Terra e meia. Evidentemente, mesmo que nossa pegada ecológica fosse uma Terra, ainda seríamos insustentáveis, porque o planeta Terra deve manter não somente nossa espécie. E antes de nutrir esperanças de que poderíamos encontrar outro planeta para viver, convido o leitor a pensar não somente na improbabilidade de que seja encontrado algum lugar para ir a uma distância viável, mas, para além disso, em quem serão os “escolhidos” para colonizar outro planeta. Ou alguém acha que 7 bilhões de humanos seriam translocados para algum outro lugar?

Pegada ecológica global. De WWF: Living Planet Report 2018 (p. 30).

Um modo interessante de entender a relação entre nosso estilo de vida e sistema de produção e consumo, de um lado, e sustentabilidade, de outro, é cruzar dados sobre pegada ecológica com dados sobre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

Pegada ecológica em relação ao IDH ajustado para desigualdade. De WWF: Living Planet Report 2014 (p. 60) – Sumário em português aqui.

Usemos esse gráfico para pensar o chamado desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento sustentável pode ser considerado um oxímoro, figura de linguagem que relaciona numa mesma expressão palavras que exprimem conceitos contrários. Para alguns, o conceito de desenvolvimento sustentável esvaziou os debates sobre as questões ambientais ao produzir um superficial consenso. Como seria possível desenvolvimento sustentável numa humanidade com pegada ecológica de uma Terra e meia? Desenvolver com sustentabilidade em tal situação? Claramente isso é impossível se desenvolvimento corresponder a crescimento econômico! Lovelock pode muito bem estar certo ao afirmar que somente podemos conduzir nosso sistema de produção e consumo para um retrocesso sustentável. Ou a alternativa pode ser promover desenvolvimento sem crescimento econômico, o que implica distribuir benefícios de maneira mais igualitária.

No gráfico acima, podemos ver, à primeira vista, como o conceito de desenvolvimento sustentável poderia ser operacionalizado. Vejam o quadrado verde na base direita do gráfico, que indica como poderíamos ser sustentáveis: pegada ecológica abaixo de uma Terra e IDH acima de 0,8. Mas não há qualquer país nesse quadrado verde! Assim, tratar-se-ia mesmo de operacionalizar desenvolvimento sustentável ou de reforçar que se trata de um oxímoro que pauta um consenso sem consequências? Para falar de modo muito simples e direto, esse gráfico mostra que nossos sistemas de produção e consumo só têm dois atratores: ou não se tem qualidade de vida (falando de modo bem cru, se morre de fome) e se é sustentável, ou se tem qualidade de vida (sendo bem claro, mais do que se precisa) e não se é sustentável.Não conheço melhor evidência da necessidade de mudarmos nossos sistemas de produção e consumo.

Também fica claro nesse gráfico como não temos ainda qualquer indicação sobre qual seria o sistema de produção e consumo para onde deveríamos ir. Isso é importante, de um lado, porque indica que devemos de fato atentar à natureza autocontraditória do desenvolvimento sustentável e aos seus efeitos de esvaziamento dos debates sobre questões socioambientais. De outro, mostra que não se trata de pensar numa opção entre diferentes sistemas de produção e consumo que estariam colocados, mas de repensar mais profundamente as condições de nossa existência no planeta. Ao polarizarmo-nos em nossas posições políticas, podemos estar simplesmente perdendo de vista o quadro mais geral do mundo (the big picture).

Concluindo: o que fazer?

No último fim de semana, num evento de passarinhada promovido pela Macaw Birdwatching no Vale Encantado, aqui em Salvador, fiz uma pequena fala em meio à restinga e um dos participantes (obrigado pela questão, Chermont!) perguntou “o que a gente poderia fazer?” A pergunta se situava localmente, mas as conexões entre contextos locais e globais, num mundo de problemas na escala planetária, autorizam a pensá-la globalmente. É uma pergunta muito importante, porque é sobre esperança e sobre não nos sentirmos impotentes: o que podemos fazer diante de tudo isso? Gostaria assim de fechar este texto com algumas sugestões em resposta a essa provocação.

É importante, antes de tudo, que não deixemos de lado a racionalidade. Ela nos define como humanos. Quem abandona a racionalidade, abandona a humanidade. Por racionalidade, entendo aqui a atitude de não aceitar qualquer afirmação que se faça sobre o mundo sem apreciar as razões que apoiam a afirmação e as fontes de confiança nas informações mobilizadas para sustentar tais razões. As razões são muitas e sem dúvida não são apenas científicas, tampouco são apenas empíricas (não vêm somente da experiência), mas quando se trata do mundo natural, as evidências que temos disponíveis são uma razão muito importante para aceitarmos afirmações a seu respeito. Nesta postagem, abordei algumas dessas evidências (na verdade, a ponta de um iceberg). Uma pessoa racional respeita as evidências ao pensar sobre o mundo natural. A evidência é para ela um sintoma, um sinal, uma marca da verdade. Assim, uma primeira atitude que cada um de nós pode ter é, em vez de cair vítima da desinformação, hoje muito ruidosa nas correntes de Whatsapp e em outras redes sociais, buscar informação, assegurar-se das fontes de informação em que decidimos confiar, saber do que está ocorrendo da maneira mais completa possível.

Devemos também nos perguntar o que podemos fazer, que diferença podemos representar em nossa realidade próxima, nosso bairro, nossa cidade, escola, universidade, nosso trabalho, nosso país. Agindo localmente e pensando globalmente, sendo capazes de ver o quadro mais geral do mundo, podemos fazer diferença. São questões para nosso dia-a-dia: O que mudar em nosso estilo de vida de modo a contribuir para um mundo melhor? O que mudar em nossos padrões de consumo? O que mudar em nossa alimentação? O que mudar na educação de nossas filhas e filhos?

Mas devemos estar cientes de que não basta agir em nossas vidas individuais. Precisamos pensar o que fazer coletivamente, e então agir politicamente, por exemplo, buscando ser fontes de informação nesse oceano de desinformação em que o Titanic naufraga. Por exemplo, contribuindo para pressionar nossos governantes a tomar atitudes e decisões que favoreçam a conservação do planeta, a sobrevivência da biosfera e nossa própria. Não se trata de ação partidária, para impedir ecos indevidos nesse país em que hoje vivemos. Agir politicamente é agir como cidadão. A palavra ‘política’ vem do grego polis, o que sugere que ser cidadão é discutir os problemas de nossa cidade, para nós hoje, nosso mundo, e agir em relação a eles. Qualquer um faz e deve fazer política, e isso não implica agenda partidária alguma, ao menos não necessariamente. Como a palavra “cidadão” se tornou desgastada, de tanto ser usada sem significado claro, devo dizer como a entendo, na esteira do que diz Henry Giroux: um cidadão é um agente moral e político que possui um sentido compartilhado de esperança e responsabilidade em relação aos outros, não somente em relação a si mesmo.

Para dar apenas mais uma sugestão, esta relativa a como educamos nossos filhos e filhas: propiciem a eles experiências de natureza! Levem-nos a restingas, florestas, praias conservadas, caatingas, cerrados, campos rupestres, não deixem que cresçam achando que leite se faz na prateleira do supermercado, ou sem saber que sem abelha não tem fruta, legume ou vegetal! Uma série de estudos tem mostrado que experiências de natureza são importantes preditores de uma atitude pró-conservação, esta de que tanto necessitamos se formos mesmo sobreviver. A separação das pessoas em relação à natureza, nos ambientes urbanos, mas também em ambientes rurais degradados, explica em boa parte a dificuldade que muitos enfrentam para entender o quadro geral em que nos encontramos, o estado do planeta e as atitudes e decisões que ele de nós demanda. Não deixem que suas filhas e filhos se somem à multidão dos desconectados da natureza. Ou que se somem aos consumidores e propagandistas da desinformação!

Charbel N. El-Hani

Instituto de Biologia/UFBA

PARA SABER MAIS:

Bruner, A. G., Gullison, R. E. & Balmford, A. (2004). Financial costs and shortfalls of managing and expanding protected-area systems in developing countries. BioScience 54: 1119-1126.

Ripple, W. J. et al. (2017). World scientists’ warning to humanity: A second notice. BioScience 67: 1026-1028.

Steffen, W. et al. (2015). Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet. Science 347: 1259855.

WWF (2018). Relatório Planeta Vivo.

Imagem de abertura: Modelo de limites planetários. Figura reproduzida de artigo de W. Steffen e colaboradores, de 2015, Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet.

Filósofo muçulmano descobriu teoria de Darwin mil anos antes do naturalista inglês?!

Não exatamente. Se compreendemos como funciona a ciência e o que é uma teoria científica, podemos colocar tais afirmações sensacionalistas em perspectiva.

Recentemente, os meios de comunicação divulgaram, com ampla disseminação via Whatsapp, notícias de um filósofo muçulmano, al-Jāḥiẓ, que teria formulado a “teoria da evolução” mil anos antes de Darwin. Há de fato uma vasta tradição de ciência e filosofia árabes que é com muita frequência, mais do que deveria, ignorada pelo ocidente. Muito se fala da contribuição da filosofia grega para a modernidade, que de fato foi importante, mas se negligencia a enorme influência árabe sobre as universidades medievais, que tiveram papel relevante na revolução cientifica do século XVII, ou o fato histórico de que, quando os escritos gregos estavam perdidos na Europa, foram pensadores árabes que reintroduziram ideias de Aristóteles, Platão e outros pensadores da Grécia clássica. Continue Lendo “Filósofo muçulmano descobriu teoria de Darwin mil anos antes do naturalista inglês?!”

Retornando à Verdade, Superando um Mundo Pós-Factual

Verdade absoluta é um conceito inútil para entender o conhecimento humano. Noções alternativas à de “verdade absoluta” seriam mais úteis?

Há ideias sobre o mundo que são tão bem apoiadas por evidências que podem ser consideradas “fatos”, algo de que tratamos  em postagem anterior. Lá, nosso argumento foi o de que “verdade” é um conceito inútil para entender o conhecimento humano. A razão para isso deve-se à própria natureza do conhecimento, que é construído com base em nossa capacidade de captar informações e interpretá-las. Nossos limites perceptivos e cognitivos, assim como o fato de que todo conhecimento é construído com base em conhecimentos prévios dos quais dispomos, restringem o entendimento que podemos construir. O resultado é que possuímos uma “rede interligada de ideias sobre o mundo”, que nos permitem construir teorias e modelos que frequentemente guiam de modo eficaz nossa ação. Isso é algo bastante diferente da ideia de uma única e definitiva verdade.

Descartar a verdade como conceito útil para pensar o conhecimento humano carrega em si uma série de simplificações. Essas simplificações são úteis para veicular ideias sobre como cientistas (e também outros agentes humanos) constroem conhecimento. Entretanto, não deve causar espanto que, por limitar o conceito de verdade à ideia de uma verdade absoluta, elas também têm suas próprias limitações. Quando escrevemos o texto anterior, não tratamos de tais limitações, por causa de nosso desejo de enfatizar algumas ideias. Esta foi uma decisão que deve ser entendida à luz da retórica.

A retórica pode ser considerada a arte da persuasão. Ela diz respeito à capacidade de usar a linguagem para se comunicar de modo eficaz e convincente. Para isso, devemos construir nossos argumentos tendo em mente um público. Para quem estamos escrevendo? Sem ter isso em vista, não é fácil ser persuasivo. Estudiosos da retórica, como Chaïm Perelman, destacam assim o papel da audiência na retórica: todo texto que visa a persuasão deve ser escrito com uma audiência em mente. Isso implica, entre outras coisas, tomar decisões sobre o que dizer e o que não dizer, em vista da persuasão pretendida.

No caso de nossa postagem anterior, pretendíamos que ela fosse convincente sem demandar dos leitores que se engajassem em discussões filosóficas para além da simples lição que tínhamos em foco: quando abandonamos os fatos ao lidar com o mundo, corremos muitos riscos.

Contudo, essa decisão não é sem custos. Na postagem de hoje, explicitaremos um custo que pagamos e tentaremos então ir além das simplificações que fizemos na postagem da semana passada. Nosso foco muda um pouco, passando a recair sobre a exploração do significado da verdade de modo mais rigoroso, dando atenção ao fato de que podemos nos referir à verdade de diferentes formas. Esse esforço valerá a pena, esperamos, pois poderá ser revelador sobre como o conhecimento é produzido.

Novos significados para a verdade

Uma simplificação comumente feita ao tratar do termo “verdade” é considerá-lo como sinônimo de “verdade absoluta” (que foi o que fizemos em nossa postagem anterior). Essa noção de verdade é pouco útil quando buscamos entender o conhecimento humano. Como vimos, somos seres limitados, com ideias sobre o mundo que são dependentes umas das outras, de tal maneira que não podemos pensar no conhecimento como uma simples revelação sobre a realidade. Podemos acrescentar: nenhum conhecimento pode ser construído se não a partir de alguns princípios primeiros, de certos pontos de partida. Esses princípios são tomados como dados, no sentido de que, para desenvolver novas ideias, não os questionamos, assumimos que podemos tratá-los como corretos, como auto-evidentes. Muitos dos nossos maiores debates referentes ao conhecimento dizem respeito a esses princípios primeiros. O problema é que discutir princípios primeiros é geralmente de utilidade muito limitada.

Diante desse conjunto de argumentos, podemos então concluir que discutir o conhecimento humano tomando como base a ideia de “verdade absoluta” não nos leva a lugar algum. Nada é verdadeiro em sentido absoluto, e pretender ser detentor de verdade absoluta nada mais é que um artifício de poder. Mas repare que, na postagem anterior, quando tratamos da verdade, não escrevemos “verdade absoluta”. Essa qualificação (“absoluta”) é importante? Vejamos.

Assumir a verdade como absoluta e então recusar sua utilidade para pensar o conhecimento pode levar a inconsistências. Como? Nós também destacamos, na mesma postagem,  a importância de distinguir entre conhecimento (episteme) e opinião (doxa). Citamos Platão sobre a importância dessa distinção no campo da política, lembrança muito pertinente para o mundo de hoje, perdido nas brumas da pós-factualidade. Mas, note-se, este também é dito um mundo da pós-verdade. Estaríamos concordando com a ideia de pós-verdade, ao dizermos que a verdade é inútil para entender o conhecimento humano? Longe disso. Está claro, então, que precisamos dizer algo mais sobre a verdade.

Para além disso, o próprio Platão argumenta que, sendo tanto conhecimento quanto mera opinião tipos de crença, o que diferencia conhecimento de opinião é que o conhecimento é crença verdadeira e justificada. A contradição bate à nossa porta quando, no mesmo argumento, recusamos a verdade e apelamos ao conhecimento (nas palavras de Platão, crença verdadeira e justificada).

Uns adoram viver em contradição nesse mundo pós-factual. Mas não estamos entre estes. Por isso, é importante hoje retornarmos à verdade para dissipar essa contradição. Para isso, discutiremos noções mais fracas de verdade. Ou, como se costuma dizer na filosofia, noções “deflacionadas”. Isso quer dizer que são verdades mais fracas do que a verdade absoluta. E, dada a nossa convicção da inutilidade da “verdade absoluta”, podemos dizer “apropriadamente” mais fracas. Sem ser absolutamente verdadeiras, porque nada o é, essas formas deflacionadas de verdade são muito importantes, porque mostram como é possível ter confiança na ausência da verdade absoluta. Recorrer a tais formas de verdade constitui, inclusive, forma mais precisa de fazer referência ao que chamamos, na postagem anterior, de “fatos”.

Uma primeira noção deflacionada de verdade pode ser denominada “verdade pragmática”.

Verdade pragmática

Na noção de “verdade pragmática”, a base para determinarmos se uma afirmação sobre o mundo é verdadeira ou não reside na eficácia de sua aplicação prática, ou seja, nas consequências de sua aplicação para nossas ações. Não se trata de rejeitar a noção de verdade, mas de entendê-la de modo distinto da ideia de verdade absoluta. Como nossa mente é ativa na busca de entender o mundo, o conhecimento não pode ser um espelho da natureza. A relação entre conhecimento e realidade não pode ser como um reflexo num espelho, sendo então um reflexo perfeito igual a uma “verdade absoluta”. Como então deixar clara a relação entre conhecimento e realidade?

A ideia de uma verdade pragmática é que essa relação pode ser esclarecida por um apelo às consequências das afirmações para as nossas ações. Seria pragmaticamente verdadeira uma afirmação que leva de modo geral a consequências eficazes e (também frequentemente) positivas sobre o mundo. Por “positiva”, podemos entender uma ação que aumenta nossas chances de sobrevivência, como seres que têm no conhecimento sua principal forma de adaptação ao mundo.

Vamos exemplificar a verdade pragmática retomando um caso que discutimos na postagem anterior: a negação pelo presidente sul-africano Thabo Mbeki de que a AIDS é causada por uma infecção viral. A ideia de que a AIDS não é uma doença viral é falsa em termos pragmáticos, como mostram as consequências negativas que acarretou: milhares de mortes, milhares de crianças nascidas com AIDS. Em contrapartida, a ideia de que a AIDS é causada por vírus é pragmaticamente verdadeira: é uma ideia que catalisou a adoção de medicamentos antivirais em outros países africanos, levando milhões de soropositivos a não desenvolverem AIDS.

Similarmente, a ideia de que a Terra não é plana é pragmaticamente verdadeira, como mostra o simples ato de nos orientarmos usando GPS em nossas vidas cotidianas. O Sistema de Posicionamento Global (GPS) pressupõe que a Terra não é plana. As afirmações de que a AIDS é uma doença viral e de que a Terra não é plana são crenças verdadeiras e justificadas, e podemos dizer isso sem apelar à ideia de verdade absoluta, e sim a uma ideia apropriadamente mais fraca, de verdade pragmática. As afirmações de que a AIDS é uma doença viral e de que a Terra não é plana são, pois, conhecimentos. As afirmações de que a AIDS não é uma doença viral e de que a Terra é plana são, por contraste, meras opiniões. Curiosamente, esta importante distinção é inadvertidamente confirmada pelos crentes na Terra plana que pretendem embarcar num cruzeiro para chegar aos limites do planeta que imaginam: a embarcação se orientará, decerto, usando GPS e, ao fazê-lo, eles estarão inadvertidamente confirmando a verdade (pragmática) de que a Terra não é plana!

A noção de verdade pragmática nos permite introduzir, de modo bastante útil, a ideia de graus distintos de confiança. Algumas ideias, como a de que AIDS é causada por vírus, merecem muita confiança. Isso porque suas consequências mostram repetidamente sua verdade pragmática.

Outras ideias, mesmo que possam ser ditas conhecimentos, em termos pragmáticos, merecem menos confiança, porque mesmo tendo consequências que as apoiam, falham mais nas implicações que trazem para nossas ações. É o caso, por exemplo, do papel de vários fármacos no tratamento de doenças. Eles são “parcialmente eficazes”, porque embora sejam eficazes em muitos casos, têm sua confiança erodida por contra-exemplos nos quais falham. Esses contra-exemplos expõem o fato de que há lacunas em nosso conhecimento sobre o funcionamento de nossos corpos, algo normal e esperado quando conhecimento não corresponde a verdade absoluta.

Um exemplo é o caso da sinvastatina, largamente utilizada para controlar níveis de colesterol. É uma droga que em vários pacientes é pouco eficaz, além de resultar em efeitos colaterais, desencadeando doenças musculares. Deixa de “ser verdade” que a sinvastatina é capaz de controlar o colesterol? Não, mas é uma verdade (pragmática) para a qual há contra-exemplos, que por sua vez também podem ser estudados pela ciência. Há estudos, por exemplo, que identificaram genes que, quando mutados,  alteram o transporte do fármaco nas células, influenciando sua eficácia.

As falhas dos fármacos são aceitáveis, porque são consistentes com a enorme complexidade do tratamento de doenças e a variabilidade entre indivíduos na forma como respondem a tratamentos. Não deixa de ser uma verdade pragmática o papel dos fármacos nos tratamentos, mas é uma verdade que merece menos confiança do que a verdade pragmática de que a AIDS é uma doença viral. É extremamente útil uma noção de verdade que, diferente da verdade absoluta, permite que entendamos os diferentes graus de confiança que merecem nossas afirmações sobre o mundo e as ações que se fundamentam nelas.

A verdade como ideal regulativo

Concluiremos essa postagem com algumas palavras sobre outra visão deflacionada sobre a verdade, que encontramos, entre outros pensadores, em Charles S. Peirce, que, aliás, também é uma das fontes da ideia de verdade pragmática. A verdade pode ser entendida como um ideal. Isso significa que a verdade não será jamais alcançada, atribuindo-se ao termo “verdade” nesse caso o sentido de ser absoluta. Contudo, o que é importante sobre a verdade não é alcançá-la. O que é importante é que a verdade regula nosso pensamento. Ou seja, tudo o mais sendo igual, nós somos pensadores mais poderosos se almejamos a verdade, como meta ideal, apesar de inalcançável. A verdade é, então, um ideal que regula nosso pensamento, um ideal regulativo que tem sua importância em seu papel face ao nosso pensamento. Nada há de importante na proposta de alcançar a verdade, nesse sentido absoluto em que ela aqui comparece. Apelando a ela, apenas nos tornamos mais capazes de gerar, aqui e agora, o conhecimento que nos é possível.

Note, inclusive, que os dois significados deflacionados de verdade discutidos aqui não são mutuamente exclusivos. Afinal, a verdade como ideal regulativo cria a possibilidade de produzir conhecimentos que correspondem a verdades pragmáticas.

Deve estar claro, agora, que nossos argumentos de que a produção do conhecimento não deve recorrer à noção de que há uma verdade absoluta, que poderia ser alcançada, em nada se aproxima da ideia de que devemos aceitar viver num mundo da pós-verdade. Devemos seguir regulando nosso pensamento pelo ideal da verdade, como todos os humanos devem fazer, em especial se ainda se pretendem racionais, e devemos seguir em busca de verdades pragmáticas, com as consequências mais positivas para as nossas ações e a nossa sobrevivência. Desprezar os fatos ao lidar com o mundo, abandonar a racionalidade e o respeito à evidência são, não temos dúvidas, ideias falsas, porque não geram consequências positivas para nossa sobrevivência. Ao contrário, nos precipitam desabalados rumo à perda de qualidade em nossas vidas, possivelmente até mesmo rumo à extinção.

 

Charbel N. El-Hani

Instituto de Biologia/UFBA

Diogo Meyer

Instituto de Biociências/USP

 

PARA SABER MAIS:

Barker, G. & Kitcher, P. (2013). Philosophy of Science: A New Introduction. Oxford: Oxford University Press.

Dutra, L. H. (2009). Introdução à Teoria da Ciência (3ª Ed.). Florianópolis: UFSC.

Hacking, I. (1983). Representing and Intervening. Cambridge: Cambridge University Press.

Imagem: Placa indicando a cidade de Truth or Consequences, no Novo México, Estados Unidos

Num mundo sem fatos, corremos riscos

Através da ciência geramos conhecimento sobre o mundo. A decisão de implementar políticas e tomar decisões negando esse conhecimento é uma característica do mundo “pós-factual”. Esta característica traz sérios riscos.

Através da ciência, aprendemos sobre o mundo à nossa volta. Ela não é a única maneira de aprender sobre o mundo, como ilustrado, por exemplo, pela riqueza de culturas indígenas ao redor do globo, incluindo as muitas presentes no território brasileiro. Contudo, a ciência certamente oferece respostas profundas e importantes sobre questões que atiçam nossa curiosidade: como os primeiros seres humanos chegaram à América do Sul? Que espécies de animais vivem escondidas em nossas casas e quintais? Mas, além disso, a ciência também gera conhecimento que é importante para nossas vidas, num sentido bastante concreto, respondendo a perguntas como: qual a relação entre desmatamento e secas? Ser afrodescendente altera suas chances de encontrar um doador de medula? Continue Lendo “Num mundo sem fatos, corremos riscos”