A conquista do mundo pelos gatos

A Mesopotâmia foi o berço da nossa civilização e dos primeiros gatos domésticos, mas foi a partir do Antigo Egito que essa espécie começou a conquistar o mundo.

A história do gato doméstico (Felis silvestris catus) desenvolveu-se de maneira paralela à da nossa espécie, mas sem grande interferência humana por um longo tempo. Enquanto os ancestrais dos cães aproximaram-se e foram cooptados por bandos de caçadores-coletores há cerca de 20-40 mil anos, os gatos só passaram a fazer parte de nossa história após  o surgimento da agricultura, há cerca de 10 mil anos.

Os gatos domésticos originaram-se de uma espécie de gato selvagem, Felis silvestris lybica, nativo do norte da África e Oriente Médio. Um estudo recente que analisou DNA antigo de mitocôndrias de centenas de felinos de diversas partes do mundo, e de diferentes épocas, constatou que a domesticação dos gatos ocorreu em dois momentos e em diferentes regiões.

A primeira jornada dos gatos ao lado dos humanos iniciou-se na Mesopotâmia durante o processo de estabilização da agricultura (Período Neolítico). Nesse período, o crescimento populacional, somado aos períodos de cheia na região, levou à necessidade de estocar alimentos, que veio acompanhada da proliferação de roedores interessados nos alimentos armazenados. Com o aumento de roedores próximos às zonas de cultivo e de moradia, os ancestrais dos gatos domésticos começaram a se aproximar dessas regiões, atraídos pela abundância de presas. Ao perceberem as vantagens de manter um predador natural de roedores próximo às plantações, os humanos passaram a permitir e incentivar a presença dos gatos nessa região.  Há cerca de 6 mil anos, após alguns milênios de coexistência proveitosa para ambas as espécies, os gatos se dispersaram pelo sul da Europa, acompanhando a expansão da agricultura.

Mais tarde, há cerca de 4 mil anos, com a ascensão das civilizações do Vale do Rio Nilo (Antigo Egito), aparecem os primeiros registros do surgimento de uma segunda leva de gatos interessados nos benefícios da sociedade agriculturalista. A admiração dos egípcios por gatos é bem conhecida e documentada – inclui mumificação de gatos, deusas em forma de gatas, além de diferentes simbologias fazendo reverência a esses felinos. Após a invasão do Egito pelo Império Romano, os gatos se disseminaram pelo Mediterrâneo, pelo norte da Europa e pela Grã-Bretanha. Em meio a essa expansão, ocorre, em algumas regiões, a miscigenação entre os antigos gatos da Mesopotâmia e os gatos do Egito.

Com o início da Era Viking, a expansão territorial dos gatos egípcios aumentou estrondosamente, provavelmente pela necessidade de gatos nos navios para combater infestações de roedores que ameaçavam os estoques de comida necessários para longas viagens. Hoje, a maioria dos felinos domésticos é descendente de gatos oriundos do Egito, provavelmente devido à grande capacidade expansionista dos Romanos e Vikings. Somado a isso, durante a Idade Média era quase obrigatória a presença desses felinos nas embarcações, ampliando ainda mais a dispersão geográfica dessa espécie.

Embora tenham conquistado diversos territórios, e aumentado em número, os gatos domésticos apresentaram pouca diversidade na pelagem durante milhares de anos, sendo predominantemente cinza e levemente rajados (pelagem mackerel). O padrão malhado (blotched) surgiu apenas no Império Otomano (século XIV), na Turquia, como foi evidenciado por um estudo genético envolvendo gatos com diferentes padrões de pelagem. O interesse pela diversificação de raças de felinos domésticos aconteceu no final do século XIX, sendo mais tardio e menos intenso do que o que ocorreu no caso dos cães.

Outro estudo genético, que comparou genomas de gatos selvagens e domésticos, encontrou diferenças em apenas 13 genes entre as duas espécies. As diferenças mais marcantes estão em genes ligados à memória, ao condicionamento do medo, e ao comportamento diante de recompensas. Outras alterações estão ligadas à audição e ao metabolismo. Tais descobertas reforçam que os gatos atuais, ao contrário dos cães, são apenas parcialmente domesticados, não tendo se separado completamente de seus ancestrais selvagens.

Embora estudos recentes tenham conseguido traçar a origem e grande parte da dispersão dos gatos, faltam ainda alguns capítulos a serem desvendados, principalmente referentes à domesticação dos mesmos no extremo oriente. Os gatos surgiram junto com a civilização ocidental, e se expandiram acompanhando os grandes impérios do Ocidente, passando de animais destinados à caça independente (sem intervenção humana) a um dos animais de companhia mais admirados da atualidade.

Tábita Hünemeier (IB/USP)

PARA SABER MAIS:

Montague et al. (2014) Comparative analysis of the domestic cat genome reveals genetic signatures underlying feline biology and domestication. PNAS 111(48):17230-17235.

Ottoni et al. (2017) The palaeogenetics of cat dispersal in the ancient world. Nature Ecology & Evolution 1:0139.

Stall S e Piva APL (2009) 100 Gatos que Mudaram a Civilização. Editora Rocco. 248pp.

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