Vulnerabilidade da População Negra ao Covid-19 e o Conceito Biossocial de Raça

Os números da pandemia provocada pelo COVID-19 ratificam as desigualdades raciais na saúde e trazem novos ingredientes ao debate recorrente sobre o conceito de raça.

Tem sido noticiado na mídia de massa e nos meios de divulgação científica que indivíduos da população negra são mais propensos a morrer de COVID-19 do que os brancos. Por exemplo, no Reino Unido a taxa de óbito de pessoas não-brancas é significativamente maior do que a taxa de pessoas brancas, apesar de representarem apenas 14% da população. Nos EUA, a taxa de mortalidade de negros por COVID-19 é o dobro daquela observada em outras etnias, como latinos e asiáticos e três vezes a mortalidade de brancos. No Brasil, enquanto a taxa de óbito por COVID-19 em internados brancos é de 38%, a taxa para pessoas negras é de 55%. Continue Lendo “Vulnerabilidade da População Negra ao Covid-19 e o Conceito Biossocial de Raça”

A natureza que passou e ainda passa em nossas vidas

Estudar Biologia durante a ditadura, o ambientalismo, as convenções internacionais para a proteção ambiental, e onde estamos hoje.

Estudar Biologia nos anos de chumbo foi uma dureza, em nossas casas, fora dela, e mesmo dentro do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia, onde pensar qualquer coisa adiante era um deus-nos-acuda.  Não obstante o manto sombrio da ditadura, nessa época a cultura fervilhava na cidade do Salvador, e em 100m da Avenida Sete de Setembro, tínhamos o Acbeu (Academia Cultural Brasil-Estados Unidos), com sua biblioteca, sem a mão da censura e diversa, e o Icba  (Instituto Goethe), com seus movimentos culturais, teatro, dança e cinema. Leituras alternativas, como Primavera Silenciosa de Rachel Carson (1962) e o Choque do Futuro de Alvin Tofler (1970). Nessa época, a percepção de como o ambientalismo, bem como o capitalismo planejado chegavam em nossas vidas propiciou momentos ímpares. O livro seminal de Carson inseriu a humanidade como parte da natureza e focava no impacto dos pesticidas, principalmente, DDT sobre a população de aves. Enquanto o livro de Carson nos avisava, pela primeira vez na história, como nós humanos também passamos a ser expostos a compostos químicos perigosos, Toffler tratava das mudanças bruscas naturais que o futuro nos reservava, e seus efeitos sobre a economia, embora a preocupação com a limitação dos recursos naturais nunca tenha sido seu ponto forte. Estes livros, somados à leitura intensa dos clássicos, nos tornaram biólogos.

O sêmen do ambientalismo

Uma andorinha só não faz verão, mas vários fatores atuando em conjunto, em diferentes lugares do mundo podem influenciar mudanças, e a década de 1960  estava recheada desses fatores: a guerra do Vietnã, os protestos sobre o uso generalizado da energia nuclear e a desigualdade de direitos, os hippies com uma proposta de liberdade absoluta, que buscava romper o sistema social e cultural convencional, e a defesa dos animais e do meio ambiente, este último pela semente plantada por Carson. No outro lado do mundo, os jovens europeus que nasceram no pós-guerra, sentindo o peso conservador da academia e as poucas perspectivas de emprego, começam a protestar levando em conta todas estas variáveis, num mundo onde a informação começava a se espalhar com mais rapidez.

Já na década de 1950, Aldous Huxley,  no livro  ”As Portas da Percepção” descreveu as suas experiências com a mescalina, principio psicoativo extraído do peiote (Lophophora wiilliamssi) e utilizado em rituais religiosos pelos povos indígenas do sul do continente norte-americano, revelando cenários antes obscurecidos pela consciência continuamente ocupada com a realidade visível. Sem dúvidas, as drogas psicoativas, como a mescalina e o LSD, tiveram um papel importantíssimo na construção de uma nova apreciação e compreensão da natureza, experimentadas e potencializadas, inicialmente pelos hippies, e posteriormente por intelectuais da contracultura das décadas entre 1950 e 1970, para finalmente se inserirem como um  objeto do convívio social em todo o planeta, seguindo a tradição de várias outras drogas.

Uma nova natureza foi vislumbrada. Livros outrora esquecidos, como “Walden ou A Vida nos Bosques” (1854), um manifesto sobre a economia da natureza, e “A Desobediência Civil” (1849), um manifesto anarquista contra o pagamento de impostos ao governo estado-unidense escravagista e em guerra de dominação com o México, ambos de Henry Davi Thoureau, voltaram a ser mencionadas na onda de Primavera Silenciosa.

O movimento hippie consagrou-se como uma onda de imensa amplitude mundial, tendo como gatilhos principais uma rejeição pela juventude estado-unidense às guerras da Coreia e do Vietnã, e aos padrões conservadores e reacionários. Essa onda chegou ao Brasil no final da década de 1960, justamente quando a ditadura se solidificava com a Constituição de 1967 e o Ato Institucional Nº 5 (AI-5) de 1968, que auto-outorgava plenos poderes à ditadura militar, implantada em 1964. Enquanto outros movimentos de resistência buscavam na luta armada uma oposição ao regime, os hippies através de uma cultura de paz, tomaram outra direção para fazer frente à opressão contra a ditadura e toda espécie de conservadorismo de uma sociedade eminentemente reacionária, que marchava com Deus pela Liberdade, Tradição, Família e Propriedade.

O ambientalismo surgiu como uma válvula de escape, por ser o primeiro movimento a congregar os anseios de mudança dos jovens de então, pelo rompimento do status quo, transformando-se na utopia da hora, mesmo sem a proposição de alternativas. Em 22 de abril de 1970, cerca de 20 milhões de cidadãos estado-unidenses foram às ruas para exigirem mais proteção para a terra, ar e água, com a contribuição de artistas famosos. Até mesmo a elite começou a ter outro olhar para a natureza com o Clube de Roma, com uma nova visão sobre temas como energia, poluição, saneamento, saúde, ambiente, tecnologia e crescimento populacional.

Cenários de cooperação internacional

A Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, em Estocolmo (Suécia), em 1972, também foi um reflexo desses novos tempos, mesmo sem a participação dos ambientalistas da época.  A conferência representou um marco histórico ao introduzir a questão ambiental na agenda da política internacional, estabelecendo um padrão ético-moral que seria base para outros movimentos. A posição brasileira sustentava que o discurso dos países mais desenvolvidos se configurava como um ato de ingerência na soberania dos países subdesenvolvidos, pois estes tinham direito ao seu desenvolvimento, a despeito da proteção ambiental, similar à política do presente governo, quase 50 anos depois.  Isso quer dizer que o desenvolvimento no Brasil, conforme pensado pelo regime militar, desde a sua concepção deixou de lado a questão ambiental como uma política de nação, sendo esta uma visão/postura/atitude que foi absorvida de forma natural por toda a população com o passar dos tempos. A criação do  Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma)) foi um dos marcos desta conferência, e passou a ser o órgão da Onu, tendo entre seus principais objetivos manter o estado do meio ambiente global sob contínuo monitoramento; alertar povos e nações sobre problemas e ameaças ao meio ambiente; e recomendar medidas para melhorar a qualidade de vida da população sem comprometer os recursos e serviços ambientais das gerações futuras.

Embora a origem dos estudos de impacto ambiental tenha sido os Estados Unidos da América (EUA), já em 1969, os mesmos rapidamente passaram a fazer parte dos grandes projetos financiados por bancos internacionais de desenvolvimento, antes da liberação dos empréstimos , sendo este o embrião do que se tornou no Brasil a lei de licenciamento ambiental.   Surgiu também nos EUA a Agência de Proteção Ambiental (EPA), em 1970 e a Lei da Água Limpa (Clean Water Act), em 1972, e outros instrumentos de controle ambiental, durante o primeiro mandato de Richard Nixon.

Com a publicação do livro “Biodiversidade”, em 1988 , por E.O. Wilson muitos pensaram que a síntese da natureza estaria nessa definição, e que, a partir daí, nós biólogos teríamos mais facilidade em interagir com a sociedade, algo que não aconteceu pelo caráter eminentemente biológico da mesma. Contudo a biodiversidade  passou a representar a síntese da natureza, que ela realmente é, e sua conservação o indicador mais forte da manutenção dos recursos naturais.

O Brasil, saindo da ditadura, em meados da década de 1980, ofereceu-se para sediar a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, o quê viria a ser a ECO-92. No ano de 1983, a Onu criou a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, com o objetivo de promover audiências em todo o mundo e produzir um resultado formal das discussões. A comissão foi presidida por Gro Harlem Brundtland, na época primeira-ministra da Noruega e Mansour Khalid, daí o mesmo ser chamado de Relatório Brundtland ou Nosso Futuro Comum, publicado em 1987, que introduziu oficialmente, na agenda internacional, a noção de desenvolvimento sustentável, depois apropriado em grande parte do planeta pelas grandes corporações, partidos políticos, organizações governamentais e não-governamentais, mas principalmente pelo capital, o qual aproveita-se da pouca precisão da expressão para aumentar seus lucros

O conceito original de sustentabilidade foi proposto pela primeira vez em 1713  por Hans Carl von Carlowitz, na Alemanha, para mostrar o quão inviável seria minerar se tivessem que buscar a madeira muito longe para usar como escoras de túneis e fazer carvão. Presentemente, a sustentabilidade alardeada aos quatro cantos apresenta-se como uma polissemia,  e é mantra de vários setores da sociedade,  contudo seu emprego, independente do conceito proposto, tem que ser integrativo, cooperativo e global. Não podemos pensar em fazendas sustentáveis, cidades sustentáveis, países sustentáveis, sem um mundo sustentável. Sem contar que, dentro do conceito atual, nenhuma geração conseguiu antever o que a outra vai necessitar,  muito menos suas exigências. Que fique a utopia de querer algo melhor para as gerações futuras, mas não podemos falar ou agir em nome delas. 

O mundo depois da ECO-92

A partir da ECO-92, com a participação de organizações não-governamentais (ONG), o ambientalismo passou a ser uma narrativa  da sociedade e se tornou partícipe de vários processos decisórios. Não obstante, especificamente no Brasil, pouco se avançou em termos de legislação, a qual, em seu contexto, ainda peca, por um lado,   ao não integrar, em nenhum momento,  a dimensão ecossistêmica em suas normas, e muito menos a sociedade, e pelo outro, ao não atualizar-se aproveitando o vasto conhecimento oferecido pela Ecologia, impulsionada que foi pela irradiação do ambientalismo em todo o mundo

O século XXI, o dos tratados, convenções e dos vírus

O séc. XXI tem sido pródigo nas tentativas de propor políticas públicas de caráter internacional, muitas delas assinadas um dia por um dirigente e no outro, desconsideras por seu sucessor. As reuniões foram inúmeras, com idas e vindas, impasses, mas os problemas continuam os mesmos, tendo como consequência principal,  a perda da biodiversidade, que conduz ao aumento da pobreza, aparecimento do novas doenças, perda de qualidade de vida, dentre outras. Em 2005, publicou-se a Avaliação Ecossistêmica do Milênio, com um novo coelho saindo da cartola, um programa de pesquisas sobre alterações ambientais e suas tendências para as próximas décadas, lançado em 2001 com o apoio da Onu, para alcançar os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio. Pretendeu-se oferecer uma avaliação compreensiva global sobre os principais ecossistemas mundiais, através do conceito dos serviços ecossistêmicos, em uma tentativa de, mesmo com uma visão antropocêntrica, mobilizar uma discussão que possibilitasse que políticos, gestores ambientais e a sociedade em geral entendessem o valor da natureza, mesmo isto não representando o que ocorre nos ecossistemas. Esta tentativa também deu em água, porquanto grande parte dos atores envolvidos, nomeadamente políticos e os detentores do capital, associam o conceito dos serviços ecossistêmicos a algum ganho ou lucro, e, globalmente, apesar de todas as convenções, reuniões, assembleias, não se avança na redução dos principais problemas ambientais, perda e destruição de habitat, perda de biodiversidade, espécies exóticas invasoras, e poluição,  tem sido alcançado. O aquecimento global não está aqui listado, pois ele é uma consequência direta da poluição, e não causa. Tão pouco se fez que o aumento da poluição e sua principal consequência, a mudança do clima, é ainda tema principal da agenda mundial, sendo apenas temporariamente amenizada pela pandemia da Covid-19, em 2020.

Esta pandemia merece uma menção. Em 15 de janeiro de 2009, decolou do aeroporto de La Guardia (Nova Iorque), rumo a  Charlotte (Carolina do Norte), um avião comercial de passageiros  que, por problemas  em seus motores, fez um pouso na água do rio Hudson, adjacente a Manhattan, seis minutos após a decolagem. Em 24 min, as 155 pessoas foram resgatados com vida; dessa operação participaram as balsas de passageiros que acorreram ao local, a guarda costeira, o corpo de bombeiros e os mergulhadores da polícia de Nova Iorque, para salvar alguns passageiros que caíram na água e foram levados pela maré. Foi uma operação iniciada pela torre de controle, envolvendo também o equilíbrio e a competência do piloto. Mas tudo estava determinado em um plano de resgate em caso de um acidente deste tipo. Eventos pretéritos nos servem para projetar o futuro, contudo isto nem sempre é a regra. Os eventos da síndrome respiratória aguda grave (SARS, em inglês), epidemia que teve lugar no ano de 2002, assim como a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS, em inglês), que apareceu em 2012, ambas causadas por vírus do tipo corona, serviram muito para os cientistas aprenderem sobre os mesmos. Logo depois da SARS, em 2003, houve um incremento nas pesquisas relativas a tais tipos de vírus, mas já em 2005, tornou-se difícil de se conseguir recursos para tais tipos de pesquisa. Primeiro, porque a doença havia desaparecido e não havia interesse do mercado em pesquisar drogas ou encontrar uma vacina que rendesse pouco ou nenhum lucro, segundo a visão curta das agências internacionais de fomento à pesquisa, por crerem que isto poderia ter sido apenas um evento fortuito. A continuidade de tais estudos poderia ter alterado a sequência de eventos relacionados ao SARS-CoV-2. Mas não só isto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou, já a partir de 2003, aos países a elaboração de planos para lidar com pandemias, após a epidemia de SARS, na Ásia. Apesar disso,os países não trabalharam da forma devida para a elaboração de planos, e as consequências são vistas agora, no número de casos e de óbitos, assim como nas sequelas sociais e econômicas, que estão ocorrendo e ainda virão. Esse erro foi fatal: medidas mitigadoras funcionaram aqui ou ali, de uma forma melhor, mas todo o problema se deve à ausência do devido planejamento e na forma como o problema foi abordado, sem a devida cooperação entre as nações, mesmo aquelas que possuem blocos políticos consolidados.

Terminamos aqui com o livro de Carson, que não falava apenas sobr e o efeito do DDT sobre a natureza, mas também como a ciência poderia auxiliar a evitarmos crises ambientais, como a Covid-19, que tem a ver com perda e destruição de habitats. Os vírus do tipo corona, causadores de infecções respiratórias em  humanos são típicos de morcegos e roedores e transmitidos aos humanos por hospedeiros intermediários (veja quais), como resultado do uso abusivo dos recursos naturais, redução das florestas, consumismo desenfreado, poluição e o contato direto e indireto destes animais com humanos,  influência das grandes corporações sobre nosso destino. Cabe a nós, de forma individual e coletiva, uma lição aprendida pela sociedade vinda do ambientalismo, agir e exigir dos governantes, que passem a falar mais em nome de seus povos, forma cooperativa, em vez de difundir o discurso das grandes corporações e do mercado.

 

Ronan R.C .de Brito & Eduardo M. da Silva são professores aposentados do Instituto de Biologia da Ufba

 

PARA SABER MAIS:

R.R.C. de Brito. Seria o ambientalismo a grande narrativa da contemporaneidade?. Meio Ambiente e Sustentabilidade. 3: 35-50, 2013.

E.P. Nascimento. Trajetória da sustentabilidade: do ambiental ao social, do social ao econômico. Estudos Avançados, 26: 51-64.  2012. https://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142012000100005

Imagem: Ronan Caires de Brito

Não precisamos de árvores somente para abraçá-las

Reconhecer que os serviços ecossistêmicos providos pela biodiversidade podem evitar pandemias como a Covid-19 é um passo importante, mas é necessário ir além. Num mundo invertido, onde há menos florestas e mais desigualdades sociais, o que podemos fazer?

Jogue o lixo no lixo. Não deixe água parada. Lave as mãos. Preserve o meio ambiente.

Nenhuma dessas mensagens é incomum no nosso cotidiano. Embora muito importantes e geralmente aceitas por nós, elas escondem, por praticidade, um conjunto de relações e eventos que justificam a sua contundência. Essas frases traduzem o entendimento científico sobre o ciclo de doenças transmissíveis e a conservação da biodiversidade em ações muito práticas e simples. Mas, o que está por trás destas palavras de ordem? Bem, para responder esta pergunta é preciso considerar duas coisas: Continue Lendo “Não precisamos de árvores somente para abraçá-las”

O que a pandemia nos ensina sobre o papel da ciência em sociedades democráticas?

Em tempos de pandemia, o imperativo de basear as decisões e políticas para enfrentamento da COVID-19 em conhecimento científico virou discurso político e é amplamente advogado nas redes sociais. Mas o que significa – e o que é necessário para – basear em ciência a tomada de decisão?

Após tempos de descrédito na ciência, a pandemia do novo coronavírus trouxe de volta a ciência para o centro do debate público e tem contribuído para o aumento da confiança da sociedade na pesquisa científica (veja aqui e aqui). Esse cenário não só colocou os cientistas em papel de destaque na mídia e no suporte à tomada de decisão, como desencadeou a formação de amplas redes de parceria e colaboração entre cientistas em todos os níveis – local, regional e global – na busca por testes, tratamentos e vacinas. Continue Lendo “O que a pandemia nos ensina sobre o papel da ciência em sociedades democráticas?”

A covid-19, a ciência e populismo no governo e na oposição

O Covid-19 representa um inimigo invisível, mas real, que tem obrigado os governos de todo o mundo a tomar decisões sem precedentes e expor-se ao debate sobre o papel da ciência na politica. Estes são desafios ainda maiores para os populismos, inclusive quando estão na oposição.

Cas Mudde considera que o Covid-19 não implica o fim do populismo, principalmente porque o populismo não é unívoco, mas ambíguo, e inclui vários fenómenos políticos. Para citar, por exemplo, o populismo de direita inclui variados fenômenos que estão no governo de alguns países (como Brasil, EUA, Índia, Hungria) e na oposição de outros (por exemplo, Itália, França, Alemanha, Espanha). Assim, como é que o populismo de direita reage quando tem de enfrentar um inimigo real em lugar dos inimigos ‘imaginários’? Ou seja, o que acontece quando o discurso político já não é centrado principalmente nos símbolos identitários (nação, povo, religião, história gloriosa etc), mas em dados de propagação da pandemia e medidas de contenção concretas que devem ser definidas em diálogo com cientistas? Para responder vamos focar brevemente em dois casos de governo (Brasil e Hungria) e um caso de oposição (Itália).

As medidas tomadas pelo presidente Bolsonaro contra a pandemia, que implicam uma biopolítica populista, enfrentam insatisfação por parte da opinião pública e das próprias pessoas que, em lugar de sentir-se mais ‘seguras’ no combate ao vírus  por um governo que tem a premissa da segurança, sentem-se mais vulneráveis. Enquanto a ascensão populista baseia-se no discurso sobre a necessidade de proteger e favorecer o ‘nosso’ e ‘nós’, e para tal deve ostentar a lógica dos inimigos ‘externos’, ao enfrentar o inimigo invisível, mas real, os populistas acabam por se mostrar incapazes de fazer a coisa que mais prometeram: proteger. Isso pode enfraquecer a sua política. A falta de decisões centrais por parte da Presidência da República leva a uma fragilização das respostas à pandemia, algo que aconteceu em vários outros países. Das narrativas da segurança da nação, passa-se à política de insegurança e desmantela-se assim uma das chaves do sucesso político destes fenômenos. A pandemia condena a superficialidade para com a ciência, a relação naïve do populismo com indicadores e a sua objeção a conformar-se ao discurso politicamente correto.

Há outras respostas do populismo de direita de governo, como, por exemplo, implementar as suas ambições autoritárias, ultrapassando assim os “obstáculos” democráticos. O caso da Hungria é um exemplo muito interessante porque integra uma instituição supranacional, a União Europeia, que nasceu para evitar exatamente que os autoritarismos voltassem a questionar as perspetivas democrático-liberais na Europa. O que acontece no parlamento Húngaro mostra como a pandemia favorece uma virada autoritária do regime, apelando-se a métodos e discursos bem mais extremistas. Neste caso a resposta populista ao inimigo pandêmico é apenas uma cobertura, a ciência se torna o argumento para reforçar e levar ao extremo as ambições de domínio.

Nos países onde os populistas de direita estão na oposição, como é o caso de muitos países europeus e nomeadamente da Itália, as medidas de segurança tomadas pelo governo neutralizam os inimigos imaginários populistas, porque focam a opinião pública no inimigo real, a Covid-19. A narrativa populista de segurança baseada na sublimação do nacionalismo simbólico é invisibilizada pelo patriotismo geral necessário no confronto com a crise. Isto é reforçado pela solidariedade nacional expressa entre pessoas que sofrem do mesmo confinamento, e que agradecem ao pessoal que trabalha em primeira linha na resposta à pandemia, a exemplo das e dos trabalhadores da saúde. Esta solidariedade usa símbolos que servem ao fortalecimento do orgulho pela comunidade, necessário ao enfrentamento dos constrangimentos. A nível internacional, a ‘solidariedade de intervenção’, mostrada por países como Albânia, China, Cuba, Rússia e EUA para com a Itália, oferecendo ajuda sanitária, minimiza o espírito residual de exclusão e vitimização dos discursos patrióticos populistas. Mas a falta de ‘solidariedade estrutural’ pode reverter a situação em prol de uma nova e mais vigorosa narrativa populista. O exemplo é dado pelos egoísmos nacionais mostrados pelos estados membros da União Europeia no limitar o uso do Mecanismo Europeu de Estabilidade. O MEE foi pensado para “ajudar” países Europeus em dificuldade económica a restabelecer as suas contas e implica implementação de medidas de austeridade (como aquelas que a Grécia teve de aceitar em 2015), que os países do Sul da Europa não admitem contemplar para enfrentar a pandemia. Se não há “união” baseada na solidariedade, a Europa sai derrotada. Frente a esta instabilidade, e na medida em que o governo italiano reduz as regras de contenção na sociedade, as narrativas populistas re-articulam o medo para poder depois afirmar a sua perspetiva securitária.

O populismo caracteriza as democracias representativas, e as suas respostas à Covid-19 desvenda algo interessante, porque não existe uma resposta política “certa” para a pandemia. Isto é devido ao fato de que os indicadores da ciência não são incontornáveis, mas podem ser usados como argumentos e contra-argumentos. João Arriscado Nunes explica que os números da Covid-19 são ambíguos, variáveis, e que, embora possam ser cientificamente inquestionáveis, são epistemologicamente discutíveis. Isto tem a ver, por exemplo, com a definição de morte pela Covid, uma vez que nem todas as mortes são identificadas por falta de teste prévio, o que tem a ver com protocolos que definem quem deve ser testado. Os indicadores são estimativas de números reais bem maiores. Isto mostra como, na interligação entre ciência e democracia, as decisões científicas são necessariamente de política (científica) e como as decisões políticas, mesmo quando baseadas em evidências científicas, implicam considerações que vão além da ciência. A pandemia ajuda assim a desmontar a suposta sobreposição de objetividade e neutralidade, um passo necessário para alterar radicalmente paradigmas sociais no futuro pós-pandêmico, sobretudo porque da suposta inevitabilidade do caminho do progresso científico – como se fosse algo unívoco e inevitável – surgiram as maiores contradições sociais, que levaram à opressão de muitos e muitas. Este progresso científico cria grandes reservas de sofrimento – amplificado pela pandemia – por aquelas e aqueles ao sul da quarentena, e finalmente permite ao populismo erguer-se como resposta descartável.

Cristiano Gianolla

Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal

https://ces.uc.pt/en/ces/pessoas/investigadoras-es/cristiano-gianolla

 

PARA SABER MAIS:

Nunes, J. A. (2020). A política dos números, ou: quem conta na pandemia? Alice News, 28/04/2020.

Santos, B. S. (2020). Ao sul da quarentena, Público, 09/04/2020.

Fonte da imagem.

Covid-19: A necessidade de um olhar transdisciplinar

Quando as primeiras notícias da Covid-19 desembarcaram no Brasil,  alguns especialistas mais midiáticos transmitiram tranquilidade para seus seguidores, porque os dados então disponíveis indicavam uma taxa de 3% de óbitos entre os contaminados, proporção bastante abaixo de outras infecções, como SARS e MERS. Desses mortos, afirmavam, a grande maioria seria de idosos em estado fragilizado, já suscetíveis a todo tipo de infecções, como a gripe. A vida poderia seguir normalmente. Em plena viralização, não ainda do Coronavírus, mas dos vídeos, textos e entrevistas nas redes sociais que haveriam de mostrar-se demasiado suaves diante da gravidade do problema, novos entendimentos foram chegando, ficando evidente que muitas pessoas, mesmo aquelas bem intencionadas, haviam queimado a largada em suas apreciações. Uma das razões fundamentais para o equívoco foi a ausência de uma visão do todo. Este será nosso foco nesta postagem: a necessidade de uma abordagem integrada, interdisciplinar e mesmo transdisciplinar da Covid-19.

O que ficaria evidente nos dias seguintes a esta onda de mensagens tranquilizadoras em diferentes mídias é que a pandemia era bem mais grave do que parecia e não poderia ser enfrentada por uma única disciplina ou área de especialidade. Era e segue sendo necessária uma visão interdisciplinar, que integre diferentes áreas das ciências acadêmicas, e transdisciplinar, na medida em que o eficiente controle social de uma pandemia requer também estabelecer relações com outros sistemas de conhecimento, além dessas ciências. A transdisciplinaridade é especialmente importante num problema socioambiental da dimensão da Covid-19, no qual as ciências acadêmicas devem trabalhar em cooperação com outras partes interessadas, de tomadores de decisão a comunidades, empresas, terceiro setor e órgãos públicos. As ciências acadêmicas precisam estabelecer uma relação horizontal (isto é, não hierarquizada) e coerente que posiciona as partes para trazerem suas melhores contribuições. Essas contribuições podem ser evidências, teorias, modelos científicos. Podem ser informações sobre a dinâmica social que somente comunidades podem fornecer. Podem ser informações sobre as dinâmicas do cuidado com os pacientes que os profissionais da saúde podem destacar. Considerando-se esse conjunto de contribuições, pode constituir-se um novo modelo de gestão que, entre outros benefícios, traga rapidamente as informações relevantes para a mesa, viabilizando respostas no tempo e com a complexidade necessários.

A necessidade de uma abordagem interdisciplinar e transdisciplinar da Covid-19 vem se desdobrando, num efeito dominó, no qual diferentes campos do conhecimento são convocados a contribuir. Por exemplo, pesquisas em saúde pública e epidemiologia esclareceram a todos nós que a Covid-19 tem espantosa capacidade de se espalhar (como mostra esse estudo, um exemplo entre vários). A FIOCRUZ, em declaração à imprensa no final de março, apontou que já na semana de 15 a 21 de março tivemos um número de internações por problemas respiratórios dez vezes maior que a média histórica. E a curva segue inclinada, confirmando o alto risco de o sistema de saúde brasileiro entrar em colapso, um cenário que na verdade é previsível, dada a experiência de outros países que foram atingidos mais cedo, como a Itália e, logo depois, a Espanha. Isso transferiu, portanto, parte da crise para o campo da logística, da infraestrutura e da capacidade industrial de produzir produtos e equipamentos hospitalares. Mais: quando anunciado que a melhor medida para enfrentar a pandemia seria o isolamento social, devendo-se interromper, assim, a maior parte das atividades econômicas, novos atores entraram em cena, em especial economistas e empresários, preocupados com a recessão e colocando à mesa dilemas importantes para lidar com a pandemia, por exemplo, como analisar as relações entre custos e benefícios das medidas de isolamento social, um tema abordado em estudo recente.

As ciências humanas, campos de pesquisa que colocam o Brasil na elite da produção de conhecimento, mas vivem ameaçadas de cortes pelo governo federal, também precisaram se pronunciar quando foi aventada a ideia de um “isolamento vertical”, ou seja, restrita aos grupos de risco. Espantados com a ingenuidade da medida, especialistas de diferentes ciências humanas lembraram aos tomadores de decisão da precariedade habitacional do Brasil. Ainda em 2010, em plena pujança econômica, 11,4 milhões de brasileiros já viviam no que o IBGE denomina “aglomerados subnormais”, levantamento citado em um amplo estudo de caracterização desses territórios com precariedade urbanística e desassistidos de boa parte dos serviços públicos essenciais (12% dos moradores dessas comunidades não têm acesso à água, chegando a 40% no Norte do país), e também qualificados como moradias em espaço alheio, ou seja, ocupações de áreas públicas ou privadas por famílias que não têm a mínima condição de adquirirem as suas próprias casas e não foram alcançadas pelos programas de habitação. Como seria viável, então, isolar em tais condições os entes mais suscetíveis aos agravamentos de saúde do Covid19?

À medida que a quarentena foi se estabelecendo em diferentes países, psicólogos foram chamados a investigar o estresse e as rupturas na saúde mental das pessoas, tendo a OMS publicado recomendações quanto à saúde mental e bem estar psicossocial de diferentes grupos afetados pela pandemia. Efeitos sobre crianças e seus processos educacionais também mereceram atenção de especialistas em psicologia e educação (aqui um exemplo, entre vários). Ciências sociais e comportamentais foram convocadas para responder como o comportamento humano poderia alinhar-se às recomendações de especialistas em saúde pública e epidemiologistas (como discutido nesse artigo), bem como de que maneira as ciências comportamentais poderiam ajudar a mitigar a crise da Covid-19, como foi discutido há duas semanas aqui no Darwinianas. Mais uma vez precisamos dos cientistas sociais para entender as interações recíprocas entre redes sociais e medidas de controle da pandemia: Como a coesão social afeta o controle? Como as medidas de controle podem minar a coesão social?

Especialistas em saúde pública e serviço social foram chamados a discutir como mitigar estigmatização de pessoas acometidas pela doença (como nesse estudo, por exemplo). Antropólogos e cientistas políticos se dispuseram a analisar vários aspectos sociais e políticos da pandemia e de seu controle (como vemos nesse ensaio). E, mais, filósofos, cientistas sociais e políticos têm sido cruciais para os debates sobre o que significa a Covid-19 e o mundo pós-pandemia, mas também lideranças indígenas, comunitárias e outros atores sociais (como se pode ver, por exemplo, nas importantes contribuições de Ailton Krenak). Para entender porque somos acossados por uma epidemia depois da outra, necessitamos de ecólogos e cientistas ambientais, que elucidam como nossa expansão sobre vegetações nativas em diferentes partes do mundo ou nosso consumo de animais silvestres nos expõem a patógenos que podem atravessar a barreira entre outras espécies e a nossa espécie. Mas não somente isso: eles também nos mostram como alterar nossa relação com sistemas ecológicos e outros seres vivos de modo a diminuir a probabilidade de novas pandemias no futuro. Sendo a Covid-19 uma dentre muitas doenças zoonóticas, que nos são transmitidas por animais, também precisamos das contribuições dos veterinários. E por aí vai. Poderíamos multiplicar e multiplicar esses exemplos, mas estes bastam para destacar a mensagem central que pretendemos nessa postagem.

É evidente que, na medida em que se vai descortinando um cenário cada vez mais complexo, seria esperado um plano de reação mais integrado, mas não foi o que se aventou e nem o que se desenrola no Brasil, desde janeiro de 2020, quando a China anunciou as primeiras mortes. A própria ênfase sobre atendimento hospitalar, que vai e volta nas discussões nas diferentes mídias, mostra a falta de tal visão integrada com vistas à criação de uma rede de enfrentamento da crise. Hospitais não devem ser a linha de frente de combate à Covid-19. A linha de frente deve ser a saúde comunitária, a saúde da família, o atendimento primário à saúde, o atendimento e monitoramento domiciliar de casos suspeitos e confirmados, como é discutido em texto que discute como manter os casos de Covid-19 fora dos hospitais. Quando se afirma que hospitais devem atuar para conter a pandemia num país, isso equivale ao fracasso de seu sistema de saúde. Não se trata, obviamente, de não se investir em hospitais, porque eles têm um papel claro no combate à pandemia. Trata-se de reconhecer o papel fundamental da atenção primária à saúde e, assim, criar condições para que ela cumpra seu papel eficazmente na identificação e no manejo de novos casos. Apesar de poder ser algo surpreendente para alguns leitores, dada a ênfase sobre a intervenção hospitalar por diferentes setores da sociedade, mesmo agora, no meio da crise, não é tarde demais para atuar em frentes não-hospitalares, poupando-se os hospitais de uma sobrecarga que possa levar a um colapso. Uma discussão pertinente a este respeito pode ser encontrada nesse vídeo de Emerson Merhy, assim como em carta no respeitado periódico The Lancet, que mostra como a gravidade da situação na Itália é resultado do desmonte do sistema de saúde pública.

Note-se que temos aí também um problema de falta de uma visão interdisciplinar e transdisciplinar da pandemia. Ela requer o trabalho diligente de enfermeiros, assistentes sociais, médicos, psicólogos, biólogos, líderes comunitários e vários outros setores da vida acadêmica e da vida social. A construção de tal visão integrada é fundamental. Diferentes pontos de vista acabam por expressar soluções parciais para um dilema complexo, especialmente no caso de “problemas perversos”, sobre os quais não há acordo nem sobre o problema nem sobre as soluções, mas para os quais é necessária uma ação integrada, capaz de solucionar as demandas e as restrições  das várias partes interessadas no problema.

Não é simples construir uma visão integrada. É preciso lidar com o estranhamento entre as diferentes disciplinas acadêmicas, dado que cada uma delas formula o problema de maneiras diferentes e não compartilham todas as suas práticas de produção de conhecimento, ou todos os seus critérios de validação de teorias ou modelos, ou todos os seus valores. Maior ainda pode ser o estranhamento entre diferentes atores sociais, de cuja ação concertada depende o enfrentamento da pandemia. Neste momento, é necessária união em torno do objetivo principal, conter a pandemia, o que requer isolamento social, como tem sido mostrados em estudos a esse respeito (eis aqui um exemplo). Quando os atores sociais agem de maneira descoordenada, mandam mensagens diferentes ao público, o desastre fica só aguardando, logo ali na esquina. Resta então torcer para a sorte. Mas quando se tratam de epidemias virais, sorte costuma contar pouco.

Uma boa notícia é que muitos especialistas que se anteciparam a um diagnóstico mais abrangente, minimizando o impacto da Covid-19, já corrigiram as informações equivocadas em suas novas postagens e economistas mais atentos ao debate têm resistido em transformar saúde e mercado em uma dicotomia, analisando com cuidado as relações de custo e benefício envolvidas. Tem sido mostrado que a oposição entre economia e saúde é uma falsa dicotomia tanto em artigos acadêmicos quanto em comentários na mídia.

Outra boa notícia é a revalorização da pesquisa científica em países como o Brasil e os Estados Unidos, cujos presidentes faziam coro com visões anticientíficas e menos informadas a respeito da necessidade das ciências. Vários cientistas brasileiros também têm feito um bom serviço em chamar a atenção para a importância da ciência diante da pandemia da Covid-19, a exemplo da boa discussão feita por José Alexandre Diniz em torno da ecologia e da epidemiologia. Claro está, contudo, que é preciso ir além das ciências biomédicas nessa valorização à luz da Covid-19, explicitando para o público, os tomadores de decisão, as comunidades científicas a importância das ciências humanas, das ciências sociais, da psicologia, da ecologia, da filosofia diante da pandemia. Mas há mais que isso: devemos ter o cuidado de não transformar um reconhecimento da importância das ciências acadêmicas em casos como o que vivemos em alguma defesa do cientificismo, ou seja, da ideia de que seriam os conhecimentos científicos os únicos válidos, ou de que estes conhecimentos deveriam dominar completamente a arena das decisões sociais. De um ponto de vista político, isso seria atingir as nossas já tão acossadas democracias contemporâneas com os fantasmas das tecnocracias. De um ponto de vista epistemológico, seria negar a diversidade de formas de conhecimento produzidas pela humanidade. Segue sendo necessário destacar os muitos sistemas de conhecimento produzidos pela humanidade, a pluralidade de uma ecologia de saberes, as muitas contribuições que tais sistemas podem trazer para o enfrentamento de nossos problemas, inclusive dialogando e integrando-se uns com os outros. Afinal, se as explicações das ciências acadêmicas podem ser mais eficazes na busca de tratamentos e meios de prevenção da Covid-19, em comparação, por exemplo, com visões religiosas (como a sugestão de que orando e jejuando se poderia conter a epidemia), estas últimas visões podem ter importantes papeis na manutenção do bem estar psicológico das pessoas acometidas pela pandemia ou submetidas à quarentena, os quais podem superar em muito a eficácia das intervenções científicas. São esses juízos complexos e situados, contextualizados que devemos fazer sobre os conhecimentos humanos, não esquemáticos juízos universais sobre supostos conhecimentos superiores e inferiores. Esses juízos universais não passam de visões pobres da diversidade dos conhecimentos humanos.

Não devemos esquecer de lições como aquelas que nos foram dadas pela substituição dos sistemas milenares de irrigação de campos de arroz em Bali, manejados sob a supervisão dos sacerdotes de templos da água, templos hindu-budistas dedicados a Dewi-Danu, a deusa do lago, por sistemas técnico-científicos de irrigação, por decisão do governo da Indonésia e sob a influência da chamada “revolução verde”. Esses novos sistemas de irrigação tiveram consequências desastrosas para o cultivo de arroz em Bali: as colheitas decresceram para menos da metade do que era produzido sob os sistemas milenares de gestão dos resíduos hídricos. Esses resultados desastrosos se repetiram nas colheitas seguintes e os sistemas científicos terminaram por ser abandonados, sendo trazidos de volta os sistemas tradicionais. Trinta anos depois, foi mostrado, usando simulação computacional, que as sequências da água geridas pelos sacerdotes da deusa Dewi-Danu eram os mais eficientes possíveis, sendo mais eficientes, pois, do que aquelas preconizadas pelo sistema técnico-científico de irrigação que havia sido introduzido nos anos 1960. Na verdade, eles eram igualmente ou mais eficientes do que poderia ser proposto por qualquer outro sistema de conhecimento, na medida em que soluções ótimas para as sequências de irrigação da água eram alcançadas pela distribuição de templos nos campos de arroz.

Exemplos dessa natureza mostram como não há porque converter um reconhecimento do valor das ciências acadêmicas numa defesa cientificista, como se fossem panaceias para todo e qualquer problema com o qual queiramos lidar. Contudo, uma crítica à hegemonia dos saberes científicos acadêmicos tampouco deve converter-se na aceitação do desperdício das experiências de saber que a pesquisa científica nos legou ao longo de cinco séculos. Numa ecologia de saberes capaz de reconhecer e valorizar a diversidade epistemológica do mundo, não se deve desperdiçar experiências de saber, tal como foi feito no epistemicídio que se seguiu à expansão colonial europeia, ou seja, na destruição que a colonização impôs a muitos sistemas de conhecimento ao redor do globo. Defender o reconhecimento e a valorização da diversidade epistemológica do mundo não é algo que se faz, contudo, às expensas de um reconhecimento das experiências de saber das ciências modernas. Isso porque, afinal, seria também um desperdício de experiências de saber negligenciar as contribuições dessas ciências. Assim, diante da Covid-19, não há o que discordar quanto à capacidade das ciências modernas de propiciar avanços rumo ao diagnóstico, ao tratamento ou à vacinação contra essa pandemia.

Pode-se a um só tempo defender a diversidade epistemológica do mundo e a pesquisa científica moderna, especialmente quando esta dá apoio à luta pela sobrevivência e pela melhoria da qualidade de vida de muitas comunidades humanas que são vítimas de injustiças socioambientais (inclusive na distribuição de casos e mortes pela Covid-19). Afinal, as ciências modernas se encontram lado a lado, como partícipes, com o processo de expansão colonial e de processos hegemônicos de globalização que têm muito a ver com a atual crise epidêmica. Isso implica fazer juízos de valor sobre os papeis que elas vêm a desempenhar, inclusive, na abordagem da Covid-19. Há julgamentos importantes a serem feitos quanto às intenções, aos valores e à dimensão política das empreitadas científicas em torno dessa pandemia. Cabe questionar, então, se os esforços científicos em andamento buscam diminuir as injustiças socioambientais que acompanham a pandemia ou podem agravá-las ainda mais. Trata-se, por exemplo, de testar vacinas experimentalmente em comunidades subalternizadas na atual ordem mundial, como propuseram os médicos franceses Jean-Paul Mira e Camille Locht, para gerar produtos científicos que serão depois desigualmente distribuídos, inclusive privando-se os próprios países africanos de acesso a tais vacinas, dado seu custo? Ou trata-se de distribuir amplamente, a todas as comunidades atingidas no globo, vacinas validadas cientificamente por meio de procedimentos eticamente aceitáveis? A resposta a questões dessa natureza implica apreciações bastante distintas do papel das ciências acadêmicas numa ecologia de saberes, ao fornecerem bases para julgar de que lado elas estão.

Muitos acadêmicos fazem, diante de tais argumentos, uma chamada à objetividade como se fosse ela neutralidade. Contudo, não há neutralidade, como sabemos, e nada é menos neutro do que se pretender neutro, porque isso implica apenas uma manobra política para ocultar o lado que se escolheu. Objetividade científica não é o mesmo que neutralidade, demandando, ao contrário, crítica mútua numa comunidade de investigadores para que seus vieses (sua falta de neutralidade, natural, esperada, como humanos que são, e como membros de grupos humanos que são) sejam colocados em debate. Ou seja, para ser objetiva, a produção de conhecimentos (científicos ou não) deve ser reconhecida como não-neutra. Não somente a objetividade não é o mesmo que a neutralidade, como também a neutralidade mina a possibilidade de ser objetivo! Objetividade é uma propriedade de afirmações feitas não por indivíduos, mas por comunidades produtoras de conhecimento, sendo a objetividade, como nos mostra Helen Longino, de natureza social e interativa, e sendo um método de investigação objetiva quando permite crítica transformativa. Diante disso, é muito importante que o diretor-geral da OMS tenha vindo a público condenar a proposta racista dos dois médicos franceses.

A interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade têm ainda um importante papel, o de desestimular o espírito voluntarioso, favorecendo a formação de atitudes voluntárias conscientes, pela coaprendizagem mútua que decorre do envolvimento das muitas partes interessadas. Elas talvez sejam tecnologias sociais capazes de vacinar sociedades dependentes de “mitos”, por favorecerem que as pessoas passem a enxergar em cada um e na coletividade a resposta para seus dilemas científicos, sociais e espirituais.

 

Charbel El-Hani

(Instituto de Biologia/UFBA)

Virgílio Machado

(Instituto Mãos da Terra – IMATERRA)

 

PARA SABER MAIS

Dayrit, M. & Mendoza, R. U. (2020). Social Cohesion vs COVID-19. SSRN Library.

Hellewell, J. et al. (2020). Feasibility of controlling COVID-19 outbreaks by isolation of cases and contacts. The Lancet Global Health 8: e488-e496.

Latour, B. (2020). Imaginar gestos que barrem o retorno da produção pré-crise.

Rittel, H. W. J. & Webber, M. M. (1973). Dilemmas in a general theory of planning. Policy Sciences 4: 155-169.

Santos, B. S. (2020). A trágica transparência do vírus. Jornal de Letras, Artes e Ideias, 8 de abril de 2020.

Thunstrom, L., Newbold, S., Finnoff, D., Ashworth, M. & Shogren, J. F. (2020). The Benefits and Costs of Using Social Distancing to Flatten the Curve for COVID-19. Journal of Benefit-Cost Analysis (no prelo).

Vivendo o risco

A percepção que temos dos riscos de uma situação varia com o modo como nos falam sobre esta mesma situação. Num mundo em crise, talvez uma boa comunicação seja nossa melhor saída.

Nunca o futuro foi tão importante. Fugindo do inexorável hoje, projetamos diversos cenários de espalhamento da pandemia, enquanto sobrevivemos reclusos em cuidados consigo, irrompemos em ondas de solidariedade espontânea, aprendemos como nunca antes sobre a esterilização de todo um ecossistema que nem suspeitávamos habitar nossas cozinhas, maçanetas, sacolas de supermercados, e o ar que compartilhamos. Parecemos viver no futurista cenário de H.G. Wells, no livro Guerra entre Mundos, filmado por Spielberg, só que ao contrário, pois na ficção nossos invisíveis microorganismos nos salvam, ao dizimar invasores alienígenas muitíssimo poderosos, que apenas sucumbiram por não ter defesas imunológicas contra nossas … bactérias. Agora, no entanto, parece que os alienígenas somos nós, expulsos de um mundo que julgávamos haver criado à nossa imagem e semelhança, expulsos dos paraísos artificiais de consumo por seres microscópicos que sobreviveram ao holocausto de espécies que promovemos em nosso paraíso natural, nossa biosfera original.

Toda crise tem um lado positivo e, ao que parece, tivemos que chegar ao limite enquanto sociedade, precisamos nos colocar de forma nua e crua face a face com a dura morte para, só assim, nocautear o abominável teatro das fakenews. O nível de confiança da população em informação vinda de mídias sociais vem decaindo vertiginosamente. Os panelaços recorrentes pelo país e o imenso apoio que Mandetta têm recebido mostram que na crise real a verdade se impõe, ao tempo em que ela revela a imagem grotesca de um presidente a brincar de facebook e twitter (“é só uma gripe”) em um momento tão profundamente sério. Precisávamos de um governo federal uníssono e integrado para agir ao mesmo tempo em todas as frentes desta guerra. Neste sentido o vírus tem sido didático ao demonstrar uma crise de autoridade no âmbito federal, ao escancarar que cada Ministério ao final age quase que de forma autônoma, o que termina por forçar os governos estaduais a liderar o processo.

Na ausência de um governo federal uníssono, o sucesso do enfrentamento à pandemia vai basicamente depender de nossa própria capacidade de nos engajarmos em comportamentos que reduzam a transmissão do vírus, já que vacinas e remédios eficazes em larga escala virão apenas no longo prazo, especialmente aqui no Brasil, onde o governo federal corta novamente, e mais uma vez, as já escassas verbas para pesquisa, sim, a pesquisa, esta mesma que pode trazer a cura. Como conseguir o engajamento em uma sociedade tão ampla e diversa como a nossa? Felizmente a ciência, que tem nos ajudado muito até agora, pode também aqui ajudar. Semana passada a prestigiosa revista Nature Human Behavior deu voz a Cornelia Betsch, pesquisadora na interface entre Psicologia e Comunicação, que estuda a percepção de riscos à saúde e sua comunicação à sociedade. Ela coordena uma influente pesquisa que tem auxiliado o governo a conduzir o controle da pandemia na Alemanha, país que apresenta uma das menores taxas de mortalidade até o momento (apenas 1,6%, frente a 12% na Itália, 10% no Reino Unido, 6% no Irã, 4% no Brasil e na China, 3% nos EUA).

A percepção que temos do risco ao nosso redor controla em parte nossas decisões. Tenho certeza que o leitor tem um primo que sai para jogar futebol com os amigos, ou que vai à praia, ignorando os riscos envolvidos. Entender como percebemos individualmente o risco pode melhorar a forma como lidamos socialmente com a pandemia. Há tempos o prêmio Nobel de economia e psicólogo Daniel Kahneman mostrou que nosso comportamento se altera qualitativamente com a percepção de risco, refutando assim um dos dogmas da teoria econômica, qual seja, o de que o mercado seguiria uma racionalidade em suas decisões econômicas. Resumidamente, aceitamos correr mais riscos quando a opção é perder algo que nos agrada, mas preferimos não correr riscos quando podemos optar por um ganho certo. Reproduzo aqui um experimento de Kahneman da década de oitenta, apenas para mostrar o quão profética pode ser a ciência. Sua equipe apresentou a alunos de graduação o dilema abaixo:

Imagine que os Estados Unidos da América esteja se preparando para o contágio desenfreado por uma doença asiática rara (!!!), que matará 600 pessoas (neste detalhe a profecia errou feio). Dois programas alternativos de combate à doença foram propostos. Assuma que a estimativa precisa para a adoção de cada um destes programas seja:

  1. Se o programa A for adotado, 200 pessoas serão salvas.
  2. Se o programa B for adotado, haverá 1/3 de chances de que 600 pessoas sejam salvas, e 2/3 de chances de que ninguém seja salvo.

Pois então, pense bem, releia as opções acima e diga: qual dos dois programas você adotaria? A imensa maioria (72%) dos graduandos escolheram salvar 200 pessoas (opção 1). Esta seria também a sua opção? Pois saiba que, curiosamente, as duas opções são, de um ponto de vista racional, equivalentes, pois em ambas 200 (ou 1/3 de 600) pessoas seriam salvas. Sozinho este resultado já mostraria a irracionalidade das pessoas, mas Kahneman quis ir além, e preparou um segundo dilema. Aos alunos foi apresentada a mesma história acima (pandemia vinda da Ásia), só que agora as alternativas foram:

  1. Se o programa C for adotado, 400 pessoas morrerão.
  2. Se o programa D for adotado, há 1/3 de chances de que ninguém morra, e 2/3 de chances de que 600 pessoas morram.

Pois bem, e agora, qual das alternativas lhe parece menos pior? Neste caso, a imensa maioria (78%) dos estudantes escolheu a opção 2, embora, novamente, ambas as alternativas sejam racionalmente equivalentes (nas duas morreriam 400 pessoas, ou 2/3 de 600). No primeiro problema, as pessoas sistematicamente escolhem a alternativa não há risco de erro na previsão (não há probabilidade envolvida na previsão do programa A), enquanto que no segundo problema as pessoas sistematicamente escolhem a alternativa que envolve riscos (há probabilidades envolvidas na previsão do programa D).

Por que as pessoas às vezes preferem um resultado líquido e certo, e às vezes preferem correr riscos? Kahneman notou que a preferência sistemática pelo líquido e certo (não correr riscos) ocorria sempre que se apresentasse o problema de modo que houvesse uma opção onde haveria ganho líquido e certo (A). Por outro lado, Kahneman notou que a preferência sistemática pelo risco aparecia sempre que se apresentasse o problema de modo que houvesse uma opção onde haveria perda líquida e certa (C). Este viés para evitar sistematicamente riscos em certas circunstâncias (primeiro experimento) ou para correr sistematicamente riscos em outras circunstâncias (segundo experimento) seria inteiramente irracional já que, nos dois experimentos, nas quatro opções apresentadas, teríamos sempre 200 pessoas salvas e 400 mortas.

Assim, este estudo, e inúmeros outros que o seguiram, mostra que a percepção de risco varia em função do modo que apresentamos um mesmo problema, e que as escolhas que fazemos não são inteiramente racionais (e que portanto, na base do tão endeusado mercado, não vigora a racionalidade). Nossa percepção de risco é enviesada, funcionando como nossa própria percepção visual, também está sujeita a sistemáticas ilusões de ótica.

Este estudo nos sugere importantes formas de nos comunicarmos com o público. Se a melhor opção é tomar riscos, devemos ressaltar na comunicação social o aspecto negativo das certezas, enquanto se a melhor opção é não tomar riscos, devemos ressaltar o aspecto positivo das certezas. Tudo isto mostra que a ciência tem muito a nos ajudar na comunicação dos riscos envolvidos em uma pandemia. No entanto, as pessoas também variam bastante em seus posicionamentos frente ao risco, sejam estas variações ligadas ao gênero, idade, ou região, sejam ligadas ao nível de desinformação que adotam para si, ou à confiança que ainda depositam nas mídias sociais, ao nível de proteção que julgam possuir, enfim, há outros tantos fatores envolvidos, e daí o projeto de Cornelia Betsch ser tão importante, pois visa monitorar em tempo real estes fatores psicológicos, subsidiando assim a bem sucedida política de saúde pública alemã.

Este monitoramento é tão importante que foi inclusive adotado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), visando o estabelecimento de um protocolo comum de monitoramento. Se queremos ter respostas sociais eficazes, devemos monitorar não apenas o estado de saúde, mas também o estado de ânimo, as perspectivas, a percepção de risco presente e futuro, enfim, devemos conhecer bem nosso povo se quisermos chegar à luz no fim desse túnel. Se nosso futuro próximo parece ainda incerto, se não sabemos ainda quando vamos voltar ao trabalho (nunca pensei que desejaria isso!), temos ao menos a certeza de que, quando voltarmos, será diferente. Afinal, um mundo pós-guerra sempre será um novo mundo.

Hilton F. Japyassu (UFBA)

Para saber mais

Betsch, C. (2020). How behavioural science data helps mitigate the COVID-19 crisis. Nature Human Behaviour, 1-1.

Tversky, A., & Kahneman, D. (1981). The framing of decisions and the psychology of choice. science, 211(4481), 453-458.

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Como enfrentar o novo coronavírus? Ouvindo cientistas. Investindo na ciência. Refutando a pseudociência.

O conhecimento e a ciência são nossa melhor vacina para enfrentar crises, como a pandemia do novo coronavírus

A epidemia do novo coronavírus gera muitas perguntas. De onde veio o vírus? Como (e com qual rapidez) a doença que ele causa se espalha? Como nosso sistema imune pode derrotá-lo? Remédios ou vacinas são viáveis? Não são perguntas quaisquer: as respostas vão informar políticas públicas. Se as políticas forem bem implementadas, fazendo uso correto das respostas encontradas, vidas serão salvas.

As respostas virão do trabalho de cientistas. O caminho que será percorrido é cheio de desafios, e o sucesso não é garantido. Entretanto, para responder a perguntas sobre o novo coronavírus, a ciência é nosso melhor instrumento. Dada a importância da ciência nesse momento de nossas vidas, cabe perguntar: como a ciência consegue construir o conhecimento a respeito do coronavírus?

De onde veio o vírus?

Nos primeiros momentos da epidemia, amostras de pacientes foram colhidas e o genoma do vírus foi sequenciado. A partir dessas sequências, foram construídas filogenias, que são árvores que expressam o parentesco do novo vírus com outras espécies. Essas análises evolutivas mostraram que o novo vírus é muito semelhante a tipos de coronavírus que infectam pangolins e morcegos. O vírus presente em animais silvestres sofreu mutações, e essa versão modificada tornou-se eficiente para infectar humanos.

Há muito conhecimento prévio embasando esses estudos. Há décadas usamos sequências de DNA para inferir a história evolutiva de diferentes espécies, sejam vírus, plantas ou animais. Essas análises usam ferramentas computacionais e matemáticas, desenvolvidas por biólogos, estatísticos e cientistas computacionais. A compreensão de que vírus de animais podem invadir humanos é outro tema intensamente estudado, e o alarme já foi soado várias vezes para a seriedade dessa ameaça. A rápida identificação das linhagens que chegaram ao Brasil foi feita por análises genômicas conduzidas por pesquisadores do Instituto de Medicina Tropical e do Instituto Adolfo Lutz de São Paulo, graças a experiência adquirida em estudos anteriores com o vírus Zika.

O sucesso em rapidamente identificar o vírus causador das pneumonias nos hospitais de Wuhan só existiu porque a ciência já possuía uma sólida base no sequenciamento e na análise de genomas, no estudo de evolução viral e em análises epidemiológicas. E, no caso do esforço brasileiro para sequenciar o vírus, vale acrescentar: o trabalho foi possível porque duas pós-doutorandas, que recebem bolsa de estudos, estavam treinada e prontas para fazer as análises.

Com que velocidade a doença se propaga?

Essa talvez seja a principal pergunta que enfrentamos nessa crise. Se o vírus se propagar lentamente teremos tempo e condições de tratar os doentes, e a crise será mais tolerável. Entretanto, uma propagação rápida irá sobrecarregar o sistema de saúde, e a mortalidade será elevada. Então é crítico responder: com base no que sabemos sobre o comportamento do vírus, quantos novos infectados esperamos na próxima semana? Como reduzir a taxa de propagação da doença? Para responder a essas questões, usamos modelos matemáticos que conjugam fatores que determinam a taxa de propagação: o número de pessoas que um indivíduo contaminado infecta, a facilidade de contágio, a frequência com que pessoas interagem, e o grau de imunidade na população. De posse dessas informações, fazemos contas e usamos simulações para fazer as previsões.

As previsões da propagação da doença feitas pelos modelos são imensamente importantes para políticas de saúde pública. Um trabalho  feito por pesquisadores do Imperial College previu que haveria uma imensa sobrecarga no sistema de saúde do Reino Unido, a não ser que medidas rígidas de distanciamento social fossem impostas. Esse trabalho influenciou governantes do Reino Unido e dos Estados Unidos, que passaram a apoiar medidas mais efetivas de distanciamento social. Tal estudo só foi possível porque havia um grupo de pesquisadores treinados em epidemiologia, com conhecimentos computacionais e matemáticos. O pesquisador que liderou o trabalho do Imperial College é formado em física teórica, um campo extremamente matemático e que também lida com dados cheios de incertezas.

A eficácia das rígidas restrições a deslocamentos implementadas na China neste ano também já foi avaliada num estudo científico. Utilizando dados sobre deslocamentos individuais, fornecidos pela Baidu (uma empresa chinesa de telecomunicações), um grupo internacional mostrou que a redução na mobilidade está relacionada com o decréscimo na taxa de expansão do vírus. Novamente, é interessante notar que o cientista que liderou a pesquisa é professor num departamento de zoologia, e utiliza abordagens ecológicas evolutivas no estudo de doenças infecciosas.

Aqui no Brasil também há grupos trabalhando na modelagem da COVID-19. Na Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), um grupo do Programa de Computação Científica modelou o impacto do isolamento. Um outro grupo, que reúne médicos e epidemiologistas da UnB, UFRJ e USP, fez uma nota técnica sobre diferenças entre municípios brasileiros na propagação da doença. Um grupo baseado em São Paulo vem divulgando publicamente prognósticos para a doença, com base em seus modelos matemáticos. Nessa equipe, há físicos, ecólogos, e evolucionistas. Novamente, o mesmo recado: pesquisadores formados em diversas áreas – algumas distantes das áreas médicas ou do estudo de vírus – possuem conhecimentos que, reunidos, ajudam a alcançar respostas sobre a pandemia.

Teremos remédios?

Para decidir quais drogas devemos usar, precisamos entender como cada uma funciona, como interagem com as moléculas do vírus, e quais drogas existentes são seguras. Um grupo do Laboratório Nacional em Biociências está triando milhares de fármacos, em busca daqueles que, de acordo com simulações computacionais de interações moleculares, podem interferir em proteínas essenciais para a reprodução do vírus. Alvos promissores serão testados em células infectadas pelo coronavírus. Nessa empreitada, estão unidos pesquisadores especializados em biologia computacional, modelagem molecular, bioquímica, biologia celular e virologia. Outra frente envolve testar a eficácia de drogas previamente empregadas para outras doenças, mas cuja eficácia ou segurança para tratar o COVID-19 ainda é desconhecida, como é o caso da cloroquina. No Brasil, novos tratamentos com drogas já conhecidas estão sendo testados para a COVID-19, em trabalhos que envolverão 18 laboratórios, coordenados pela FIOCRUZ. Para comprovar a eficácia de uma droga, dependemos de especialistas em farmacologia, estatística, saúde pública e ética em pesquisa. Sem profissionais treinados nessas diversas frentes e sem instituições de pesquisa bem organizadas e financiadas, não avançamos.

Conseguiremos produzir uma vacina? 

Muitas doenças humanas foram essencialmente erradicadas pelo emprego de vacinas. Conseguiremos o mesmo feito com a COVID-19? Neste exato momento há muitos grupos de cientistas tentando desenvolver uma vacina. Um deles é a equipe do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração, em São Paulo.

A estratégia desse grupo é imunizar as pessoas com proteínas que são semelhantes às do vírus, estimulando o corpo a produzir anticorpos e células imunes especializadas em atacar e neutralizar o invasor. Qual proteína viral usar? Eles apostam numa que está presente na cápsula viral, sendo justamente aquela usada pelo coronavírus para entrar nas células humanas. A estratégia vai funcionar? Não sabemos. Isso depende de como a proteína é capaz de ativar o sistema imune, da segurança de injetá-la em humanos e também da duração da imunidade gerada. Somente investigando poderemos saber a resposta.

Sabemos que qualquer chance de chegar a uma vacina só existe porque há uma comunidade científica altamente treinada — tanto no exterior, quanto no Brasil — com experiência em imunologia e bioquímica. Se não houvesse especialistas nessas áreas no Brasil, se seus laboratórios não estivessem equipados e suas equipes treinadas e financiadas, não poderíamos participar desse processo.

Dá para tolerar a pseudociência?

Há outra forma, distinta do recurso à ciência, para responder às perguntas sobre o coronavírus e a COVID-19? Respostas que recorrem ao sobrenatural podem trazer conforto a alguns, funcionar como placebo a outros, mas não vão gerar vacinas eficazes, não vão fazer predições precisas sobre a taxa de expansão viral, não vão permitir que drogas tenham sua eficácia testada. A ciência não é a única forma de ver o mundo, e tampouco nos dá todas as soluções, mas ela é capaz de oferecer respostas instrumentais e poderosas no processo de tomada de decisões.

Diante do atual cenário de pandemia, é curioso lembrar que há dois meses uma das mais sólidas áreas do conhecimento científico, a teoria da evolução, foi atacada num artigo publicado na Folha de São Paulo (ao qual eu e outros respondemos). O autor do ataque, Marcos Eberlin, é um criacionista, e crê que as formas vivas na terra são fruto do trabalho de um “planejador”, cuja identidade não conhecemos. Suas críticas à teoria da evolução são uma série de argumentos pseudocientíficos, sequer endossados por teólogos ou religiosos. Eberlin é coordenador do “Núcleo de Pesquisa de Design Inteligente”, sediado na Universidade Presbiteriana Mackenzie. O que esse núcleo de pesquisa anti-evolucionista produziu recentemente? Não se tem notícia de que algo útil para enfrentar o coronavírus tenha saído de lá.

Por que retomo esse frustrante negacionismo científico, dirigido à evolução, no contexto da COVID-19? Retomo porque a pseudociência não ajuda em tempos de crise, apenas confunde. Há como rejeitar evolução, mas ao mesmo tempo usar uma árvore filogenética para entender a origem e evolução do vírus? Rejeitar a seleção natural e investigar a resistência às drogas antivirais? Impossível. Não dá para negar evolução e ao mesmo tempo querer que a ciência nos ajude num momento de apuro. Afinal, a ciência que nos ajuda a lutar contra o vírus é a mesmíssima que sustenta a teoria da evolução. Negando-se uma, nega-se a outra. Nesse momento de crise devemos entender finalmente que é importante que recursos públicos não sejam desviados da ciência para a pseudociência. Devemos também entender que, sem apoio à sua comunidade científica, nas mais diversas áreas, inclusive nas ciências humanas e sociais, um país fica privado de dar resposta a muitas ameaças, como as novas doenças que nos acometem. Não financiar a ciência nacional é correr riscos.

Seis lições vindas de uma pandemia

É preciso reconhecer a importância da ciência, pois ela nos traz informação baseada em evidências, fundamentais para a tomada de decisões.

Precisamos afastar a pseudociência, que confunde e distrai, tirando nosso foco das questões que devem nos ocupar.

É preciso entender — agora e no futuro — que apoiar a ciência não consiste apenas em despejar recursos para resolver o problema que agora se apresenta (ainda que esses recursos sejam necessários). A resolução de problemas depende de uma comunidade científica previamente treinada, cobrindo uma gama ampla de especialidades, e com recursos para manter seus laboratórios e equipes. Sem essa base, não há como esperar resultados a curto prazo.

Os caminhos da ciência não são lineares. Investimento em física teórica forma pesquisadores que modelam pandemias. Treinamento em teoria evolutiva permite a compreensão da origem do novo coronavírus. Pesquisa em ciências humanas e sociais ajudam a entender a tomada de decisão e os comportamentos das pessoas. Pesquisa filosófica nos auxilia a entender e, fundamentalmente, a lidar com dilemas éticos que uma situação de crise, como a de uma pandemia, nos apresenta. Para resolver problemas complexos precisamos de um amplo leque de disciplinas.

De fato, as humanidades e as ciências sociais— tão atacadas pelo atual governo, por serem supostamente “pouco úteis” — dão contribuições cruciais. Na hora de definir estratégias de isolamento, é essencial saber a densidade populacional em diferentes bairros, a composição típica das famílias em diferentes classes sociais, a distribuição etária em diferentes regiões do país e do mundo, a melhor estratégia de transmitir conhecimento ao público. É necessário aprender com pandemias passadas, como a gripe espanhola de 1918, investigando os erros e acertos daquela época. Esses desafios são o domínio de geógrafos, demógrafos, sociólogos, educadores, historiadores e filósofos.

Finalmente, é preciso ser crítico e atento aos limites da ciência. Por exemplo, os modelos matemáticos usados para prever a propagação da doença não são precisos. Isso é esperado: os modelos dependem dos dados de que dispomos, que muitas vezes são imperfeitos, como é o caso do número real de infectados em cada país, ou a facilidade com que os indivíduos se tornam imunes. Essas incertezas tornam mais difícil o processo de tomar decisões. Ainda assim, é importante que governantes saibam que as decisões baseadas em ciência, mesmo carregando incertezas, são preferíveis à alternativa de decisões sem embasamento científico, fundamentados somente em opiniões e preconceitos.

O recado é claro: uma sociedade com cientistas bem treinados, instituições científicas bem equipadas e financiadas, e com investimento na educação de jovens, habilitando-os a serem os cientistas de amanhã, estará mais preparada para enfrentar crises. Neste momento vivemos a pandemia do novo coronavírus. No futuro, poderá ser outra doença, o aquecimento global, ou os efeitos da poluição.

 

Diogo Meyer

Universidade de São Paulo

 

Sugestões de Leitura

The proximal origin of SARS-CoV-2”, de Kristian G. Anderson e coautores, publicado na Nature Medicine em 17 de março.

É um artigo que situa o novo coronavirus em relação àqueles que infectam outras espécies.

 

Why Trust Science?” De Naomi Oreskes. Princeton University Press, 2019.

Um livro livro discute a forma como a confiança no conhecimento científico é construída.

 

Imune” de Matt Richtel.  Harper Collins, 2019.

Um livro que apresenta de modo acessível os princípios básicos do funcionamento do sistema imunológico

Inovação responsável como desafio das democracias contemporâneas

Um dos principais desafios das sociedades contemporâneas é a gestão responsável da pesquisa e inovação, que podem mudar nossas vidas de maneiras importantes. Como a governança da pesquisa e inovação pode ser feita de modo a gerar mudanças responsáveis dos nossos modos de vida?

Um dos principais desafios das sociedades contemporâneas é a gestão responsável da pesquisa e inovação. Por gerar novos modos de vida em sociedade, a pesquisa e a inovação devem ter uma governança responsável. Afinal, a compreensão das relações entre ciências, tecnologias, sociedades e ambientes leva a um entendimento de que ciências e tecnologias não são constituídas apenas tecnicamente, mas também social e politicamente. De um lado, determinantes sociopolíticos afetam os caminhos das ciências e tecnologias; de outro, estas últimas levam a outros modos de existência social e política, como nosso tempo presente mostra com clareza. Embora frequentemente vistas como meios de controlar a natureza, há um outro lado nas ciências e tecnologias: elas podem, paradoxalmente, aumentar nossos sentimentos de incerteza e ignorância. Isso porque podem ter impactos não-previstos, potencialmente prejudiciais, assim como capazes de transformar nossos modos de vida.

É necessária fundamentação teórica para a compreensão da pesquisa e inovação responsáveis. Na postagem de hoje, discuto uma proposta para tal fundamentação, elaborada por Jack Stilgoe, Richard Owen e Phil Macnaghten, em artigo influente (1165 citações no Google Scholar®) publicado há seis anos no periódico Research Policy. Esta fundamentação se baseia em quatro dimensões integradas da inovação responsável: antecipação, reflexividade, inclusão e responsividade.

Na segunda metade do século XX, o poder das tecnologias relacionadas (frequentemente de maneiras complexas) com as ciências, sua capacidade de mudar nossas vidas, seus potenciais crescentes de produzir tanto benefícios quanto riscos, ampliaram os debates sobre as responsabilidades de cientistas (e de outros agentes de inovação, por exemplo, órgãos de fomento à pesquisa e corporações) para além de abordagens anteriores. No caso dos cientistas, esses debates colocaram em xeque visões convencionais que tendem a ver as ciências apenas como emancipatórias (podendo perder de vista os riscos ou a distribuição desigual dos benefícios da pesquisa) e os cientistas como autônomos em suas decisões (podendo negligenciar determinantes como os valores e interesses dos cientistas e de seus financiadores). A resposta de parte da comunidade científica tem sido resistir a essas tendências e buscar preservar um ideal de autonomia nas decisões sobre a pesquisa. Mas parte da comunidade científica abraçou uma discussão sobre a responsabilidade dos cientistas que vai além do reconhecimento e da negociação sobre condutas responsáveis em seus papeis profissionais.

Essas visões ampliadas sobre a responsabilidade dos cientistas podem ser expressas em termos de três formas de responsabilidade: responsabilidade 1.0 – integridade e produção de conhecimento confiável; responsabilidade 2.0 – ciência para a sociedade; responsabilidade 3.0: ciência com e para a sociedade. Pesquisa e inovação responsáveis se vinculam à responsabilidade 3.0. Esta forma de responsabilidade parece mais capaz de produzir, para fazer referência a um livro muito interessante organizado por Boaventura de Sousa Santos, um conhecimento prudente para uma vida decente.

O que é inovação responsável

Inovação responsável significa, para Stilgoe e colaboradores, “cuidar do futuro através da gestão coletiva da ciência e da inovação no presente”. Ela deve ser responsiva a um conjunto de questionamentos importantes em debates públicos sobre novas áreas científicas e tecnológicas, que são tipicamente colocados para cientistas ou que o público gostaria que os cientistas se perguntassem. A Tabela 1 sumaria essas questões, conforme sistematizadas por Macnaghten e Chilvers em termos de sua relação com produtos, processos ou propósitos da inovação, a partir de 17 debates públicos sobre ciência e tecnologia no Reino Unido. Considerar esses questionamentos é um importante passo para ir além de uma governança da ciência e inovação convencional, que foca sobre questões de produtos apenas, obscurecendo áreas de incerteza e ignorância acerca tanto dos riscos quanto dos benefícios. A inovação responsável pode ser entendida como uma maneira de incorporar a deliberação sobre essas questões no próprio processo de inovação.

Tabela 1: Linhas de questionamento sobre inovação responsável

Questões sobre produtos Questões sobre processos Questões sobre propósitos
Como riscos e benefícios serão distribuídos? Como padrões devem ser desenhados e aplicados? Por que os cientistas estão fazendo isso?
Que outros impactos podemos antecipar? Como riscos e benefícios devem ser definidos e mensurados? Essas motivações são transparentes e em prol do interesse público?
Como esses impactos poderiam mudar no futuro? Quem está no controle? Quem se beneficiará?
O que não sabemos a respeito? Quem está participando? O que eles irão ganhar?
O que não poderíamos jamais saber a respeito? Quem assumirá a responsabilidade se as coisas derem errado? Quais são as alternativas?
  Como podemos saber se estamos certos?  

Para cientistas que abraçam tal visão ampliada de suas responsabilidades, são muitos os desafios, em especial quando não temos formação para lidar com vários aspectos consideravelmente complexos de uma ciência que é feita com e para a sociedade. Por isso, fundamentações como aquela proposta por Stilgoe e colaboradores são muito úteis. Um avanço importante incorporado nessa proposta é não focar apenas nos produtos da ciência e inovação, ou apenas nos riscos e prejuízos de tais produtos. Assim, busca-se ir além de regulamentações baseadas no risco dos produtos da inovação, embora sem deixar de lado esse aspecto. As ciências e tecnologias tipicamente transbordam para além das fronteiras dos marcos regulatórios existentes, bem como para além de nossa capacidade de pensar riscos e benefícios a partir de nossas experiências passadas. Precisamos de mais do que uma abordagem retrospectiva da responsabilidade, na medida em que, na inovação, o passado e o presente podem não oferecer uma orientação razoável para o futuro.

Como comentam Michel Callon, Pierre Lascoumes and Yannick Barthe, necessitamos de novos “fóruns híbridos” que enriqueçam e expandam nossas democracias, tornando-as mais capazes de absorver debates e controvérsias em torno de ciência e tecnologia. Essas controvérsias mostram que preocupações públicas não podem limitar-se aos riscos dos produtos da inovação, mas devem estender-se para os propósitos e as motivações da pesquisa, as direções da inovação, a emergência de novos sistemas sociotécnicos, a distribuição dos benefícios, entre muitos outros aspectos. Deve-se, assim, passar de uma regulamentação baseada apenas no risco para dimensões de responsabilidade orientadas para o futuro, marcadas pelo cuidado e pela responsabilidade com nossas vidas coletivas e com o planeta, com maior potencial de acomodar a incerteza e de promover reflexões sobre valores, propósitos, justiça.

Trata-se de buscar, numa palavra, uma nova governança científica, ou, dito em outras palavras, um novo contrato social entre ciência e público. Para tanto, é preciso abrir novos espaços de diálogo público sobre ciência e inovação. A pesquisa e inovação responsáveis devem trafegar por esses espaços de diálogo público, buscando produzir conhecimento com e para a sociedade. Os quatro pilares da proposta de Stilgoe e colaboradores – antecipação, reflexividade, inclusão e responsividade – fornecem bússolas muito úteis para cientistas que se põem a navegar no espaço entre pesquisa e implementação. Estes cientistas não devem manter suas práticas científicas como antes, porque, tudo o mais sendo igual, não fornecerão orientações e procedimentos suficientemente robustos e confiáveis para a prática transdisciplinar que a responsabilidade 3.0 demanda. Trata-se de reconfigurar nossas práticas para conseguir prosseguir nessa navegação. Como? Uma contribuição relevante para respondermos a essa pergunta pode ser dada a partir dos quatro pilares citados, que fornecem uma moldura teórico-prática para colocar e discutir os questionamentos na Tabela 1.

Mas antes de dedicar-me a tratar desses pilares, cabe uma palavra sobre o uso do adjetivo “responsável”, na medida em que pode sugerir alguma acusação a colegas na comunidade científica que seriam supostamente “irresponsáveis”. Essa inferência não procede, contudo, porque ela erra no foco de análise. O que está em foco são responsabilidades políticas coletivas, ou corresponsabilidades, de cientistas, financiadores da pesquisa, inovadores e outros, e não alguma forma de responsabilidade individual. Não são esses diversos atores que poderiam ser, individualmente, acusados de irresponsabilidade. Tratam-se, antes, de sistemas complexos e acoplados de ciência e inovação que criam o que Ulrich Beck chamou de “irresponsabilidade organizada”. Tratam-se de aspectos de tais sistemas que levam a quatro categorias de inovação irresponsável identificadas por René von Schomberg, que incluem, por exemplo, a negligência de princípios éticos e a falta de precaução e prevenção. Não se trata, então, de diagnosticar responsabilidades ou irresponsabilidades em cientistas individuais, mas de desenvolver sistemas que favoreçam escolhas responsáveis, no presente e no futuro, através da antecipação e da obtenção de conhecimentos sobre as possíveis consequências das ciências e tecnologias, assim como do desenvolvimento de capacidades de responder a tais consequências.

Pilares da inovação responsável

A primeira dimensão da inovação responsável identificada por Stilgoe e colaboradores é a antecipação. As implicações de novas tecnologias frequentemente não são previstas e análises baseadas em riscos costumam fracassar na tentativa de fornecer indicações precoces de seus efeitos futuros. A antecipação implica a colocação de questões da forma “e se…?” por pesquisadores e organizações, levando-os a considerar contingências, o que sabemos, o que é provável, o que é plausível, o que é possível. Ela permite gerar expectativas que servem não apenas para realizar previsão, mas também para moldar futuros possíveis e desejáveis, e organizar recursos para alcançar estes últimos. A participação é fundamental para uma prática de antecipação que aumente a resiliência dos processos de inovação e dos futuros desejados. Há uma tensão entre a previsão, que tende a reificar futuros particulares, e a participação, que tende a abrir possibilidades novas de antecipação. Entre os métodos que podem ser usados na antecipação, temos o planejamento de cenários (que devem ser plausíveis) e a avaliação de visões (vision assessment). Esses métodos se mostram mais eficientes com um engajamento público desde estágios precoces de um processo de inovação (o que tem sido denominado upstream public engagement). Este último aspecto é muito importante: processos antecipatórios devem ser bem situados no tempo, porque devem ser suficientemente precoces para que sejam construtivos e suficientemente tardios para que sejam significativos. Dessa maneira, eles criam maiores possibilidades de se compreender a dinâmica da promessa que molda cenários futuros.

A reflexividade é a segunda dimensão considerada por Stilgoe e colaboradores, que argumentam que responsabilidade requer esse atributo dos agentes e das organizações. É comum entre os cientistas a ideia de que a reflexividade significa a crítica mútua como princípio organizacional das ciências. De fato, este é um significado importante de reflexividade. Contudo, não é suficiente. É necessária reflexividade ao nível das práticas institucionais, o que significa analisar sistematicamente as próprias atividades, compromissos e suposições, mas também ter consciência dos limites do conhecimento (especialmente, considerando-se a complexidade dos sistemas naturais e a incerteza inerente ao nosso entendimento deles, seja qual for sua natureza, seja científico ou não), assim como de que um enquadramento particular de um problema pode não ter acordo de todas as partes interessadas. Para além da crítica profissional exercida pelos cientistas, a responsabilidade torna a reflexividade um assunto público, que deve envolver não somente laboratórios, mas também órgãos de fomento e regulação, partes interessadas, o público e outros agentes e instituições envolvidas na governança da ciência e inovação. Os órgãos de fomento, por exemplo, devem ter a responsabilidade não somente de refletir sobre seus próprios sistemas de valores, mas também de fomentar a capacidade reflexiva nas práticas de ciência e inovação. Entre os métodos que podem promover reflexividade, temos, por exemplo, a elaboração de códigos de conduta e práticas de reflexão dentro dos laboratórios, acerca do contexto socio-ético do trabalho científico, envolvendo frequentemente participação de cientistas sociais e filósofos.

Um terceiro pilar é a inclusão de novas vozes na governança da ciência e inovação, como parte da construção de legitimidade. Entre os processos de diálogo público utilizados com esse propósito, temos conferências de cidadãos (consensus conferences), júris de cidadãos, mapeamento deliberativo, votação deliberativa, assim como oficinas participativas e grupos focais, parcerias de múltiplas partes interessadas, inclusão de membros do público em comitês científicos consultivos e outros mecanismos híbridos que tentam diversificar as contribuições para a governança da ciência e inovação. Ao comprometer-se com a inclusão em tal governança, não se deve perder de vista uma série de aspectos, por exemplo, o de que processos de inclusão implicam consideração de questões relativas ao poder. Eles suscitam, por exemplo, preocupações quanto a efeitos de enquadramento (framing effects) que podem fazer com que processos de diálogo reforcem relações preexistentes de poder profissional e modelos do público baseados em déficit (por exemplo, em sua compreensão do que está em pauta nos debates sobre ciência e inovação). Além disso, a variabilidade das práticas de governança inclusiva e de seus impactos sobre políticas públicas tem levado, por exemplo, a críticas e demandas de maior clareza quanto aos métodos de participação, aos propósitos de seu uso e aos critérios para sua avaliação. Contudo, ao tecer tais críticas, deve-se ter o cuidado, ao exigir que sejam satisfeitos princípios ideais, de não perder de vista variedades de engajamento que são menos do que perfeitas, mas, ainda assim, são de alguma maneira boas. Tampouco se deve negligenciar a natureza dos processos participativos como modalidades de experimentação coletiva e em andamento.

Ademais, critérios de qualidade do diálogo público têm sido desenvolvidos e podem ser empregados para avaliar processos participativos. Callon e colaboradores, por exemplo, propõem três critérios: intensidade – quão cedo membros do público são consultados e quanta atenção é dada à composição do grupo de discussão; abertura – quão diverso é o grupo e quem está representado; e qualidade – a seriedade e continuidade da discussão. Deve haver espaço, também, para que público e partes interessadas questionem o próprio enquadramento do diálogo e os processos de participação, e não somente os problemas e as soluções particulares postas em discussão. Tomados os devidos cuidados, processos de engajamento público na governança da ciência e inovação podem ser considerados legítimos, especialmente se seus objetivos forem modestos e se as suposições e os compromissos subjacentes a eles estiverem, eles próprios, abertos ao escrutínio público.

Por fim, a responsividade é um quarto pilar da ciência e inovação responsáveis. A inovação responsável demanda a capacidade de mudança em resposta às contribuições, aos valores, às expectativas do público e das partes interessadas, bem como em resposta a circunstâncias mutáveis e à insuficiência do conhecimento e do controle. Há vários mecanismos que tornam a inovação responsiva aos demais pilares considerados por Stilgoe e colaboradores, antecipação, reflexividade e inclusão. Por exemplo, aplicação do princípio da precaução, de moratórias (por exemplo, de uso de uma inovação antes de uma melhor compreensão de suas implicações) e de códigos de conduta pode ser apropriada num conjunto de casos. O emprego de design sensível a valores pode ser útil em outros casos, por criar a possibilidade de incorporar determinados valores éticos nas tecnologias.

A promoção da diversidade na gestão da ciência e da inovação é outro elemento importante da responsividade. Isso requer a análise de tensões e mecanismos de governança dentro dos processos de financiamento da pesquisa, de garantia de propriedade intelectual e de estabelecimento de padrões tecnológicos, que frequentemente fecham a inovação de determinadas maneiras, em vez de abri-lo à participação diversa. Entre os fatores que podem aumentar a responsividade institucional, temos: uma cultura de política científica deliberativa; ênfase sobre aprendizagem reflexiva e sobre a própria responsividade; cultura organizacional aberta, enfatizando inovação, criatividade, interdisciplinaridade, experimentação e coragem de assumir riscos; compromisso com engajamento e interesse públicos. Todos esses aspectos têm importância na busca por superar uma “lógica de não-responsividade” que tem sido frequente na governança da ciência e inovação, especialmente quando pesquisa e desenvolvimento são vinculadas ao crescimento econômico sem um questionamento de “qual pesquisa” e “qual desenvolvimento” seriam desejáveis.

Por fim, devemos considerar que esses pilares não devem ser vistos separadamente, mas integrados e incorporados na governança da ciência e inovação. Eles devem, ademais, ser apropriadamente conectados a culturas e práticas de governança. As dimensões acima podem se reforçar mutuamente: por exemplo, maior reflexividade tende a promover maior inclusão, e vice-versa. Contudo, eles também podem estar em tensão e gerar conflitos: por exemplo, antecipação pode gerar maior participação, mas também pode sofrer resistência da parte de cientistas que buscam defender sua autonomia, ou seus compromissos prévios com determinadas trajetórias de inovação. Trazer à tona tais tensões e, assim, colocá-las em negociação são passos importantes para tornar responsiva a inovação responsável. Trata-se, em suma, de integrar as dimensões e estratégias para inovação responsável numa abordagem de governança coerente e legítima, explorando o que conta como inovação responsável no nível macro das políticas públicas, no nível micro do laboratório de pesquisa e no nível meso das estruturas e práticas institucionais que conectam os níveis precedentes.

Uma estratégia que permite trabalhar de modo integrado com dimensões da inovação responsável é a chamado stage-gating, um mecanismo bem estabelecido de desenvolvimento de novos produtos, que divide o processo de pesquisa e desenvolvimento em estágios discretos, separados por pontos de decisão, nos quais a progressão ao longo dos estágios se baseia no cumprimento de determinados critérios. Convencionalmente, esses critérios são baseados em considerações técnicas e de potencial mercadológico. Contudo, o processo de stage-gating pode ser adaptado para incluir critérios de inovação responsável.

Para um projeto de geo-engenharia, Stilgoe e colaboradores usaram os seguintes critérios para decisão sobre cada estágio do processo de pesquisa e desenvolvimento: 1. Riscos identificados, gerenciados e tornados aceitáveis (dimensão: reflexividade); 2. Compatibilidade com regulamentações relevantes (dimensão: reflexividade); 3. Comunicação clara da natureza e dos propósitos do projeto (dimensão: reflexividade, inclusão); 4. Aplicações e impactos descritos e mecanismos colocados em ação para revisão a seu respeito (dimensão: antecipação, reflexividade); 5. Mecanismos para compreender visões do público e de partes interessadas identificados (dimensão: inclusão, reflexividade). Um painel independente de avaliação do projeto tomou decisões, então, acerca da progressão ao longo dos estágios. Os critérios de decisão nos estágios 1 e 2 não estão relacionados a uma noção orientada para o futuro, prospectiva de responsabilidade, enquanto os critérios 3-5 se ocupam de questões e impactos potenciais mais amplos, associados com enquadramento da pesquisa, abordagens de comunicação, relações com diálogo público e problemas relacionados a desdobramentos futuros.

O processo de stage-gating como um todo correspondeu a uma prática de responsividade, com um grau relevante de reflexividade institucional. As ambições eram apropriadamente modestas. O processo aumentou a abertura da discussão sobre governança de ciência e inovação no contexto complexo de um projeto de geo-engenharia, trazendo à tona tensões, enquadramentos, suposições implícitas, aspectos contestados, valores e compromissos. Ele permitiu, ainda, que os cientistas e membros do painel independente e do órgão de fomento antecipassem impactos, aplicações e problemas previamente não explorados. Ao longo do processo, surgiram evidências de uma cultura de pesquisa e inovação mais reflexiva e deliberativa.

Esta experiência sugere a pertinência de investigar a aplicabilidade de processos de stage-gating para o uso integrado de dimensões de inovação responsável – antecipação, reflexividade, inclusão e responsividade – em iniciativas que não se vinculam a tecnologias emergentes, a exemplo da geo-engenharia, mas a outros processos inovadores que demandam diálogo público e responsabilidade na realização de pesquisa e inovação para e com a sociedade. Nós estamos iniciando a exploração, por exemplo, dessas dimensões da inovação responsável e do processo de stage-gating em processo de criação de unidades de conservação. Esta decisão é um resultado de uma compreensão de que novas práticas são necessárias para que naveguemos no espaço de pesquisa e implementação com a devida prudência e responsabilidade social. Não se trata, contudo, de aplicar alguma moldura teórica como se fosse uma resposta pronta de governança, mas antes como um espaço de construção fértil de uma abordagem de pesquisa e inovação responsáveis, que possa promover aprendizagem social e potencializar a agência coletiva de uma diversidade de partes interessadas.

 

Charbel N. El-Hani

Instituto de Biologia/UFBA

 

PARA SABER MAIS:

Callon, M., Lascoumes, P. & Barthe, Y. (2009). Acting in an Uncertain World: An Essay on Technical Democracy. Cambridge, MA: MIT Press.

Irwin, A. (2006). The politics of talk: coming to terms with the ‘new’ scientific governance. Social Studies of Science 36: 299–330.

Irwin, A., Jensen, T. & Jones, K. (2013). The good, the bad and the perfect: criticizing engagement practice. Social Studies of Science 43: 118–135.

Macnaghten, P. & Chilvers, J. (2013). The future of science governance: publics,policies, practices. Environment and Planning C: Politics and Space 32: 530-548.

Owen, R., Bessant, J. & Heintz, M. (Eds.). (2013). Responsible Innovation: Managing the Responsible Emergence of Science and Innovation in Society. London: Wiley.

Stilgoe, J., Owen, R. & Macnaghten, P. (2013). Developing a framework for responsible innovation. Research Policy 42

O bebê Yoda e a ciência da fofura

Provavelmente, apenas os Wampas escondidos nas cavernas do isolado planeta Hoth ainda não viram a fofura que tomou conta das redes nas últimas semanas: um bebê da mesma espécie do personagem Yoda da saga Star Wars. A série na qual o personagem aparece ainda não estreou no Brasil, mas os memes já chegaram por aqui. O rostinho do personagem –apelidado de bebê Yoda por falta de um nome mais apropriado– despertou os instintos maternais e paternais de fãs da série e outros desavisados que viram a fofura por aí. Mas por que os olhos grandes, o nariz pequeno e o rosto rechonchudo do personagem causam esse sentimento? Continue Lendo “O bebê Yoda e a ciência da fofura”