A Genética Forense além (e apesar) do CSI

A Genética Humana Forense tem se popularizado nos últimos anos por meio se séries e programas de televisão, no entanto as informações passadas por esses programas raramente correspondem à realidade da ciência forenses atual.

Nas últimas décadas, diversos programas de entretenimento têm se dedicado a introduzir a Genética Humana Forense em nosso cotidiano, muitas vezes de maneira bastante simplista e pouco realista. No entanto, ainda que essa não seja a vitrine ideal para o que vem sendo realizado nessa área do conhecimento, a mesma existe e vem sendo usada pelo sistema de justiça de diversos países. Mas como isso funciona na prática, e qual a realidade da Genética Humana Forense atual?

Para responder esta pergunta, antes temos que entender um pouco sobre as evidências com as quais trabalham os geneticistas forenses. O DNA está presente em quase todas as células do corpo, e é único para cada um de nós, exceto os gêmeos monozigóticos. No nosso dia-a-dia perdemos muitas células, e com elas nosso DNA, sendo assim deixamos um vestígio nosso por onde passamos. Células são unidades microscópicas, e podem ser levadas de um lugar para o outro com vento, poeira ou água, o que faz com que nosso DNA possa estar em lugares onde nunca estivemos. Os cientistas forenses trabalham com esses ínfimos vestígios encontrados em cenas de crimes ou lugares de interesse forense.

Embora à primeira vista o trabalho forense possa parecer simples, é recente nossa capacidade técnica para: a. diferenciar um ser humano do outro em nível de DNA, pois somos 99.9% idênticos geneticamente. Foram necessários anos de desenvolvimento de perfis de identificação individual confiáveis, baseados no 0.01% da variabilidade que diferencia 7 bilhões de pessoas; e b. obter quantidade suficiente de DNA viável de tão escasso (e não raramente mal preservado) material biológico, pois as células que perdemos são poucas e ficam expostas ao ambiente, sofrendo degradação natural. Ainda assim, nem sempre é possível conseguir DNA viável para uso em análises forenses.

Desde que conseguimos tais avanços, o DNA obteve um status de intocável quando o assunto são evidências criminais, principalmente quando a discussão é realizada por leigos. No entanto, do ponto de vista científico, sabe-se das limitações das evidências de DNA.  Análises de DNA podem ser mal interpretadas ou enviesadas, pois dependem de manuseio ou interpretação humana em praticamente todas as etapas. Além disso, como mencionado anteriormente, DNA presente na cena do crime não é uma evidência inquestionável da presença do indivíduo na cena do crime, já que existem outras explicações plausíveis. Atualmente, na maioria dos países, o simples fato da presença de DNA na cena do crime não é evidência de culpabilidade. São necessárias mais evidências que suportem o caso para que um indivíduo seja considerado culpado.

Existe um outro lado da Genética Humana Forense que vem ganhando força nos últimos anos, que visa a construção de retratos moleculares dos suspeitos com bases na construção de perfis de genes relacionados a características fenotípicas como cor de olhos, cor de pele, cor de cabelos e formato do rosto. Um estudo de 2012 usou os genomas completos de pessoas públicas para avaliar com que precisão se podia prever os fenótipos de pigmentação de pele, olhos e cabelos nesses indivíduos. De acordo com os autores, somente era possível prever com certa precisão a presença de sardas (91%), enquanto a confiabilidade para cor de olhos foi de apenas 36%, e as demais variaram entre 42 e 83%. Esses valores são adequados para um estudo científico, mas nem de perto razoáveis para fins forenses. No entanto, em casos forenses, o que se faz é a soma de fenótipos, por exemplo, pelo DNA do suspeito poderíamos chegar a probabilidade de 75-85% do mesmo ser homem, de cabelos castanhos, sardas e olhos castanhos. Ou seja, é possível predizer um fenótipo, mas não excluir outros. Em relação a predição de fenótipos faciais, até o momento não existe nenhuma evidência científica do possível uso confiável da construção de retratos moleculares fidedignos a partir de genomas. O que se pode hoje é apenas construir um fenótipo aproximado usando dados populacionais, mas esse conhecimento não pode ser aplicado para a identificação individual.

Outras abordagens frequentes da Genética Humana Forense são o uso de linhagens familiares em suas investigações, como já foi discutido aqui no blog anteriormente; e a identificação de indivíduos por ancestralidade biogeográfica. A ideia principal desta última é diminuir o número de suspeitos usando marcadores genéticos de ancestralidade, pois assim seria possível saber se o suspeito seria europeu, africano, asiático ou nativo americano. Além de eticamente questionável, essa abordagem não poderia ser aplicável em países miscigenados, e estaria sujeita a um grande viés dependendo do grupo de marcadores genéticos usados. Recentemente a Inglaterra adotou essa abordagem no controle de imigração de sua fronteira, pois queria garantir que os refugiados que pediam asilo eram realmente do grupo biogeográfico que declaravam ser. Situações como essa surgem quando o uso da ferramenta técnica gerada pela ciência não é acompanhado pelo conhecimento científico proporcionado pela mesma.

Um relatório recente sobre a Ciência Forense nos EUA mostrou que o uso de técnicas forenses avançadas sem compromisso científico por parte dos investigadores que geram os laudos forenses é algo comum, e tem levado a sérias consequências no país, tais como execuções de inocentes e prisões injustas. Talvez esse mau uso dos dados, ou mesmo essa deturpação da informação gerada, seja resultado direto do status de infalível do DNA e de outros métodos forenses, somado à falta de educação científica dos envolvidos no sistema de justiça.

Tábita Hünemeier

IB/USP

PARA SABER MAIS:

Foto da abertura: https://www.discoverycf.com

 

O (Real) Descobrimento da América

A América foi descoberta há 15 mil anos, sem grandes navegações, e por um povo relacionado ao atuais norte-asiáticos.

A América foi o último continente a ser povoado por nossa espécie. Várias questões sobre como se deu essa ocupação ainda são foco de intensos debates entre pesquisadores de diversas áreas, tais como antropologia, arqueologia e genética. No entanto, o que é um consenso entre todos é que os primeiros americanos chegaram ao continente americanos pela ponte de terra que unia Ásia e América, conhecida como Beríngia, durante a última glaciação. Continue Lendo “O (Real) Descobrimento da América”

Darwin e a Síndrome da Domesticação.

Se você prestar atenção, perceberá que os animais domésticos têm algumas características em comum, tais como orelhas caídas, pelagem apresentando manchas brancas e focinhos mais curtos. Você já se perguntou o porquê dessas similaridades, conhecidas como Síndrome da Domesticação?

A Teoria da Evolução de Charles Darwin, publicada em 1859 sob título de “A Origem das Espécies”, não discorre ao longo de suas mais de quinhentas páginas sobre os mecanismos hereditários que seriam subjacentes a sua revolucionária ideia. No entanto, em seu livro seguinte “A Variação das Plantas e Animais Domesticados”, de 1868, Darwin realiza um detalhado estudo sobre hereditariedade ao analisar espécies domesticadas, apenas poucos anos após a elaboração das Leis da Hereditariedade por Gregor Mendel.
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A conquista do mundo pelos gatos

A Mesopotâmia foi o berço da nossa civilização e dos primeiros gatos domésticos, mas foi a partir do Antigo Egito que essa espécie começou a conquistar o mundo.

A história do gato doméstico (Felis silvestris catus) desenvolveu-se de maneira paralela à da nossa espécie, mas sem grande interferência humana por um longo tempo. Enquanto os ancestrais dos cães aproximaram-se e foram cooptados por bandos de caçadores-coletores há cerca de 20-40 mil anos, os gatos só passaram a fazer parte de nossa história após  o surgimento da agricultura, há cerca de 10 mil anos. Continue Lendo “A conquista do mundo pelos gatos”

A História recontada pelo DNA

Nosso conhecimento sobre espécies extintas e civilizações passadas sempre foi embasado em dados fósseis e arqueológicos. A possibilidade de recuperar informação genética a partir de restos biológicos antigos, como ossos e dentes, tem aberto novas perspectivas para o estudo da história evolutiva humana, dando respostas que não poderiam ser obtidas por outras áreas do conhecimento que estudam nossas origens.

Em menos de 10 anos já foram estudados mais de 1100 genomas completos de hominídeos arcaicos, compreendendo um período de 430 mil anos. O sequenciamento desses indivíduos, ou populações, levaram a uma mudança importante na maneira como contamos a história da nossa espécie. Continue Lendo “A História recontada pelo DNA”

Sobre cães, humanos e genética

Humanos e cães se relacionam há dezenas de milhares de anos. Durante esse tempo foi estabelecida uma parceria que deixou marcas nos genomas de ambas as espécies.

Entre 20 e 40 mil anos antes do presente, ocorreu no noroeste do continente europeu um evento que marcaria a história evolutiva de duas espécies. Um pequeno grupo de lobos-cinzentos (Canis lupus) aproximou-se de um grupo de caçadores-coletores e passou a segui-lo. Iniciou-se assim o processo de domesticação dos cães (Canis lupus familiaris).  Ao longo de tal processo, esses animais foram vitais para o sucesso na expansão de nossa espécie ao redor do globo. A inclusão de matilhas de cães nos grupos caçadores-coletores trouxe duas vantagens imediatas: a primeira foi a possibilidade de aviso prévio à chegada de predadores, e a segunda foi o auxílio nas estratégias de caça de grandes animais. Os cães ajudavam os caçadores a encontrar a presa com mais facilidade, bem como encurralavam a presa para que ela pudesse ser abatida.

A história evolutiva dos cães pode ser dividida didaticamente em dois estágios. O primeiro se refere ao contexto mencionado anteriormente, no qual ocorreu a aproximação entre as duas espécies, cães e homens. O segundo é relativo aos dois últimos séculos, quando foram criadas raças com características específicas agradáveis aos humanos. Esse segundo estágio levou a uma grande diversificação morfológica dentro da espécie, resultante do intenso processo de seleção artificial ao qual a mesma foi submetida. Atualmente são reconhecidas pelo American Kennel Club cerca de 190 raças de cães, nenhuma das quais existia há 150 anos. Continue Lendo “Sobre cães, humanos e genética”

Vivendo nas alturas

Nenhuma espécie expandiu-se geograficamente de maneira tão rápida e eficiente como a humana. Ao longo do processo expansionista, nossa espécie teve que adaptar-se a ambientes extremamente hostis para sobreviver. O presente texto é o primeiro de uma série sobre as adaptações genéticas que permitiram o sucesso expansionista do Homo sapiens.

Charles Darwin, em sua obra seminal “ A Origem das Espécies”, postula a evolução das espécies por meio da seleção natural. Nesse contexto, um organismo capaz de obter recursos do ambiente de modo mais eficiente, torna-se mais apto a sobreviver e a passar seus genes para a próxima geração, aumentando a frequência da característica que confere a aptidão na população.

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