Papéis sexuais são uma falsa dicotomia?

Na nossa sociedade, tendemos a encaixar o que é um macho e o que é uma fêmea em definições fixas. De fato, há razões evolutivas para eles terem diferenças marcantes. Mas estudos recentes questionam a universalidade dessa dicotomia.

Na natureza, tipicamente há na reprodução sexual um gameta que é maior e, assim, demanda maior investimento para ser produzido (em termos de nutrientes, tempo, energia), e que tem menor ou nenhuma mobilidade. Ele se encontra com um gameta pequeno, de maior mobilidade, que demanda menos energia para ser produzido (sendo muitas vezes descartável). A reprodução envolvendo esses tipos de gameta é chamada de anisogamia (do grego, anisos: ‘desigual’ + gamos:casamento). Nós designamos por “fêmeas” os indivíduos que produzem os gametas maiores e em menores quantidades, e por “machos”, os que produzem os gametas menores em grande quantidade. Também há organismos que produzem ambos, chamados de hermafroditas. Há na biologia uma argumentação sólida sobre por que a anisogamia foi selecionada em quase todas as espécies que fazem reprodução sexuada. Essa argumentação é baseada na ideia de que, quando temos gametas de vários tamanhos competindo os que produzem gametas de tamanho mais extremo (muito grande ou muito pequeno) terão maior facilidade para se reproduzir do que os que produzem de tamanho mais intermediário.

Se há na natureza indivíduos que produzem gametas pequenos, móveis e abundantes, e outros que produzem gametas grandes, imóveis e repletos de reservas, cabe perguntar se as diferenças no tipo de gameta resultaram em diferenças comportamentais e morfológicas, uma vez que as pressões seletivas sobre indivíduos que produzem cada tipo de gameta devem ser, em princípio, diferentes. Foi exatamente essa a questão abordada por Angus Bateman (1919-1996), que ao estudar moscas-das-frutas propôs que existia uma variação maior na taxa de sucesso reprodutivo entre machos do que entre fêmeas (princípio de Bateman), e que esse sucesso dependia do número de fêmeas com as quais eles conseguiam copular. Já para as fêmeas, Bateman encontrou outro efeito: tinham maior sucesso reprodutivo aquelas que escolhiam machos de maior qualidade.

A teoria de Bateman estabeleceu uma relação entre a anisogamia e a noção de que a seleção natural age assimetricamente em cada sexo, uma vez que, quando os gametas são baratos de produzir, seria uma boa estratégia distribuí-los ampla e indiscriminadamente, enquanto que, quando são custosos, é preferível escolher bem como usá-los. Isso resultaria em diferenças comportamentais e físicas entre machos e fêmeas. O princípio de Bateman explica algumas características que variam com o sexo, entre elas, o fato de machos competirem por parceiros reprodutivos, o maior cuidado parental por parte de fêmeas, assim como o fato de estas serem seletivas na escolha do parceiro. Os traços que podemos relacionar com cada sexo, além do tamanho do gameta, são chamados de papéis sexuais. Dessa forma, o princípio de Bateman explica papéis sexuais historicamente associados a machos e fêmeas.

Contudo, animais nem sempre se encaixam nessas regras, pois os papéis sexuais na natureza são bem mais diversos do que a dicotomia estabelecida entre machos e fêmeas pode sugerir. Não é incomum machos que cuidam de suas crias ou fêmeas que competem com outras fêmeas. Não é impossível, inclusive, observar um indivíduo de um sexo se comportando com o papel sexual atribuído ao sexo oposto. Interessada em fazer um estudo sistemático sobre a diversidade e possibilidade de mudanças de papéis sexuais, a pesquisadora sueca Malin Ah-king e sua equipe fizeram uma extensa compilação de dados sobre comportamentos e morfologias. A partir de suas observações, propuseram que o sexo e os papéis sexuais na natureza não podem ser vistos como uma dicotomia estática, mas como algo que na biologia é chamado de norma de reação. Normas de reação descrevem as diferentes formas que um organismo pode assumir, em função de mudanças no ambiente que ele ocupa. Sob essa perspectiva, sexo num sentido morfológico e comportamental pode ser entendido como um contínuo no qual os indivíduos e espécies ocupam a distribuição completa, embora mais comumente se encontrem nas extremidades dessa distribuição.

Um exemplo da plasticidade do sexo é a capacidade encontrada em algumas espécies – principalmente anelídeos, camarões, caracóis e peixes – de trocarem de sexo durante sua vida. Essa capacidade é chamada de hermafroditismo sequencial (Figura de abertura). Um outro estudo teórico sugeriu que esses indivíduos mudam de sexo porque isso aumenta seu sucesso reprodutivo. Apesar de a mudança de sexo ser vantajosa aos indivíduos nessas espécies, ela é impraticável em espécies com o aparato sexual mais complexo. Entretanto, nessas outras espécies, há plasticidade para outras características, como a própria a determinação sexual, como é o caso em muitas espécies de tartarugas e crocodilos, em que o processo de determinação sexual tem um importante componente ambiental (a temperatura influencia a definição do sexo).

Nos vertebrados que não trocam de sexo durante a vida, a determinação do sexo pode ocorrer de forma cromossomal ou ambiental. É possível, também, que ocorram ambos, como no lagarto Bassiana duperreyi (Figura 2). A análise filogenética feita por Ah-King mostra que houve trocas entre esses dois sistemas de determinação do sexo no passado, ou seja mesmo em espécies com alto grau de parentesco é possível que uma use o sistema genético e a outra ambiental. Ela mostra também que, dentro de um sistema de determinação sexual, há muita variação nos genes envolvidos na determinação sexual, no tamanho desses cromossomos, na combinação de cromossomos sexuais que estão associados à determinação de se um organismo será macho ou fêmea, ou na temperatura que induz a formação de machos. A Figura 3 ilustra o quão diferente sistemas de determinação do sexo podem ser ao longo da árvore filogenética. O estudo de Ah-king reforça que processos de determinação sexual são evolutivamente lábeis, mudando de modo recorrente ao longo da filogenia dos animais.

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Figura 2: Bassiana duperreyi é uma espécie de lagarto que tem o sexo determinado tanto por fatores genéticos como ambientais. Imagem por Onesland – Own work, Public Domain.

Mesmo nas espécies em que o sexo é determinado geneticamente, o trabalho de Ah-king sugere haver plasticidade de papéis sexuais. Contudo, é mais difícil estudar a plasticidade de características relacionadas a papéis sexuais, uma vez que a análise é muitas vezes enviesada pelas características historicamente atribuídas aos sexos da nossa espécie, um viés que pesquisadores inevitavelmente carregam ao estudar esse tema. Além disso, para ser uma análise completa, é necessário um entendimento da ecologia em que vive o grupo estudado. Por exemplo, um pássaro pode apresentar baixo dimorfismo (a diferença física entre os sexos) num olhar desatento, mas os padrões de cores no ultravioleta podem ser bem distintos, e mais relevantes para a forma como eles enxergam as cores.

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Figura 3: A variedade dos sistemas de determinação do sexo mostrada em filogenia disponível em Ah-King et al. (2010). Legenda (de cima para baixo): determinação de sexo dependente de temperatura; fêmea heterogamética (fêmeas geralmente geradas pela presença de dois cromossomos sexuais não homólogos ZW); macho heterogamético (machos geralmente gerados pela presença de dois cromossomos sexuais não homólogos XY); hermafroditismo; unisexualidade (indivíduos produzem apenas um tipo de gameta); haplodiplóide (machos são determinados por gametas não fecundados e fêmeas por gametas fecundados)

Também é fundamental colocar os achados num contexto filogenético, algo feito por Ah-king. Não podemos dizer que uma espécie de peixe que apresenta cuidado parental por parte do macho teve seu “papel sexual trocado”, já que essa é uma característica comum nos peixes, ainda que pouco usual nas outras espécies. Levando tudo isso em consideração, Ah-King mapeou em uma filogenia papéis sexuais clássicos em borboletas, peixes e aves, mostrando que mudanças de papéis sexuais numa escala filogenética é algo que ocorre várias vezes ao longo da evolução (Figura 4).

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Figura 4: A ocorrência de mudança de papéis sexuais em borboletas, peixes e aves, em filogenia disponível em Ah-King et al. (2010). Legenda: em preto animais que apresentam inversão de papéis sexuais.

O trabalho de Ah-King expande nossa visão sobre o sexo, por vê-lo como apenas mais uma norma de reação – assim como vemos o comportamento, a porcentagem de gordura corporal, e certas medidas de inteligência. Essa proposta está de acordo com as recentes discussões acerca de gênero nas ciências sociais e tem o potencial de contribuir tanto para a discussão pública, como para a pesquisa sobre esse tema,  ao introduzir novas visões e ferramentas que nos permitem incluir e explicar interações não típicas na natureza (como por exemplo, a existência de animais transgêneros). Não obstante, toda nova teoria precisa ser olhada de uma forma crítica, não sendo esta uma exceção. Primeiramente, deve ser pontuado que a relação entre a anisogamia e a seleção sexual é solidamente estabelecida,  e não pode ser ignorada. Essa crítica foi o tema de artigos publicados em resposta àqueles que defendem a plasticidade dos papéis sexuais, em que é reiterada a forte influência da anisogamia na determinação de papéis sexuais, e seu apoio por estudos por dados experimentais. O artigo de Malin Ah-King e colegas não exclui a importância da anisogamia para explicar seleção sexual, ou o princípio de Bateman, mas enfraquece-os.

Em segundo lugar, é importante questionarmos se os achados de Malin Ah-King que apoiam a visão de que o sexo pode ser visto como um contínuo plástico não seriam apenas uma coleção de casos extraordinários, o que implicaria que a visão clássica continuaria sólida. Para testar isso, mais dados devem ser obtidos, preferencialmente tentando evitar os vieses que podem fortalecer a visão clássica.

Em suma, os pesquisadores expuseram uma ideia nova, de que os papéis sexuais podem ser entendidos como “apenas mais uma norma de reação”. Essa ideia pode ser aprimorada por mais pesquisas científicas, mas é necessário tratar essa hipótese com todo o rigor demandado e levar em conta o que já é bem aceito, por exemplo o princípio de Bateman. E assim entender em que contextos podemos utilizar a teoria mais clássica e em que casos devemos levar em conta a ideia da norma de reação. A plasticidade do sexo, caso seja estabelecida, pode tornar a discussão pública mais diversa e fundamentar uma maneira mais tolerante de pensar, uma vez que se trata de uma teoria que ao encontrar casos desviantes da norma tenta incluí-los em uma explicação mais geral ao invés de excluí-los colocando-os como exceções.

Carmen Melo Toledo

Graduanda de Ciências Moleculares, Universidade de São Paulo (USP)

Para Saber Mais:

G.A. Parker, R.R. Baker and V.G.F Smith; The origin and evolution of gamete dimorphism and the male-female phenomenon; Journal of Theoretical Biology (1972); vol. 36 pp. 529-553.

Knight ; Sexual stereotypes; Nature (2002); vol. 415, pp. 254–256.

Malin Ah-King, Sören Nylin; Sex in an Evolutionary Perspective: Just Another Reaction Norm; Evol Biol. (2010); vol. 37 pp. 234-246.

Philip L. Munday et al.; Diversity and flexibility of sex-chage strategies in animals; Trends in Exology and Evolution (2006); vol. 21, pp. 90-95;

Shine et al.; Co-ocurrence of multiple, supposedly incompatible modes of sex determination in a lizard population; Ecology Letters (2002); Vol. 5, pp. 486-489.

Göran Arnqvist et al.; Anisogamy, chance and the evolution of sex roles; Cell (2010); vol. 27 no. 5 pp. 260-264.

Tin Janicke et al.; Darwinian sex roles confirmed across the animal kingdom; Science Advance 2 (2016); e1500983

https://randyschickenblog.squarespace.com/home/2019/7/7/the-life-and-times-of-betty-the-transgender-chicken

Imagem de abertura: Semicossyphus reticulatus é um  peixe capaz de mudar de sexo ao longo da vida, no processo chamado hermafroditismo sequencial. Em 2017 essa transformação foi filmada e mostrada no primeiro episódio da série da BBC Earth chamada One Ocean II, foto por Ryokou man – Wikipedia.

A natureza que passou e ainda passa em nossas vidas

Estudar Biologia durante a ditadura, o ambientalismo, as convenções internacionais para a proteção ambiental, e onde estamos hoje.

Estudar Biologia nos anos de chumbo foi uma dureza, em nossas casas, fora dela, e mesmo dentro do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia, onde pensar qualquer coisa adiante era um deus-nos-acuda.  Não obstante o manto sombrio da ditadura, nessa época a cultura fervilhava na cidade do Salvador, e em 100m da Avenida Sete de Setembro, tínhamos o Acbeu (Academia Cultural Brasil-Estados Unidos), com sua biblioteca, sem a mão da censura e diversa, e o Icba  (Instituto Goethe), com seus movimentos culturais, teatro, dança e cinema. Leituras alternativas, como Primavera Silenciosa de Rachel Carson (1962) e o Choque do Futuro de Alvin Tofler (1970). Nessa época, a percepção de como o ambientalismo, bem como o capitalismo planejado chegavam em nossas vidas propiciou momentos ímpares. O livro seminal de Carson inseriu a humanidade como parte da natureza e focava no impacto dos pesticidas, principalmente, DDT sobre a população de aves. Enquanto o livro de Carson nos avisava, pela primeira vez na história, como nós humanos também passamos a ser expostos a compostos químicos perigosos, Toffler tratava das mudanças bruscas naturais que o futuro nos reservava, e seus efeitos sobre a economia, embora a preocupação com a limitação dos recursos naturais nunca tenha sido seu ponto forte. Estes livros, somados à leitura intensa dos clássicos, nos tornaram biólogos.

O sêmen do ambientalismo

Uma andorinha só não faz verão, mas vários fatores atuando em conjunto, em diferentes lugares do mundo podem influenciar mudanças, e a década de 1960  estava recheada desses fatores: a guerra do Vietnã, os protestos sobre o uso generalizado da energia nuclear e a desigualdade de direitos, os hippies com uma proposta de liberdade absoluta, que buscava romper o sistema social e cultural convencional, e a defesa dos animais e do meio ambiente, este último pela semente plantada por Carson. No outro lado do mundo, os jovens europeus que nasceram no pós-guerra, sentindo o peso conservador da academia e as poucas perspectivas de emprego, começam a protestar levando em conta todas estas variáveis, num mundo onde a informação começava a se espalhar com mais rapidez.

Já na década de 1950, Aldous Huxley,  no livro  ”As Portas da Percepção” descreveu as suas experiências com a mescalina, principio psicoativo extraído do peiote (Lophophora wiilliamssi) e utilizado em rituais religiosos pelos povos indígenas do sul do continente norte-americano, revelando cenários antes obscurecidos pela consciência continuamente ocupada com a realidade visível. Sem dúvidas, as drogas psicoativas, como a mescalina e o LSD, tiveram um papel importantíssimo na construção de uma nova apreciação e compreensão da natureza, experimentadas e potencializadas, inicialmente pelos hippies, e posteriormente por intelectuais da contracultura das décadas entre 1950 e 1970, para finalmente se inserirem como um  objeto do convívio social em todo o planeta, seguindo a tradição de várias outras drogas.

Uma nova natureza foi vislumbrada. Livros outrora esquecidos, como “Walden ou A Vida nos Bosques” (1854), um manifesto sobre a economia da natureza, e “A Desobediência Civil” (1849), um manifesto anarquista contra o pagamento de impostos ao governo estado-unidense escravagista e em guerra de dominação com o México, ambos de Henry Davi Thoureau, voltaram a ser mencionadas na onda de Primavera Silenciosa.

O movimento hippie consagrou-se como uma onda de imensa amplitude mundial, tendo como gatilhos principais uma rejeição pela juventude estado-unidense às guerras da Coreia e do Vietnã, e aos padrões conservadores e reacionários. Essa onda chegou ao Brasil no final da década de 1960, justamente quando a ditadura se solidificava com a Constituição de 1967 e o Ato Institucional Nº 5 (AI-5) de 1968, que auto-outorgava plenos poderes à ditadura militar, implantada em 1964. Enquanto outros movimentos de resistência buscavam na luta armada uma oposição ao regime, os hippies através de uma cultura de paz, tomaram outra direção para fazer frente à opressão contra a ditadura e toda espécie de conservadorismo de uma sociedade eminentemente reacionária, que marchava com Deus pela Liberdade, Tradição, Família e Propriedade.

O ambientalismo surgiu como uma válvula de escape, por ser o primeiro movimento a congregar os anseios de mudança dos jovens de então, pelo rompimento do status quo, transformando-se na utopia da hora, mesmo sem a proposição de alternativas. Em 22 de abril de 1970, cerca de 20 milhões de cidadãos estado-unidenses foram às ruas para exigirem mais proteção para a terra, ar e água, com a contribuição de artistas famosos. Até mesmo a elite começou a ter outro olhar para a natureza com o Clube de Roma, com uma nova visão sobre temas como energia, poluição, saneamento, saúde, ambiente, tecnologia e crescimento populacional.

Cenários de cooperação internacional

A Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, em Estocolmo (Suécia), em 1972, também foi um reflexo desses novos tempos, mesmo sem a participação dos ambientalistas da época.  A conferência representou um marco histórico ao introduzir a questão ambiental na agenda da política internacional, estabelecendo um padrão ético-moral que seria base para outros movimentos. A posição brasileira sustentava que o discurso dos países mais desenvolvidos se configurava como um ato de ingerência na soberania dos países subdesenvolvidos, pois estes tinham direito ao seu desenvolvimento, a despeito da proteção ambiental, similar à política do presente governo, quase 50 anos depois.  Isso quer dizer que o desenvolvimento no Brasil, conforme pensado pelo regime militar, desde a sua concepção deixou de lado a questão ambiental como uma política de nação, sendo esta uma visão/postura/atitude que foi absorvida de forma natural por toda a população com o passar dos tempos. A criação do  Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma)) foi um dos marcos desta conferência, e passou a ser o órgão da Onu, tendo entre seus principais objetivos manter o estado do meio ambiente global sob contínuo monitoramento; alertar povos e nações sobre problemas e ameaças ao meio ambiente; e recomendar medidas para melhorar a qualidade de vida da população sem comprometer os recursos e serviços ambientais das gerações futuras.

Embora a origem dos estudos de impacto ambiental tenha sido os Estados Unidos da América (EUA), já em 1969, os mesmos rapidamente passaram a fazer parte dos grandes projetos financiados por bancos internacionais de desenvolvimento, antes da liberação dos empréstimos , sendo este o embrião do que se tornou no Brasil a lei de licenciamento ambiental.   Surgiu também nos EUA a Agência de Proteção Ambiental (EPA), em 1970 e a Lei da Água Limpa (Clean Water Act), em 1972, e outros instrumentos de controle ambiental, durante o primeiro mandato de Richard Nixon.

Com a publicação do livro “Biodiversidade”, em 1988 , por E.O. Wilson muitos pensaram que a síntese da natureza estaria nessa definição, e que, a partir daí, nós biólogos teríamos mais facilidade em interagir com a sociedade, algo que não aconteceu pelo caráter eminentemente biológico da mesma. Contudo a biodiversidade  passou a representar a síntese da natureza, que ela realmente é, e sua conservação o indicador mais forte da manutenção dos recursos naturais.

O Brasil, saindo da ditadura, em meados da década de 1980, ofereceu-se para sediar a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, o quê viria a ser a ECO-92. No ano de 1983, a Onu criou a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, com o objetivo de promover audiências em todo o mundo e produzir um resultado formal das discussões. A comissão foi presidida por Gro Harlem Brundtland, na época primeira-ministra da Noruega e Mansour Khalid, daí o mesmo ser chamado de Relatório Brundtland ou Nosso Futuro Comum, publicado em 1987, que introduziu oficialmente, na agenda internacional, a noção de desenvolvimento sustentável, depois apropriado em grande parte do planeta pelas grandes corporações, partidos políticos, organizações governamentais e não-governamentais, mas principalmente pelo capital, o qual aproveita-se da pouca precisão da expressão para aumentar seus lucros

O conceito original de sustentabilidade foi proposto pela primeira vez em 1713  por Hans Carl von Carlowitz, na Alemanha, para mostrar o quão inviável seria minerar se tivessem que buscar a madeira muito longe para usar como escoras de túneis e fazer carvão. Presentemente, a sustentabilidade alardeada aos quatro cantos apresenta-se como uma polissemia,  e é mantra de vários setores da sociedade,  contudo seu emprego, independente do conceito proposto, tem que ser integrativo, cooperativo e global. Não podemos pensar em fazendas sustentáveis, cidades sustentáveis, países sustentáveis, sem um mundo sustentável. Sem contar que, dentro do conceito atual, nenhuma geração conseguiu antever o que a outra vai necessitar,  muito menos suas exigências. Que fique a utopia de querer algo melhor para as gerações futuras, mas não podemos falar ou agir em nome delas. 

O mundo depois da ECO-92

A partir da ECO-92, com a participação de organizações não-governamentais (ONG), o ambientalismo passou a ser uma narrativa  da sociedade e se tornou partícipe de vários processos decisórios. Não obstante, especificamente no Brasil, pouco se avançou em termos de legislação, a qual, em seu contexto, ainda peca, por um lado,   ao não integrar, em nenhum momento,  a dimensão ecossistêmica em suas normas, e muito menos a sociedade, e pelo outro, ao não atualizar-se aproveitando o vasto conhecimento oferecido pela Ecologia, impulsionada que foi pela irradiação do ambientalismo em todo o mundo

O século XXI, o dos tratados, convenções e dos vírus

O séc. XXI tem sido pródigo nas tentativas de propor políticas públicas de caráter internacional, muitas delas assinadas um dia por um dirigente e no outro, desconsideras por seu sucessor. As reuniões foram inúmeras, com idas e vindas, impasses, mas os problemas continuam os mesmos, tendo como consequência principal,  a perda da biodiversidade, que conduz ao aumento da pobreza, aparecimento do novas doenças, perda de qualidade de vida, dentre outras. Em 2005, publicou-se a Avaliação Ecossistêmica do Milênio, com um novo coelho saindo da cartola, um programa de pesquisas sobre alterações ambientais e suas tendências para as próximas décadas, lançado em 2001 com o apoio da Onu, para alcançar os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio. Pretendeu-se oferecer uma avaliação compreensiva global sobre os principais ecossistemas mundiais, através do conceito dos serviços ecossistêmicos, em uma tentativa de, mesmo com uma visão antropocêntrica, mobilizar uma discussão que possibilitasse que políticos, gestores ambientais e a sociedade em geral entendessem o valor da natureza, mesmo isto não representando o que ocorre nos ecossistemas. Esta tentativa também deu em água, porquanto grande parte dos atores envolvidos, nomeadamente políticos e os detentores do capital, associam o conceito dos serviços ecossistêmicos a algum ganho ou lucro, e, globalmente, apesar de todas as convenções, reuniões, assembleias, não se avança na redução dos principais problemas ambientais, perda e destruição de habitat, perda de biodiversidade, espécies exóticas invasoras, e poluição,  tem sido alcançado. O aquecimento global não está aqui listado, pois ele é uma consequência direta da poluição, e não causa. Tão pouco se fez que o aumento da poluição e sua principal consequência, a mudança do clima, é ainda tema principal da agenda mundial, sendo apenas temporariamente amenizada pela pandemia da Covid-19, em 2020.

Esta pandemia merece uma menção. Em 15 de janeiro de 2009, decolou do aeroporto de La Guardia (Nova Iorque), rumo a  Charlotte (Carolina do Norte), um avião comercial de passageiros  que, por problemas  em seus motores, fez um pouso na água do rio Hudson, adjacente a Manhattan, seis minutos após a decolagem. Em 24 min, as 155 pessoas foram resgatados com vida; dessa operação participaram as balsas de passageiros que acorreram ao local, a guarda costeira, o corpo de bombeiros e os mergulhadores da polícia de Nova Iorque, para salvar alguns passageiros que caíram na água e foram levados pela maré. Foi uma operação iniciada pela torre de controle, envolvendo também o equilíbrio e a competência do piloto. Mas tudo estava determinado em um plano de resgate em caso de um acidente deste tipo. Eventos pretéritos nos servem para projetar o futuro, contudo isto nem sempre é a regra. Os eventos da síndrome respiratória aguda grave (SARS, em inglês), epidemia que teve lugar no ano de 2002, assim como a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS, em inglês), que apareceu em 2012, ambas causadas por vírus do tipo corona, serviram muito para os cientistas aprenderem sobre os mesmos. Logo depois da SARS, em 2003, houve um incremento nas pesquisas relativas a tais tipos de vírus, mas já em 2005, tornou-se difícil de se conseguir recursos para tais tipos de pesquisa. Primeiro, porque a doença havia desaparecido e não havia interesse do mercado em pesquisar drogas ou encontrar uma vacina que rendesse pouco ou nenhum lucro, segundo a visão curta das agências internacionais de fomento à pesquisa, por crerem que isto poderia ter sido apenas um evento fortuito. A continuidade de tais estudos poderia ter alterado a sequência de eventos relacionados ao SARS-CoV-2. Mas não só isto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou, já a partir de 2003, aos países a elaboração de planos para lidar com pandemias, após a epidemia de SARS, na Ásia. Apesar disso,os países não trabalharam da forma devida para a elaboração de planos, e as consequências são vistas agora, no número de casos e de óbitos, assim como nas sequelas sociais e econômicas, que estão ocorrendo e ainda virão. Esse erro foi fatal: medidas mitigadoras funcionaram aqui ou ali, de uma forma melhor, mas todo o problema se deve à ausência do devido planejamento e na forma como o problema foi abordado, sem a devida cooperação entre as nações, mesmo aquelas que possuem blocos políticos consolidados.

Terminamos aqui com o livro de Carson, que não falava apenas sobr e o efeito do DDT sobre a natureza, mas também como a ciência poderia auxiliar a evitarmos crises ambientais, como a Covid-19, que tem a ver com perda e destruição de habitats. Os vírus do tipo corona, causadores de infecções respiratórias em  humanos são típicos de morcegos e roedores e transmitidos aos humanos por hospedeiros intermediários (veja quais), como resultado do uso abusivo dos recursos naturais, redução das florestas, consumismo desenfreado, poluição e o contato direto e indireto destes animais com humanos,  influência das grandes corporações sobre nosso destino. Cabe a nós, de forma individual e coletiva, uma lição aprendida pela sociedade vinda do ambientalismo, agir e exigir dos governantes, que passem a falar mais em nome de seus povos, forma cooperativa, em vez de difundir o discurso das grandes corporações e do mercado.

 

Ronan R.C .de Brito & Eduardo M. da Silva são professores aposentados do Instituto de Biologia da Ufba

 

PARA SABER MAIS:

R.R.C. de Brito. Seria o ambientalismo a grande narrativa da contemporaneidade?. Meio Ambiente e Sustentabilidade. 3: 35-50, 2013.

E.P. Nascimento. Trajetória da sustentabilidade: do ambiental ao social, do social ao econômico. Estudos Avançados, 26: 51-64.  2012. https://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142012000100005

Imagem: Ronan Caires de Brito

Não precisamos de árvores somente para abraçá-las

Reconhecer que os serviços ecossistêmicos providos pela biodiversidade podem evitar pandemias como a Covid-19 é um passo importante, mas é necessário ir além. Num mundo invertido, onde há menos florestas e mais desigualdades sociais, o que podemos fazer?

Jogue o lixo no lixo. Não deixe água parada. Lave as mãos. Preserve o meio ambiente.

Nenhuma dessas mensagens é incomum no nosso cotidiano. Embora muito importantes e geralmente aceitas por nós, elas escondem, por praticidade, um conjunto de relações e eventos que justificam a sua contundência. Essas frases traduzem o entendimento científico sobre o ciclo de doenças transmissíveis e a conservação da biodiversidade em ações muito práticas e simples. Mas, o que está por trás destas palavras de ordem? Bem, para responder esta pergunta é preciso considerar duas coisas: Continue Lendo “Não precisamos de árvores somente para abraçá-las”

Microrganismos na restauração ambiental: o essencial é invisível aos olhos?

Os microrganismos, apesar do tamanho diminuto, são essenciais para o crescimento e a saúde das plantas. Diante das necessidades de restauração ambiental, devem ser manejados e aplicados em diversas fases de reestruturação e recomposição de funções ecológicas.

Vou iniciar o texto falando de algo mais literário, filosófico e poético: “Eis o meu segredo: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” Essa frase foi dita pela personagem Raposa, no livro clássico infantil O Pequeno Príncipe, escrito pelo francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944).

Falei isso para confessar que enxergo beleza, criei laços e fui cativado por seres que normalmente estão fora do nosso campo de visão, mas que caminham junto com a gente, num processo coevolutivo, civilizatório e inebriante. Esse grupo extremamente diversificado, conhecido como microrganismos, realiza processos fundamentais nos ecossistemas ou nos agroecossistemas. Promovem a ciclagem de nutrientes, a fertilidade e estruturação dos solos, bem como o desenvolvimento e a saúde das plantas.

Os microrganismos, com destaque inicial para os fungos micorrízicos, foram fundamentais para que as plantas ocupassem o ambiente terrestre, há cerca de 450-400 milhões de anos. A associação micorrízica permitiu que os rizoides retirassem água e nutrientes de um ambiente “extremo”, por meio da associação com hifas fúngicas. Portanto, os ecossistemas terrestres não foram colonizados por plantas, simplesmente, mas pela associação micorrízica. Essa simbiose é um caráter ancestral que permaneceu em pelo menos 85 % das plantas vasculares, ou seja, é a condição mais comum para a grande maioria das famílias botânicas.

As micorrizas são funcionalmente críticas e impactam a distribuição global de plantas, uma vez que possibilitam o estabelecimento das pioneiras e realizam a transferência de fotoassimilados (açúcares, vitaminas e lipídeos) de plantas adultas para as juvenis, no sub-bosque de floresta tropicais densas, com pouco acesso à luz. O mesmo é válido para as orquídeas, que devido ao tamanho diminuto das sementes, não possuem tecido de reserva (endosperma) e, portanto, em condições naturais dependem de fungos micorrízicos para garantir a sua germinação e o seu crescimento, ao realizar a digestão de enovelados de hifas (chamados de pelotons), condição conhecida como micoheterotrofia.

A evolução é um processo temporal impressionante, que faz uso da bricolagem, ou seja, reaproveita coisas que já existe. Apesar da distância evolutiva, a maquinaria de reconhecimento entre plantas e fungos micorrízicos foi reutilizada na simbiose entre plantas e bactérias fixadoras de N2, a exemplo de plantas da família Fabaceae e rizóbios (Rhizobium, Bradyrhizobium etc.). Essa associação é essencial para algumas espécies florestais nativas, que dependem do mutualismo para manter seu fitness em ambientes com deficiência de nitrogênio. Assim, devido aos processos coevolutivos, mesmo em condições otimizadas de viveiros comerciais essas espécies podem requerer a simbiose mutualista para sobreviver e crescer adequadamente.

Para simplificar essas informações, usarei as palavras de um produtor de mudas: “Algumas plantas precisam do colostro ou solo da planta-mãe”. Esse saber tem embasamento científico na teoria da retroalimentação positiva planta-solo, de acordo com a qual as plantas modificam o ambiente e favorecem o recrutamento de juvenis. Isso tem relação com adaptações locais e a presença de microrganismos benéficos na rizosfera, a região do solo que fica em contato com as raízes, onde há maior abundância e diversidade de microrganismos.

Assim, aos que preferem uma abordagem mais holística, podemos considerar as plantas e seus microrganismos como um holobionte, uma única unidade, com características genéticas, metabólicas e evolutivas moldadas por coevolução. Por isso, não é exagero afirmar que o futuro das nossas florestas depende dos microrganismos.

E daí? Como os microrganismos auxiliam na restauração ambiental?

Primeiramente, é preciso lembrar que a restauração ambiental é decorrente de ações humanas, que devido a impactos negativos, tornam necessário buscar a reintegração do ecossistema em seus aspectos estruturais e funcionais. Diante desse grande desafio, somado ao pouco conhecimento sobre a nossa biodiversidade, é comum se concretizarem apenas reabilitações ou recuperações ambientais. A reabilitação visa minimizar impactos negativos e desenvolver atividades alternativas, por exemplo, destinar a área para a recreação. A recuperação está associada à retomada de algumas funções, em conformidade com as condições socioambientais da área, o que permite a implantação de cultivos agrícolas, para recuperar a função produtiva.

Por enquanto, é preciso lembrar que em ecossistemas terrestres as plantas são a via basal de entrada de energia nas redes alimentares. Portanto, a revegetação é uma das principais estratégias para iniciar o processo de restauração ambiental. Apesar disso, conforme apresentado anteriormente, as plantas dependem, em maior ou menor grau, da associação com microrganismos para explorar adequadamente o solo, o que já é um grande indicativo de que são essenciais em processos de restauração ambiental.

Além do mais, os microrganismos podem ser utilizados como bioindicadores em áreas impactadas, porque respondem rapidamente a pequenas mudanças nas propriedades físico-químicas do solo. Funcionam como parâmetros sensíveis para avaliar o estresse ambiental e/ou recuperação do ambiente a curto prazo. Desse modo, geram indicativos da efetividade da revegetação, a exemplo do ocorrido após o crime ambiental da Samarco Mineração, sucessivo ao rompimento da barragem de Fundão em Mariana/MG, que afetou a bacia do rio Doce.

Cabe destacar que os microrganismos desempenham importantes transformações e atuam efetivamente nos ciclos biogeoquímicos. Ao realizarem a degradação do material orgânico, mineralizam nutrientes e contribuem para o fluxo de matéria e energia nos ecossistemas. Atuam na produção de hormônios vegetais, a exemplo do ácido indol-acético (AIA), solubilizam fosfato e fixam o N2 atmosférico, mantendo funções-chave diversas.

Os microrganismos exercem papéis importante na degradação de compostos xenobióticos (compostos químicos estranhos a um sistema ecológico específico, tais como agrotóxicos e derivados de petróleo) e na imobilização de metais pesados (p.ex., chumbo, urânio, arsênio, cádmio), comuns em áreas degradadas por indústrias e mineração. O uso de inóculo microbiano para a biorremediação de ambientes contaminados pode ser combinado com a fitorremediação. Nesses casos, são aplicados métodos de restauração ativa para acelerar e definir uma trajetória de restauração desejada. Entretanto, existem diversas dificuldades operacionais e ecológicas para reestabelecer a comunidade que habitava determinado local. A restauração de campos rupestres ferruginosos, por exemplo, que estão fortemente ameaçados pela mineração de ferro, traz a dificuldade de que esses campos apresentam muitas espécies botânicas endêmicas, de cuja Ecofisiologia conhecemos muito pouco. Isso inclui pouco conhecimento sobre o nível de dependência mutualista dessas plantas aos microrganismos associados, o que aumenta os desafios de restauração desses frágeis ecossistemas.

Os trabalhos com viveiristas na bacia do rio Doce, engajados em projetos de recuperação ambiental, têm evidenciado que diversas espécies florestais nativas, a exemplo de braúna (Melanoxylon brauna), garapa (Apuleia leiocarpa) e vinhático (Plathymenia reticulata), apresentam baixa sobrevivência e não crescem adequadamente em substratos comerciais. Estudos indicam que esses impedimentos envolvem a ausência de nossos amigos pouco visíveis, os microrganismos benéficos. Além disso, a inoculação de mudas é desejável, porque muitos microrganismos atuam na promoção do crescimento das plantas e diminuem a necessidade de adubação (Figura 1).

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Figura 1: Mudas de vinhático (Plathymenia reticulata) cultivadas com 50 mg de fósforo (P) por dm-3 de solo. (A) Plantas inoculadas com fungos micorrízicos arbusculares (FMA) apresentaram maior crescimento do que (B) plantas não inoculadas com FMA. Foto: Paulo Prates Jr.

As dificuldades na restauração ambiental são enormes. Com isso, abrem-se oportunidades para que alguns estudiosos digam que a restauração é uma grande mentira, uma vez que existem prejuízos causados pela própria atividade de restauração. Eles entendem que a restauração funciona como um Cavalo de Tróia, sendo usada apenas como justificativa para a indústria degradar. E dizem mais, que a restauração é apenas a manifestação do sonho humano de dominar a natureza. As provocações desses estudiosos são importantes para nos lembrar que preservar é o melhor caminho. Porém, acredito que possamos reparar parte dos danos que nós mesmos provocamos. Para tanto, os microrganismos precisam ser manejados e aplicados nos processos de restauração, de modo a aumentar o sucesso na retomada da estrutura e função dos ecossistemas degradados.

Vejo que diante das dificuldades surgem oportunidades. No contexto da restauração ambiental, torna-se importante aumentar os estudos sobre as relações plantas-microrganismos. Além da prospecção para uso biotecnológico, esses estudos podem facilitar a produção de espécies florestais nativas, que dependem de associações mutualistas. Devemos considerar, ainda, a vantagem de as plantas inoculadas serem fontes de propágulos microbianos, que incluem células individuais, fragmentos de hifas ou esporos de fungos e bactérias (Figura 2).

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Figura 2: Muda de farinha seca (Albizia niopoides) (Fabaceae), inoculada com um Mix de microrganismos benéficos, em viveiro familiar, Mariana/MG. Parceria com a Fundação Renova. O círculo vermelho destaca os nódulos nas raízes, devido à associação com rizóbio. Fotos: Paulo Prates Jr.

Percebemos que não é fácil restaurar um ambiente degradado. Isso exige muito trabalho, pesquisa básica e aplicada de longo prazo, cooperação e conhecimento multidisciplinar para usar as informações de estudos de diferentes áreas. A propósito, acredito que assim como o livro O Pequeno Príncipe, os microrganismos são indutores de uma série de reflexões filosóficas e práticas. Espero que o texto possa ajudar mais pessoas a perceberem o quão nossos amigos pouco visíveis são essenciais para a restauração de áreas degradadas, o quão são essenciais para a manutenção da vida em nosso planeta. Encerrando, deixo a pergunta em aberto: O essencial é invisível aos olhos?

Paulo Prates Júnior

Departamento de Microbiologia (DMB), Universidade Federal de Viçosa (UFV)

 

Para saber mais

Greipsson, S. Phytoremediation. Nature Education Knowledge 3, 10 (2011).

Martin, F. M., Uroz, S., Barker, D. G. Ancestral alliances: Plant mutualistic symbioses with fungi and bacteria. Science 356, 6340 (2017).

Revillini, D., Gehring, C. A., Johnson, N. C. The role of locally adapted mycorrhizas and rhizobacteria in plant–soil feedback systems. Functional Ecology 30 (2016).

Soudzilovskaia, N.A., van Bodegom, P.M., Terrer, C. et al. Global mycorrhizal plant distribution linked to terrestrial carbon stocks. Nature Communications 10, 5077 (2019).

Um troca-troca danado de genes

Estudo recente sugere que a transferência horizontal de genes entre bactérias do solo e algas foi um passo importante na evolução das plantas terrestres.

Quando pensamos em transferência de genes frequentemente pensamos no que chamamos de transferência vertical: genes são passados de uma geração para a outra quando os filhos recebem genes dos pais. Esse é o caso clássico de reprodução sexuada, na qual os gametas materno e paterno, cada qual contendo a metade dos genes parentais, unem-se para a formação do zigoto. No entanto, quanto mais estudamos, mais encontramos evidências de transferência horizontal de genes em momentos cruciais da história evolutiva dos eucariontes. Transferência horizontal de genes é a passagem de material genético entre organismos não-descendentes. Ela frequentemente acontece entre organismos de espécies diferentes. O estudo da transferência horizontal de genes tem uma longa história. Esse fenômeno foi inicialmente descrito a partir dos experimentos de Griffith em 1928. Mas foi apenas em 1985 que as implicações evolutivas da transferência horizontal de genes começaram a ser mais amplamente discutidas.

Afinal de contas, qual a importância desse fenômeno para a evolução da vida na Terra? Um artigo publicado recentemente sugere que a transferência horizontal de genes pode estar relacionada a um importante passo na história evolutiva das plantas: a conquista do ambiente terrestre. Hoje, a importância das plantas terrestres para o vida na Terra é indiscutível: elas representam a maior parte da biomassa do planeta, contendo aproximadamente 500 bilhões de toneladas de carbono, mais de quatro vezes a quantidade presente em todos os outros organismos vivos combinados. Dentre as várias contribuições das primeiras plantas terrestres, estão a formação do solo e a modificação do clima, transformando a Terra em um ambiente mais propício para a sobrevivência de vários outros organismos terrestres. Uma boa introdução a esse temas está num vídeo produzido pela California Academy of Sciences, que apresenta a história da conquista do ambiente terrestre pelas plantas, assim como suas principais consequências.

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Figura 1 – Imagem de microscopia óptica das duas espécies de Zygnematophyceae cujos genomas foram sequenciados. (A) Spirogloea muscicola; (B) Mesotaenium endlicherianum. (Fonte: Modificado de Cheng et al. 2019, Cell).

Cientistas consideram que a conquista do ambiente terrestre pelas plantas ocorreu por volta de 450 milhões de anos atrás, a partir de um grupo de algas estreptófitas. Apesar de ainda não sabermos exatamente qual grupo de estreptófitas é mais proximamente aparentado às plantas terrestres, estudos apontam para as Zygnematophyceae. Curiosamente, apesar de muitas Zygnematophyceae serem estruturalmente simples, consistindo em células isoladas ou filamentos simples de células (Figura 1), algumas espécies habitam ambientes subaéreos/terrestres, ao invés do ambiente aquático da maioria das outras algas. Buscando entender a origem das plantas terrestres, cientistas sequenciaram o genoma de duas Zygnematophyceae de ambientes subaéreo/terrestres: Spirogloea muscicolaMesotaenium endlicherianum (Figura 1).

A partir da análise desses genomas, assim como da sua comparação com genomas de plantas terrestres, resultados interessantes foram alcançados.  Por exemplo, a partir da análise de 85 genes encontrados nas algas e plantas terrestres, as Zygnematophycea aparecem como a linhagem de algas mais proximamente relacionada às plantas terrestres (Figura 2a), possivelmente resolvendo uma longa disputa a respeito da ancestralidade dessas plantas. Além disso, os cientistas foram capazes de identificar no genoma das algas estudadas diversos genes fundamentais para a sobrevivência em ambiente terrestre, sugerindo que esse conjunto de genes já estava presente no ancestral das plantas terrestres e das Zygnematophyceae. O resultado da análise dos genomas sugere também algo surpreendente: alguns dos genes relacionados ao aumento da resistência a estresse biótico e abiótico em plantas terrestres (tais como GRAS e PYR/PYL/RCAR), a processos de desenvolvimento e a interações simbióticas foram adquiridos por meio de transferência horizontal de genes para o ancestral comum das Zygnematophyceae e das plantas terrestres , a partir de bactérias presentes no solo. A Figura 2b apresenta um exemplo de um dos genes adquiridos por transferência horizontal. Nessa figura, podemos observar que o gene GRAS de Zygnematophyceae e plantas terrestres é proximamente relacionado a genes GRAS do Grupo 1 de bactérias do solo, e bastante distinto dos genes GRAS do Grupo 2, presentes apenas em bactérias (Figura 2b).

 

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Figura 2 – (A) Árvore filogenética  representando as relações de parentesco entre as várias linhagens de algas e plantas terrestes (também chamadas de Embriófitas). Essa árvore foi construída a partir da análise de 85 genes presentes em algas e plantas terrestres e aponta para as Zygnematohyceae como grupo mais proximamente aparentado às plantas terrestres. (*) Indicam as duas espécies de Zygnematophyceae que tiveram seus genomas sequenciados. (B) Árvore do gene GRAS em bactérias, algas e plantas terrestres. Enquanto as bactérias possuem dois tipos de gene GRAS (Grupos 1 e 2), os genes GRAS em algas e plantas terrestres assemelham-se apenas aos genes GRAS do Grupo 1 de bactérias, particularmente bactérias do solo. A similaridade entre os genes desse grupo em bactérias do solo, algas e plantas terrestres sugere um evento de transferência  horizontal (HGT), no qual um gene GRAS do Grupo 1 de bactérias do solo foi adquirido pelo ancestral comum das Zygnematophyceae e plantas terrestres (Fonte: Modificado de Cheng et al. 2019, Cell).

Apesar de grande ênfase ter sido dada à transferência horizontal de genes entre bactérias, hoje sabemos que esse fenômeno pode acontecer entre qualquer um dos três domínios da vida (Archaea, Bacteria, Eukaryota), e em qualquer direção. Por exemplo, em 2008, A.M. Nendelcu e colaboradores descreveram a transferência horizontal de quatro genes relacionados a resposta ao estresse entre algas e coanoflagelados (ambos eucariontes) e, no ano anterior, pesquisadores descreveram a transferência de dois genes do citoesqueleto de eucariontes para cianobactérias. Os mecanismos de transmissão lateral de genes entre bactérias já foram amplamente estudados. Os três principais mecanismos são a transformação (aquisição de material genético diretamente do ambiente), a transdução (aquisição de material genético mediada por vírus) e a conjugação (transferência de material genético diretamente entre bactérias mediada por plasmídeos).  Conhecemos muito menos a respeito dos mecanismos de transferência lateral de genes entre eucariotos, ou entre eucariotos e outros domínios (Bacteria e Archaea). Esta é uma área bastante ativa de pesquisa.

O estudo do genoma das Zygnematophyceae fornece mais um exemplo dessa constante troca de genes entre organismos distantemente aparentados. Nesse caso, a troca de genes resultou em uma grande revolução na história da vida na Terra. A conquista do ambiente terrestre pelas plantas influenciou, sem dúvida, a evolução da vida no planeta. Sem essa troca o mundo provavelmente seria muito diferente do que conhecemos hoje. Sem essa transferência horizontal de genes, talvez nem mesmo existíssemos.

Ana Almeida

California State University East Bay (CSUEB)

 

Para saber mais:

Boto L. 2010. Horizontal gene transfer in evolution: facts and challenges. Proceedings of The Royal Society B 277: 819-827.

Ponce-Toledo R.I., López-García P., Moreira D. 2019. Horizontal and endosymbiotic gene transfer in early plastid evolution. New Phytologist 224: 618-624.

Schönknecht G., Weber A.P., Lercher M.J. 2014. Horizontal gene acquisitions by eukaryotes as drivers of adaptive evolution. BioEssays 36: 9-20.

Bomba relógio do Ártico?

O que têm a ver os microrganismos do Ártico com uma bomba relógio? Descubra neste post do Darwinianas.

Já tratei em posts anteriores da grande importância que os microrganismos têm nos solos em escalas globais e locais. No post de hoje vou dar um pouco mais de ênfase a uma combinação explosiva: o derretimento do gelo dos solos do Ártico (conhecido como “permafrost”, em inglês) e as atividades dos microrganismos que ali vivem congelados. Já se fala em cenários apocalípticos (inclusive foco de um documentário),  concentrações crescentes de gases estufa que irão gradativamente descongelar mais e por mais tempo os solos do Ártico, e que haverá um ponto no qual isso causará o aumento abrupto desses gases, levando a um ciclo de retroalimentação positivo de aquecimento em proporções apocalípticas. A esse fenômeno é dado o nome de “bomba de metano”.

Muito se fala sobre a emissão de CO2 pelo ser humano e os impactos dessas emissões nas mudanças climáticas, mas é importante reforçar aqui que o metano é um dos gases que têm maior potencial de efeito estufa. O metano é produzido em grande parte como “resíduo metabólico” da respiração anaeróbica de microrganismos. Esses microrganismos do Domínio Archaea (ver post anterior para relembrar o que é esse Domínio) são conhecidos como metanogênicos. Muito se fala também sobre a contribuição do gado, através dos seus puns, como importante fonte de metano para a atmosfera. No entanto, um grande problema que está deixando cientistas de cabelo em pé é o derretimento mais acelerado dos solos e lagos do Ártico. Estima-se que 50% do carbono orgânico presente no solo esteja nessa região do globo, que representa apenas 16% da área da Terra. À medida que mais metano é liberado para atmosfera, o efeito estufa aumenta e mais permafrost é descongelado, liberando mais metano… esse ciclo se repete, porém com um detalhe: pode haver um ponto no qual  a liberação desse metano não seja mais gradual, liberando quantidades muito grandes de metano, e passe a provocar um aumento drástico e irreversível de temperatura.

Em um estudo recente publicado na prestigiada revista da Academia Norte-Americana de Ciências (Proceedings of National Academy of Sciences, PNAS) coordenado por Konstantinos T. Konstantinidis, os autores mostraram que, de fato, com o aumento da temperatura, microrganismos que produzem metano se proliferam. Os autores utilizaram uma abordagem experimental amostrando solos durante mais de 3 anos e experimentalmente os aquecendo. Os autores observaram que as mudanças nas comunidades nos 4 anos e meio de estudo foram bem maiores do que as que foram observadas anteriormente em 1 ano e meio de estudo. Além da proliferação de microrganismos produtores de metano em solos aquecidos (comparados com os não aquecidos), há maior potencial de respiração da comunidade microbiana de solos aquecidos. Isso quer dizer que o carbono orgânico presente nesses solos poderá ser convertido em CO2 mais rapidamente e liberado para a atmosfera, aumentando ainda mais o efeito estufa.

Estamos atravessando um momento crítico na história da humanidade. Se a bomba de metano “explodir” de fato, como vários cientistas estão prevendo, os danos serão gravíssimos para a geração dos nossos filhos, e não daqui a 200 ou 300 anos. Não dá tempo para errar no que diz respeito a nossa sobrevivência, por isso penso que projeções como essas, sustentadas por fortes evidências, devem ser levadas a sério e uma escolha parcimoniosa deve ser feita, ou seja: remediar imediatamente, reduzindo as emissões de carbono e aumentando o potencial de sequestro de carbono, preservando áreas conhecidas como sumidouros de carbono, como manguezais bancos de gramíneas marinhas.

Pedro Milet Meirelles

Laboratório de Bioinformática e Ecologia Microbiana

Instituto de Biologia da UFBA

meirelleslab.org

Para Saber mais:

Collins, William D., et al. “Large regional shortwave forcing by anthropogenic methane informed by Jovian observations.” Science advances 4.9 (2018): eaas9593.

Johnston, Eric R, et al. “Responses of Tundra Soil Microbial Communities to Half a Decade of Experimental Warming at Two Critical Depths.” (2019) Proceedings of the National Academy of Sciences 116 (30): 15096 LP-15105.

Explorando mais profundamente a diversidade biológicas dos solos

Em um post recente aqui no Darwinianas, falei sobre microrganismos raros, ou seja, pouco abundantes e sua importância na estruturação das comunidades microbianas, na mobilização de matéria orgânica e na ciclagem de nutrientes, mais especificamente, do enxofre. No post de hoje, falarei sobre a microbiota dos solos e a importância dos microrganismos raros nela encontrados. Continue Lendo “Explorando mais profundamente a diversidade biológicas dos solos”

Direitos naturais?

Direito à vida, direito à liberdade, igualdade de direitos, liberdade de expressão, de onde vêm esses tais direitos universais que nós, humanos, a nós mesmos oferecemos? Será que lá de onde vieram esses direitos, que nos parecem naturais, poderiam vir também outros direitos, também naturais, não digo mais direitos para nossa própria natureza humana, mas sim direitos universais para outras naturezas, para nossos primos primatas, para nossos cães e gatos domésticos, para as abelhas operárias polinizadoras e, por que não, para a Mata Atlântica, a Amazônia, a Caatinga, ou mesmo para as cabeceiras dos rios, para cordilheiras, direitos universais do planeta Terra? Se temos direitos básicos que decorrem de nossa própria natureza, talvez a própria natureza tenha ela também direitos, ou não?

Alguns consideram conservadores os movimentos de conservação da natureza porque, afinal, os ambientalistas querem conservar as coisas como elas estão: não mexam na Amazônia, não mexam nas margens dos rios, não mexam no sapo cururu, e por aí vai. Se querem conservar a natureza, são ultra-conservadores, dizem alguns esclerosados sábios de esquerda, com uma lógica semelhante à daqueles que acham que um partido político que tenha em seu nome palavras que lembram vagamente o “socialismo”, só pode ser marxista. Curiosamente, no entanto, políticos de esquerda e de direita são pragmaticamente alinhados na questão ambiental. Sempre que são colocados na posição de optar por defender o ser humano ou defender a natureza, eles nunca se recusam a responder, a mostrar que esta não é uma questão real. Apresentados ao falso dilema homem/natureza, que pressupõe equivocadamente que o homem está fora (e acima?) da natureza, todos esses políticos optam por defender o ser humano. Não poderiam mesmo deixar de defender os adultos humanos, que são os únicos que podem reeleger os animais políticos que habitam o congresso e o executivo. Percebam que digo isso não em detrimento da política: sendo sociais desde nossos primórdios evolutivos, somos todos, naturalmente, políticos. Há propostas ousadas visando ampliar a democracia para escaparmos deste eterno dilema homem/natureza. Filósofos políticos têm proposto que crianças pequenas deveriam também ter direito a voto, porque apenas elas irão efetivamente viver as consequências do desastre ambiental que nós, adultos, estamos engendrando: a nós, adultos, a derrocada do clima parece algo distante e imponderável, e assim não sentimos na carne a urgência da aprovação de leis que efetivamente possam evitar essa tragédia anunciada. Fico aqui quieto, só imaginando, se a moda pega, as propagandas eleitorais inundando rádios e TVs com jingles à base de galinha pintadinha … Continue Lendo “Direitos naturais?”

Como os microrganismos estão relacionados a depressão?

Em um post recente aqui no Darwinianas, a Profa. Ana Almeida trouxe informações importantes sobre como os microrganismos influenciam o comportamento de moscas e nos trouxe questionamentos interessantes sobre quem está no comando do nosso próprio comportamento. No post de hoje veremos como os microrganismos que habitam nosso intestino podem estar relacionados com nossa qualidade de vida e saúde mental, mais especificamente: como os microrganismos estão relacionados à depressão.

A depressão é a desordem mental mais prevalente em países industrializados. No Brasil, país líder em incidência de ansiedade e depressão na América Latina, os números são assustadores e crescem: 5,8% dos brasileiros sofrem com a depressão, nos últimos 10 anos houve um aumento de 18,4% do número de pessoas que sofrem com depressão. É bem conhecido que os tratamentos para esse mal podem demorar e que nem sempre os medicamentos funcionam de primeira, tendo o paciente que se sujeitar a algumas drogas para melhorar o seu quadro. São também conhecidos os efeitos colaterais que as drogas administradas podem causar nos pacientes. Porém com todo esse quadro, podemos vislumbrar um horizonte promissor na compreensão das causas e possíveis tratamentos mais eficazes da depressão. Em estudo publicado na semana passada na Nature Microbiology, pesquisadores da Bélgica, liderados pelo Prof. Jaroen Raes, mostraram associações entre a microbiota intestinal e depressão.

Este estudo foi feito com um grupo de mais de mil pessoas, através do projeto “The Flemish Gut Flora project”. Os autores empregaram abordagens metagenômicas (nos meus posts anteriores falei um pouco sobre o que é isso), que é o sequenciamento de todo material genético presente em uma dada amostra, para acessar a diversidade microbiana nessa população e, utilizando informações sobre vias e compostos conhecidos como importantes moduladores cerebrais, conseguiram traçar associações claras entre alguns microrganismos e qualidade de vida e depressão. Os resultados apontam para a hipótese de que bactérias produtoras de butirato (Faecalibacterium e Coprococcus) podem estar relacionadas com altos indicadores de qualidade de vida. Em indivíduos com quadros de depressão, as bactérias Dialister e Coprococcus spp. encontravam-se ausentes. Os autores encontraram também que a síntese microbiana do metabólito de dopamina, ácido 3,4-dihydroxifenolacético, está correlacionada positivamente com qualidade de vida mental, e o potencial das bactérias produzirem ácido γ-aminobutírico em casos de depressão. A produção ou degradação desses compostos estão relacionados diretamente com a produção de neurotransmissores e, por consequência, tem relação com a fisiologia cerebral.

É importante ressaltar que o estudo traz associações e que não é possível ainda estabelecer relacõed de causalidade. Apesar disso, a pesquisa dá luz a uma compreensão mais abrangente sobre o funcionamento do corpo humano, mostrando ligações entre o nosso intestino e estado mental, e também oferece meios de testar os achados. A medicina está evoluindo cada vez mais para ser totalmente personalizada, incluindo informações dos genomas dos pacientes e, cada vez mais, do microbioma também. Podemos vislumbrar tratamentos baseados em administração de compostos produzidos por cada tipo de microbioma (saudável e doente) ou baseados na administração ou controle dos microrganismos intestinais. Mais uma vez aqui no Darwinianas fica a pergunta: quem está no controle do nosso próprio comportamento?

 

Pedro Milet Meirelles

Laboratório de Bioinformática e Ecologia Microbiana

Instituto de Biologia da UFBA

meirelleslab.org

 

Para Saber mais:

Valles-Colomer M, Falony G, Darzi Y, Tigchelaar EF, Wang J, Tito RY, Schiweck C, Kurilshikov A, Joossens M, Wijmenga C, Claes S. The neuroactive potential of the human gut microbiota in quality of life and depression. Nature Microbiology. 2019 Feb 4:1.

(Imagem: https://www.talkspace.com/blog/2017/09/the-stigma-of-depression/)

 

Retornando à Verdade, Superando um Mundo Pós-Factual

Verdade absoluta é um conceito inútil para entender o conhecimento humano. Noções alternativas à de “verdade absoluta” seriam mais úteis?

Há ideias sobre o mundo que são tão bem apoiadas por evidências que podem ser consideradas “fatos”, algo de que tratamos  em postagem anterior. Lá, nosso argumento foi o de que “verdade” é um conceito inútil para entender o conhecimento humano. A razão para isso deve-se à própria natureza do conhecimento, que é construído com base em nossa capacidade de captar informações e interpretá-las. Nossos limites perceptivos e cognitivos, assim como o fato de que todo conhecimento é construído com base em conhecimentos prévios dos quais dispomos, restringem o entendimento que podemos construir. O resultado é que possuímos uma “rede interligada de ideias sobre o mundo”, que nos permitem construir teorias e modelos que frequentemente guiam de modo eficaz nossa ação. Isso é algo bastante diferente da ideia de uma única e definitiva verdade.

Descartar a verdade como conceito útil para pensar o conhecimento humano carrega em si uma série de simplificações. Essas simplificações são úteis para veicular ideias sobre como cientistas (e também outros agentes humanos) constroem conhecimento. Entretanto, não deve causar espanto que, por limitar o conceito de verdade à ideia de uma verdade absoluta, elas também têm suas próprias limitações. Quando escrevemos o texto anterior, não tratamos de tais limitações, por causa de nosso desejo de enfatizar algumas ideias. Esta foi uma decisão que deve ser entendida à luz da retórica.

A retórica pode ser considerada a arte da persuasão. Ela diz respeito à capacidade de usar a linguagem para se comunicar de modo eficaz e convincente. Para isso, devemos construir nossos argumentos tendo em mente um público. Para quem estamos escrevendo? Sem ter isso em vista, não é fácil ser persuasivo. Estudiosos da retórica, como Chaïm Perelman, destacam assim o papel da audiência na retórica: todo texto que visa a persuasão deve ser escrito com uma audiência em mente. Isso implica, entre outras coisas, tomar decisões sobre o que dizer e o que não dizer, em vista da persuasão pretendida.

No caso de nossa postagem anterior, pretendíamos que ela fosse convincente sem demandar dos leitores que se engajassem em discussões filosóficas para além da simples lição que tínhamos em foco: quando abandonamos os fatos ao lidar com o mundo, corremos muitos riscos.

Contudo, essa decisão não é sem custos. Na postagem de hoje, explicitaremos um custo que pagamos e tentaremos então ir além das simplificações que fizemos na postagem da semana passada. Nosso foco muda um pouco, passando a recair sobre a exploração do significado da verdade de modo mais rigoroso, dando atenção ao fato de que podemos nos referir à verdade de diferentes formas. Esse esforço valerá a pena, esperamos, pois poderá ser revelador sobre como o conhecimento é produzido.

Novos significados para a verdade

Uma simplificação comumente feita ao tratar do termo “verdade” é considerá-lo como sinônimo de “verdade absoluta” (que foi o que fizemos em nossa postagem anterior). Essa noção de verdade é pouco útil quando buscamos entender o conhecimento humano. Como vimos, somos seres limitados, com ideias sobre o mundo que são dependentes umas das outras, de tal maneira que não podemos pensar no conhecimento como uma simples revelação sobre a realidade. Podemos acrescentar: nenhum conhecimento pode ser construído se não a partir de alguns princípios primeiros, de certos pontos de partida. Esses princípios são tomados como dados, no sentido de que, para desenvolver novas ideias, não os questionamos, assumimos que podemos tratá-los como corretos, como auto-evidentes. Muitos dos nossos maiores debates referentes ao conhecimento dizem respeito a esses princípios primeiros. O problema é que discutir princípios primeiros é geralmente de utilidade muito limitada.

Diante desse conjunto de argumentos, podemos então concluir que discutir o conhecimento humano tomando como base a ideia de “verdade absoluta” não nos leva a lugar algum. Nada é verdadeiro em sentido absoluto, e pretender ser detentor de verdade absoluta nada mais é que um artifício de poder. Mas repare que, na postagem anterior, quando tratamos da verdade, não escrevemos “verdade absoluta”. Essa qualificação (“absoluta”) é importante? Vejamos.

Assumir a verdade como absoluta e então recusar sua utilidade para pensar o conhecimento pode levar a inconsistências. Como? Nós também destacamos, na mesma postagem,  a importância de distinguir entre conhecimento (episteme) e opinião (doxa). Citamos Platão sobre a importância dessa distinção no campo da política, lembrança muito pertinente para o mundo de hoje, perdido nas brumas da pós-factualidade. Mas, note-se, este também é dito um mundo da pós-verdade. Estaríamos concordando com a ideia de pós-verdade, ao dizermos que a verdade é inútil para entender o conhecimento humano? Longe disso. Está claro, então, que precisamos dizer algo mais sobre a verdade.

Para além disso, o próprio Platão argumenta que, sendo tanto conhecimento quanto mera opinião tipos de crença, o que diferencia conhecimento de opinião é que o conhecimento é crença verdadeira e justificada. A contradição bate à nossa porta quando, no mesmo argumento, recusamos a verdade e apelamos ao conhecimento (nas palavras de Platão, crença verdadeira e justificada).

Uns adoram viver em contradição nesse mundo pós-factual. Mas não estamos entre estes. Por isso, é importante hoje retornarmos à verdade para dissipar essa contradição. Para isso, discutiremos noções mais fracas de verdade. Ou, como se costuma dizer na filosofia, noções “deflacionadas”. Isso quer dizer que são verdades mais fracas do que a verdade absoluta. E, dada a nossa convicção da inutilidade da “verdade absoluta”, podemos dizer “apropriadamente” mais fracas. Sem ser absolutamente verdadeiras, porque nada o é, essas formas deflacionadas de verdade são muito importantes, porque mostram como é possível ter confiança na ausência da verdade absoluta. Recorrer a tais formas de verdade constitui, inclusive, forma mais precisa de fazer referência ao que chamamos, na postagem anterior, de “fatos”.

Uma primeira noção deflacionada de verdade pode ser denominada “verdade pragmática”.

Verdade pragmática

Na noção de “verdade pragmática”, a base para determinarmos se uma afirmação sobre o mundo é verdadeira ou não reside na eficácia de sua aplicação prática, ou seja, nas consequências de sua aplicação para nossas ações. Não se trata de rejeitar a noção de verdade, mas de entendê-la de modo distinto da ideia de verdade absoluta. Como nossa mente é ativa na busca de entender o mundo, o conhecimento não pode ser um espelho da natureza. A relação entre conhecimento e realidade não pode ser como um reflexo num espelho, sendo então um reflexo perfeito igual a uma “verdade absoluta”. Como então deixar clara a relação entre conhecimento e realidade?

A ideia de uma verdade pragmática é que essa relação pode ser esclarecida por um apelo às consequências das afirmações para as nossas ações. Seria pragmaticamente verdadeira uma afirmação que leva de modo geral a consequências eficazes e (também frequentemente) positivas sobre o mundo. Por “positiva”, podemos entender uma ação que aumenta nossas chances de sobrevivência, como seres que têm no conhecimento sua principal forma de adaptação ao mundo.

Vamos exemplificar a verdade pragmática retomando um caso que discutimos na postagem anterior: a negação pelo presidente sul-africano Thabo Mbeki de que a AIDS é causada por uma infecção viral. A ideia de que a AIDS não é uma doença viral é falsa em termos pragmáticos, como mostram as consequências negativas que acarretou: milhares de mortes, milhares de crianças nascidas com AIDS. Em contrapartida, a ideia de que a AIDS é causada por vírus é pragmaticamente verdadeira: é uma ideia que catalisou a adoção de medicamentos antivirais em outros países africanos, levando milhões de soropositivos a não desenvolverem AIDS.

Similarmente, a ideia de que a Terra não é plana é pragmaticamente verdadeira, como mostra o simples ato de nos orientarmos usando GPS em nossas vidas cotidianas. O Sistema de Posicionamento Global (GPS) pressupõe que a Terra não é plana. As afirmações de que a AIDS é uma doença viral e de que a Terra não é plana são crenças verdadeiras e justificadas, e podemos dizer isso sem apelar à ideia de verdade absoluta, e sim a uma ideia apropriadamente mais fraca, de verdade pragmática. As afirmações de que a AIDS é uma doença viral e de que a Terra não é plana são, pois, conhecimentos. As afirmações de que a AIDS não é uma doença viral e de que a Terra é plana são, por contraste, meras opiniões. Curiosamente, esta importante distinção é inadvertidamente confirmada pelos crentes na Terra plana que pretendem embarcar num cruzeiro para chegar aos limites do planeta que imaginam: a embarcação se orientará, decerto, usando GPS e, ao fazê-lo, eles estarão inadvertidamente confirmando a verdade (pragmática) de que a Terra não é plana!

A noção de verdade pragmática nos permite introduzir, de modo bastante útil, a ideia de graus distintos de confiança. Algumas ideias, como a de que AIDS é causada por vírus, merecem muita confiança. Isso porque suas consequências mostram repetidamente sua verdade pragmática.

Outras ideias, mesmo que possam ser ditas conhecimentos, em termos pragmáticos, merecem menos confiança, porque mesmo tendo consequências que as apoiam, falham mais nas implicações que trazem para nossas ações. É o caso, por exemplo, do papel de vários fármacos no tratamento de doenças. Eles são “parcialmente eficazes”, porque embora sejam eficazes em muitos casos, têm sua confiança erodida por contra-exemplos nos quais falham. Esses contra-exemplos expõem o fato de que há lacunas em nosso conhecimento sobre o funcionamento de nossos corpos, algo normal e esperado quando conhecimento não corresponde a verdade absoluta.

Um exemplo é o caso da sinvastatina, largamente utilizada para controlar níveis de colesterol. É uma droga que em vários pacientes é pouco eficaz, além de resultar em efeitos colaterais, desencadeando doenças musculares. Deixa de “ser verdade” que a sinvastatina é capaz de controlar o colesterol? Não, mas é uma verdade (pragmática) para a qual há contra-exemplos, que por sua vez também podem ser estudados pela ciência. Há estudos, por exemplo, que identificaram genes que, quando mutados,  alteram o transporte do fármaco nas células, influenciando sua eficácia.

As falhas dos fármacos são aceitáveis, porque são consistentes com a enorme complexidade do tratamento de doenças e a variabilidade entre indivíduos na forma como respondem a tratamentos. Não deixa de ser uma verdade pragmática o papel dos fármacos nos tratamentos, mas é uma verdade que merece menos confiança do que a verdade pragmática de que a AIDS é uma doença viral. É extremamente útil uma noção de verdade que, diferente da verdade absoluta, permite que entendamos os diferentes graus de confiança que merecem nossas afirmações sobre o mundo e as ações que se fundamentam nelas.

A verdade como ideal regulativo

Concluiremos essa postagem com algumas palavras sobre outra visão deflacionada sobre a verdade, que encontramos, entre outros pensadores, em Charles S. Peirce, que, aliás, também é uma das fontes da ideia de verdade pragmática. A verdade pode ser entendida como um ideal. Isso significa que a verdade não será jamais alcançada, atribuindo-se ao termo “verdade” nesse caso o sentido de ser absoluta. Contudo, o que é importante sobre a verdade não é alcançá-la. O que é importante é que a verdade regula nosso pensamento. Ou seja, tudo o mais sendo igual, nós somos pensadores mais poderosos se almejamos a verdade, como meta ideal, apesar de inalcançável. A verdade é, então, um ideal que regula nosso pensamento, um ideal regulativo que tem sua importância em seu papel face ao nosso pensamento. Nada há de importante na proposta de alcançar a verdade, nesse sentido absoluto em que ela aqui comparece. Apelando a ela, apenas nos tornamos mais capazes de gerar, aqui e agora, o conhecimento que nos é possível.

Note, inclusive, que os dois significados deflacionados de verdade discutidos aqui não são mutuamente exclusivos. Afinal, a verdade como ideal regulativo cria a possibilidade de produzir conhecimentos que correspondem a verdades pragmáticas.

Deve estar claro, agora, que nossos argumentos de que a produção do conhecimento não deve recorrer à noção de que há uma verdade absoluta, que poderia ser alcançada, em nada se aproxima da ideia de que devemos aceitar viver num mundo da pós-verdade. Devemos seguir regulando nosso pensamento pelo ideal da verdade, como todos os humanos devem fazer, em especial se ainda se pretendem racionais, e devemos seguir em busca de verdades pragmáticas, com as consequências mais positivas para as nossas ações e a nossa sobrevivência. Desprezar os fatos ao lidar com o mundo, abandonar a racionalidade e o respeito à evidência são, não temos dúvidas, ideias falsas, porque não geram consequências positivas para nossa sobrevivência. Ao contrário, nos precipitam desabalados rumo à perda de qualidade em nossas vidas, possivelmente até mesmo rumo à extinção.

 

Charbel N. El-Hani

Instituto de Biologia/UFBA

Diogo Meyer

Instituto de Biociências/USP

 

PARA SABER MAIS:

Barker, G. & Kitcher, P. (2013). Philosophy of Science: A New Introduction. Oxford: Oxford University Press.

Dutra, L. H. (2009). Introdução à Teoria da Ciência (3ª Ed.). Florianópolis: UFSC.

Hacking, I. (1983). Representing and Intervening. Cambridge: Cambridge University Press.

Imagem: Placa indicando a cidade de Truth or Consequences, no Novo México, Estados Unidos