Ciência é atividade imaginativa, não “receita de método científico”

Visões caricatas da ciência, que nutrem mito de método científico como sequência linear de passos, ocultam papel da imaginação na ciência e contribuem para rejeição da ciência pela sociedade

Desde os primeiros anos da escolaridade, somos inculcados com a ideia de que fazer ciência seria seguir uma série mecânica de passos, começando com observações, a partir das quais são levantadas hipóteses, das quais são deduzidas consequências, as quais são testadas por meio de experimentos, como se o trabalho científico fosse a mesma coisa que seguir uma receita de bolo. Uma vez analisados os resultados do teste, uma conclusão seria então obtida, mantendo-se ou abandonando-se a hipótese.

A ciência pode, de fato, envolver a chamada lógica hipotético-dedutiva, mas testar consequências previstas a partir de uma hipótese também não é uma atividade mecânica feita sempre na mesma sequência e nem hipóteses resultam necessariamente de observação! Aliás, prefiro falar em lógica ou raciocínio em vez de método hipotético-dedutivo, por considerar a primeira expressão mais precisa, quando queremos nos referir a um modo lógico de proceder na pesquisa.

Propor que a ciência seria caracterizada por um método científico entendido como uma rígida e recorrente sequência de passos tem inúmeros problemas. Muitos críticos dessa proposição sobre como a ciência funciona se referem, então, a um mito do método científico. Estas críticas têm sido feitas tanto na literatura técnica, quanto na popularização da ciência.

Primeiro, obscurece que ciência se faz de várias maneiras, e não necessariamente seguindo uma lógica hipotético-dedutiva. Podemos, por exemplo, obter grandes séries de dados sobre algum fenômeno (como expresso na metáfora big data) e, a partir delas, extrair algum padrão regular, como fazemos, por exemplo, quando inferimos a presença de um determinado padrão de expressão de genes de um tipo celular com base em grandes conjuntos de dados sobre os RNAs presentes em células daquele tipo. Nesse caso, estamos usando uma lógica indutiva e, evidentemente, seguimos fazendo ciência.

Podemos observar algum padrão na natureza, por exemplo, uma concentração estranhamente alta do elemento químico irídio nas mesmas camadas geológicas em diversos locais do mundo e perguntar qual seria a melhor explicação para esse padrão, concluindo, digamos, que a queda de um grande meteorito com a mesma datação das camadas geológicas constitui a melhor explicação. Estamos usando, então, uma lógica abdutiva, inferindo a melhor explicação a partir dos dados, e, claramente, continuamos fazendo ciência.

Podemos considerar funcionamento mental de crianças, por exemplo, o modo como elas usam determinados modos de pensar ao longo do tempo e perguntar pela gênese desses modos de pensar, entendendo, por exemplo, como se desenvolve o pensamento conceitual na formação da mente humana. Estamos usando, então, uma lógica genética (não no sentido de ‘genes’, como regiões do DNA, mas no sentido de ‘gênese’) e, é claro, estamos fazendo ciência!

Segundo, o mito do método científico favorece uma ideia perniciosa, que se arraigou na formação de cientistas em muitas áreas e universidades, infelizmente: a de que aprender a fazer ciência seria aprender um conjunto de técnicas e protocolos para executar testes empíricos. Certamente, o trabalho científico inclui técnicas, protocolos, testes empíricos, mas limitá-lo a isso é ignorar que ciência também se faz tendo ideias, pensando novas teorias, imaginando novos modelos, supondo a existência de fenômenos nunca antes observados, em suma, que ela envolve muito mais do que apenas testar hipóteses. Frequentemente, essas visões caricatas da ciência também são acompanhadas de uma redução do teste empírico ao experimento, ignorando-se que testes empíricos rigorosos podem não ser experimentais: por exemplo, posso testar uma hipótese sobre a história evolutiva de um grupo de organismos examinando sistematicamente a distribuição de caracteres entre eles, usando o chamado método comparativo, e não um método experimental.

Terceiro, sugere que a ciência é uma atividade protocolar, uma repetição enfadonha dos mesmos passos prescritos. Já deve ter transparecido no parágrafo anterior, contudo, que ciência é tudo menos um trabalho mecânico. A ciência é uma atividade profundamente criativa, uma tentativa de entender o desconhecido com nossos melhores recursos cognitivos, incluindo nossa imaginação. A ciência não consiste na busca apenas de testar ideias que já tivemos, mas é uma aventura ousada de tentar ter ideias que nunca jamais ninguém teve, frequentemente alcançadas combinando-se de modo criativo uma série de ideias que já estavam disponíveis anteriormente. Foi assim, por exemplo, que Darwin e Wallace tiveram a ideia da seleção natural como força criativa no mundo vivo (criativa de adaptações e espécies) a partir de um conjunto de ideias já muito conhecidas, sobre crescimento populacional, herança, relações entre organismos, relações dos organismos com o meio etc.

A crise de confiança na ciência, que tem levantado bastante preocupação, tem a ver, ao menos em parte, com o modo como ensinamos ciência às pessoas. Pesquisa executada pelo Instituto Gallup, encomendada pela organização britânica Wellcome Trust, verificou que 75% dos brasileiros desconfiam da ciência e 23% consideram que produção científica pouco contribui para desenvolvimento econômico e social do país. Muitos desses são brasileiros que possivelmente amam ficar em seus telefones celulares sem nem desconfiar que não haveria celular sem ciência, ou ganham seu pão do dia-a-dia em muitas atividades que somente existem ou são praticadas do modo como o são hoje por causa da ciência, como a medicina, por exemplo, ou a engenharia, ou a agricultura, ou….. A lista é imensa! Como pode ter surgido tal descompasso entre o que se pensa e o modo como se vive?

Uma explicação plausível é que essas pessoas não estabelecem conexão entre o que aprenderam ser ciência na escola e todos esses produtos de seu cotidiano, ou mesmo com suas atividades profissionais. Podemos então não estar ensinando ciência de modo apropriado. Esta me parece uma conclusão importante. O problema tem certamente muitas raízes. Não seria possível dizer que o mito do método científico como atividade mecânica seja a única causa do problema. Mas parece-me que é parte da causa, porque apresenta de modo assustadoramente pobre uma das atividades mais instigantes da humanidade, fazer ciência.

 

Charbel N. El-Hani

Instituto de Biologia/UFBA

 

PARA SABER MAIS:

Bauer, H. H. 1994. Scientific Literacy and the Myth of the Scientific Method. University of Illinois Press.

Godfrey-Smith, P. 2003. Theory and Reality. The University of Chicago Press.

Numbers, R. L. & Kampourakis, K. 2015. Newton’s Apple and Other Myths about Science. Harvard University Press.

 

Figura: Mito do método científico como receita de bolo é algo tão divulgado que está presente em uma série de páginas da Wikipedia. Esta imagem, por exemplo, se encontra na página sobre pseudociência, em inglês

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante

Em 1835, Charles Darwin, em sua histórica viagem a bordo do HMS Beagle, visitou o Chile, onde conheceu um naturalista alemão chamado Renous. Renous havia sido preso dois ou três anos antes por heresia. A prisão aconteceu quando as pessoas do povoado de San Fernando descobriram que ele transformava, “por bruxaria”, lagartas em borboletas. O conhecimento sobre a metamorfose dos insetos ainda não havia chegado aos cidadãos de bem de San Fernando, apesar de ser estudado já há mais de 2000 anos! O filósofo grego Aristóteles tinha um grande interesse na metamorfose completa dos insetos, pois acreditava que a transformação radical de uma simples larva em um inseto adulto altamente complexo oferecia uma oportunidade de testar suas ideias sobre reprodução animal e desenvolvimento embrionário. Ele acreditava que a metamorfose e o mistério da geração espontânea de vida estavam ligados. Para Aristóteles, explicar a metamorfose era uma oportunidade para explicar a origem da vida a partir de material não-vivo.

A grande maioria das espécies do subfilo Hexapoda (artrópodes com três pares de pernas) passa por algum tipo de metamorfose (Figura 1). A extensão das mudanças pelas quais os insetos passam durante seu desenvolvimento é usada para classificá-los em três categorias. Os ametábolos, como as traças dos livros, sofrem pouca ou nenhuma metamorfose. Quando nascem de ovos, eles já se parecem com adultos, ainda que pequenos, e simplesmente crescem fazendo uma série de mudas pelas quais saem de seus exoesqueletos pequenos, crescem e produzem um novo exoesqueleto, maior. Hemimetábolos são os insetos de metamorfose incompleta, como baratas, gafanhotos, percevejos e libélulas. Eles eclodem como ninfas –versões em miniatura de suas formas adultas– e à medida que crescem gradualmente desenvolvem asas e genitais. Por fim, os holometábolos são os insetos com metamorfose completa, como besouros, moscas, borboletas, mariposas e abelhas, que eclodem como larvas entram em um estágio de pupa inativo e finalmente emergem como adultos, que não se parecem com as larvas. Durante o estágio de pupa, órgãos e tecidos são extensamente remodelados e, em alguns casos, completamente reconstruídos. O resultado é uma mudança drástica na morfologia, na fisiologia e no comportamento de um inseto.

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Figura 1. Árvore filogenética que mostra a relação entre ordens do subfilo Hexapoda e a classificação dos insetos de acordo com a extensão da mudança que ocorre durante seu desenvolvimento (modificado de Cheong et al. 2015). 

Durante sua evolução, os insetos apresentaram várias estratégias de história de vida, algumas das quais persistem nas ordens atuais. Os primeiros insetos não sofriam metamorfose. Eles nasciam dos ovos essencialmente como adultos em miniatura. Hoje, poucos insetos são ametábolos. Com a evolução das asas e do voo, o adulto passou a ser o estágio terminal sem nenhuma muda, e surgiu o estágio imaturo, denominado ninfa, que não possuía asas e órgãos genitais (hemimetábolos). Embora as ninfas geralmente se assemelhem ao adulto, a diferença entre os dois estágios pode ser bastante dramática, como visto na transição da ninfa aquática para o adulto aéreo nas libélulas. Cerca de 350 milhões de anos atrás, no período Cambriano, alguns insetos mudaram sua forma de amadurecer, chegando a ter mudanças extremas durante o desenvolvimento, com um estágio larval que nada se parece com o adulto. A observação de grupos com diferenças relativamente pequenas entre larvas, pupas e adultos, como os insetos da ordem Raphidioptera (Figura 2), facilita o entendimento da evolução da metamorfose como um processo contínuo, em vez de uma transformação abrupta. As larvas desses insetos não diferem consideravelmente dos imaturos de hemimetábolos e uma muda converte sua larva em pupa móvel com asas externas e mandíbulas e pernas livres. Na última muda, o adulto emerge.

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Figura 2. Metamorfose em Raphidioptera, um holometábolo basal. (a) Um ínstar larval tardio (possivelmente final). (b) Uma pupa macho do instar intermediário, vistas lateral (esquerda) e ventro-lateral (direita). (c) macho adulto. Barras de escala, 5 mm. (Jindra. 2019).

Há duas hipóteses para explicar a evolução da metamorfose completa (Figura 3). Na primeira, a pupa é considerada uma versão modificada do último ínstar larval (hipótese 1). A favor dessa hipótese está a observação de que estágios de repouso em forma de pupa não são exclusivos de holometábolos, pois evoluíram independentemente em alguns hemimetábolos. Na segunda (hipótese 2), haveria em insetos hemimetábolos um estágio embrionário críptico, a pró-ninfa, da qual evoluiu a larva dos holometábolos. O estágio larval de vida livre, capaz de se alimentar, tornou-se dedicado ao crescimento e os estádios da ninfa dos hemimetábolos foram reduzidos a um único estágio incapaz de se alimentar, a pupa, que proporcionava a transição para o adulto. Um experimento interessante foi o tratamento experimental de pró-ninfas com um hormônio inibidor da metamorfose, o hormônio juvenil: ele induz a diferenciação tecidual em pró-ninfas, imitando os processos que ocorreram durante a evolução da larva. Uma diferença importante entre as duas hipóteses é que na hipótese 1 pressupõe-se que a evolução da larva antecedeu o surgimento da pupa (que é, portanto, uma larva modificada), e os ínstares larvais anteriores são considerados homólogos à ninfa dos hemimetábolos. De acordo com hipótese 2, o estágio larval, por sua vez, evoluiu da pró-ninfa embrionária. O assunto está longe de ser resolvido.

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Figura 3. Hipóteses alternativas para relações evolutivas entre os estágios dos holometábolos e os de um ancestral hipotético hemimetábolo. As caixas verdes à direita marcam os estágios embrionários sucessivos (E1, E2). Esquerda: hipótese 1, na qual a larva eclode em um estágio correspondente a E2, que seria o pró-ninfa de hemimetábolos. Todos os ínstares larvais de holometábolos (amarelo) seriam equivalentes à pró-ninfa embrionária (PN), enquanto todos os ínstares juvenis de hemimetábolos equivaleriam à pupa (laranja). Direita: hipótese 2, na qual larvas de hemi e holometabólos eclodiriam ambas após E2. A pupa seria uma larva de hemimetábolo modificada em estágio tardio (modificado de Jindra. 2019).

Também podemos nos perguntar se haveria algum ganho adaptativo da metamorfose completa. A metamorfose foi tão bem-sucedida que, hoje, mais de 80% das espécies de insetos, possivelmente representando cerca de 60% de todas as espécies de animais do planeta, passam por uma metamorfose completa. De fato, a metamorfose permite que imaturos e adultos se alimentem de diferentes recursos. Darwin destaca, em “A origem das espécies”, que diferentes estágios podem estar diferencialmente adaptados a nichos particulares. Por exemplo, enquanto as lagartas estão ocupadas devorando folhas, completamente desinteressadas na reprodução, as borboletas voam de flor em flor em busca de néctar e parceiros. Os adultos das moscas varejeiras, assim como as borboletas, alimentam-se de néctar, mas suas larvas se desenvolvem em matéria orgânica em decomposição ou até mesmo de tecidos de hospedeiro vivo, como vimos em dois textos aqui no blog (sobre entomologia forense e terapia larval). Adultos e larvas não competiriam pelos mesmos recursos. Essa explicação, no entanto, não é facilmente estendida para entender a evolução de um estágio adicional de pupa, um estágio imóvel e puramente de desenvolvimento. Uma outra hipótese levantada é que a metamorfose completa seja uma adaptação que permite dissociar o crescimento (no estágio de larva) e a diferenciação (no estágio de pupa). O principal benefício da metamorfose completa seria, assim, a dissociação entre crescimento rápido na larva e diferenciação dos tecidos adultos nas pupas, facilitando a exploração de recursos alimentares efêmeros pelas larvas. A maioria das espécies precisa atingir um peso crítico antes da transição para a maturidade. Com as rápidas taxas de crescimento das larvas, o peso crítico seria atingido em uma idade menor, o que seria um traço adaptativo. Alternativamente, dissociar crescimento e diferenciação pode ser benéfico em situações de intensa competição por recursos efêmeros.

Talvez, a metamorfose tenha ajudado os insetos a conquistarem diversos ambientes e contribuído para sua resiliência. Com mais de um milhão de espécies descritas e uma história de mais de 3,5 bilhões de anos, os insetos continuarão passando por seus estágios de ovo, larva, pupa e adulto, mesmo quando as condições climáticas forem inviáveis para animais como os vertebrados.

Tatiana Teixeira Torres (USP)

 

Para saber mais:

Uma edição especial do periódico Philosophical Transactions of the Royal Society B (agosto de 2019), trouxe uma série de discussões sobre metamorfose dos insetos:

Este artigo apresenta uma introdução à edição especial, mostrando os destaques apresentados nos demais artigos da edição.

Os autores apresentam dados de desenvolvimento, genéticos e endócrinos de diversos grupos de insetos para discutir hipóteses sobre a evolução da metamorfose de insetos. Eles sugerem que o desenvolvimento de holometábolos nos estágios larva-pupa-adulto seja equivalente ao de pró-ninfa>ninfa>adulto de insetos hemimetábolos, a hipótese 1 descrita no texto.

Neste artigo, o autor descreve claramente as duas hipóteses propostas para explicar a evolução da metamorfose. Mostra também descobertas sobre a sinalização por hormônio como um suporte à hipótese 2, na qual a pupa teria evoluído de um estágio pré-adulto final.

Qual será a importância da estupidez na pesquisa científica?

“Já que você é cientista, me diga aí…”. Essa é uma frase que nós cientistas ouvimos muito, em vários lugares. Dos nossos parentes, amigos, de pessoas que conhecemos. Seja sobre o Universo, máquina de lavar, forno micro-ondas, aquecimento global ou sobre a fruta que estamos comendo. Mas será que temos tantas respostas assim? Como é que nos sentimos perante a nossa ignorância?

Motivado pelo ensaio intitulado “The importance of stupidity in scientific research” (em tradução livre “a importância da estupidez na pesquisa científica”), escrito por Martin A. Schwartz, professor do Departamento de Microbiologia da Universidade de Virginia (EUA), que me foi enviado pelo querido amigo Danilo Coimbra, refleti um tanto e escrevo este post. No seu texto, o Prof. Schwartz nos conta que depois de anos encontrou uma amiga, que fez pós-graduação na mesma época que ele, e com muito espanto soube que ela desistiu de ser cientista para fazer direito e trabalhar como advogada. Abismado com a notícia ele perguntou o motivo e ela revelou que se sentia estúpida o tempo inteiro, por isso mudou de área. É importante destacar que ela, desde aquela época, era muito competente e que essa competência se reflete na posição que ela ocupa hoje. Isso tocou o Prof. Schwartz, que ficou refletindo sobre o assunto por dias e percebeu que este é um sentimento bem comum para ele. Mas por que será que ele continua? Continue Lendo “Qual será a importância da estupidez na pesquisa científica?”

Glória a Darwin nas alturas

Gostaria de falar hoje para aqueles que abraçam a ciência, aqueles que entendem que a ciência é fonte de crescimento econômico. Gostaria de falar para aqueles mais exigentes, que raciocinam em seu dia a dia, que buscam fundamento em fatos, experimentos, na história, na análise criteriosa. Isso inclui todas as ciências humanas, exatas e biológicas, toda a filosofia e a epistemologia, e todas as pessoas instruídas e de bom senso: é muita gente. Quero falar com pessoas razoáveis e inteligentes, porque não quero aqui ficar defendendo o óbvio, não quero ter que me postar a defender Darwin quase dois séculos depois de ele ter convencido a humanidade de que a vida é uma grande árvore de parentescos. Quero sim é honrar Darwin, e nada melhor para honrá-lo que desafiá-lo permanentemente, pois é assim que a ciência funciona.

O pilar central da teoria evolutiva é a seleção natural. Spencer cunhou a expressão “a sobrevivência do mais forte”, adotada por Darwin. Muitos esquecem, no entanto, que Spencer e Darwin tinham visões distintas sobre o significado de seleção natural. Para Darwin, a seleção natural é principalmente um processo que atua lentamente através de gerações sucessivas. Para que esta seleção natural darwiniana funcione, deve haver uma população de indivíduos que variem entre si com relação a uma característica (indivíduos com miopia ao lado de indivíduos com hipermetropia), devem existir mutações aleatórias nesta característica (olhos mutantes com astigmatismo ou visão normal), e deve haver herança desta característica (filhos devem herdar dos pais tais características da visão). Assim, as características mais aptas (os melhores olhos) vão se fixando por seleção natural, que vai gradualmente criando as adaptações a partir de uma massa de variações inicialmente amorfa, como um artista que cria da pedra amorfa as mais perfeitas esculturas. Ao focar na capacidade criativa da seleção natural, muitos darwinistas insistiam que características isoladas, como um olho, uma asa, ou uma garra, evoluiriam cada uma delas para um funcionamento perfeito: para uma melhor visão, para um voo ou uma captura cada vez mais eficazes. O que evolui nesta perspectiva são as partes do corpo. Para entender isso melhor, imagine cada parte do corpo como uma das cartas de um baralho, algumas mais rotas, outras riscadas, outras ainda em perfeito estado. Um indivíduo é um baralho completo, e há muitos indivíduos formando uma população de baralhos. Quando um indivíduo se reproduz, seu filho é uma mistura do pai e da mãe: é como se gerássemos um novo baralho (o filho), escolhendo dentre as cartas do baralho pai e do baralho mãe, só que o filho pode também conter cartas novas (mutações), que diferem das de seus pais. Como todos da população se reproduzem normalmente, temos um grande embaralhamento acontecendo a cada geração, e a seleção natural vai escolhendo, geração após geração, sempre as partes do corpo (cartas) que melhor desempenham sua função. Assim, como as melhores mutações (as melhores cartas) favorecem a sobrevivência, ao final de sucessivos embaralhamentos as características serão perfeitas: não haverá mais cartas rotas ou marcadas na população.

Já para Spencer, é o indivíduo, e não uma população amorfa, que é o foco da seleção. Se eu digo que me adaptei a uma nova situação, estou usando a palavra adaptação da forma que Spencer a usava. Ao invés de focar, como muitos darwinistas da síntese moderna, em características isoladas, como um olho, uma asa, ou uma garra, Spencer acreditava que a integração entre as várias partes de um organismo era o principal desafio para a sobrevivência. Para continuar na metáfora do baralho, podemos dizer que para Spencer o fundamental não é ter cartas perfeitas sem marcas ou riscos: o mais importante é termos uma boa cartada, é termos na mão o zap e o sete de copas (para os truqueiros), ou uma quadra de ases (para quem joga pôquer), ou uma sequência de ás a rei (para quem gosta de buraco). A qualidade de cada carta (cada parte do corpo) é menos relevante, pois é o conjunto (a quadra de ases, mesmo que o ás de copas esteja meio riscado) que dirá se o indivíduo será o mais apto (vencerá) na luta pela sobrevivência. Para Spencer, a seleção natural escolhe as melhores cartadas, não as melhores cartas: os melhores indivíduos, não os melhores caracteres.

Estas diferentes concepções de seleção natural foram exploradas em texto recente por David Depew, que mostra que Darwin inclusive se arrepende, em cartas, por não ter dado o devido valor a esta visão de Spencer que coloca o indivíduo, e não apenas a população, no foco do processo evolutivo. Estaria Depew dizendo então que o indivíduo evolui? Não, nada disso. O que evolui é a espécie: o ponto de Depew é que o indivíduo pode ser ativo, pode se ajustar ao ambiente, pode mudar o ambiente. O indivíduo não é apenas selecionado, ele seleciona, ele tem um papel no processo evolutivo, pois ele cria através de suas atividades o material sobre o qual a seleção natural poderá trabalhar. Este ponto é fundamental. Para que a seleção natural seja a força criativa (a artista) do processo evolutivo, as mutações, as novas variações, devem ser aleatórias. Se as mutações são aleatórias, burras, se os variantes atiram para todos os lados e portanto não visam atingir alvo algum, não visam resolver o problema biológico (enxergar melhor, capturar melhor, etc.), e se mesmo sendo assim aleatórias as variações, após inúmeras gerações os sobreviventes acertam o alvo sistematicamente, ou seja, após inúmeras gerações uma solução otimizada para o problema surgiu (olhos que evoluíram para enxergar melhor), repito, se os indivíduos não sabem o que fazem mas ao final da seleção natural todos acertam a resposta, a força criadora não está nos indivíduos, e sim na própria seleção natural, que seria de fato a criadora das adaptações, a artífice deste processo evolutivo. Agora, se os variantes não são aleatórios, se os variantes já estão ativamente resolvendo os problemas biológicos novos da melhor maneira possível (estão todos já de cara tentando acertar o alvo), então não é a seleção natural que está criando as soluções, pois os próprios indivíduos que já estão adaptados. Neste caso são os indivíduos que criam as soluções: seja por tentativa e erro, seja por aprendizagem social, os indivíduos encontram boas soluções para o problema adaptativo, e são sobre soluções já razoáveis que a seleção natural vai finalmente trabalhar.

Sei que muitos biólogos vão querer brigar comigo. Poxa, deu tanto trabalho fazer as pessoas entenderem que a seleção natural é a força criadora da evolução, que não há nenhum outro criador inteligente, e vem você agora querer, literalmente, embaralhar novamente as ideias? Entendo perfeitamente esta preocupação. Entendo, curto, e compartilho. Mas … a evolução precisa evoluir. As pessoas instruídas já são capazes de entender que pode haver criação sem um criador divino. A biologia venceu esta batalha, apesar de haver bebês chorões esperneando ainda por aí. Como disse no início, não estou escrevendo aqui para pessoas que defendem absurdos como a terra plana, o negacionismo do clima, o desígnio inteligente, a leitura direta (“sem interpretação”) das escrituras sagradas, ou seja, não estou buscando falar com gente que nega a ciência no facebook pela manhã, e pela tarde vai à sua consulta médica, para resolver cientificamente seus problemas de saúde. Estou me dirigindo aqui a pessoas que entenderam a revolução que aconteceu lá atrás no século XVII, gente que sabe que só lançamos foguetes e manipulamos genes graças às ciências (humanas, exatas, biológicas, todas elas). A estas pessoas sensatas pergunto: como fazer a biologia avançar?

Acho que os evolucionistas precisam abandonar a metáfora da chave e da fechadura. Explico. Frequentemente, ao explicar seleção natural, dizemos que o ambiente é uma fechadura, e os organismos vão lentamente evoluindo até encontrarem a chave que abre a porta e resolve aquele problema biológico específico. A adaptação (a carta no baralho, na metáfora explorada acima) seria uma chave que lentamente evolui para abrir a fechadura (p.ex., capturar o alimento). Falamos isso, porque entendemos que existe uma chave ideal para abrir aquela fechadura. No entanto, na natureza, chave e fechadura se co-determinam. As propriedades do ambiente estão conectadas às propriedades dos organismos que nele vivem primeiramente em um sentido bem direto, dado que os organismos constróem ou modificam seu próprio ambiente seletivo. Em um sentido mais refinado, sabemos que não compartilhamos todos um mesmo ambiente efetivo. Cada espécie animal vive em um bolha perceptual, e realça do ambiente algumas propriedades. Se cada espécie vive em um ambiente efetivo diferente, qual é este ambiente externo que está selecionando todas as espécies? Se são os organismos que criam inteligentemente seu ambiente seletivo, onde está esse ambiente externo aos organismos, onde está esta fechadura que não se molda, estas pressões seletivas que não são selecionadas? As relações entre organismo e ambiente precisam ser reformuladas, e quando encontrarmos uma formulação adequada para o entrecruzamento entre ontogenia e evolução, entre aprendizagem e pressão seletiva, a ideia atual de seleção natural estará ultrapassada: mas ainda assim permaneceremos todos evolucionistas.

Hilton Japyassú (UFBA)

Para saber mais:

Depew, DJ (2017). Natural selection, adaptation, and the recovery of development (pp.37-67). In: Huneman, P. & Walsh, DM. (2017). Challenging the modern synthesis: adaptation, development, and inheritance. Oxford: Oxford University Press.

Pocheville, A. & Danchin, É. (2017). Genetic assimilation and the paradox of blind variation (pp. 111-136). In: Huneman, P. & Walsh, DM. (2017). Challenging the modern synthesis: adaptation, development, and inheritance. Oxford: Oxford University Press.

Love, AC. (2017). Evo-devo and the structure(s) of evolutionary theory (pp. 159-187). In: Huneman, P. & Walsh, DM. (2017). Challenging the modern synthesis: adaptation, development, and inheritance. Oxford: Oxford University Press.

Imagem produzida por ocasião do aniversário de 135 anos da morte de Charles Darwin.

Falta diversidade no estudo da genética humana

O estudo das bases genéticas de doenças humanas tem se concentrado em populações de origem europeia. Esse foco estreito deixa de fora grande parcela da humanidade. Isso enfraquece a nossa compreensão sobre a base genética de doenças humanas. É preciso injetar diversidade no estudo da genômica humana.

O nosso conhecimento sobre a genética humana aumentou vertiginosamente nas últimas décadas. Grande parte dessa transformação deve-se à possibilidade de gerar dados para genomas inteiros, algo cada vez mais barato e feito em amostras progressivamente maiores, muitas vezes envolvendo milhares de indivíduos.

O que aprendemos de novo? Os estudos genômicos permitiram identificar  variantes genéticas que estão associadas a traços de interesse, como por exemplo uma maior predisposição a doenças. Para alcançar tal conhecimento, a estratégia mais usada é a da “análise de associação genômica ampla” (do inglês genome-wide association analysis, abreviado por GWAS). Essa análise consiste em comparar genomas de dois grupos, um com a doença (os “casos”) e outro sem (os “controles”). Se houver uma variante genética que é muito mais comum nos casos do que nos controles, dizemos que ela está “associada” com a doença. Essa associação é um achado estatístico, mas não necessariamente implica que a variante encontrada é “causal”, no sentido de afetar uma função de um modo que explica a doença. Para se inferir se uma mutação tem um efeito causal sobre uma doença são necessários estudos adicionais, comparando o funcionamento da variante genética nos indivíduos com e sem a doença. Continue Lendo “Falta diversidade no estudo da genética humana”

A fonte da juventude

Cientistas apresentam terapia capaz de reverter o relógio biológico em nove voluntários saudáveis.

No início desse ano, li um livro intitulado “Juventude eterna, pra quem?”, escrito por uma amiga de longa data, Maria Falcão. A história começa no ano de 2112, e busca, através da ficção científica, discutir algumas das implicações da incansável busca humana pela juventude eterna. O livro narra as diferentes perspectivas dos personagens envolvidos em um experimento revolucionário: o implante de um chip capaz de parar o processo de envelhecimento, resultando assim na juventude eterna. Não vou entrar em mais detalhes da história, caso vocês se interessem pela leitura, mas uma pergunta inquietante que permeia o livro ficou comigo até hoje, ainda sem resposta: caso tivéssemos acesso a um dispositivo capaz de barrar o envelhecimento, tal qual o chip descrito no livro, o que eu faria? Optaria pela juventude eterna? Continue Lendo “A fonte da juventude”

As duas origens do sistema nervoso

O movimento dos animais depende de células musculares conectadas por tendões ao esqueleto, ou pele, e de neurônios que as coordenam através de impulsos elétricos. Esses dois tipos celulares permitem toda a variedade de comportamentos que reconhecemos como tipicamente animais, desde rastejar a escrever estas linhas. Para a surpresa dos zoólogos, trabalhos recentes indicam que neurônios e células musculares evoluíram duas vezes, independentemente. Continue Lendo “As duas origens do sistema nervoso”

A Terra (Preta) de Índio na Amazônia

Os solos amazônicos são naturalmente pobres em nutrientes, de coloração amarelada, baixa fertilidade e acidez – condições pouco favoráveis à agricultura. A exuberância da floresta é sustentada pela serrapilheira, uma fina camada de solo superficial formada a partir da decomposição de folhas, galhos, frutos e animais mortos, que acrescem matéria orgânica ao solo. Exceções dentro da floresta são as várzeas dos rios, normalmente férteis devido às cheias. No entanto, distribuído por toda a floresta, existe um tipo diferente de solo, extremamente fértil, e que por décadas intrigou pesquisadores, a Terra Preta de Índio.

A Terra Preta de Índio possui propriedades muito diferentes do solo original amazônico, sendo considerado um dos solos mais férteis do mundo, caracterizado por 30 cm a 1 m (Figura 1) de matéria escura rica em nutrientes como cálcio, magnésio, zinco manganês e fósforo. Este tipo solo é encontrado no registro arqueológico há pelo menos 4.500 anos, e vem sendo manipulado pelos nativos americanos ao longo do tempo para propiciar o manejo da floresta e a agricultura em pequena escala dentro da Amazônia como forma de subsistência.

Figura 1. Escavação de Terra Preta com mais de 1 m de profundidade, destacando-se o solo amarelo típico amazônico logo abaixo.
(Fonte)

Durante muitas décadas, creditou-se a fertilidade da Terra Preta amazônica a antigas erupções vulcânicas andinas que teriam depositado cinzas na região. No entanto, estudos recentes demonstraram que a Terra Preta é resultado de uma combinação de matéria orgânica vegetal e animal, vegetais carbonizados e resquícios de cerâmica depositadas continuamente. Os antigos amazônicos realizavam o processo de formação desse solo por meio da queima do material em baixas temperaturas, visando a produção de carvão em vez de cinzas. O carvão, ao contrário das cinzas que são altamente lixiviáveis, retém nutrientes, estabiliza a matéria orgânica, e é resistente à degradação biológica. Outro fator importante, provavelmente responsável pela durabilidade da Terra Preta, são os fungos e bactérias nela presentes, e pouco abundantes em solos adjacentes. Estima-se que até 10% do solo da Amazônia atualmente ainda seja de Terra Preta (Figura 2).

Figura 2. Distribuição atual da Terra Preta de índio na Amazônia (Fonte: Michael et al. 2014).

Alguns pesquisadores afirmam que uma consequência secundária importante desse manejo em larga escala do solo amazônico pelos nativos ao longo dos últimos milênios é que o processo de produção de Terra Preta retém carbono no solo, evitando sua liberação na atmosfera, e assim diminuindo os efeitos do aquecimento global. Sendo assim, é um processo de ganho-ganho, pois além de níveis de fertilidade excelentes, consegue-se manter até 50% do carbono do solo, e agrega-se mais um fator no combate ao efeito estufa.

A áreas de Terra Preta se mantêm férteis, mesmo se cultivadas por séculos. As populações nativas seguem dando continuidade ao seu uso, manejando o ambiente para sua subsistência. Os indígenas são parte da dinâmica da floresta, e deles depende também sua manutenção e viabilidade. Imagens de satélite deixam isso claro ao mostrar que as áreas de preservação de floresta se encontram dentro ou próximas às terras indígenas. A preservação da floresta amazônica depende da preservação dos povos que vivem nela, bem como de uma intensa fiscalização ambiental e de investimento no estudo de seu patrimônio biológico e cultural.

Tábita Hünemeier

IB /USP

PARA SABER MAIS:

Clement et al. (2015) The domestication of Amazonia before European conquest. Proc Biol Sci. 282(1812):20150813. doi: 10.1098/rspb.2015.0813. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26202998

Mangrich A; Maia C M B F; Novotny E H. (2011) As Terras Pretas de Índios e o sequestro de carbono. Ciência Hoje, 281.

https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/42153/1/biocarvao281.pdf

Teixeira W G (Editor) (2009) As Terras Pretas de Índio da Amazônia: Sua Caracterização e Uso deste Conhecimento na Criação de Novas Áreas. Embrapa Amazônia Ocidental. https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/handle/doc/684554

Quanto custa evitar a catástrofe ambiental?

A comunidade científica tem mostrado sistematicamente os riscos que corremos de uma catástrofe ambiental. Quanto custa evitá-la?

Nesta postagem, discuto o estado do mundo e nossas perspectivas de ação diante dos riscos crescentes de catástrofe ambiental. Esse assunto se tornou foco de negacionismo nesses tempos da pós-verdade. Mas como diz o ditado, não adianta tapar o sol com peneira. As evidências de que estamos nos encaminhando para uma catástrofe ambiental são claras, inegáveis até, e o que boa parte da humanidade está fazendo diante da situação me faz pensar em metáforas como a de um avestruz enfiando a cabeça num buraco ou numa cena do filme Titanic, inspirada em fatos reais (em contraste com a metáfora do avestruz), na qual se ordena à orquestra que siga tocando enquanto o navio afunda.

A comunidade científica tem avisado repetidamente sobre tal risco. Em 1992, a União de Cientistas Preocupados (Union of Concerned Scientists), incluindo a maioria dos Prêmios Nobel então vivos, publicou um aviso à humanidade (World Scientists’ Warning to Humanity). O intuito era encorajar uma diminuição da destruição ambiental de modo a evitar substancial miséria no futuro de nossa espécie e do restante da biosfera. Há 25 anos, os cientistas buscavam cumprir seu papel ao expressar preocupação com os prejuízos ao planeta Terra relativos à diminuição da camada de ozônio, da disponibilidade de água doce, da vida marinha, das florestas, da biodiversidade, bem como à mudança climática. Eles nos lembravam de que mudanças fundamentais eram necessárias para evitar que nos aproximássemos de muitos limites de tolerância do planeta e da biosfera, a partir dos quais grandes e irreversíveis prejuízos poderiam ocorrer.

Em 2017, 15.364 cientistas de 184 países lançaram um segundo aviso (versão em português aqui). Fui um dos signatários. Passados 25 anos daquele primeiro aviso, a análise da série temporal de dados mostrou que, com exceção da estabilização da camada de ozônio, a humanidade havia fracassado em realizar progressos suficientes para fazer frente aos desafios ambientais. Antes pelo contrário, muitos dos problemas causadas por nosso sistema de produção e consumo e nosso estilo de vida haviam piorado. Se uma catástrofe ambiental era visível num horizonte ainda relativamente distante em 1992, em 2017 estava claro que estávamos rumando a passos largos a um estado de transição do sistema planetário de graves consequências, com uma janela de oportunidade limitada para alterar o curso da deterioração das condições de funcionamento do planeta Terra, de manutenção da biosfera e de preservação de nossas condições de vida.

Embora não constituam de modo algum os únicos problemas que o sistema Terra agora enfrenta, alguns desafios foram colocados em destaque naquele segundo aviso: a trajetória de mudança climática, claramente atribuível ao aumento da concentração de gases estufa (para quem se deixa seduzir pelo canto da sereia negacionista, sugiro ler “Mercadores da Dúvida”, Merchants of Doubt, de Naomi Oreskes e Erik Conway, ou “Avaliando ‘Mudança Climática Perigosa’”, de James Hansen e colaboradores, ou assistir falas de Naomi Oreskes, no You Tube e no TED); a perda de vegetação nativa, a perda de biodiversidade associada (correspondente a uma extinção em massa) e seus muitos impactos sobre os serviços que os ecossistemas propiciam à humanidade; e os impactos do modelo dominante de produção agrícola, especialmente da pecuária associada a dietas baseadas no consumo de carne.

A perda de biodiversidade causa especial preocupação. Desde 1998, a WWF publica a cada dois anos o Relatório Planeta Vivo, uma compilação muito informativa e útil sobre o estado do planeta, leitura fundamental tanto para o público em geral quanto para tomadores de decisão. Entre as muitas fontes de informação compiladas nesse relatório temos o Índice Planeta Vivo (Living Planet Index), que fornece uma medida do estado da diversidade biológica do planeta com base nas tendências populacionais de espécies de vertebrados de diferentes habitats terrestres, marinhos e de água doce.

No Relatório Planeta Vivo de 2018 (sumário em português aqui), podemos ver que, de 1970 a 2014, a abundância média de 16.704 populações monitoradas em todo o globo, pertencentes a 4.005 espécies, sofreu um declínio médio de 60%. No caso das populações de espécies de água doce, tivemos o pior declínio no mesmo período (em média, 83%). Para espécies marinhas, o declínio médio, de 1970 a 2012, foi de 36%, conforme relatado no Relatório Planeta Vivo de 2016 (sumário em português aqui). No mesmo relatório, vemos que, para espécies dependentes de terras úmidas (wetlands), esse declínio foi de 39%; para espécies terrestres, de 38%; e para espécies de florestas tropicais, de 41%.

A situação a que chegamos é muito séria, de fato comparável a uma extinção em massa. Este ano foi divulgado que até 1 milhão de espécies estão ameaçadas de extinção, muitas nas próximas décadas. 5,9 milhões de espécies terrestres (9% de tais espécies) não têm habitat insuficiente para sobrevivência a longo termo a não ser que seja feita restauração. Na história do planeta, esta é a segunda extinção em massa causada por seres vivos. A primeira foi causada pela evolução da fotossíntese em cianobactérias, que levou à extinção de uma grande diversidade de espécies anaeróbicas obrigatórias, no chamado holocausto do oxigênio. Mas, diferente de nós, as cianobactérias não tinham opção de não realizar fotossíntese e, assim, a elas não se poderia imputar responsabilidade pela extinção de outras espécies. Nosso caso é muito distinto, porque à nossa espécie cabe tal responsabilidade, dado que temos opção de fazer as coisas de modo diferente.

Mas qual seria o problema de tal perda de biodiversidade? De um lado, essa perda se mostra problemática pelo valor intrínseco da vida e de sua diversidade, de cada espécie que compõe a biosfera. Valor intrínseco tem sido objeto de controvérsia, pela dificuldade de sua mensuração, o que – argumentam alguns – dificulta que tenha papel importante nos debates sociais, políticos e econômicos. Não podemos perder de vista, contudo, que o valor intrínseco coloca uma questão central em foco, a qual é perdida de vista quando nos prendemos apenas aos valores instrumentais que a biodiversidade tem para nossas vidas: trata-se precisamente da questão de nossa responsabilidade, como seres capazes de deliberação e escolha, pela perda das outras formas de vida com as quais dividimos o planeta. Mas mesmo que o valor intrínseco da vida não cale fundo no seu ser, ainda assim você teria boas razões para se preocupar com a perda da biodiversidade, por conta dos chamados valores instrumentais, ou, dito de outra maneira, pelos serviços ecossistêmicos fornecidos pela vida. Afinal, sem os sistemas ecológicos e seres vivos, não poderíamos permanecer vivos, quanto mais manter a qualidade de nossa existência.

Introduzido em 2009, o conceito de limites planetários busca definir limites ambientais dentro dos quais a humanidade pode operar com segurança. Trata-se de uma maneira de sumariar os desafios que enfrentamos e buscar influenciar o desenvolvimento de políticas globais que possam propiciar uma transição para a sustentabilidade. Na última versão do modelo de limites planetários, que pode ser visto na imagem de abertura, foram incluídos nove limites, relativos a integridade da biosfera, mudança climática, novas entidades (novas substâncias, novas formas de substâncias preexistentes e formas de vida modificadas com potencial de gerar efeitos geofísicos e/ou biológicos indesejáveis), diminuição da camada de ozônio, carga de aerossóis na atmosfera, acidificação dos oceanos, fluxos biogeoquímicos (de fósforo e nitrogênio), uso de água doce e mudanças nos padrões de uso da terra. O modelo é capaz de mostrar quando a humanidade está num espaço de operação seguro em relação a um dado limite do planeta (cor verde), quando se encontra numa zona de incerteza, com risco crescente de ultrapassar um dado limite (cor amarela), e quando um limite já foi ultrapassado, levando nossa operação para além da incerteza (cor vermelha), com grande risco de que levemos o sistema Terra a operar em um novo estado, no qual serviços fundamentais para a nossa sobrevivência e qualidade de vida podem desaparecer. A análise dos limites planetários em 2015 mostrou que, conforme nosso melhor conhecimento, já estávamos operando para além da zona da incerteza, em alto risco, em três deles. Ultrapassamos os limites de integridade da biosfera e de funcionamento dos fluxos de fósforo e nitrogênio (especialmente pelo extensivo uso de fertilizantes contendo esses elementos químicos), a ponto de acarretar um novo estado de funcionamento. Em dois outros limites importantes, já operamos na zona de incerteza: mudanças climáticas e dos padrões de uso da terra.

O modelo dos limites planetários propicia uma maneira muito útil de entender os riscos e descompassos associados ao modo como as sociedades humanas têm operado em sua relação com a biosfera e o sistema Terra. Ele reforça o aviso lançado em 2017 por cientistas que buscaram mostrar como estamos ameaçando nosso futuro ao não enfrentarmos o problema do consumo dos recursos do planeta, bem como de suas marcantes desigualdades em termos geográficos e demográficos. Não se trata, contudo, de apenas emitir um aviso, mas de sugerir caminhos para a solução da atual crise socioambiental, mencionando-se naquele artigo a limitação do crescimento populacional, a reavaliação de politicas econômicas baseadas no crescimento (por exemplo, do PIB, em contraste com modelos de desenvolvimento sem crescimento), a redução das emissões de gases estufa, o incentivo ao uso de energias renováveis, a proteção dos habitats naturais, a restauração de ecossistemas, o controle da poluição, o combate à perda de animais (defaunação) e o controle das espécies invasoras.

Entre as expectativas dos que assinaram o artigo, havia a ação sociopolítica, incentivando-se cientistas, influenciadores na mídia e cidadãos em geral a insistirem para que governos tomassem medidas imediatas em relação aos problemas postos, como um “imperativo moral diante das gerações atuais e futuras de seres humanos e das outras formas de vida”. Mas também havia uma expectativa para cada um de nós, em nossos modos de vida: de que reexaminássemos e buscássemos mudar nossos comportamentos individuais e padrões de consumo.

Esses eram passos urgentes em 2017, num esforço de salvaguardar o planeta e a biosfera de crescentes e substanciais ameaças, e são ainda mais urgentes hoje, quase dois anos depois. Uma diferença muito importante é que uma quantidade crescente de líderes mundiais e também da população em geral se recusa a escutar a comunidade científica em tempos recentes. Diante da gravidade da situação em que se encontra o planeta e, por consequência, nossa própria existência, quanto estaríamos dispostos a investir para resolver ou mitigar os problemas ambientais que nos desafiam?

Quanto custa a conservação de áreas protegidas?

Por mais que seja interessante considerar essas estimativas relativas ao custo de manter áreas protegidas, é evidente que elas não são suficientes para fazer frente aos desafios que o estado do planeta nos coloca. Para fazermos uma transição rumo à sustentabilidade, necessitamos mudar nosso sistema de produção e consumo.

Avaliar o custo da gestão de áreas protegidas nos países em desenvolvimento não propicia, decerto, uma estimativa global de quanto custaria resolver ou mitigar todos os problemas ambientais contemporâneos. Contudo, fornece uma perspectiva relevante acerca da distância a que nos encontramos dos investimentos necessários. Uma estimativa disponível na literatura estabelece que seriam necessários 13 bilhões de dólares por ano para manter uma extensão suficiente de áreas protegidas nos países em desenvolvimento. Esse valor está bem além dos investimentos anuais em tais áreas protegidas. Contudo, não é difícil mostrar que esses investimentos podem ser alcançados, sobretudo se os compararmos com outros gastos globais. Por exemplo, 13 bilhões de dólares equivalem a 1% do que governos de todo o mundo gastam por ano em subsídios prejudiciais ao meio ambiente. Para usar outra comparação que mostra como, diante do estado do mundo, temos alocado recursos financeiros de modo equivocado, esse valor corresponde a 2% do que os norte-americanos gastam por ano em refrigerantes. Por fim, uma análise somente dos custos das áreas protegidas não considera os benefícios que essas áreas oferecem, inclusive de ordem econômica. Em muitos casos, a proteção de áreas biologicamente importantes pode gerar renda que supera os custos de sua criação e manejo.

Mudar sistema de produção e consumo… Mas em que direção?

Uma métrica muito interessante para pensar nosso impacto sobre o planeta Terra é a pegada ecológica. Ela mede o impacto das atividades humanas em termos da área de terra e água biologicamente produtivas necessária para produzir os bens consumidos e assimilar os rejeitos gerados por aquelas atividades. Ela corresponde, pois, ao ambiente necessário para produzir os bens e serviços necessários para suportar certo estilo de vida. É possível cada um calcular sua pegada ecológica. Combinando-se a pegada ecológica de todos os humanos, podemos calcular a pegada ecológica global.

Em 2014, estimou-se que a pegada ecológica global era de cerca de 20 bilhões de hectares, o que corresponde a uma Terra e meia. Isso torna muito evidente nossa insustentabilidade. Obviamente, não temos uma Terra e meia. Evidentemente, mesmo que nossa pegada ecológica fosse uma Terra, ainda seríamos insustentáveis, porque o planeta Terra deve manter não somente nossa espécie. E antes de nutrir esperanças de que poderíamos encontrar outro planeta para viver, convido o leitor a pensar não somente na improbabilidade de que seja encontrado algum lugar para ir a uma distância viável, mas, para além disso, em quem serão os “escolhidos” para colonizar outro planeta. Ou alguém acha que 7 bilhões de humanos seriam translocados para algum outro lugar?

Pegada ecológica global. De WWF: Living Planet Report 2018 (p. 30).

Um modo interessante de entender a relação entre nosso estilo de vida e sistema de produção e consumo, de um lado, e sustentabilidade, de outro, é cruzar dados sobre pegada ecológica com dados sobre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

Pegada ecológica em relação ao IDH ajustado para desigualdade. De WWF: Living Planet Report 2014 (p. 60) – Sumário em português aqui.

Usemos esse gráfico para pensar o chamado desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento sustentável pode ser considerado um oxímoro, figura de linguagem que relaciona numa mesma expressão palavras que exprimem conceitos contrários. Para alguns, o conceito de desenvolvimento sustentável esvaziou os debates sobre as questões ambientais ao produzir um superficial consenso. Como seria possível desenvolvimento sustentável numa humanidade com pegada ecológica de uma Terra e meia? Desenvolver com sustentabilidade em tal situação? Claramente isso é impossível se desenvolvimento corresponder a crescimento econômico! Lovelock pode muito bem estar certo ao afirmar que somente podemos conduzir nosso sistema de produção e consumo para um retrocesso sustentável. Ou a alternativa pode ser promover desenvolvimento sem crescimento econômico, o que implica distribuir benefícios de maneira mais igualitária.

No gráfico acima, podemos ver, à primeira vista, como o conceito de desenvolvimento sustentável poderia ser operacionalizado. Vejam o quadrado verde na base direita do gráfico, que indica como poderíamos ser sustentáveis: pegada ecológica abaixo de uma Terra e IDH acima de 0,8. Mas não há qualquer país nesse quadrado verde! Assim, tratar-se-ia mesmo de operacionalizar desenvolvimento sustentável ou de reforçar que se trata de um oxímoro que pauta um consenso sem consequências? Para falar de modo muito simples e direto, esse gráfico mostra que nossos sistemas de produção e consumo só têm dois atratores: ou não se tem qualidade de vida (falando de modo bem cru, se morre de fome) e se é sustentável, ou se tem qualidade de vida (sendo bem claro, mais do que se precisa) e não se é sustentável.Não conheço melhor evidência da necessidade de mudarmos nossos sistemas de produção e consumo.

Também fica claro nesse gráfico como não temos ainda qualquer indicação sobre qual seria o sistema de produção e consumo para onde deveríamos ir. Isso é importante, de um lado, porque indica que devemos de fato atentar à natureza autocontraditória do desenvolvimento sustentável e aos seus efeitos de esvaziamento dos debates sobre questões socioambientais. De outro, mostra que não se trata de pensar numa opção entre diferentes sistemas de produção e consumo que estariam colocados, mas de repensar mais profundamente as condições de nossa existência no planeta. Ao polarizarmo-nos em nossas posições políticas, podemos estar simplesmente perdendo de vista o quadro mais geral do mundo (the big picture).

Concluindo: o que fazer?

No último fim de semana, num evento de passarinhada promovido pela Macaw Birdwatching no Vale Encantado, aqui em Salvador, fiz uma pequena fala em meio à restinga e um dos participantes (obrigado pela questão, Chermont!) perguntou “o que a gente poderia fazer?” A pergunta se situava localmente, mas as conexões entre contextos locais e globais, num mundo de problemas na escala planetária, autorizam a pensá-la globalmente. É uma pergunta muito importante, porque é sobre esperança e sobre não nos sentirmos impotentes: o que podemos fazer diante de tudo isso? Gostaria assim de fechar este texto com algumas sugestões em resposta a essa provocação.

É importante, antes de tudo, que não deixemos de lado a racionalidade. Ela nos define como humanos. Quem abandona a racionalidade, abandona a humanidade. Por racionalidade, entendo aqui a atitude de não aceitar qualquer afirmação que se faça sobre o mundo sem apreciar as razões que apoiam a afirmação e as fontes de confiança nas informações mobilizadas para sustentar tais razões. As razões são muitas e sem dúvida não são apenas científicas, tampouco são apenas empíricas (não vêm somente da experiência), mas quando se trata do mundo natural, as evidências que temos disponíveis são uma razão muito importante para aceitarmos afirmações a seu respeito. Nesta postagem, abordei algumas dessas evidências (na verdade, a ponta de um iceberg). Uma pessoa racional respeita as evidências ao pensar sobre o mundo natural. A evidência é para ela um sintoma, um sinal, uma marca da verdade. Assim, uma primeira atitude que cada um de nós pode ter é, em vez de cair vítima da desinformação, hoje muito ruidosa nas correntes de Whatsapp e em outras redes sociais, buscar informação, assegurar-se das fontes de informação em que decidimos confiar, saber do que está ocorrendo da maneira mais completa possível.

Devemos também nos perguntar o que podemos fazer, que diferença podemos representar em nossa realidade próxima, nosso bairro, nossa cidade, escola, universidade, nosso trabalho, nosso país. Agindo localmente e pensando globalmente, sendo capazes de ver o quadro mais geral do mundo, podemos fazer diferença. São questões para nosso dia-a-dia: O que mudar em nosso estilo de vida de modo a contribuir para um mundo melhor? O que mudar em nossos padrões de consumo? O que mudar em nossa alimentação? O que mudar na educação de nossas filhas e filhos?

Mas devemos estar cientes de que não basta agir em nossas vidas individuais. Precisamos pensar o que fazer coletivamente, e então agir politicamente, por exemplo, buscando ser fontes de informação nesse oceano de desinformação em que o Titanic naufraga. Por exemplo, contribuindo para pressionar nossos governantes a tomar atitudes e decisões que favoreçam a conservação do planeta, a sobrevivência da biosfera e nossa própria. Não se trata de ação partidária, para impedir ecos indevidos nesse país em que hoje vivemos. Agir politicamente é agir como cidadão. A palavra ‘política’ vem do grego polis, o que sugere que ser cidadão é discutir os problemas de nossa cidade, para nós hoje, nosso mundo, e agir em relação a eles. Qualquer um faz e deve fazer política, e isso não implica agenda partidária alguma, ao menos não necessariamente. Como a palavra “cidadão” se tornou desgastada, de tanto ser usada sem significado claro, devo dizer como a entendo, na esteira do que diz Henry Giroux: um cidadão é um agente moral e político que possui um sentido compartilhado de esperança e responsabilidade em relação aos outros, não somente em relação a si mesmo.

Para dar apenas mais uma sugestão, esta relativa a como educamos nossos filhos e filhas: propiciem a eles experiências de natureza! Levem-nos a restingas, florestas, praias conservadas, caatingas, cerrados, campos rupestres, não deixem que cresçam achando que leite se faz na prateleira do supermercado, ou sem saber que sem abelha não tem fruta, legume ou vegetal! Uma série de estudos tem mostrado que experiências de natureza são importantes preditores de uma atitude pró-conservação, esta de que tanto necessitamos se formos mesmo sobreviver. A separação das pessoas em relação à natureza, nos ambientes urbanos, mas também em ambientes rurais degradados, explica em boa parte a dificuldade que muitos enfrentam para entender o quadro geral em que nos encontramos, o estado do planeta e as atitudes e decisões que ele de nós demanda. Não deixem que suas filhas e filhos se somem à multidão dos desconectados da natureza. Ou que se somem aos consumidores e propagandistas da desinformação!

Charbel N. El-Hani

Instituto de Biologia/UFBA

PARA SABER MAIS:

Bruner, A. G., Gullison, R. E. & Balmford, A. (2004). Financial costs and shortfalls of managing and expanding protected-area systems in developing countries. BioScience 54: 1119-1126.

Ripple, W. J. et al. (2017). World scientists’ warning to humanity: A second notice. BioScience 67: 1026-1028.

Steffen, W. et al. (2015). Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet. Science 347: 1259855.

WWF (2018). Relatório Planeta Vivo.

Imagem de abertura: Modelo de limites planetários. Figura reproduzida de artigo de W. Steffen e colaboradores, de 2015, Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet.

Tem uma mosca na minha ferida!

Para a maioria das pessoas, as moscas causam apenas uma reação: nojo. De fato, não há como negar que esses insetos sejam asquerosos. Eles entram em seu lixo, passeiam pelo esgoto e cadáveres –como discutido em um texto recente do Darwinianas– e regurgitam em tudo. Por causa dessas excursões por locais peculiares, ficam cobertos de bactérias e outros patógenos para depois andar com suas patinhas sujas por toda a sua comida. Pois é, as moscas são realmente nojentas, mas é justamente a atração desses insetos por material em decomposição que faz com que suas larvas sejam benéficas para a saúde humana.

Feridas crônicas podem se desenvolver em pacientes com diversas condições, como diabetes ou doença vascular, por exemplo. Essas feridas podem ter tecidos necrosados e infectados, e muitas vezes se tornam úlceras sem cicatrização –desesperadamente desagradáveis ​​para os pacientes que sofrem com elas. Em muitos casos, essas feridas podem piorar e resultar na amputação de partes ou mesmo de membros inteiros. No entanto, a aplicação de larvas (esterilizadas) pode reverter esse quadro. Quando todos os outros tratamentos falham, larvas de moscas em seu primeiro instar (larvas recém-nascidas) podem transformar, em poucos dias, uma úlcera estagnada em uma ferida limpa e saudável em processo de cicatrização. Esse tratamento alternativo é chamado de terapia larval, biocirurgia ou larvoterapia. A terapia larval é uma opção de atraente de desbridamento (remoção do tecido necrótico e outros resíduos de uma ferida) porque as larvas utilizadas para fins clínicos comem apenas tecidos mortos e deixam o tecido vivo intacto. Todos os outros procedimentos de desbridamento inevitavelmente destroem parte do tecido vivo.  

O uso de larvas para o desbridamento de feridas difíceis e crônicas não é uma ideia nova. Os aborígines australianos já usavam larvas para limpar feridas há séculos, mas as larvas passaram a ser apreciadas universalmente somente após algum tempo, quando os cirurgiões militares notaram que os soldados com feridas infestadas por larvas apresentavam uma melhor e mais rápida recuperação. Ambroise Paré foi um cirurgião-barbeiro que serviu no exército francês e fez um dos primeiros relatos sobre o benefício das infestações durante a batalha de St. Quentin, em 1557. Em 1829, o cirurgião de campo de Napoleão Dominique Larrey também observou os efeitos benéficos das larvas em ferimentos sofridos por soldados durante uma expedição à Síria. Ele notou que as larvas que se desenvolviam em ferimentos sofridos em batalha impediam o desenvolvimento de infecções e aceleravam a cura. Não há evidências, no entanto, de que Paré ou Larrey tenham introduzido larvas nas feridas de seus pacientes deliberadamente. Isso só aconteceu quando John Forney Zacharias, um cirurgião de Maryland durante a guerra civil americana, iniciou oficialmente a terapia com larvas, que ele explica ter salvado muitas vidas. Mais tarde, durante a Primeira Guerra Mundial, William Baer observou que as larvas auxiliavam na cicatrização de feridas e desenvolveu com sucesso um método para produzir larvas esterilizadas que não disseminariam infecções. A terapia foi amplamente utilizada até depois da Segunda Guerra Mundial, quando houve a descoberta de antibióticos e o desenvolvimento de melhores técnicas cirúrgicas, que deixaram as larvas em segundo plano, utilizadas apenas como último recurso.

O interesse renovado na terapia larval foi desencadeado com ocorrências generalizadas de “superbactérias”, resistentes a diversas classes de antibióticos. Por exemplo, a bactéria que ocorre mais comumente em feridas, Staphylococcus aureus, adquiriu resistência à meticilina em 1961, dois anos após sua introdução como substituto da penicilina. A evolução da resistência a antibióticos levou a um aumento do tempo de hospitalização e tratamento de pacientes com feridas crônicas. Como resultado, desde 1990, as larvas voltaram a ser utilizadas no tratamento de certas feridas que, de outra forma, seriam intratáveis. ​​Suas secreções são eficazes mesmo contra S. aureus resistente a antibióticos. As célebres larvas também atuaram no filme Gladiador (2000). Em uma das cenas, o protagonista desmaia após ser ferido em uma batalha e, quando ele acorda, encontra sua ferida cheia de larvas aplicadas por um amigo. As larvas limparam a ferida também na versão cinematográfica da terapia larval. Em 2004, o FDA (“Food and Drug Administration”) aprovou o uso de larvas estéreis em aplicações médicas nos Estados Unidos.

As larvas usadas na terapia geralmente pertencem a espécies de moscas varejeiras (apresentadas em texto sobre Entomologia Forense aqui no Darwinianas), como a Lucilia sericata. No Brasil, larvas de Cochliomyia macellaria também estão sendo testadas para o mesmo propósito. Essas larvas alimentam-se exclusivamente de material orgânico em decomposição e se afastam de uma ferida quando há apenas tecido saudável. Elas também são fáceis de cultivar em condições estéreis e são relativamente resistentes (podem ser resfriadas e armazenadas a 5°C). Cerca de 10-20 larvas esterilizadas são aplicadas por centímetro quadrado de ferida. Como as larvas de moscas são altamente móveis, há necessidade de contê-las em um curativo especial que lhes permite alcançar o tecido a ser tratado, mas impede que saiam da ferida. O progresso do tratamento é verificado diariamente, e as larvas são trocadas pelo menos a cada três dias por causa de seu rápido crescimento e ciclo de vida curto em temperaturas corporais humanas.

As larvas limpam o tecido necrótico com uma grande velocidade, apesar de não possuírem dentes. Elas secretam enzimas proteolíticas digestivas para liquefazer o tecido necrosado que servirá para sua alimentação. Juntamente com as enzimas, as larvas secretam outras moléculas com papel ativo na cicatrização da ferida: fatores estimulantes do crescimento celular, fatores antimicrobianos e fatores antiinflamatórios. A rápida melhora no quadro se dá então pelas diferentes atuações da larva na ferida. A alimentação competitiva das larvas das moscas varejeiras remove rapidamente a fonte de alimento das bactérias e muitas delas são digeridas no processo. A remoção do tecido morto também permite uma melhor difusão do oxigênio nos tecidos saudáveis, o que impede a proliferação de bactérias anaeróbicas. Elas também secretam fatores antibacterianos e antifúngicos  eficazes contra inúmeros patógenos, incluindo cepas resistentes a antibióticos. Além de combater a infecção, as secreções larvais também induzem a migração de fibroblastos, proliferação e remodelação do tecido, acelerando a recuperação. Finalmente, as larvas podem promover o crescimento do tecido por meio da estimulação física do tecido da ferida. O movimento ajudaria o fluxo das secreções das larvas e a quebra mecânica do tecido morto.

Todos esses processos se tornaram alvos para desenvolvimento de produtos biotecnológicos. Max Scott, da North Carolina State University, por exemplo, aposta na nova geração da terapia larval, combinando a atividade das larvas na ferida à atuação do fator de crescimento humano derivado de plaquetas (PDGF). Ele e sua equipe geraram uma linhagem de L. sericata transgênica que produz e secreta o fator de crescimento humano. O PDGF estimula a sobrevivência celular, a proliferação de fibroblastos e a quimiotaxia, reorganização da actina e produção e secreção de outros fatores de crescimento. Sua produção torna a larva ainda mais eficiente no desbridamento. Mesmo os estudos básicos sobre a biologia e evolução do hábito alimentar em Calliphoridae realizado pelo nosso grupo, em colaboração com a Profa. Patrícia J. Thyssen na Universidade de Campinas, contribuem para a compreensão dos mecanismos moleculares subjacentes às preferências alimentares e dinâmica na ferida. Ensaios de preferência alimentar nos permitem escolher, dentre as espécies de Calliphoridae, aquelas que se alimentam exclusivamente de tecido necrosado, sem invadir o tecido sadio, enquanto nossa análise da expressão gênica nas larvas pode revelar proteínas secretadas com potencial terapêutico. Essas proteínas larvais podem ser estudadas para o desenvolvimento de pomadas para desbridamento, sem a necessidade da aplicação das larvas, que ainda encontra uma certa resistência de profissionais de saúde e do público em geral. Enquanto as pomadas não chegam ao mercado, as larvas funcionam como dispositivos médicos em miniatura com o poder de ajudar a curar e livrar muitos da carga dolorosa e incapacitante de feridas crônicas.

Tatiana Teixeira Torres (USP)

Para saber mais:

– Masiero FS, Martins DS e Thyssen PJ (2015) Terapia Larval e a aplicação de larvas para cicatrização: revisão e estado da arte no Brasil e no mundo. Revista Thema, 12(01): 4-14.

Nesse artigo, os autores revisam a literatura sobre terapia larval, apresentando a aplicação de larvas como alternativa para cicatrização de feridas. Um dos objetivos dos autores é desmistificar a modalidade terapêutica e estimular profissionais da saúde a aplicá-la em larga escala.

– Sherman RA (2014). Mechanisms of Maggot-Induced Wound Healing: What Do We Know, and Where Do We Go from Here? Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, 2014: 592419.

Revisão dos estudos clínicos controlados que testaram a eficácia da terapia larval. Pelos dados clínicos levantados há consenso de que o uso das larvas é efetivo no desbridamento. As evidências clínicas para a cicatrização acelerada de feridas são escassas, mas estudos clínicos pequenos sugerem fortemente que as larvas realmente promovem o crescimento de tecidos e cicatrização de feridas.

– National Geographic (2012) Maggot Medicine.

Programa mostrando a utilização da terapia larval. O vídeo contém cenas reais de larvas sendo aplicadas em uma ferida. Essas cenas podem ser desagradáveis para alguns espectadores.