Há tempo nos divertimos com imitações de seres
humanos. Os primeiros robôs, se é que mereciam este nome, eram extremamente
simples: algo como marionetes com cordéis ligados a engrenagens de relojoaria,
rebuscados bonecos de dar corda. No século XIII eles fascinavam imperadores e
religiosos, e a igreja católica européia financiou e engendrou inúmeros santos
e presépios maquínicos, com anjos-robôs que voavam, com almas subindo aos céus,
santos que sorriam, andavam, giravam os olhos em interação com o público, o
qual se deleitava entre o riso e o assombro da então novíssima tecnologia. Este
assombro frente ao homem-máquina permanece ainda nos dias de hoje, com robôs
sociais modernos imitando cada vez mais perfeitamente o comportamento humano,
produzindo interações que se aproximam cada vez mais dos cenários dos filmes de
ficção científica. Inclusive, no que se refere conversas online (chats), a
ficção científica já chegou: muitas vezes não discernirmos se fomos atendidos
por uma inteligência natural ou artificial, tamanha a sofisticação dos sistemas
computadorizados de comunicação. O mesmo vale para bots que operam perfis
falsos em redes sociais, ou que atuam no mercado financeiro, comprando e
vendendo ações automaticamente.
Para muitos, a ficção científica é apenas uma
questão de tempo: logo mais estaremos conversando diariamente com robôs
sociais, naturalizando assim o assombro de nos recriarmos à nossa própria
imagem e semelhança. Curiosa essa nossa propensão demiúrgica. Há séculos
tentamos nos transformar em deuses capazes de criar seres “vivos”, e se a
ciência afinal conseguir este feito extraordinário, muitos entenderão não haver
mais necessidade de deuses “reais”: a religião seria afinal substituída pela
ciência, pois nos transformaríamos nós mesmos em deuses. Será mesmo? Duvido
muito desta possibilidade. Não da possibilidade de criarmos robôs quase
humanos, mas da possibilidade de a ciência substituir a religião.
Quanto a criar robôs, há empresas
trabalhando, por exemplo, na produção de
implantes neurais, interfaces cérebro-máquina com conexão sem fio a
computadores. Máquinas mais simples, como implantes
cocleares que processam a linguagem para
pessoas com severa perda auditiva, já estão em uso há um certo tempo. O que se
discute hoje é a ampliação não só da capacidade de processamento como do nível
de integração destes implantes com o sistema nervoso. Logo poderemos passar do
uso de implantes com finalidades médicas para o uso de implantes com
finalidades recreativas, ou para ampliação das capacidades humanas. Estamos
pois a um passo de criar híbridos homem-máquina, super-homens com capacidades
sobre-humanas.
Recentemente um número
especial da influente revista inglesa Philosophical
Transactions of the Royal Society analisou não apenas as questões éticas, mas
também as possibilidades reais de aprimoramento técnico na comunicação
homem-máquina, bem como os efeitos psicológicos desta interação. Por exemplo,
para robôs serem capazes de interagir satisfatoriamente com humanos pode ser
necessária uma arquitetura computacional multimodal inspirada nas
neurociências, criando um sistema de memória autobiográfica, como vem sendo
testado no robô
iCub. Interfaces que permitam o reconhecimento
online da personalidade e emoções de usuários humanos, baseado nas imagens e
sons capturados durante a interação, também serão fundamentais, e estão
disponíveis em robôs como
o NAO da Softbank Robotics. Mas isso não é
suficiente: os robôs têm que manter o engajamento em uma relação com humanos.
Quem quer que tenha estado em mesas de bar sabe da energia, inventividade e
carisma necessários para manter-se no foco das atenções, e os robôs estão
evoluindo neste sentido, desenvolvendo expressões faciais adequadas ao
contexto, incorporando sentimentos como confiança, e captando a perspectiva do
interlocutor, em plataformas computacionais que não são mais programadas apenas
de cima para baixo (como os antigos jogos de xadrez), nas quais todas as
possibilidades de ação estão previamente dadas na “mente” do robô, mas que se
adaptam ao imprevisto ao acrescentar curiosidade e capacidade de aprendizado
treinada em situações concretas. Robôs sociais inteligentes estão surgindo.
Finalmente, robôs sociais inteligentes são muitas
vezes inspirados na biologia, psicologia e neurociência, ou seja, eles são modelos
artificiais daquilo que a ciência hipotetiza ser o funcionamento humano. Assim,
tais robôs são também úteis para testar estas próprias hipóteses sobre nosso
funcionamento. Se eles mimetizam bem nosso funcionamento, tais hipóteses não
devem estar muito equivocadas. Eles permitem também que possamos controlar
experimentalmente as interações humanas, e portanto facilitam seu estudo
experimental. Por exemplo, podemos entender se a sincronização de posturas
durante uma conversa aumenta a empatia, ao variar artificialmente a força desta
sincronia postural em robôs, durante interação com humanos.
Claro, há inúmeras questões éticas envolvidas com o
surgimento destas novas tecnologias. Quando estamos remediando uma deficiência
(fazendo um surdo escutar), sabemos qual é o comportamento “normal” que
desejamos restaurar. Já quando estamos ampliando a cognição do indivíduo de
forma apenas recreativa, não há um “normal” a ser restaurado. Estamos criando
algo novo, e há inúmeras incertezas sobre como isto pode afetar não apenas o
indivíduo (sua fisiologia, seus aspectos psicológicos e interacionais), mas
também o meio social. Se futuros humanos com próteses computacionais (seres
híbridos) puderem controlar robôs, ou se comunicar com, ou controlar outros
híbridos, teremos um claro efeito social destas novas tecnologias. Seria
permitido a um híbrido, por exemplo, modificar (imprimir um hábito em) o
cérebro de outro enquanto o outro dorme? E se hackers invadirem seu cérebro
porque você não atualizou o sistema? Seria eticamente adequado permitir a
competição entre humanos normais e híbridos por vagas no mercado de trabalho?
Não estaríamos aumentando a disparidade social ao permitir que os mais ricos
tenham acesso aos melhores empregos por terem implantes neurais mais potentes?
Como se vê, há inúmeros dilemas éticos no caminho destas novas tecnologias.
Para finalizar, voltemos à ciência substituindo a
religião. Ao homem-máquina semi-deus substituindo os antigos deuses no
imaginário social, ao criar robôs perfeitos à sua imagem e semelhança. As novas
possibilidades tecnológicas nos deixam maravilhados e assombrados. Este
sentimento, este deslumbramento que vemos nas ficções científicas povoando o
imaginário ocidental, é o mesmo deslumbramento dos medievais com as primeiras marionetes
mecânicas. Tais marionetes eram capazes, para eles, de comportamentos
surpreendentes, possíveis apenas nos seres vivos. Elas pareciam animadas por
dentro. Foi deste deslumbramento que surgiu a ideia de que as máquinas iriam
ser gradativamente aperfeiçoadas até se assemelharem completamente a nós
mesmos.
A ideia medieval era a de que as máquinas não eram
inertes, e como tal serviriam de modelo para o nosso próprio comportamento
criativo. Seríamos assim uma máquina maravilhosa e surpreendente. No entanto,
com o passar do tempo, e com a familiaridade com os bonecos mecânicos, este
deslumbramento cedeu lugar para a concepção mecanicista atual, predominante nas
neurociências, de que o cérebro é uma máquina de resposta a estímulos externos,
que os animais são, ao final, apenas marionetes, complicadas é verdade, mas
ainda assim marionetes, como um carro, cheio de peças, marionetes cheias de
órgãos, cada um para uma função automática e pré-determinada. Esta concepção de
uma máquina passiva foi introduzida e defendida pela igreja (em particular pelo
protestantismo, veja um detalhamento histórico no livro de Jéssica Riskin),
quando estava se arriscando a perder o controle sobre o imaginário social para
a nascente ciência moderna. Para retomar o controle sobre o imaginário ela
formulou a partição da máquina maravilhosa em corpo inerte e alma livre.
Doravante a ciência estuda o corpo inerte, e a religião a alma criativa.
Boa parte da biologia contemporânea deriva desta concepção de corpo como máquina pré-programada. Reflexos disto vemos na concepção de que os genes pré-determinam o que somos, de que a fisiologia é o mundo das respostas e ajustes automáticos, de que temos instintos incontornáveis, enfim, de que os padrões biológicos são fruto de uma ordenação prévia que, no renascimento, era dada por Deus e que, em Darwin, seria dada pelo acaso, elaborada por um relojoeiro cego. Vemos assim que, curiosamente, a biologia do século XIX e XX aceitou uma concepção basicamente teológica do corpo como um aparato maquínico inerte. Não há portanto qualquer possibilidade de que a ciência substitua a religião: ao contrário, esta visão científica é, em sua origem, uma concepção religiosa. Ciência e religião andam juntas no corpo da cultura, e ainda teremos muito trabalho pela frente se quisermos construir uma teoria biológica realmente alternativa, uma concepção que restaure no âmago do ser vivo sua relojoaria inventiva, a máquina maravilhosa que, por enquanto, ainda somos.
Hilton Japyassú (UFBA)
Para saber mais
Cross ES, Hortensius R, Wykowska A. 2019 From social brains to social robots:
applying neurocognitive insights to human–robot interaction. Phil. Trans. R. Soc. B 374: 20180024.
Gunes H, Celiktutan O, Sariyanidi E. 2019 Live
human–robot interactive public demonstrations with automatic emotion and
personality prediction. Phil. Trans. R. Soc. B
374, 20180026.
Metta G et al. 2010. The iCub humanoid robot: an open-systems platform for research in cognitive development. Neural Netw. 23, 1125 – 1134.
Riskin, J. 2016. The restless clock: a history of
the centuries-long argument over what makes living things tick. The University
of Chicago Press.