Vida em redes

Já pensou em reduzir sua rede social? Anda por acaso com fobia de likes? Mensagens de sua querida tia-avó nem ainda lidas te deixam em pânico? Tranquilize-se: fiz um grupo de Whatsapp para pessoas como você … e são milhares …

Estamos na era da hiperconectividade. Estar conectado é condição de sobrevivência: tenho amigos que não suportam a ideia de ir a lugares remotos, não por conta do mundo selvagem que irão encontrar, mas por conta da falta de sinal no celular. Algumas horas desconectado e tudo pode acontecer, você pode perder a mensagem de zap mais poderosa do dia, você pode ficar por fora da piada do momento, pior: você pode passar a ser a piada do momento … mais que isso: em um mundo onde seu número de telefone não é segredo para mais ninguém, onde pessoas disfarçadas de empresas, e empresas disfarçadas de pessoas, te enchem de mensagens carinhosamente indesejadas, bulir com os outros passou a ser a regra, o normal do jogo, e querer privacidade virou careta.

Para que tanta conectividade? Chimpanzés mais conectados, com interações sociais com maior número de indivíduos do grupo, têm maior aptidão biológica (conceito que alguns insistem nomear pela palavra inglesa, fitness, que significa, precisamente, aptidão), e jovens babuínos com mães também conectadas sobrevivem mais e melhor. Besouros centrais em uma rede de relações se reproduzem mais que os periféricos, e machos golfinhos centrais na rede de relações do grupo vivem mais. Parece que, afinal, estar bem conectado, ser o centro de um grupo, não é de fato algo muito ruim. Mas entre os animais não humanos estas posições centrais na rede de relações são alvo de disputa física, de jogos de poder nos quais coalizões se formam para a derrubada de um líder. Enfim, em algum momento o sangue vai rolar, as lágrimas vão surgir, e o mais forte vai tomar o poder. Mas e entre nós, humanos? À primeira vista, estes jogos de força bruta ficaram restritos ou à nossa juventude, ou a conflitos entre países e povos, com exércitos armados, um jogo de poder muito institucionalizado e inteiramente abstrato, um tipo de conflito muito distante do que nossos parentes animais costumam fazer.

Sem o confronto direto certificando o vitorioso, o que estrutura nossas redes sociais no dia a dia? Se cada um dos sete bilhões de seres humanos quiser ser o centro das atenções, chamando para si saraivadas de curtidas (que insistem em chamar de likes), milhares de comentários, toneladas de novas amizades e infinitos emoticons, sem que haja nenhuma certificação concreta das habilidades reais dos participantes, corremos o risco de criar redes que refletem apenas esta sede cega por conexão, cujo sentido seria passar adiante toneladas de informação sem sentido (penso aqui nos milhares de youtubers de 12 anos de idade bombando com vídeos de maquiagem, ou receita de gelatinas que, insistem, chamam-se slime).

Mas o que seria afinal uma rede de conexões eficiente? Por exemplo, genes formam redes de interação (gene A ativa gene B, que reprime gene C, que juntamente com o gene E ativam o gene A, e assim por diante) que são estruturadas de tal forma que nem mutações e nem mudanças no ambiente alteram o seu correto funcionamento. Isto é ser uma rede com uma estrutura eficiente: ela é robusta, ela não se altera frente a perturbações, ou seja, ela continua produzindo bons resultados (modulando algum aspecto da fisiologia) mesmo em condições adversas. Pensemos, por exemplo, no que seria uma eficiente rede de museus: seria uma rede tal que, quando um destes museus, por exemplo, o Museu Nacional do Rio de Janeiro, pega fogo, os restantes têm material suficiente para recompor rapidamente a perda. Será que nossas redes são eficientes?

Como podemos, afinal, fazer uma rede social eficiente? Em um estudo recente com várias espécies de primatas, incluindo os primatas humanos, Cristian Pasquaretta e um séquito de 20 colaboradores desvendaram o truque. Primeiro, precisamos pensar em quem estrutura a rede. Se a rede é estruturada a partir dos benefícios (maior informação) e desvantagens (maior risco de infecção por parasitas como vírus) que ela provê ao indivíduo, pode até ser que a conectividade não seja selecionada. Já quando o que estrutura a rede são os benefícios e as desvantagens para o grupo (caça coletiva, ataque a outros bandos), o resultado, a estrutura final da rede, pode ser muito diferente. Cultura, cooperação e coordenação de atividades são muito importantes para muitos primatas, e tais atividades coletivas podem afetar e ser afetadas pela estrutura da rede de comunicação do grupo.

Pasquaretta mostra que, para se ter uma rede de comunicação eficiente, é necessário inteligência. A eficiência global da rede aumenta com a razão neocortical da espécie; traduzindo: espécies mais inteligentes constróem redes de interação mais eficientes. Se indivíduos inteligentes organizarem sua rede de relações de modo a obter o máximo de informação social, a rede como um todo pode ficar mais eficiente. Pode haver seleção natural da capacidade dos indivíduos de extrair informação social, fazendo com que eles, com o tempo, passem a focar sua atenção nos indivíduos mais inovadores ou bem sucedidos do grupo. Dessa forma, a seleção natural poderia atuar de modo a formatar aspectos da relação entre os indivíduos, mas apenas na medida em que estas relações forem vantajosas para os mesmos.

Uma organização social mais igualitária, com menor hierarquização, também aumenta a eficiência da rede social. Quanto maiores as diferenças entre os indivíduos na sua centralidade (quanto maior a hierarquia nas relações), menos a informação flui eficientemente no sistema. Sistemas sociais menos centralizadores são preferíveis quando o objetivo é aumentar a eficiência da rede. A existência de indivíduos superconectados pode até aumentar a velocidade de transmissão de informação, mas uma rede menos centralizada, menos dominada por estes indivíduos super-disseminadores, é importante para reduzir o espalhamento de informações falsas. Em um outro nível, simulações mostram que a eficiência global da rede tem um pico em valores intermediários de modularidade, ou seja, as redes mais eficientes na transmissão de informação não são aquelas dominadas por um único grupo, nem aquelas pulverizadas em miríades de pequenos subgrupos, e sim aquelas com um número intermediário. Finalmente, tamanho é documento. Redes pequenas são mais eficientes: grupos de 100 indivíduos são de duas a três vezes mais eficientes do que grupos de 1000 indivíduos.

Isto tudo nos devolve ao que vem ocorrendo em nossas redes sociais virtuais. Primeira lição: a inteligência tem que prevalecer, não apenas porque isto melhora a estrutura da rede, mas também porque isto ajuda a barrar a disseminação de notícias falsas. Mas para barrar as notícias falsas (que alguns insistem em chamar de fake news), o mais importante de tudo parece ser diminuir o efeito de agentes infecciosos, digo, diminuir o número de indivíduos hiperconectados. Se com poucas conexões a notícia chega a todos, temos pouca oportunidade de verificação dos dados, e é por isso que uma rede menos hierárquica é mais eficiente. Finalmente, nossas redes sociais não deveriam crescer muito, pois isto diminui dramaticamente a eficiência da rede. Mas tudo isso seria importante discutirmos apenas se quiséssemos diminuir a circulação de notícias falsas. Queremos?

Hilton F. Japyassú

NuEVo – Núcleo de Etologia e Evolução
Instituto de Biologia
Universidade Federal da Bahia

 

Para saber mais:

Pasquaretta, Cristian, et al. “Social networks in primates: smart and tolerant species have more efficient networks.” Scientific reports 4 (2014): 7600.

Gilby, I. C. et al. Fitness benefits of coalitionary aggression in male chimpanzees. Behav. Ecol. Sociobiol. 67, 373–381. 10.1007/s00265-012-1457-6 (2013).

Silk, J. B., Alberts, S. C. & Altmann, J. Social bonds of female baboons enhance infant survival. Science 302, 1231–1234. 10.1126/science.1088580 (2003).

Formica, V. A. et al. Fitness consequences of social network position in a wild population of forked fungus beetles (Bolitotherus cornutus). J. Evol. Biol. 25, 130–137. 10.1111/j.1420-9101.2011.02411.x (2012).

Stanton, M. A. & Mann, J. Early Social Networks Predict Survival in Wild Bottlenose Dolphins. PLoS ONE 7, e47508. 10.1371/journal.pone.0047508 (2012).

Leclerc, R. D. Survival of the sparsest: robust gene networks are parsimonious. Mol. Syst. Biol. 4. 10.1038/msb.2008.52 (2008).

A herança além do DNA

Cientistas descobrem um sistema inusitado de herança epigenética: vermes nematóides que vivem na genitália de rola-bostas são transmitidos para a prole do besouro e influenciam positivamente seu desenvolvimento.

A evolução biológica é classicamente pensada na perspectiva da transmissão de características dos pais à prole por meio da informação genética contida na molécula de DNA. Tal processo se baseia na genética mendeliana clássica, de acordo com a qual a transmissão de alelos (as versões de um gene) ocorre livre de influências externas, como, por exemplo, os fatores ambientais. No entanto, pesquisas mais recentes em biologia evolutiva têm mostrado a existência de uma gama de mecanismos não-genéticos de transmissão, como a herança epigenética, as atividades hormonais e a interação dos organismos com seus simbiontes.

Os simbiontes são seres vivos de determinada espécie que fazem parte do ambiente em que os organismos de uma outra espécie (seus hospedeiros) vivem e se desenvolvem. Os simbiontes interagem com seus hospedeiros e os influenciam de uma forma que pode ser benéfica, neutra ou prejudicial. Para insetos, essa interação é particularmente importante, uma vez que microrganismos podem desempenhar funções fisiológicas essenciais, como a síntese de nutrientes, digestão de componentes vegetais, dentre outras. Dessa forma, os simbiontes podem influenciar diretamente o fitness do hospedeiro. O termo fitness se refere ao valor adaptativo de um fenótipo ou genótipo, refletindo assim o sucesso de um indivíduo em passar suas características à próxima geração. Como os simbiontes podem ser transmitidos de forma vertical (ou seja, de geração para geração), representam uma forma de herança não-genética cujo papel na evolução dos hospedeiros pode ser fundamental.

Pesquisadores da Universidade de Indiana descobriram uma relação simbionte-hospedeiro bastante inusitada. Foi descoberto um simbionte nematóide, Diplogastrellus monhysteroides, que vive nas genitálias de besouros Ontophagus taurus, os famosos rola-bosta, que já foram personagens de um dos textos mais populares do Darwinianas. A transmissão deste simbionte ocorre de duas formas. A primeira forma é a sexual, na qual besouros de um sexo transmitem o simbionte para o outro sexo durante a cópula, de forma análoga a uma doença sexualmente transmissível (DST). A segunda é a transferência vertical, na qual o simbionte é transferido da mãe para a prole. As fêmeas do rola-bosta constroem câmaras onde depositam bolas de esterco que serão importantes para o desenvolvimento de sua prole. Os simbiontes são transferidos para esta câmara através das bolas de esterco contaminadas onde apresentarão interação com as larvas dos besouros.

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Figura 1. Presença de nematóide (seta vermelha) na genitália (seta verde) do besouro rola-bosta (modificado de Ledón-Rettig e colaboradores).

Para avaliar o papel dos simbiontes no desenvolvimento dos hospedeiros, os pesquisadores manipularam as câmaras de esterco de forma que um grupo de besouros se desenvolveu na presença do nematóide e outro na ausência. Foi mostrado que a presença do nematóide afeta o desenvolvimento das larvas do besouro favorecendo seu crescimento: larvas que se desenvolveram na presença do simbionte cresceram mais até o período da formação da pupa. Essa taxa de crescimento mais elevada é interpretada pelos pesquisadores como vantajosa em termos adaptativos.

Em um segundo momento, os pesquisadores procuraram compreender como exatamente os simbiontes favorecem o crescimento dos hospedeiros. Para isso, levantaram a hipótese de que o aumento de fitness conferido ao besouro se dá por alterações induzidas pelo nematóide nas populações dos micro-organismos que habitam o ambiente de desenvolvimento. Para testar essa hipótese, eles quantificaram a abundância de fungos e bactérias nos dois tratamentos (com e sem a presença do nematóide) e mostraram que as proporções de diversos destes grupos eram alteradas pela presença do nematóide. Um exemplo de uma dessas alterações foi o aumento da abundância de bactérias que degradam biomassa vegetal, o que pode ter afetado positivamente o ambiente nutricional dos besouros em desenvolvimento.

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Figura 2. Nematódeos do gênero Diplogastrellus (foto de Erik Ragsdale).

Esse estudo rompe com a ideia tão difundida de que nematóides são simbiontes meramente comensais (neutros) ou mesmo prejudiciais aos seus hospedeiros. Ao contrário, os experimentos mostraram pela primeira vez que nematóides também podem ser engenheiros ecológicos de ambientes de desenvolvimento que oferecem grandes vantagens aos seus hospedeiros. Até então, a maioria dos trabalhos que avaliaram o papel dos simbiontes no desenvolvimento do hospedeiro explorou microrganismos unicelulares. O trabalho dos pesquisadores da Universidade de Indiana mostra que organismos de tamanho médio (no caso, os nematóides) também podem estar envolvidos em processos de herança não-genética que afetam o fitness dos organismos através de mudanças no ambiente de desenvolvimento. Resta agora compreender como exatamente os nematóides afetam as populações de micro-organismos desse ambiente, o que em última instância poderá ter relevância até para questões de saúde humana.

Bruno C. Genevcius (USP – Instituto de Biociências)

Para saber mais:

Almenara, D. P., de Camargo Neves, M. R., Kamitani, F. L., & Winter, C. E. (2018). Nematóides entomopatogênicos: as duas faces de uma simbiose. Revista da Biologia, 6(2), 1-6.

Uma entrevista com Cristina Ledón-Rettig, principal autora do artigo aqui discutido, explicando sua descoberta.

Five things dung beetles do with a piece of poo.

Nutritional Symbionts: Why Some Insects Don’t Have to Eat Their Vegetables

Como os microrganismos estão relacionados a depressão?

Em um post recente aqui no Darwinianas, a Profa. Ana Almeida trouxe informações importantes sobre como os microrganismos influenciam o comportamento de moscas e nos trouxe questionamentos interessantes sobre quem está no comando do nosso próprio comportamento. No post de hoje veremos como os microrganismos que habitam nosso intestino podem estar relacionados com nossa qualidade de vida e saúde mental, mais especificamente: como os microrganismos estão relacionados à depressão.

A depressão é a desordem mental mais prevalente em países industrializados. No Brasil, país líder em incidência de ansiedade e depressão na América Latina, os números são assustadores e crescem: 5,8% dos brasileiros sofrem com a depressão, nos últimos 10 anos houve um aumento de 18,4% do número de pessoas que sofrem com depressão. É bem conhecido que os tratamentos para esse mal podem demorar e que nem sempre os medicamentos funcionam de primeira, tendo o paciente que se sujeitar a algumas drogas para melhorar o seu quadro. São também conhecidos os efeitos colaterais que as drogas administradas podem causar nos pacientes. Porém com todo esse quadro, podemos vislumbrar um horizonte promissor na compreensão das causas e possíveis tratamentos mais eficazes da depressão. Em estudo publicado na semana passada na Nature Microbiology, pesquisadores da Bélgica, liderados pelo Prof. Jaroen Raes, mostraram associações entre a microbiota intestinal e depressão.

Este estudo foi feito com um grupo de mais de mil pessoas, através do projeto “The Flemish Gut Flora project”. Os autores empregaram abordagens metagenômicas (nos meus posts anteriores falei um pouco sobre o que é isso), que é o sequenciamento de todo material genético presente em uma dada amostra, para acessar a diversidade microbiana nessa população e, utilizando informações sobre vias e compostos conhecidos como importantes moduladores cerebrais, conseguiram traçar associações claras entre alguns microrganismos e qualidade de vida e depressão. Os resultados apontam para a hipótese de que bactérias produtoras de butirato (Faecalibacterium e Coprococcus) podem estar relacionadas com altos indicadores de qualidade de vida. Em indivíduos com quadros de depressão, as bactérias Dialister e Coprococcus spp. encontravam-se ausentes. Os autores encontraram também que a síntese microbiana do metabólito de dopamina, ácido 3,4-dihydroxifenolacético, está correlacionada positivamente com qualidade de vida mental, e o potencial das bactérias produzirem ácido γ-aminobutírico em casos de depressão. A produção ou degradação desses compostos estão relacionados diretamente com a produção de neurotransmissores e, por consequência, tem relação com a fisiologia cerebral.

É importante ressaltar que o estudo traz associações e que não é possível ainda estabelecer relacõed de causalidade. Apesar disso, a pesquisa dá luz a uma compreensão mais abrangente sobre o funcionamento do corpo humano, mostrando ligações entre o nosso intestino e estado mental, e também oferece meios de testar os achados. A medicina está evoluindo cada vez mais para ser totalmente personalizada, incluindo informações dos genomas dos pacientes e, cada vez mais, do microbioma também. Podemos vislumbrar tratamentos baseados em administração de compostos produzidos por cada tipo de microbioma (saudável e doente) ou baseados na administração ou controle dos microrganismos intestinais. Mais uma vez aqui no Darwinianas fica a pergunta: quem está no controle do nosso próprio comportamento?

 

Pedro Milet Meirelles

Laboratório de Bioinformática e Ecologia Microbiana

Instituto de Biologia da UFBA

meirelleslab.org

 

Para Saber mais:

Valles-Colomer M, Falony G, Darzi Y, Tigchelaar EF, Wang J, Tito RY, Schiweck C, Kurilshikov A, Joossens M, Wijmenga C, Claes S. The neuroactive potential of the human gut microbiota in quality of life and depression. Nature Microbiology. 2019 Feb 4:1.

(Imagem: https://www.talkspace.com/blog/2017/09/the-stigma-of-depression/)

 

Num mundo sem fatos, corremos riscos

Através da ciência geramos conhecimento sobre o mundo. A decisão de implementar políticas e tomar decisões negando esse conhecimento é uma característica do mundo “pós-factual”. Esta característica traz sérios riscos.

Através da ciência, aprendemos sobre o mundo à nossa volta. Ela não é a única maneira de aprender sobre o mundo, como ilustrado, por exemplo, pela riqueza de culturas indígenas ao redor do globo, incluindo as muitas presentes no território brasileiro. Contudo, a ciência certamente oferece respostas profundas e importantes sobre questões que atiçam nossa curiosidade: como os primeiros seres humanos chegaram à América do Sul? Que espécies de animais vivem escondidas em nossas casas e quintais? Mas, além disso, a ciência também gera conhecimento que é importante para nossas vidas, num sentido bastante concreto, respondendo a perguntas como: qual a relação entre desmatamento e secas? Ser afrodescendente altera suas chances de encontrar um doador de medula? Continue Lendo “Num mundo sem fatos, corremos riscos”

Empatia e diálogo intercultural

A empatia poderia fornecer bases para um diálogo intercultural? Depende de como a entendemos. Em especial, depende de uma transição de visões internalistas para visões relacionais da empatia.

No Laboratório de Ensino, Filosofia e História da Biologia (LEFHBio), no Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia, trabalhamos com educação intercultural. Entendemos educação intercultural como a prática de um diálogo de saberes, por exemplo, entre o conhecimento científico produzido a partir de cânones do Ocidente moderno e o conhecimento de comunidades indígenas ou de pescadores e marisqueiras. Mas não trabalhamos apenas a compreensão teórica da educação intercultural. Vamos a campo, trabalhando com comunidades e professores e professoras de suas escolas, para produzir, de modo colaborativo e participativo, práticas interculturais no trabalho cotidiano das salas de aula. Nesse contexto, estamos sempre em busca de ideias que nos mostrem novos caminhos a serem seguidos ou que permitam que lancemos olhares críticos sobre nossas próprias experiências. Continue Lendo “Empatia e diálogo intercultural”

Convergência profunda

Ictiossauros são répteis marinhos extintos que, assim como golfinhos, possuem ancestrais terrestres. Em ambos os grupos, a adaptação à vida oceânica levou à evolução de um corpo hidrodinâmico, com pescoço curto e patas modificadas em nadadeiras. A comparação entre golfinhos e ictiossauros é usada frequentemente como exemplo de convergência evolutiva, que é o nome dado ao processo através do qual estruturas similares evoluem em espécies distantes com modos de vida parecidos. Continue Lendo “Convergência profunda”

Arqueogenética do Povo de Luzia

A arqueogenética tem ajudado a recontar histórias das populações humanas com dados moleculares, e recentemente essa abordagem foi utilizada para lançar luz sobre os Povos de Luzia.

Arqueogenética é o estudo da genética molecular para tentar entender o passado humano. Tais estudos têm contribuído para que possamos entender melhor a dispersão e diversificação humana nos diferentes continentes. A América foi o último continente povoado pela nossa espécie, há aproximadamente 15 mil anos, e pouco se sabe sobre como se deu o início da história humana em nosso continente. Várias questões relacionadas a esse assunto ainda estão em aberto, tais como: quem foram os primeiros americanos? De onde vieram? Eram uma ou mais populações as que entraram na América? Continue Lendo “Arqueogenética do Povo de Luzia”

Informação em um mundo de sentidos

Andamos ainda um pouco pasmos, aturdidos mesmo com a quantidade de informação que, de repente, passamos a estocar avidamente nas nuvens, na terra, nas águas, em qualquer lugar onde consigamos encaixar chips de silício. Guardamos as fotos de um jantar com amigos, os vídeos de momentos à sombra de coqueiros, os pores de sol de nossos dias, os amores de nosso caminho, replicamos a vida em todas as mídias, preservando-a cuidadosamente das areias do tempo, de nosso fatal esquecimento, colonizando com nossa fundamental presença este ecossistema virtual, essa recém nascida rede de computadores (um bebê, nem ainda 30 anos). Mesmo quando insistimos em gestar, parir e fazer crescer toda uma era informacional, muitos ainda se perguntam sobre o sentido de tanta informação. Poderá essa imensidão de informação, por exemplo, ser um dia encontrada por arqueólogos do futuro, alienígenas de um novo tempo, que conseguirão, quem sabe, dar finalmente um sentido a todo este frenesi informacional em que se debate a humanidade? Ou será o sentido deste frenesi finalmente vendido em pequenas parcelas mensais pelo bruto, cru e endeusado mercado econômico, que passará a saber mais que nós mesmos acerca de nossos mais recônditos sonhos e desejos? Continue Lendo “Informação em um mundo de sentidos”

Os micróbios estão no comando!

Quanto mais pesquisamos, mais somos surpreendidos pelo fascinante mundo microbiano. Essa semana, cientistas publicaram o resultado de pesquisas sugerindo que a presença de determinada espécie de bactéria no trato gastrointestinal de moscas-de-fruta é capaz de alterar o padrão de locomoção desses organismos.

O nosso sistema digestivo é um clássico exemplo de um ambiente altamente parasitado. Em média, o nosso sistema digestivo é habitado por mais de dez trilhões de microrganismos, uma quantidade de células 10 vezes maior do que o número de células humanas em nosso corpo, e possuindo 150 vezes o número de genes presentes em nosso genoma. Causadores de variados transtornos gastrointestinais, bactérias, fungos e protistas, habitantes comuns do trato gastrointestinal de todos nós, foram vistos, por muitas décadas, como parasitas indesejados. Mais recentemente, no entanto, o papel desses organismos tem se transformado. Continue Lendo “Os micróbios estão no comando!”

Nunca estamos realmente sozinhos

Em levantamentos sobre a biodiversidade, muitas regiões geográficas acabam sem uma boa amostragem das espécies que nelas vivem. As remotas ou com um número muito grande de espécies entram nessa lista. Outro local com uma diversidade ainda pouco descrita é, surpreendentemente, a nossa própria casa. Pesquisas recentes se concentraram na caracterização de comunidades bacterianas em ambientes fechados. Dentro de uma casa, cozinhas e banheiros geralmente têm comunidades microbianas distintas uns dos outros. Além disso, a composição de microorganismos em uma determinada casa (ou num cômodo específico dentro da casa) pode ser influenciada por quem a utiliza, e pela presença de animais de estimação. Esses ambientes criados por nós oferecem novos habitats não só para microorganismos como bactérias, archaea e fungos, mas também para artrópodes. Cientistas da Universidade Estadual da Carolina do Norte (NC State), em Raleigh, nos Estados Unidos, observando suas próprias casas, perceberam que os lares poderiam abrigar uma ampla diversidade de vida além dos habitantes humanos, plantas e animais de estimação. Eles então investigaram 50 casas na cidade de Raleigh em busca desses moradores e encontraram mais de mil espécies nas residências, incluindo inúmeras espécies de aranhas, formigas, besouros, ácaros, moscas e mosquitos (Figura 1). Dentre os artrópodes mais comuns estavam: besouros, aranhas, sciarídeos, formigas e cecidomiídeos (Figura 2). Em uma única residência, foram encontradas mais de duzentas espécies! Continue Lendo “Nunca estamos realmente sozinhos”