O (Real) Descobrimento da América

A América foi descoberta há 15 mil anos, sem grandes navegações, e por um povo relacionado ao atuais norte-asiáticos.

A América foi o último continente a ser povoado por nossa espécie. Várias questões sobre como se deu essa ocupação ainda são foco de intensos debates entre pesquisadores de diversas áreas, tais como antropologia, arqueologia e genética. No entanto, o que é um consenso entre todos é que os primeiros americanos chegaram ao continente americanos pela ponte de terra que unia Ásia e América, conhecida como Beríngia, durante a última glaciação.

A ocupação da América inicia-se há aproximadamente 15 mil anos, quando começa o derretimento das grandes geleiras formadas sobre o atual Canadá, no final da última glaciação. Tal derretimento leva a abertura de um corredor livre de gelo que permite a entrada dos primeiros americanos no continente, e força a saída dos mesmos da Beríngia, dado que essa região volta a estar submersa pelo mar de Bering.

Embora a história humana na América tenha tido seu início nesse período, a história dos ancestrais dos nativos americanos começa muito antes, e fora do continente americano. Entre 36 e 25 mil anos atrás, um grupo de siberianos começa a se diferenciar das demais populações existentes nessa região. Com a diminuição drástica da temperatura global, a Sibéria torna-se um lugar inóspito, extremamente frio e seco, o que leva as populações ali residentes a migrarem para regiões com climas mais amenos. Nesse contexto, aquele grupo de siberianos chega a Beríngia, um lugar frio e úmido, e que apresentava condições de suporte para manter tal população, com fauna e flora mais abundantes que a Sibéria no mesmo momento.

Devido ao bloqueio físico apresentado pelas geleiras no noroeste da América, a população de norte asiáticos que chega a Beríngia, instala-se nessa região e ali vive por um período de 5-8 mil anos. Durante esse tempo, os asiáticos que ali chegaram se diferenciam geneticamente, dando origem aos primeiros americanos. Estima-se que essa população tenha chegado a 5 mil habitantes no final da última glaciação.

Após a entrada na América pelos corredores entre as geleiras, os primeiros americanos se dispersam rapidamente dentro do continente. Em aproximadamente 2-3 mil anos, todos os ecossistemas americanos são povoados, desde as zonas frias do Ártico até as florestas tropicais, assim como as altas terras andinas e desertos.

Ao longo dos últimos 12 mil anos, a América tornou-se um continente vastamente povoado e culturalmente diverso. Impérios tecnologicamente muito desenvolvidos formaram-se na Mesoamérica e Andes, contanto com dezenas de cidade habitadas por milhares de indivíduos, com sistema de saneamento e agricultura extensiva. A Amazônia, até os dias atuais, apresenta uma das maiores diversidades linguísticas do mundo, com mais de 120 línguas.

Um estudo recente propôs que os nativos amazônicos são geneticamente distintos dos demais grupos nativos, pois geneticamente contariam com outro componente ancestral além do derivado dos primeiros americanos. Tal estudo encontrou uma pequena fração de ancestralidade austromelanésia do genoma de algumas tribos amazônicas, apontando para uma segunda leva migratória mais recente vinda do sudoeste asiático como formadora secundária da população amazônica. Nesse contexto, após o estabelecimento dos primeiros americanos na Beríngia, uma outra população teria lá chegado, e mais tarde, um ramo de primeiros americanos miscigenado com essa população teria migrado para o sul e se estabelecido na região amazônica. Tal hipótese ainda precisa de maior validação por meio de estudos envolvendo mais populações nativo americanas dessa região.

Esse achado daria suporte parcial ao Modelos de Dois Componentes Biológicos, que propõe, com base em dados craniométricos, que a América foi povoada por duas populações distintas que teriam entrado no continente em épocas diferentes pela Beríngia. No modelo proposto, uma primeira leva não norte-asiática teria entrado antes no continente, e seria formada por indivíduos com traços morfológicos mais parecidos aos austromelanésios do que asiáticos. Depois, uma segunda leva migratória, a dos primeiros americanos originados na Beríngia, teria repovoado a América. Os estudos genômicos, embora deem suporte à possibilidade da existência de duas levas migratórias, mostram sempre uma primeira onda principal de imigrantes vinda do norte asiático, a dos Primeiros Americanos, seguida de uma onda muito menor em número de indivíduos e que entra na América já miscigenada com a primeira.

As populações nativas da América são pouco estudadas do ponto de vista genético. Os nativos do Brasil, embora muito diversos linguística e culturalmente, são o grupo menos estudado dentre os nativos americanos. Estudos envolvendo genomas antigos e atuais estão em andamento visando responder questões relativas ao povoamento da América e à história evolutiva das populações de diversas regiões, incluindo o Brasil. Em poucos anos provavelmente teremos repostas mais robustas sobre as origens das populações nativas atuais, e quais os processos evolutivos que moldaram essas populações ao longo dos últimos 25 mil anos.

Tábita Hünemeier (USP)

PARA SABER MAIS:

Reinaldo José Lopes (2017) 1499: O Brasil antes de Cabral. Harpercollins, Brasil, 248pp.

http://livraria.folha.com.br/livros/historia/1499-brasil-antes-cabral-reinaldo-jose-lopes-1362847.html

Figura de abertura: Arte de Emiliano Bellini Fonte: https://darwinianasdotcom.files.wordpress.com/2018/04/e30bc-cover2bamerindians2b-tif.jpg

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