A História recontada pelo DNA

Nosso conhecimento sobre espécies extintas e civilizações passadas sempre foi embasado em dados fósseis e arqueológicos. A possibilidade de recuperar informação genética a partir de restos biológicos antigos, como ossos e dentes, tem aberto novas perspectivas para o estudo da história evolutiva humana, dando respostas que não poderiam ser obtidas por outras áreas do conhecimento que estudam nossas origens.

Em menos de 10 anos já foram estudados mais de 1100 genomas completos de hominídeos arcaicos, compreendendo um período de 430 mil anos. O sequenciamento desses indivíduos, ou populações, levaram a uma mudança importante na maneira como contamos a história da nossa espécie.

Durante décadas a origem dos humanos modernos resumiu-se a duas teorias mutuamente exclusivas: origem multirregional, segundo a qual a espécie humana teria surgido independentemente em diferentes regiões da Terra a partir de uma espécie ancestral que se expandiu a partir da África, o Homo erectus, e origem única, mais conhecida como out-of-Africa, para a qual a espécie humana teria surgido na África e depois migrado para outros continentes. A segunda teoria é amplamente aceita e suportada por dados genéticos. No entanto, os estudos genéticos de populações atuais, somados aos estudos paleontropológicos, nunca foram capazes de estabelecer se o Homo sapiens havia se miscigenado com outras espécies similares, como o Homo neanderthalensis, com o qual coexistiu temporalmente. Sendo assim, até pouco tempo, a evolução humana sempre havia sido discutida como se nossa espécie tivesse uma origem única e uma história restrita a si mesma, ou seja, não tivesse se misturado geneticamente com nenhuma outra.

O primeiro genoma completo de um hominídeo extinto, publicado em 2010, forçou a uma mudança nessa nossa construção sobre a origem da nossa espécie. Ao comparar o genoma de vários espécimes de neandertal com genomas de diferentes populações humanas, constatou-se que cerca de 4% dos genomas dos europeus e asiáticos atuais provem de um evento de miscigenação ancestral entre o Homo sapiens e o Homo neanderthalensis, ocorrida após a saída de nossa espécie da África. Pouco tempo depois, o sequenciamento de um outro genoma arcaico viria a complicar um pouco mais o que pensávamos sobre nossa história evolutiva. Algumas regiões do genoma do Homem de Denisova, uma espécie desconhecida escavada em uma caverna na Sibéria, foram encontrados nos genomas de aborígenes australianos, melanésios e outras populações de ilhas do sudeste asiático. Além disso, como comentado em um texto anterior do Darwinianas, outra introgressão do genoma denisovano em humanos possibilitou que os tibetanos pudessem habitar as terras altas da Ásia.

No que se refere às populações humanas antigas, os estudos paleogenômicos têm elucidado questões relativas à dinâmica de povoamento dos continentes após a saída da África. Um estudo envolvendo 51 genomas antigos de indivíduos que viveram entre 45 mil e 7 mil anos atrás revelou que os primeiros habitantes do continente europeu, que ali chegaram há cerca de 45 mil anos, pouco contribuíram para a constituição genética da população europeia atual. Os dados genéticos mostram também que há 37 mil anos quase todos os europeus descendiam de uma única população fundadora que havia iniciado sua expansão a partir do noroeste da Europa e que teria persistido durante a última glaciação. Há cerca de 14 mil anos, um segundo grupo, vindo do sudeste euroasiático, se espalhou pela Europa, substituindo grande parte da população anterior. Essa onda migratória nunca havia sido descrita, e parece ter sido fundamental para o surgimento de uma das características mais associadas ao fenótipo europeu, os olhos claros. Até a chegada desses indivíduos, que apresentavam pele escura e olhos claros, os europeus eram indivíduos de pele e olhos escuros. A pele clara chegou à Europa em uma terceira leva migratória agriculturalista, vinda do Oriente Médio há aproximadamente 7 mil anos.

Recentemente, pesquisadores suecos extraíram e sequenciaram o DNA de um esqueleto datado do século VIII. Tal esqueleto, escavado no século XIX, pertencia indubitavelmente a um indivíduo Viking detentor de poder na sociedade em que vivia, devido aos objetos encontrados junto a ele em seu sepultamento. Surpreendentemente, análises genômicas não identificaram a presença do cromossomo Y na amostra de DNA deste indivíduo, mostrando tratar-se de uma mulher guerreira Viking. Embora na cultura popular houvesse a representação de mulheres guerreiras Vikings, bem como algumas evidências esqueléticas que também apontavam para um indivíduo do sexo feminino, por quase dois séculos o esqueleto do guerreiro de Birka foi erroneamente creditado como masculino. Tal suposição se baseava simplesmente na concepção de arqueólogos que aculturaram o sepultamento Viking ao deduzir o papel social de cada sexo nessa civilização, supondo que, para os Vikings, somente homens poderiam ser guerreiros ou defensores solitários de suas sociedades.

Os exemplos citados acima mostram de diferentes maneiras como a possibilidade de estudar o passado por meio de nosso material genético levou a novas interpretações de antigos problemas, bem como a um melhor entendimento de como chegamos ao que somos hoje como espécie. Estudos com DNA antigo, de centenas de milhares de anos ou apenas alguns séculos, possibilitam que conheçamos alguns elos perdidos do nosso passado, sejam eles biológicos, históricos ou mesmo culturais. É provável que estejamos vivenciando o começo de uma grande mudança na forma como vemos e contamos nossa história, e de como interpretamos temporalmente os fatores e processos que nos desenharam como espécie.

Tábita Hünemeier

(Instituto de Biociências/USP)

 

PARA SABER MAIS:

Hagelberg et al. (2015) Ancient DNA: the first three decades. Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci. 370(1660).

Päabo, S. (2015) Neanderthal Man: In Search of Lost Genomes. Basic Books.

 

Imagem de abertura: https://en.wikipedia.org/wiki/Birka_female_Viking_warrior

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