Informação em um mundo de sentidos

Andamos ainda um pouco pasmos, aturdidos mesmo com a quantidade de informação que, de repente, passamos a estocar avidamente nas nuvens, na terra, nas águas, em qualquer lugar onde consigamos encaixar chips de silício. Guardamos as fotos de um jantar com amigos, os vídeos de momentos à sombra de coqueiros, os pores de sol de nossos dias, os amores de nosso caminho, replicamos a vida em todas as mídias, preservando-a cuidadosamente das areias do tempo, de nosso fatal esquecimento, colonizando com nossa fundamental presença este ecossistema virtual, essa recém nascida rede de computadores (um bebê, nem ainda 30 anos). Mesmo quando insistimos em gestar, parir e fazer crescer toda uma era informacional, muitos ainda se perguntam sobre o sentido de tanta informação. Poderá essa imensidão de informação, por exemplo, ser um dia encontrada por arqueólogos do futuro, alienígenas de um novo tempo, que conseguirão, quem sabe, dar finalmente um sentido a todo este frenesi informacional em que se debate a humanidade? Ou será o sentido deste frenesi finalmente vendido em pequenas parcelas mensais pelo bruto, cru e endeusado mercado econômico, que passará a saber mais que nós mesmos acerca de nossos mais recônditos sonhos e desejos?

Não é de hoje que se discute o sentido da informação em nosso mundo. Aliás, não é mesmo muito fácil saber o que venha a ser informação. Por incrível que pareça, é mais fácil medir a informação do que saber o que ela é. Bizarra situação esta, na qual concordamos sobre como medir algo que discordamos o que seja. Me explico. Tomemos um exemplo bastante simples, para não nos perdermos na complexidade do ser humano. Fiquemos com um clássico da comunicação animal: a dança das abelhas. Abelhas dançam dentro da colmeia para informar suas colegas sobre a posição, a distância, e a qualidade de uma fonte de néctar ou pólen recém descoberta. Não há dúvida de que estas informações sejam passadas para abelhas ingênuas pois, após observarem a dança, estas saem da colmeia para apenas pousar sobre uma florada, justamente aquela onde a abelha dançarina recém havia coletado néctar. Não há também dúvidas sobre como medir a quantidade de informação que a dançarina passou às colegas. Basicamente comparamos o comportamento errático de abelhas buscando alimento sem nenhuma informação prévia (sem presenciar a colega dançando), com o comportamento direcional daquelas buscando alimento após serem informadas. A quantidade de informação na dança é equivalente a quanto o comportamento da abelha informada deixou de ser errático: é uma medida do aumento da eficiência na busca de alimento que resulta da comunicação entre os indivíduos.

Até aí, como disse, há consenso. Todo mundo usa a teoria matemática da comunicação para medir em bits quanta informação foi passada entre os sujeitos. O consenso, no entanto, acaba aí, quando começa então uma saraivada de vozes dissonantes. O ponto central da discussão gira em torno da ideia de que esta medida de informação não mede o significado da informação, não leva em conta processos de interpretação da mensagem recebida. Por exemplo, podemos medir precisamente, usando esta teoria matemática da comunicação (esta medida da eficiência na transmissão de informação), quantos bits de informação foram perdidos durante uma transmissão telefônica cheia de chiado. Mesmo tendo esta medida assim precisa, não sabemos quanto do significado da mensagem se perdeu: pode ser que a mensagem, apesar de ruidosa, esteja plenamente compreensível do outro lado da linha, ou pode ser, ao contrário, que ela esteja completamente incompreensível, se a mesma quantidade de chiado tiver agora se concentrado em alguns poucos pontos fundamentais para a compreensão da fala. Assim, para alguns, esta medida precisa de informação seria basicamente inútil para avaliar o objetivo fundamental da transmissão de informação: o sentido da mensagem.

Dizer que uma mensagem não tem sentido não é algo inteiramente trivial. Por exemplo, uma mesma quantidade de tinta azul pode ser utilizada para criar sobre um quadro branco rabiscos sem sentido, ou rabiscos na forma de frases perfeitamente compreensíveis. Embora um rabisco não tenha sentido e o outro tenha, ambos têm a mesma quantidade de azul sobre branco, o mesmo nível de contraste luminoso e de brilho, que faz minha pupila se contrair em um mesmo grau, nos dois casos. Assim, podemos concluir que os dois ‘rabiscos’ informam igualmente minha pupila acerca de uma determinada quantidade de luz. O que isso implica? Por que estou aqui a dizer que a luminosidade informa minha pupila? Por acaso minha pupila dá significado para a luz? Sim, um dos trabalhos da pupila é, precisamente, defender-nos do excesso de luz: a pupila interpreta luz como risco ao funcionamento da retina, e se fecha ou se abre a depender da maior ou menor luminosidade do ambiente. Assim, o rabisco ‘incompreensível’ significa apenas muita luz (para a pupila/retina), enquanto o outro carrega dois níveis de significado: é ao mesmo tempo muita luz (para a pupila/retina) e palavra (para o cérebro). Muitas de nossas respostas não são conscientes e, mesmo assim, são adaptativas, úteis para a sobrevivência. Quando nosso corpo reage sempre de um mesmo modo a um determinado estímulo, é porque este estímulo tem sentido para este corpo. Uma pedra lançada em nossa direção provoca resposta automática de esquiva, uma batida certeira no joelho provoca um reflexo e nossa perna ‘chuta’ o ar, um odor pode nos fazer salivar: nosso corpo está repleto de interpretações, de respostas organizadas a estímulos do mundo. Estamos aqui alargando o conceito de significado, pois não apenas palavras, e sim o mundo em geral está provido de sentido para nós.

Mas se é assim, se o mundo está repleto de significados, haveria alguma informação sem sentido, ou o mundo seria todo ele significativo? Aqui é preciso cuidado, pois nem tudo tem sentido: o sentido sempre pode ser compartilhado. Quando dizemos que nossos delírios não têm sentido é porque, de certa forma, não podemos realmente compartilhá-los com os outros. De forma ainda mais simples, o mundo está repleto de informação que não processamos, seja porque não a percebemos (raios ultravioleta, radiações cósmicas), seja porque não nos despertam a atenção. Além disso, pessoas diferentes podem interpretar uma mesma informação de forma distinta, o que atrapalha imensamente a comunicação, o compartilhamento desta informação, pois não há um significado comum. É como se quiséssemos nos comunicar com um chinês falando português: sem uma linguagem compartilhada, não há comunicação possível.

Chegamos aqui a um ponto importante: o significado é uma interpretação compartilhada. Esta interpretação pode ser fruto de uma cultura compartilhada, como a língua que utilizamos. Pode também ser fruto de uma história evolutiva comum, como em espécies de morcegos predadores que naturalmente interpretam o canto de sapos como indicativo da proximidade de uma refeição. De um modo geral, podemos dizer que o sentido das coisas é dado na interação entre o indivíduo e o mundo, tanto quando há um aprendizado nesta relação com o mundo, quanto quando o mundo seleciona os indivíduos que respondem de forma adequada, que assim sobrevivem a este mesmo mundo.

Voltemos agora à discussão inicial, sobre nosso consenso acerca de como medir toda e qualquer informação (em bits), sem nunca fazer referência ao significado desta informação. Será que de fato estamos separando informação de significado quando medimos a resposta dos animais (humanos, ou quaisquer outros) a um estímulo? Se a resposta é fruto da interpretação que o animal faz, já não estaríamos medindo simultaneamente informação e significado? Explico. Quando comparamos o voo errático de abelhas desinformadas com o voo direto ao néctar de abelhas informadas pela dança de sua colega de colmeia, não estamos já medindo diretamente a interpretação que estas abelhas informadas dão à dança que viram? Parece claro que sim, pois se todas estão voando em uma mesma direção (para a florada recém descoberta), é porque deram à dança de sua colega uma mesma interpretação, é porque ‘entenderam’ a mensagem. Assim, quando medimos a resposta dos animais, estamos sempre medindo o sentido que dão às coisas do mundo, e como espécies diferentes interpretam diferentemente os objetos e acontecimentos, podemos dizer que cada espécie é um sentido no mundo.

Se é assim, se estamos sempre olhando o sentido das coisas através do comportamento dos animais, onde está a informação isolada do sentido? Este já é tema para uma outra publicação, mas antecipo aqui um sabor da resposta. Informação separada de sentido existe, pois informação não é nada mais que um outro nome para o mundo em si mesmo, para a organização dos elementos do mundo. Assim, o mundo não está cheio de informação: ele é informação. E além disso, quando medimos quantos bits há na dança da abelha, estamos falando precisamente de quantos sentidos, nas flores, elas são capazes de colher.

Mas e quanto ao mundo virtual em seu frenesi de informação sem sentido? Para isso, lembro de minha filha mais nova. Do alto de seus dois anos ela, muitas vezes, no lusco-fusco de um sol poente, começa a se agitar toda: fala disso daquilo e demais, brinca aqui acolá e além, anda sobe desce, pula corre rola roda, num frenesi surpreendente que apenas indica, para os exaustos pais, a proximidade de um imenso e inapelável sono. Ela então cai nos braços da mãe e mama, exausta e pacificada, pronta para os coloridos sonhos que a infância sempre brinda. Quem sabe não seja apenas isso. Quem sabe em seu frenesi, a humanidade esteja apenas indicando a proximidade de um longo e inevitável sono. Quem sabe os trilhões de trilhões de bits que avidamente armazenamos sejam apenas matéria de sonho, um sonho compartilhado de um novo mundo possível. Se o mundo é informação, quem sabe informação também seja um mundo. Quem sabe estes bits de sonho sejam o alvorecer de um mundo mais colorido, vívido, alegre e, claro, pleno de sentido.

Hilton F. Japyassu
Núcleo de Etologia e Evolução
Instituto de Biologia
Universidade Federal da Bahia

 

Para saber mais:

Floridi, L. (Ed.). (2016). The Routledge handbook of philosophy of information. Routledge.

Godfrey-Smith P, Sterelny K (2016) Biological information. In: Zalta EN (ed) The Stanford encyclopedia of philosophy. Summer 2016 edition. Stanford University, Stanford.

Mann, S. F. (2018). Attribution of Information in Animal Interaction. Biological Theory, 1-16.

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