Num mundo sem fatos, corremos riscos

Através da ciência geramos conhecimento sobre o mundo. A decisão de implementar políticas e tomar decisões negando esse conhecimento é uma característica do mundo “pós-factual”. Esta característica traz sérios riscos.

Através da ciência, aprendemos sobre o mundo à nossa volta. Ela não é a única maneira de aprender sobre o mundo, como ilustrado, por exemplo, pela riqueza de culturas indígenas ao redor do globo, incluindo as muitas presentes no território brasileiro. Contudo, a ciência certamente oferece respostas profundas e importantes sobre questões que atiçam nossa curiosidade: como os primeiros seres humanos chegaram à América do Sul? Que espécies de animais vivem escondidas em nossas casas e quintais? Mas, além disso, a ciência também gera conhecimento que é importante para nossas vidas, num sentido bastante concreto, respondendo a perguntas como: qual a relação entre desmatamento e secas? Ser afrodescendente altera suas chances de encontrar um doador de medula?

A ciência é responsável por muito do que conhecemos sobre o mundo. Esse sucesso tem muito a ver com a forma como a ciência é feita, algo que alguns chamam de “o método científico”. Essa expressão, tão frequentemente usada, tem um problema muito importante. É difícil oferecer uma definição única para a forma como cientistas trabalham, e certamente há mais do que “um método” científico. Sugerimos um outro caminho, que é pensar em algumas características que se mostram bastante gerais, quando examinamos  a forma como a ciência é feita.

Uma dessas características é o papel das observações nas práticas da ciência. As afirmações que cientistas fazem sobre o mundo devem ser, sempre, testáveis a partir de observações. Pode até ser que, na prática, não tenhamos ainda como fazer uma observação necessária para testar uma teoria ou hipótese científica. Mas essa observação deve ao menos ser possível. Em princípio, deve ser uma observação para a qual podemos vislumbrar como obtê-la.

As observações podem ser feitas de várias formas: olhando a natureza a olho nu, coletando dados com equipamentos sofisticados, ou realizando experimentos. Essas observações não falam por si só: elas precisam ser interpretadas à luz do conhecimento vigente, em alguns casos até mesmo para mostrar que este possui falhas e precisa ser atualizado.

Esse processo permite que façamos afirmações sobre o mundo com grande confiança. Por exemplo, podemos dizer que “as espécies evoluem ao longo do tempo” ou que “a lei da gravidade rege o comportamento da matéria”. Tratamos essas ideias como fatos, no sentido de que estas ideias são tão fortemente apoiadas que podemos usá-las como premissas na hora de analisar outros achados.

Repare que aquilo que chamamos de “fato” não é sinônimo de “verdade”. É apenas a versão mais confiável que dispomos do conhecimento, em determinado momento.  Fatos são o nosso ponto de partida para novas discussões.

O conceito de “verdade” é pouco informativo, no fundo, quando pensamos no conhecimento que nós, humanos, construímos sobre o mundo. Temos limites perceptivos e cognitivos óbvios, que nos impedem de saber a “verdade” sobre o mundo. Tudo que sabemos é dependente, além disso, de outros conhecimentos nossos, de uma maneira ou de outra, o que faz de nosso conhecimento uma rede interligada de ideias sobre o mundo, e não alguma revelação de como é o mundo “de verdade”. A boa nova, contudo, é que não é necessária a “verdade” para se ter conhecimento útil sobre o mundo. Bastam bons modelos e teorias, bem apoiados em observações, sendo que algumas dessas ideias são tão bem apoiadas que nos referimos a elas como “fatos”.

Claro, algumas instituições e grupos humanos se apropriam da verdade como se tivessem plena segurança de como é o mundo. A razão é óbvia: nada dá mais poder a uma instituição ou grupo do que dizer aos demais que ela sabe como é o mundo. Apropriar-se de uma suposta “verdade” é um artificio para manter poder. Apenas isso. Abandonar a ideia de conhecimentos que dizem a “verdade” sobre o mundo, em prol de pensar sobre teorias e modelos bem apoiados, é libertador, uma terapia filosófica que faz muito bem a um ser humano.

Fatos não são verdades, mas isso não é nada que deva minar nossa confiança sobre eles. Ao contrário, é uma marca da racionalidade humana respeitar os fatos ao pensar e decidir sobre o mundo. Ou seja, respeitar ideias que são muito bem apoiadas sobre observações nos torna racionais.

Como seria viver num mundo sem fatos? Essa provocação foi lançada por Jeremy Berg, editor-chefe da revista Science, num editorial publicado no ano passado. Segundo Berg, vivemos tempos perigosos, em que os fatos estão frequentemente sob ataque. Para ele, “colocar em dúvida as evidências bem documentadas, seja por cinismo ou ignorância, erode a percepção de que muitas proposições são fatos bem apoiados, enfraquecendo os alicerces sobre os quais discussões e políticas se apoiam”. Os riscos do mundo atual, um mundo “pós-factual”, da “pós-verdade”, estão aí bem colocados. Nada de bom nos aguarda se seguirmos na negação dos fatos, das ideias muito bem apoiadas que temos sobre o mundo, como tem se tornado comum nos últimos anos.

A negação de fatos virou, infelizmente, parte de nosso cotidiano. Vítimas frequentes são o conhecimento sobre o aquecimento global, o processo evolutivo, a importância da vacinação, o impacto dos seres humanos sobre o ambiente, para citar apenas alguns exemplos. Nosso presidente afirmou, por exemplo, que “somos o país que mais preserva o meio ambiente”, enquanto estudos indicam que ocupamos a 69o posição num ranque mundial de preservação ambiental, que foi elaborado de modo objetivo, tomando como base dez indicadores distintos.

Este é o fato. Mas no mundo dos pós-fatos, questionam-se ideias estabelecidas, fortemente apoiadas. Abandona-se a racionalidade, fazendo com que a humanidade siga como um trem desgovernado rumo a um colapso socioambiental. Seria de se esperar que fizessemos melhor, como espécie supostamente racional.

As consequências podem ser de fato muito graves. A discussão sobre o mundo em que vivemos vai para um atoleiro de opiniões, pois longe dos fatos, só elas é que importam. Ao escrever sobre política, ainda na Grécia clássica, Platão já se preocupava com isso, e foi dessa preocupação que emergiu a epistemologia, disciplina filosófica que estuda o conhecimento (episteme), tendo como questão central o modo como podemos diferenciá-lo da opinião (doxa). Como espécie que tem como principal meio de adaptar-se ao mundo sua capacidade de conhecer, o risco de pautar-se apenas pela opinião é imenso: deixamos de gerar ou de usar conhecimento sobre o mundo, e tomamos decisões que podem afetar a vida de milhares de pessoas sem recorrer a conhecimentos estabelecidos. As decisões podem piorar muito nossas vidas. E os likes que damos nas opiniões de uns ou de outros de nada irão adiantar.

Um exemplo dramático de como o impacto desse distanciamento dos fatos pode ser avassalador é bastante instrutivo para os dias de hoje. Escolhemos um exemplo que vem da África do Sul dos anos 1990. O presidente sul-africano de então já mostrava esse desprezo pelos fatos que tem se tornado a tônica de muitos governantes atuais. Thabo Mbeki negava que a AIDS era causada por uma infecção viral e, assim, deixou de adotar medidas preventivas apropriadas, inclusive recusando ofertas de medicamentos antivirais gratuitos. Mbeki deu as costas ao conhecimento vigente sobre a transmissão do HIV e se agarrou a ideias refutadas (ou seja, que não se sustentavam diante de observações), segundo as quais a AIDS não era uma doença de origem viral. A consequência, estimada por um grupo de Harvard, foram 330 mil mortes, além de milhares de crianças que nasceram já portadoras de HIV. O abandono dos fatos resultou num imenso sofrimento humano.

Abandonar os fatos pode realmente nos meter em grandes apuros. Um estudo publicado na Nature Climate Change processou dados de imagens de satélites de várias décadas e os cruzou com a distribuição de chuvas em diferentes regiões do Brasil. Os achados são preocupantes: a remoção da floresta e sua substituição por pastos têm consequências para a ciclagem da umidade. Isso se dá, em parte, como consequência da diferente “rugosidade” de superfícies florestais e de superficies desmatadas (que são comparativamente “lisas”, resultando num menor atrito com gases atmosféricos). O estudo mostrou que, à medida que as regiões desmatadas tornam-se maiores, mais a umidade se desloca sobre elas, acabando por alcançar as beiradas da região desmatada, onde encontram a mata e caem como chuva. A consequência é um padrão de chuvas muito mais localizado, tornando a maior parte da região desmatada suscetível a secas. Esse é o tipo de informação sobre o mundo que somente a pesquisa científica pode nos dar. E alguém teria de ser muito desinformado ou mal-intencionado para negar sua relevância. A consequência dos processos elucidados pela pesquisa científica é que as regiões desmatadas tornam-se áridas. Ignorar esses modelos pode obviamente comprometer a agricultura brasileira, pois o aumento da extensão do desmatamento para abrir novas fronteiras agrícolas poderá trazer junto um clima mais seco.

Seria importante, então, planejar melhor o uso do solo para agricultura e os padrões de supressão de vegetação nativa que seguem da expansão da fronteira agrícola, indo muito além dos lobbies e das opiniões, seja da bancada ruralista, seja de ONGs. Num caso como este, o que realmente importa é o conhecimento bem fundamentado, que frequentemente vem da ciência, assim como pode vir de outras fontes, como os conhecimentos dos agricultores. Ser racional num caso como esse é buscar teorias e modelos bem apoiados por observações para fundamentar nossas decisões sobre conhecimentos, não opiniões, lobbies, poder econômico, poder de fogo. Como o conhecimento não é “verdade” , nem pode ser, certamente ainda há riscos e incertezas envolvidas em nossas decisões (o que mostra o grande valor da precaução), mas certamente o risco é bem menor do que aquele que segue do muitos achismos e opiniões que se pode ter sobre o assunto.

Os cientistas nem sempre estão certos, e não esperam que todos concordem com suas teorias e achados. Aliás, a discordância entre membros da comunidade científica é uma realidade, e debates são frequentes. Esses debates não são vistos como problemas na ciência. Ao contrário, são muito bem vindos, porque nos desafiam a fundamentar melhor nossos conhecimentos. Mas não há debate científico que possa ser feito fora do domínio dos fatos. Num mundo livre de fatos, não há como sequer iniciar discussões. É muito importante que todas as pessoas entendam isso. Mais importante ainda que essa compreensão esteja presente nos tomadores de decisão.

Cientistas e professores podem cumprir um papel vital, ao demonstrar a necessidade de nos mantermos no mundo ancorado em fatos. Para fazer isso, precisamos deixar claro como o conhecimento científico é gerado. Precisamos reconhecer que há diferentes graus de confiança que depositamos em achados, teorias e modelos, alguns sendo altamente corroborados (ou seja, baseados em muitas observações, que podem até permitir que sejam tomados como fatos), e outros ainda cheios de incertezas. Precisamos mostrar que o conhecimento altamente corroborado – mesmo que correndo o risco de, algum dia, ser questionado— é no momento nossa melhor base para gerar novo conhecimento e para tomar decisões bem fundamentadas. Ele não pode ser ignorado, seja na hora de gerar novo conhecimento, seja na hora de implementar políticas, seja na hora de tomar decisões cotidianas (como vacinar ou não um filho ou filha).

Num mundo ancorado em fatos, o HIV não teria levado tantas vidas na África do Sul. Num mundo ancorado em fatos, as políticas ambientais para a Amazônia Brasileira precisam considerar os impactos sobre a pluviosidade da abertura de novos pastos. Num mundo ancorado em fatos, os beneficios da vacinação são muito mais evidentes do que riscos ilusórios, mal fundamentados em evidências, como o temor de que vacinas causem autismo. Num mundo ancorado em fatos, é perfeitamente razoável você questionar um cientista, desde que faça esse desafio se referindo a fatos. Caso você, caro leitor, ainda se preocupe em ser racional, deve perguntar-se a quem interessa um mundo livre de fatos. A quem interessa ignorar os riscos envolvidos em pautar decisões no maior lobby, no maior poder econômico? Há projetos que são construídos sobre um completo desrespeito aos fatos, mas que podem afetar muito as nossas vidas e as vidas dos outros seres com os quais dividimos o planeta. Cabe a cada um de nós perguntar se estes projetos levarão a humanidade ao sucesso ou ao colapso.

 

Diogo Meyer, Universidade de São Paulo

Charbel Niño El-Hani, Universidade Federal da Bahia

 

Para saber mais

Oreskes, Naomi. Merchants Of Doubt : How a Handful of Scientists Obscured the Truth on Issues from Tobacco Smoke to Global Warming. New York :Bloomsbury Press, 2011. Print.

Jeremy Berg. “Imagine a world without facts”, Editorial na Science

Imagem: Gabriel Sainz

6 comentários em “Num mundo sem fatos, corremos riscos”

  1. Adorei o texto! Muito interessante! A minha opinião é que parte de nossa cultura brasileira acaba afetando negativamente nessa questão. O país tem uma cultura religiosa muito forte, e ao mesmo tempo as pessoas conversam muito umas com as outras, apesar da cultura de redes sociais incentivarem as pessoas a se isolarem da família e conversarem com pessoas que não estão presentes de forma física.E isso influencia como as pessoas enchregam a realidade porque as pessoas principalmente jovens de 20-30 acabam adotando como real aquilo que dizem nas redes sociais. A questão da cultura religiosa,na minha opinião, é que as pessoas acabam adotando uma concepção forte da realidade baseada na fé irracional, e como somos seres humanos imperfeitos, existem aquelas pessoas que pregam e dizem “verdades” que na realidade são muita vezes opiniões irrefletida sobre o mundo ou essas “verdades” são tentativas de manipulação em massa utilizando técnicas de hipnose( Sugestões repetitivas sobre algo), firehosing (Enxurradas de mentiras nas redes sociais) e argumentos falaciosos sobre a realidade.

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    1. Prezado Paulo,
      Que bom que gostou do texto! Um ponto importante é que se deve ter muito cuidado com a diversidade das religiões e das pessoas religiosas. Nem todas são absolutistas em termos epistemológicos e pregam “verdades”. Por outro lado, há cientistas que também pregam verdades, de modo proselitista. Em suma, a análise tem de ser mais fina, ao se discutir religião. É fundamental tecer distinções, ter cautela nessa discussão.

      Quanto ao papel da internet e das redes sociais, sim, precisamos nos preocupar muito mais do que temos nos preocupado. Sugiro uma leitura:
      https://books.google.com.br/books/about/The_People_Vs_Tech.html?id=KbtTDwAAQBAJ&source=kp_cover&redir_esc=y

      Abs
      Charbel

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  2. Estimados Profs. Meyer e Charbel,

    Parabéns pelo texto: claro, coeso e impactante!
    Compõem o conjunto de evidências nefastas desse mundo pós-factual os ataques, sistemáticos e agressivos, aos atores e às instituições que materializam, de algum modo, a superação da “doxa” – aos pesquisadores e às ciências; aos professores e às escolas; aos jornalistas e à imprensa. O ceticismo se substitui pela negação; a ética, pela moral; o contraditório, pelo viés de confirmação.
    Ainda, de um ponto de vista epistemológico, preocupa-me como isso alcança as ciências sociais e humanas, onde o estatuto epistemológico (os fenômenos, as intencionalidades, os métodos, as análises, os critérios de legitimidade e validação) é distinto, menos compreendido, e, portanto, ainda mais relativizado. O que temos visto em pauta nas discussões sobre políticas públicas em saúde ou educação, por exemplo, é exemplar.

    Sigamos na luta!

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    1. Oi Marcelo,
      Bom encontrar sua mensagem aqui!
      Ficamos contentes que tenha gostado do texto.
      Sem dúvida, há algo de muito significativo no mundo atual em reiterados ataques às condições (preciosas, para a humanidade, não importa sua visão política) de distinguir episteme de doxa.

      Nada por acaso aí!

      Abraços
      Charbel

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  3. Caros Diogo e Charbel,
    Maravilha de texto, além de oportuno aos tempos sombrios, pautados no achismo e no obscurantismo, em que vivemos! Prazer imenso lê-los novamente.
    Abraços,
    Wly

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