Arqueogenética do Povo de Luzia

A arqueogenética tem ajudado a recontar histórias das populações humanas com dados moleculares, e recentemente essa abordagem foi utilizada para lançar luz sobre os Povos de Luzia.

Arqueogenética é o estudo da genética molecular para tentar entender o passado humano. Tais estudos têm contribuído para que possamos entender melhor a dispersão e diversificação humana nos diferentes continentes. A América foi o último continente povoado pela nossa espécie, há aproximadamente 15 mil anos, e pouco se sabe sobre como se deu o início da história humana em nosso continente. Várias questões relacionadas a esse assunto ainda estão em aberto, tais como: quem foram os primeiros americanos? De onde vieram? Eram uma ou mais populações as que entraram na América?

Uma peça importante nesse quebra cabeça que é a história americana é o sítio arqueológico da Lapa do Santo, localizado na região de Lagoa Santa no estado de Minas Gerais, e que registra a presença humana há 12 000 anos atrás. Tal sítio apresenta esqueletos humanos bem preservados e datados entre dez e nove mil anos atrás. A região de Lagoa Santa é também o sítio de origem de Luzia, reconhecida como a primeira brasileira, e amplamente estudada pelo Professor Walter Neves. Mais informações sobre a arqueologia dessa região podem ser encontradas neste texto.

Recentemente, um trabalho foi publicado apresentando dados genômicos de 49 esqueletos da América, dentre eles indivíduos do sítio da Lapa do Santo e de Sambaquis do litoral brasileiro. Tal trabalho contribuiu de forma significativa na caracterização da história populacional da América do Sul, pois pela primeira vez nos dá um panorama de como essas populações se relacionavam entre si no passado e qual sua ligação com as populações nativo americanas atuais.

Apesar de sua morfologia pouco similar a dos nativos atuais, como reconstruído na emblemática Luzia, os haplogrupos mitocondriais encontrados na população de Lapa do Santo são todos nativos americanos (A, B, C ou D).  Um dos haplogrupos encontrados foi o D4h3a, que ocorre atualmente em frequência muito baixa e apenas em populações localizadas próximas à costa pacífica do continente. Foi proposto, inclusive, que este haplogrupo daria suporte para a hipótese do povoamento da América através de uma rápida expansão costeira. Entretanto, os dados arqueogenéticos mostram que esse haplogrupo era muito mais comum no passado, estando presente em diversas populações antigas do continente tais como a representada pelos indivíduos da Lapa do Santo. O mitogenoma do esqueleto de Anzick-1 – associado à cultura Clóvis – também apresenta haplogrupo D4h3a reforçando a existência de afinidades genéticas entre Clóvis e Lagoa Santa.

Quando os cromossomos Y de cinco indivíduos de Lagoa Santa foram estudados, quatro deles apresentaram o haplogrupo raro Q1a2a e um deles o haplogrupo extremamente raro C2b, ambos euroasiáticos. Em conjunto com os dados referentes à linhagem materna, fica claro que a filogeografia dos marcadores uniparentais na América variou de forma considerável ao longo do Holoceno.

As análises genômicas deram apoio à hipótese que os indivíduos da Lapa do Santo e todos os demais grupos nativo americanos – antigos e atuais – compartilham uma origem única nas populações que vieram da Ásia para a América através da Beríngia há cerca de 20 mil anos atrás. Portanto, inexistem afinidades genéticas extra-continentais dos indivíduos da Lapa do Santo com populações da África ou da Austrália.

Quando foram comparados dados genômicos de populações atuais e antigas, foi constatada a existência de pelo menos quatro possíveis ondas migratórias dentro do continente Americano nos últimos 12 mil anos. A primeira onda migratória estaria exclusivamente associada às amostras mais antigas incluídas nas análises: Los Rieles no Chile (10.100 anos antes do presente [AP]), Lapa do Santo (9.600 AP) e Mayahak Cab Pek em Belize (9,300 AP). Esses indivíduos mais antigos apresentam forte afinidade com o indivíduo de Anzick-1, encontrado no noroeste dos Estados Unidos e que está associado a artefatos da cultura Clóvis. Portanto, os dados arqueogenéticos indicam a existência de um componente populacional, ou onda migratória, que inclui os grupos Clóvis, na América do Norte, e o Povo de Lagoa Santa, na América do Sul, que teve uma ampla dispersão geográfica durante o início do Holoceno, mas que deixou de existir há cerca de 9000 anos trás.

Uma segunda onda migratória é aquela que caracteriza a quase totalidade das populações nativas atuais da América do Sul. Os dados arqueogenéticos indicam que essa população encontra seus representantes mais antigos nos indivíduos dos sítios arqueológicos de Cuncaicha (9.000 AP) e Lauricocha (8.600 AP) no Peru, Arroyo Seco 2 (7.700 AP) na Argentina, Saki Tzul (7.400 AP) em Belize e Laranjal (6.700 AP) no Brasil. Portanto, os dados disponíveis indicam que após aproximadamente nove mil anos atrás existe uma expressiva continuidade populacional em distintas regiões do continente sul americano.

Outras duas ondas migratórias são encontradas na América do Sul. Uma delas aparece na região central dos Andes por volta de 4.200 anos atrás e tem sua origem na América Central. Por fim, possível evidência de afinidades extra-continentais com populações australoasiáticas foram confirmadas para os grupos amazônicos Suruí e Karitiana, e para um indivíduo da região de Lagoa Santa presente em outra publicação sobre o assunto. No entanto, a frequência encontrada nos indivíduos de 10 mil anos é a mesma que é encontrada nos amazônicos atuais (entre 2-3%), o que descartaria uma onda migratória vinda de outra região para a América.

Faltam muitas peças ainda nesse imenso quebra-cabeças que é a história humana na América, mas as novas peças incorporadas pelos estudos de arqueogenética abrem  importantes possibilidades para estudos futuros.

André Strauss – MAE /USP

Tábita Hünemeier – IB /USP

 

PARA SABER MAIS:

 

Quando havia índios em Lagoa Santa (2018) Revista Pesquisa FAPESP.

 

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