Sobre cães, humanos e genética

Humanos e cães se relacionam há dezenas de milhares de anos. Durante esse tempo foi estabelecida uma parceria que deixou marcas nos genomas de ambas as espécies.

Entre 20 e 40 mil anos antes do presente, ocorreu no noroeste do continente europeu um evento que marcaria a história evolutiva de duas espécies. Um pequeno grupo de lobos-cinzentos (Canis lupus) aproximou-se de um grupo de caçadores-coletores e passou a segui-lo. Iniciou-se assim o processo de domesticação dos cães (Canis lupus familiaris).  Ao longo de tal processo, esses animais foram vitais para o sucesso na expansão de nossa espécie ao redor do globo. A inclusão de matilhas de cães nos grupos caçadores-coletores trouxe duas vantagens imediatas: a primeira foi a possibilidade de aviso prévio à chegada de predadores, e a segunda foi o auxílio nas estratégias de caça de grandes animais. Os cães ajudavam os caçadores a encontrar a presa com mais facilidade, bem como encurralavam a presa para que ela pudesse ser abatida.

A história evolutiva dos cães pode ser dividida didaticamente em dois estágios. O primeiro se refere ao contexto mencionado anteriormente, no qual ocorreu a aproximação entre as duas espécies, cães e homens. O segundo é relativo aos dois últimos séculos, quando foram criadas raças com características específicas agradáveis aos humanos. Esse segundo estágio levou a uma grande diversificação morfológica dentro da espécie, resultante do intenso processo de seleção artificial ao qual a mesma foi submetida. Atualmente são reconhecidas pelo American Kennel Club cerca de 190 raças de cães, nenhuma das quais existia há 150 anos. Continue Lendo “Sobre cães, humanos e genética”

Vivendo nas alturas

Nenhuma espécie expandiu-se geograficamente de maneira tão rápida e eficiente como a humana. Ao longo do processo expansionista, nossa espécie teve que adaptar-se a ambientes extremamente hostis para sobreviver. O presente texto é o primeiro de uma série sobre as adaptações genéticas que permitiram o sucesso expansionista do Homo sapiens.

Charles Darwin, em sua obra seminal “ A Origem das Espécies”, postula a evolução das espécies por meio da seleção natural. Nesse contexto, um organismo capaz de obter recursos do ambiente de modo mais eficiente, torna-se mais apto a sobreviver e a passar seus genes para a próxima geração, aumentando a frequência da característica que confere a aptidão na população.

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Brasis: Diversidade e Evolução da População Brasileira

O Brasil é um país de extensão territorial continental, formado pela mistura de diversos povos que aqui se encontraram. Estudos genéticos recentes estão tentando resgatar detalhes desses processos migratórios e da dinâmica de miscigenação que moldou a população atual brasileira.

A população brasileira se distingue da dos demais países latino americanos. Tal diferenciação é resultado do intrincado processo de colonização e ocupação do território brasileiro. Historicamente, são três os principais fatores que tornam a população brasileira única dentro da América Latina. Continue Lendo “Brasis: Diversidade e Evolução da População Brasileira”

O BOM, O MAU E O FEIO

O mau uso da teoria evolutiva e a interpretação simplista de correlações estatísticas tem possibilitado o ressurgimento de estudos acadêmicos que relacionam características físicas com condutas morais ou éticas.

O número de piratas vem diminuindo desde o século XVIII, simultaneamente com o aumento da temperatura global. Dito de outra maneira, existe uma relação inversa entre o número de piratas no planeta e o aumento da temperatura global. Tal fato poderia ser explicado de três maneiras: Continue Lendo “O BOM, O MAU E O FEIO”

Coevolução Gene-Cultura

Estudos recentes sugerem que mudanças na estrutura social e cultural das sociedades humanas podem promover e acelerar sua evolução biológica.

Práticas culturais têm alterado drasticamente as condições ambientais e comportamentais de nossa espécie, promovendo mudanças rápidas e marcantes em nosso genoma. Um ramo da genética de populações teórica, conhecido como Teoria da Coevolução Gene-Cultura, estuda os fenômenos evolutivos que surgem das interações entre os sistemas de transmissão genéticos e culturais, mostrando através de diversos exemplos como a transmissão cultural pode modificar o processo de Seleção Natural em humanos. Cultura é entendida, nesse contexto, como o conjunto de informações capazes de modificar o comportamento dos indivíduos e adquiridas pelos membros de um grupo através de ensinamento, imitação e outras formas de transmissão social. Continue Lendo “Coevolução Gene-Cultura”