O conhecimento e a verdade

O conhecimento científico não é estático. Aquilo que ensinamos hoje pode ser alterado amanhã, à medida que novos estudos são feitos. Conviver com essas mudanças faz parte da atividade científica. No estudo da biologia evolutiva não é diferente.

Uma ideia comum sobre a ciência é a de que ela é uma atividade que “busca a verdade”. A intuição por trás dessa afirmação é a seguinte: cientistas buscam explicações que devem estar, de alguma forma, em conformidade com a forma como o mundo funciona. Esse “encaixe” entre as explicações que damos e o mundo que nos rodeia seria, segundo essa concepção, uma instância de “encontrar a verdade”. Continue Lendo “O conhecimento e a verdade”

A estética do lugar e a pesquisa científica

Como as ideias e práticas dos cientistas são moldadas pelos lugares em que o trabalho científico ocorre?

Em artigo publicado em 2015, o historiador da biologia Keith Benson aborda um assunto que, como ele próprio afirma, merece maior atenção, em suas palavras, a “estética ambiental”. Como um cientista é afetado pelo lugar que investiga? Como sua interação com os locais nos quais realiza sua pesquisa transforma a ciência que ele ou ela faz? Continue Lendo “A estética do lugar e a pesquisa científica”

Modelos invisíveis: receita para problemas no ensino de genética

Relacionar ideias da genética clássica, genética molecular e genética atual é uma das principais dificuldades do ensino de genética, sobretudo quando diferentes modelos do gene e de suas funções se tornam invisíveis, perdendo-se de vista sua história

Um dos conceitos mais fundamentais da genética, gene, é entendido de modo fundamentalmente diferente na genética clássica (que se ocupa dos padrões de herança observados em cruzamentos e genealogias ou heredogramas), genética molecular (que tem como foco a análise de moléculas de DNA e seu processamento pelas células) e genética atual (caracterizada por uma compreensão cada vez maior dos genomas). Essas mudanças de significado do gene tornam difícil sua compreensão pelas pessoas, incluindo professores e estudantes que estão ensinando e aprendendo genética. As dificuldades aumentam muito quando se ensina genética de uma maneira que não é informada histórica e filosoficamente, em particular, quando não se ensina abordando explicitamente modelos construídos ao longo da história dessa ciência. Em postagem anterior, tratamos da distinção de dois significados de gene, “gene-P” e “gene-D”. Aqui, retornamos ao assunto, explorando-o de outras direções. Continue Lendo “Modelos invisíveis: receita para problemas no ensino de genética”

Desníveis de organização global

Sociedades humanas globalizadas precisam de novos modelos matemáticos para regular seu crescimento e ancorar seu livre sonhar

Com o advento das redes sociais, migramos definitivamente de uma sociedade formatada por classes sociais, para outra formatada por grupos identitários fragmentários, constituídos a partir de fatores de coesão relativamente transitórios. Continue Lendo “Desníveis de organização global”

Repensando o espaço entre pesquisa e implementação

A aproximação da pesquisa e das práticas de gestão e tomada de decisão requer que repensemos nossos conceitos, mas não pode limitar-se a isso!

A chamada “lacuna pesquisa-prática” ou “pesquisa-implementação” é um problema reconhecido em várias áreas do conhecimento, da educação à biologia da conservação, da medicina à psicologia. Ele é tão generalizado que restringi-lo a uma área única, por exemplo, reclamando que pesquisa educacional não tem mudado o ensino em nossas escolas, já é sintoma de uma visão limitada, míope, do problema. Continue Lendo “Repensando o espaço entre pesquisa e implementação”

Sinais com significados dependentes do contexto são símbolos usados por macacos

Em macacos, um mesmo sinal tem significados diferentes em contextos distintos e pode referir-se a algo abstrato: um padrão de subordinação nas relações sociais

Nossa capacidade de comunicação simbólica é sem dúvida impressionante. Basta olharmos para qualquer interação comunicativa entre humanos para ficarmos espantados com o que qualquer um de nós pode fazer com a linguagem. Esta capacidade é definidora de quem nós somos e está por trás de muito do que nossa espécie realizou ao longo da história. Continue Lendo “Sinais com significados dependentes do contexto são símbolos usados por macacos”

Primatas não-humanos poderiam ter comunicação simbólica?

Embora seja comum admitir a existência de comunicação simbólica somente em humanos, uma série de estudos indica que animais não-humanos talvez utilizem símbolos

Esta postagem será a primeira de uma série que farei no Darwinianas sobre a possibilidade de comunicação simbólica em animais não-humanos. Começarei por um artigo muito interessante, publicado há quase uma década no periódico BioSystems pelos pesquisadores brasileiros Sidarta Ribeiro, Angelo Loula, Ivan de Araújo, Ricardo Gudwin e João Queiroz, Symbols are not uniquely human (Símbolos não são unicamente humanos). Continue Lendo “Primatas não-humanos poderiam ter comunicação simbólica?”