A estética do lugar e a pesquisa científica

Como as ideias e práticas dos cientistas são moldadas pelos lugares em que o trabalho científico ocorre?

Em artigo publicado em 2015, o historiador da biologia Keith Benson aborda um assunto que, como ele próprio afirma, merece maior atenção, em suas palavras, a “estética ambiental”. Como um cientista é afetado pelo lugar que investiga? Como sua interação com os locais nos quais realiza sua pesquisa transforma a ciência que ele ou ela faz?

Benson discute, em seu artigo, os estudos ecológicos realizados na zona entremarés, na qual animais são parte do dia encobertos pela água do mar, parte do dia expostos ao sol. Desde o começo do século XX, com os estudos do ecólogo marinho Victor Shelford, até os estudos experimentais de Robert Paine e Joseph H. Connell, até os dias de hoje, a zona entremarés tem sido um dos ambientes mais estudados pela ecologia. Ela tem desempenhado papel importante tanto na constituição de uma tradição de pesquisa experimental nesta ciência, quanto na investigação do papel de interações entre organismos, como competição e predação, no estabelecimento da estrutura das comunidades ecológicas.

Parte importante desses esforços de pesquisa ocorreu na costa oeste dos Estados Unidos, e Benson se pergunta, então, que papel este espaço natural teve na constituição do trabalho de investigação que foi ali realizado. Não se trata, claro, de algo particular da zona entremarés daquele litoral. Podemos perceber o papel importante desempenhado por outras paisagens na teorização e nas práticas científicas de diversos pesquisadores. O ecólogo vegetal Frederic Clements, que elaborou a primeira teoria reconhecida como tal na história da ecologia, visando explicar as causas da estrutura das comunidades vegetais, possivelmente não teria seguido pelos mesmos caminhos teóricos e empíricos se não tivesse trabalhado nos campos do estado norte-americano de Nebraska ou no Pico Pikes, nas Montanhas Rochosas. O que dizer dos caminhos de Darwin se ele nunca tivesse visitado a Cordilheira dos Andes, onde encontrou tantos fósseis importantes para suas reflexões sobre tempo geológico e evolução, ou se não tivesse ido viver em sua casa em Down, que se converteu num verdadeiro laboratório em família? Ou do impacto das dunas do médio São Francisco, no povoado de Icatu/Ibiraba, município de Barra, Bahia, sobre zoólogos como Miguel Treffaut Rodrigues, que ali descreveu, com seus alunos, um impressionante caso de especiação, no qual lagartos e serpentes intimamente aparentados são encontrados em dunas dos lados opostos do rio, mostrando de maneira bastante evidente a origem de novas espécies à medida que o rio separou populações ancestrais.

Estes e muitos outros casos similares nos convidam a fazer perguntas como as que Benson fez: qual o papel da interação entre o lugar onde fazemos a pesquisa biológica e nós, biólogos, como participantes ativos, e não observadores passivos? Como nossas perspectivas são transformadas por esta interação? Poderia o lugar onde fazemos pesquisa ser, de fato, um agente da pesquisa? Muito ainda precisa ser feito para respondermos a questões como estas, compreendendo melhor como a natureza que é experienciada e vivida pelo cientista influencia o modo como ele pensa suas questões de pesquisa e desenvolve suas práticas de investigação. A esta altura, não dispomos sequer de métodos bem estabelecidos para fazer este estudo do papel do lugar na pesquisa.

Benson sugere um método que, ao que me parece, fornece um bom ponto de partida: recorrer à literatura de ficção e não-ficção, buscando autores que estiveram eles próprios imersos nas paisagens nas quais cientistas também mergulharam, analisando as maneiras como as paisagens foram abordadas literariamente, relacionando-as com o modo como as práticas de pesquisa foram nelas desenvolvidas. Podemos já imaginar um estudo sobre as práticas de pesquisa nos sertões brasileiros dialogando com a magistral obra Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa.

Esse método deve funcionar tanto melhor quanto mais materiais do punho de um cientista estiverem disponíveis, para além dos artigos científicos. Isso porque artigos, particularmente após a Segunda Grande Guerra, ficaram por demais padronizados na forma de sua escrita para dar espaço aos tipos de reflexões e comentários dos quais necessitamos, para interpretar as relações dos cientistas com os lugares nos quais trabalham e as consequências dessas relações para suas ideias e práticas.

Um exemplo mencionado por Benson sugere a fertilidade dessa estratégia. De um lado, temos John Steinbeck, célebre escritor norte-americano, ganhador do Prêmio Pulitzer com a clássica novela realista The Grapes of Wrath (“As Vinhas da Ira”, 1939) e do Prêmio Nobel de Literatura (1962), “por seus escritos realistas e imaginativos, combinando humor simpático e aguda percepção social”. Do outro, Edward (Ed) Ricketts, biólogo marinho e ecólogo norte-americano, que foi um dos primeiros cientistas a realizar estudos longitudinais da zona entremarés, indo além dos curtos estudos de verão que predominavam anteriormente, feitos em períodos de somente 2 a 3 meses, em estações biológicas. George MacGinitie e Ed Ricketts foram pioneiros em realizar estudos de longo-termo, necessários para compreender a formação e estrutura das comunidades da zona entremarés. Ricketts estudou comunidades desta zona por 20 anos antes de publicar seu clássico Between Pacific Tides (“Entre as Ondas do Pacífico”, 1939). Um engajamento continuado e profundo com a zona entremarés levou Ricketts a avançar, ao longo de sua carreira, de uma visão da comunidade como estruturada apenas por fatores físicos, como o choque das ondas, o substrato e a exposição devida às marés, a uma visão que incluía interações ecológicas, como competição e predação, como fatores importantes. Ele deu passos cruciais, assim, na direção de explicações mais recentes da estrutura de tais comunidades, que, na esteira do trabalho de pesquisadores como Robert Paine, Joseph H. Connell, Paul Dayton e Bruce Menge, consideram tanto causas físicas (abióticas) quanto ecológicas (bióticas).

Mas o que Steinbeck e Ricketts têm a ver um com o outro? Devido à sua amizade, eles realizaram juntos uma expedição de barco de seis semanas (de 11 de Março a 20 de Abril de 1940, em plena Segunda Guerra Mundial) para coletar espécimes marinhos em vários locais do Golfo da Califórnia (também conhecido como Mar de Cortez). Em 1951, eles publicaram juntos Sea of Cortez (“Mar de Cortez”), mais tarde intitulado The Log from the Sea of Cortez. A influência do escritor sobre o biólogo marinho, e vice-versa, e dos locais visitados sobre ambos foi notável. De um lado, Sea of Cortez é considerado um dos mais importantes trabalhos de não-ficção de Steinbeck, precisamente pelo modo como Ricketts deixou uma impressão no pensamento do escritor, que se faria sentir em muitas personagens centrais de sua ficção. De outro, não podemos deixar de ver nas ideias que aparecem em Sea of Cortez marcas que depois se farão presentes nas reflexões filosóficas de Ricketts, no que ele denominava sua filosofia de breaking through (numa tradução livre, florescimento).

Nos escritos de Ricketts, há uma dimensão estética, um sentimento pelo ambiente, pelo lugar, que, embora não seja raro em cientistas que atuam no campo, raramente perpassa nos seus artigos. Ricketts considera que, na busca pela elucidação dos padrões de zonação característicos da costa pacífica, era possível ter uma experiência estética como aquela que experimentamos ao escutar composições como as de Bach e Beethoven, ou ao ler autores como Jeffers e Li Po (também conhecido por outros nomes, como Li Bo e Li Bai).

Como comenta Benson, trabalhar na zona entremarés permitiu ao cientista ver de maneira diferente a natureza, alcançar um modo distinto de compreender os padrões naturais. Surge aí uma dimensão da ciência raramente apresentada às pessoas, que seria capaz de mudar o entendimento do que é fazer ciência das pessoas em geral, dos professores de ciências, dos estudantes que estão lá na educação básica nem sempre tão animados para aprender ciências. É também uma dimensão da ciência tão próxima de quem a pratica! Não é mesmo algo que sentimos constantemente quando estamos numa floresta, ou num recife, ou numa comunidade tradicional fazendo pesquisa?! Mas onde é que escrevemos sobre isso? Onde é que deixamos as pessoas saberem dessas experiências tão profundas?

A resposta é que raramente deixamos transparecer para as pessoas esta face quase oculta da ciência. É tempo de nos deixarmos ver em nossa experiência humana como cientistas, expondo a epifania de alcançar a compreensão, quando logramos fazê-lo, este momento em que o entendimento floresce e nos sentimos alçados às alturas. Apreciação estética e sentimento espiritual são também marcas do entendimento, não importa se não seja evocado em ciência qualquer entendimento de caráter sobrenatural. Compreender é alcançar o belo e realizar-se em nossa própria superação! Ricketts expressa esse sentimento em sua filosofia de breaking through. Vale a pena buscarmos fazer o mesmo.

Quando me viro para o passado, posso ver muitas destas experiências moldando o que eu viria fazer e pensar em minha prática científica. O primeiro estudo dentro de uma mata na Fazenda Madruga, da família de meu querido amigo Fábio Bandeira, em São Francisco do Conde…. tão notável para o menino de laboratório que os sonhos ficaram verdes por uma semana. Em meados dos anos 1990, foram deixadas em mim marcas indeléveis pelas viagens de campo para as dunas do médio São Francisco, em Icatu/Ibiraba, onde meu amigo Pedro Rocha havia descoberto uma nova espécie de roedor, Trinomys yonenagae, e onde o ecossistema singular, com tantas espécies endêmicas, é de tirar o fôlego. Algum tempo depois, em meados dos anos 2000, eu, Pedro, Angelo C. Loula (UEFS) e Antonio Lopes Apolinário Jr. (UFBA) iriamos nos lançar na aventura de modelar o ambiente das dunas no jogo eletrônico educacional Calangos, onde buscamos propiciar aos estudantes a experiência de ser um lagarto nos mares de areia do São Francisco. E, hoje, trabalhando em Siribinha e Poças, no Município do Conde, Bahia, com suas comunidades tradicionais de pescadores, seus belos ambientes estuarinos, suas espécies ameaçadas (como o Caranguejeiro ou Gacici, Buteogallus aequinoctialis), são as mesmas transformações e os mesmos sentimentos que sinto, moldando hoje quem eu serei amanhã, como cientista e, acima de tudo, como pessoa.

São estas pegadas que deixamos no solo dos locais onde estudamos, e essas sementes que os locais e as pessoas deixam em nós, que deveriam estar mais presentes numa ciência mais humana e mais bela que poderíamos apresentar às pessoas. Sim, com suas teorias, seus modelos, suas abstrações que propiciam tanto poder explicativo e, em variados graus, poder preditivo, mas também com os seres humanos e as paisagens que interagem para produzir os frutos da ciência.

Charbel N. El-Hani (Instituto de Biologia/UFBA)

PARA SABER MAIS:

Benson, K. R. (2015). Marine biology, intertidal ecology, and a new place for biology. History and Philosophy of the Life Sciences 36: 312-320.

Bizzo, N. & Bizzo, L. E. M. (2006). Charles Darwin in the Andes. Journal of Biological Education 40: 68-73.

Keynes, R. (2001). Annie’s Box: Charles Darwin, His Daughter and Human Evolution. Fourth Estate.

McIntosh, R. P. (1986). The Background of Ecology: Concept and Theory. Cambridge: Cambridge University Press.

Ricketts, E. F. (2006). Breaking Through: Essays, Journals, and Travelogues of Edward F. Ricketts. University of California Press.

Ricketts, E. F., Calvin, J. & Hedgpeth, J. W. Between Pacific Tides (5a. Ed.). Stanford, CA: Stanford University Press.

Rocha, P. L. B. (1995). Proechimys yonenagae, a new species of spiny rat (Rodentia: Echimyidae) from fossil sand dunes in the Brazilian Caatinga. Mammalia 59: 537-550.

Rodrigues, M. T. (1996). Lizards, snakes, and amphisbaenians from the quaternary sand dunes of the middle Rio São Francisco, Bahia, Brazil. Journal of Herpetology 30: 513-523.

Steinbeck, J. (1951). The Log from the Sea of Cortez. Penguin.

Foto de abertura: Dunas do Médio São Francisco, em Ibiraba/Icatu, onde o biólogo Pedro Rocha, professor do Instituto de Biologia, Universidade Federal da Bahia, descobriu uma nova espécie de roedor no final dos anos 1980, Trinomys yonenagae, conhecido como rabo-de-facho. Foto tirada por Charbel El-Hani em Junho de 2009.

4 comentários em “A estética do lugar e a pesquisa científica”

  1. Massa demais o texto.
    Enquanto lia, pensava que tipo de relação humana eu tenho com os locais que realizo com meus estudos. Foram algumas áreas diferentes ao longo da minha carreira até aqui. Há muito dos lugares em mim, mas pouco coloco sobre eles – e sobre a importância deles – nos estudos que publico. Valeu pela reflexão…

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    1. Oi Emilio
      Que massa! É este sabor da ciência que temos de passar mais para as pessoas… Como cientistas se engajam com lugares e pessoas, não são seres frios planejando conquistar o mundo, como o Cérebro…

      Abs
      Charbel

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