Simulando a seleção natural na sala de aula

Metodologias participativas são boas alternativas para o ensino de evolução. Estudo testa duas simulações da seleção natural bastante usadas e mostra que ambas são igualmente eficazes na promoção da aprendizagem.

É bem conhecido de todos que a escola tende a ser magistrocêntrica: o professor costuma estar no centro do processo de ensino, deixando pouco espaço para atividade do estudante. Metodologias transmissivas ainda predominam, nas quais o professor explana durante tempos longos e cabe aos alunos exercitarem duas habilidades: escutar e ter paciência. Evidências empíricas e saberes docentes convergem em mostrar que essa abordagem tende a não ser bem-sucedida. As pessoas com frequência aprendem menos do que o esperado. Continue Lendo “Simulando a seleção natural na sala de aula”

Modelos invisíveis: receita para problemas no ensino de genética

Relacionar ideias da genética clássica, genética molecular e genética atual é uma das principais dificuldades do ensino de genética, sobretudo quando diferentes modelos do gene e de suas funções se tornam invisíveis, perdendo-se de vista sua história

Um dos conceitos mais fundamentais da genética, gene, é entendido de modo fundamentalmente diferente na genética clássica (que se ocupa dos padrões de herança observados em cruzamentos e genealogias ou heredogramas), genética molecular (que tem como foco a análise de moléculas de DNA e seu processamento pelas células) e genética atual (caracterizada por uma compreensão cada vez maior dos genomas). Essas mudanças de significado do gene tornam difícil sua compreensão pelas pessoas, incluindo professores e estudantes que estão ensinando e aprendendo genética. As dificuldades aumentam muito quando se ensina genética de uma maneira que não é informada histórica e filosoficamente, em particular, quando não se ensina abordando explicitamente modelos construídos ao longo da história dessa ciência. Em postagem anterior, tratamos da distinção de dois significados de gene, “gene-P” e “gene-D”. Aqui, retornamos ao assunto, explorando-o de outras direções. Continue Lendo “Modelos invisíveis: receita para problemas no ensino de genética”

Para entendermos os celacantos precisamos da evolução

Não compreender evolução é tão grave quanto insistir que a Terra é plana. Tratamos disso anteriormente, distinguindo entre compreender evolução e acreditar em evolução. Hoje ilustramos os prejuízos para uma conversa proveitosa sobre evolução quando não há compreensão suficiente.

Basta fazer uma busca no Google com as palavras-chave “celacanto” e “evolução” para encontrar uma série de textos e imagens de sites e outros veículos criacionistas ou vinculados ao design inteligente (DI) afirmando que o celacanto seria evidência contrária à teoria darwinista, porque seria um fóssil vivo, não teria evoluído, teria a mesma forma que tinha há milhões de anos. Este é um bom exemplo de como uma conversa sobre ciência é desencaminhada por uma falta de compreensão da teoria evolutiva, ou, pior, por uma intenção de distorcer a compreensão para defender uma posição tomada de antemão. De um lado ou de outro, perdemos uma oportunidade de discutir uma maneira legítima de explicar a diversidade e as adaptações das espécies, fruto do trabalho de centenas de cientistas através de pelo menos um século e meio, e muito bem apoiada por evidências, um critério fundamental para a aceitação de uma teoria científica. Desse modo, perdemos, ademais, uma oportunidade de nos enriquecermos culturalmente, não obstante no que acreditemos ou não. Continue Lendo “Para entendermos os celacantos precisamos da evolução”

A evolução da linguagem e a continuidade mental entre animais não-humanos e humanos

Não há um abismo entre animais não-humanos e humanos, mas proximidade e continuidade: nossa cognição e linguagem evoluíram a partir de fenômenos encontrados em outros animais, como o deslocamento mental no tempo e espaço, e a teoria da mente.

Se já é difícil as pessoas perceberem que sem a ciência seus celulares ou a internet ou as TVs de LED, plasma etc. não existiriam, ou suas expectativas médias de vida poderiam não passar dos 40 anos (que era a expectativa média de vida no século XIX), mais fácil ainda é ser esquecido o enorme legado da ciência para nossa compreensão de nós mesmos e do mundo ao nosso redor. Continue Lendo “A evolução da linguagem e a continuidade mental entre animais não-humanos e humanos”

De onde vieram os animais?

Hipóteses do biólogo evolutivo Thomas Cavalier-Smith nos ajudam a pensar sobre a origem dos animais a partir da transição de coanoflagelados, um grupo de protistas, a esponjas

Sem a evolução da multicelularidade e, mais especificamente, dos animais, claro que eu não estaria aqui escrevendo este texto. Nós não estaríamos aqui. Uma interpretação evolutiva das origens (dos organismos multicelulares, dos animais, dos humanos etc.) sempre causa controvérsia, mas pode haver pouca dúvida de que ela nos mostra como podemos ser (e somos) bem sucedidos em explicar questões tão fundamentais quanto a das origens de uma perspectiva naturalista – isto é, que não admite quaisquer outras causas que não causas naturais.

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Repensando o espaço entre pesquisa e implementação

A aproximação da pesquisa e das práticas de gestão e tomada de decisão requer que repensemos nossos conceitos, mas não pode limitar-se a isso!

A chamada “lacuna pesquisa-prática” ou “pesquisa-implementação” é um problema reconhecido em várias áreas do conhecimento, da educação à biologia da conservação, da medicina à psicologia. Ele é tão generalizado que restringi-lo a uma área única, por exemplo, reclamando que pesquisa educacional não tem mudado o ensino em nossas escolas, já é sintoma de uma visão limitada, míope, do problema. Continue Lendo “Repensando o espaço entre pesquisa e implementação”

Primatas não-humanos poderiam ter comunicação simbólica?

Embora seja comum admitir a existência de comunicação simbólica somente em humanos, uma série de estudos indica que animais não-humanos talvez utilizem símbolos

Esta postagem será a primeira de uma série que farei no Darwinianas sobre a possibilidade de comunicação simbólica em animais não-humanos. Começarei por um artigo muito interessante, publicado há quase uma década no periódico BioSystems pelos pesquisadores brasileiros Sidarta Ribeiro, Angelo Loula, Ivan de Araújo, Ricardo Gudwin e João Queiroz, Symbols are not uniquely human (Símbolos não são unicamente humanos). Continue Lendo “Primatas não-humanos poderiam ter comunicação simbólica?”

Explorando a matéria escura do genoma

Investigações recentes sobre RNAs não-codificantes seguem revelando aspectos intrigantes do genoma

Mês passado fiz um paralelo entre a proposta da matéria e da energia escura na cosmologia com achados na genética, biologia molecular e genômica indicando que nosso entendimento do genoma foi construído com base em menos de 2% das sequências de nucleotídeos do DNA, que correspondem aos genes que codificam proteínas. Continue Lendo “Explorando a matéria escura do genoma”

Dois significados de “gene” e o determinismo genético

A confusão entre dois significados distintos de gene favorece ideias deterministas genéticas.

É muito comum nos depararmos com a afirmação de que foi encontrado algum “gene para” uma característica. Essa afirmação não tem lugar apenas quando falamos de doenças monogênicas (que envolvem somente um gene), como, por exemplo, a fenilcetonúria, mas também em relação a características complexas, como inteligência, agressividade ou até mesmo felicidade. Para a maioria das pessoas, quando falamos em um gene “para” alguma característica, estamos dizendo que o gene determina a característica. Ou seja, estamos assumindo uma visão determinista genética. Continue Lendo “Dois significados de “gene” e o determinismo genético”

Para conservar a natureza, é preciso confiança

Três estudos mostram que relações de confiança com comunidades locais têm papel importante na conservação ambiental

Neste semestre, estamos envolvidos num tipo inovador de disciplina, criado na Reitoria de Felippe Serpa, na Universidade Federal da Bahia: Atividade Curricular em Comunidade e Sociedade (ACCS). A ideia é engajar estudantes, sob orientação de docentes, em iniciativas que lidam com uma diversidade de questões sociais. É um bom exemplo de como é falsa a ideia de que as universidades públicas brasileiras contribuem pouco para a sociedade. Continue Lendo “Para conservar a natureza, é preciso confiança”