A evolução da linguagem e a continuidade mental entre animais não-humanos e humanos

Não há um abismo entre animais não-humanos e humanos, mas proximidade e continuidade: nossa cognição e linguagem evoluíram a partir de fenômenos encontrados em outros animais, como o deslocamento mental no tempo e espaço, e a teoria da mente.

Se já é difícil as pessoas perceberem que sem a ciência seus celulares ou a internet ou as TVs de LED, plasma etc. não existiriam, ou suas expectativas médias de vida poderiam não passar dos 40 anos (que era a expectativa média de vida no século XIX), mais fácil ainda é ser esquecido o enorme legado da ciência para nossa compreensão de nós mesmos e do mundo ao nosso redor.

Nosso tema hoje tem relação profunda com nosso entendimento de quem somos. Somos seres imersos na linguagem. A linguagem é parte essencial de nossa experiência no mundo. Mas de onde veio a linguagem humana? Ela constitui um abismo entre nós e os outros animais?

Michael C. Corballis se debruça sobre este problema em artigo de opinião prestes a ser publicado em Trends in Cognitive Sciences. Rios de tinta já foram derramados a este respeito, mas a visão dominante ainda é aquela que encontra defensores tão distintos quanto a Bíblia e Noam Chomsky: a linguagem seria uma faculdade exclusiva de nossa espécie, uma mudança profunda no pensamento que teria surgido subitamente em nossa história, sendo responsável pelo que alguns denominam “a revolução humana”. A linguagem constituiria, assim, um abismo entre humanos e não-humanos. E, de modo central para nossa discussão, ela seria primariamente um modo de pensamento, com a comunicação sendo um produto colateral.

Um dos problemas dessa visão é que ela não é consistente com o pensamento evolutivo desde Darwin. Não se espera, desta perspectiva, que estruturas complexas evoluam subitamente. Mesmo que a evolução não ocorra de modo tão gradual quanto certo darwinismo bastante ortodoxo sustenta, o surgimento súbito de uma faculdade tão complexa quanto a linguagem não encontra amparo no pensamento evolutivo.

Qual seria a alternativa? Concordo com Corballis que a alternativa é a origem da linguagem a partir de processos mentais que se originaram de modo gradual, como a capacidade de se deslocar mentalmente no tempo e no espaço, por exemplo, planejando o futuro, e a capacidade de deslocar-se para as mentes de outros, compreendendo ao menos em parte como outros membros da espécie estão se sentindo ou o que estão pensando.

Uma visão comum entre os que defendem o súbito surgimento da linguagem é o de que ele corresponderia a uma mudança no próprio modo de pensar. Em particular, esta seria uma mudança para o pensamento simbólico, a constituição de uma linguagem interna, como Chomsky a denomina, que seria a base fundamental para o pensamento simbólico humano. Seria, então, a partir de um processo de externalização – da capacidade de expressar o que se passaria no pensamento – que as diversas linguagens humanas teriam sido formadas. Em contraste marcante com esta diversidade, a linguagem interna seria comum a todos os humanos, estando subjacente à “gramática universal” de que nos fala Chomsky. Aqui no Darwinianas, a teoria de Chomsky já foi discutida em postagem anterior.

Para quem lida com psicologia da aprendizagem, esta é a visão que encontramos em autores como Piaget, de que as funções mentais superiores se formam nos humanos primeiro internamente e depois são externalizadas por meio da linguagem e da comunicação sociais.

Mas e se partirmos de uma perspectiva oposta? E se em vez de primariamente um modo de pensar, a linguagem fosse primariamente um modo de se comunicar? Isso ressoa com nossas intuições, já que usamos a linguagem praticamente todo o tempo como um meio de comunicação. Estamos aqui na companhia de autores como Vygostky e Leont’ev, para quem as funções mentais superiores surgem primeiro no plano social e então são internalizadas, constituindo um plano interno de funcionamento que deve ser sempre entendido dialeticamente. Na aprendizagem, a dinâmica do processo se dirige para o interior do sistema, mas não constitui um plano interno que se dissocia do plano social. No uso do conhecimento adquirido, a dinâmica do processo se dirige para o exterior do sistema, mas nunca constitui uma externalidade completa, que prescinde do plano interno. Estas ideias, que elaboramos em livro publicado em 2014, guardam relação, ao que nos parece, com as propostas de Corballis.

Como bem argumenta este autor, quando a linguagem é entendida como comunicação, e não pensamento, a dificuldade de explicar sua evolução diminui. Isso porque a construção de uma explicação evolutiva da linguagem é facilitada pela existência de faculdades em animais não-humanos que podem ser relacionadas à linguagem humana, e podem então ser mobilizadas para explicar sua evolução. Podemos vislumbrar uma trajetória evolutiva e gerar hipóteses testáveis com base em faculdades de outros animais, inclusive de comunicação simbólica, como discutimos em postagens anteriores de Darwinianas, de 03/01/2017 e 20/12/2016.

Como uma fonte de conhecimento, a linguagem como meio de comunicação cria um efeito de retroalimentação positiva que conduz ao acúmulo de conhecimento ao longo do tempo e à distribuição do conhecimento entre indivíduos. Quanto mais conhecimento se tem, mais conhecimento se pode ter, graças à comunicação: aí está o papel da linguagem na revolução humana.

Uma das capacidades mentais críticas para a natureza produtiva da linguagem é a capacidade de referir-se a eventos em outros tempos e lugares, cada vez mais reconhecida como fundamental para sua evolução. Isso depende da habilidade de imaginar eventos em outros tempos – lembrar do que fizemos ontem, planejar o que faremos amanhã – e lugares – antecipar o que faremos ao chegar em certo local. Uma vez considerada atributo unicamente humano, a capacidade mental de deslocar-se para outros tempos e espaços tem sido evidenciada em outras espécies, tão distintas quanto pássaros do gênero Aphelocoma (scrub jays), ratos e chimpanzés.

Além disso, suas bases neurais têm sido elucidadas, tornando possível perceber seu compartilhamento entre animais humanos e não-humanos. No cérebro humano, o hipocampo é ativado quando lembramos conscientemente episódios passados ou imaginamos eventos futuros, mesmo fictícios. Em ratos, “células de lugar” (place cells) no hipocampo registram a localização do animal no espaço e às vezes traçam trajetórias mesmo quando o animal foi removido do ambiente onde se encontrava. Estas trajetórias às vezes são repetições de trajetórias seguidas anteriormente pelo animal, numa ou noutra direção, às vezes trajetórias que não foram seguidas, podendo ser inclusive antecipações de trajetórias futuras. Este fenômeno pode servir de base para deslocamentos mentais através de um mapa espacial registrado na cognição do animal, tanto para diante quanto para trás no tempo. Como argumenta Corballis, estes deslocamentos podem ser uma capacidade comum em animais que se movem fisicamente no espaço e precisam saber onde estão, onde estiveram e para onde irão em seguida. A distribuição desta capacidade na árvore da vida é, assim, muito mais ampla do que cientistas imaginavam pouco tempo atrás.

Vale ressaltar, então, que o hipocampo parece estar envolvido na linguagem em humanos, enquanto em ratos a atividade deste componente cerebral exibe propriedades similares às da linguagem. Por exemplo, ela envolve a atividade de módulos que podem ser combinados de milhares de maneiras, comparáveis a um alfabeto a partir do qual todas as palavras de uma linguagem podem ser geradas. Ou seja, a imaginação espacial compartilha com a linguagem a propriedade de ser generativa. Para Corballis, isso mostra que a gramática generativa proposta por Chomsky pode não ser uma propriedade única da linguagem, mas depender, antes, da natureza generativa da imaginação espaço-temporal. Como criaturas profundamente espaciais, podemos ter pensamentos não-espaciais – como o raciocínio e a lógica – que são, no fundo, baseados em metáforas espaciais, e não em símbolos abstratos. Se houver uma gramática universal, sua universalidade pode não depender de qualquer estrutura inata da linguagem, mas da experiência comum do mundo espaço-temporal. Esta é uma sugestão de Corballis que provavelmente não soará muito palatável para um defensor de Chomsky. Mas ela soa bem aos meus ouvidos.

Outra capacidade mental discutida por Corballis é a teoria da mente, a capacidade de compreender o que os outros sentem, pensam e acreditam, fundamental para nossa vida em sociedade e nosso uso da linguagem. Afinal, a linguagem requer – particularmente, em sua função comunicativa – que os interlocutores tenham alguma ideia sobre o que se passa na mente um do outro e que cada um saiba que o outro sabe disso. De outro modo, é muito difícil, se não impossível, estabelecer o significado das palavras, que tipicamente possuem vários significados.

A presença de uma teoria da mente em animais não-humanos tem sido controversa desde quando foi sugerido em 1978 que chimpanzés poderiam exibi-la. Trinta anos depois, a controvérsia permanece. Em 2008, a evidência disponivel parecia indicar que chimpanzés compreendem objetivos, intenções, percepções e conhecimentos dos outros, mas não suas crenças e desejos. Contudo, estudos mais recentes sugeriram que grandes primatas antecipam em que local um humano acreditará, equivocadamente, que um objeto está escondido. Ou seja, eles passam naquele que é por vezes considerado o teste padrão da teoria da mente, o teste da crença falsa.

Achados dessa natureza indicam que alguns animais não-humanos são capazes de cognição mais avançada do que se costuma pensar, contrapondo-se à ideia de um abismo entre nossa espécie e outros animais, sugerindo continuidade evolutiva, e não uma súbita mudança que teria dado origem aos humanos, com sua linguagem e cognição características. É claro que a teoria da mente e os deslocamentos mentais no tempo e no espaço podem ser mais amplos e sofisticados em humanos do que em outras espécies, devido à própria linguagem comunicativa. Mas isso parece ser mais uma consequência da evolução de faculdades presentes em linhagens ancestrais, e não evidência de uma súbita origem da linguagem e da mente humanas.

De acordo com essa visão, a diferença mais profunda entre nossa espécie e outros animais não reside no pensamento em si mesmo, mas em nossa capacidade de comunicar nossos pensamentos. Essa capacidade de comunicação leva a uma perspectiva inflacionada sobre a cognição humana, exagerando sua diferença e exclusividade em relação à cognição dos outros animais. De modo consistente com uma perspectiva evolutiva que lança luz sobre quem nós somos e como nos relacionamos com o restante do mundo vivo, em vez de fossos e abismos medievais emerge uma visão de proximidade e continuidade entre nossa espécie e os outros animais, de uma evolução gradual da cognição e da linguagem humanas a partir de fenômenos anteriores como o deslocamento mental no tempo e espaço, e a teoria da mente.

Com esta perspectiva, podemos ter a satisfação de não nos sentirmos mais tão sozinhos no mundo e uma empatia renovada em relação às criaturas com as quais compartilhamos este pequeno planeta azul. Esta é uma perspectiva capaz de nos tornar melhores do que temos sido na nossa relação com os outros seres.

Charbel El-Hani (UFBA)

PARA SABER MAIS:

Call, J. & Tomasello, M. (2008). Does the chimpanzee have a theory of mind? 30 years later. Trends in Cognitive Sciences 12: 187-192.

Christiansen, M. H. & Chater, N. (2008). Language as shaped by the brain. Behavioral and Brain Sciences 31: 489–558.

Clayton, N. S., Bussey, T. J. & Dickinson, A. (2003). Can animals recall the past and plan for the future? Nature Reviews Neuroscience 4: 685-691.

Corballis, M. C. (no prelo). Language Evolution: A Changing Perspective. Trends in Cognitive Sciences.

Fitch, W. T. The Evolution of Language. Cambridge: Cambridge University Press.

Hauser, M. D., Chomsky, N. & Fitch, W. T. (2002). The Faculty of Language: What Is It, Who Has It, and How Did It Evolve? Science 298: 1569-1579.

Janmaat, K. R. L., Polansky, L., Ban, S. D. & Boesch, C. (2014). Wild chimpanzees plan their breakfast time, type, and location. PNAS 111: 16343-16348.

Krupenye, C., Kano, F., Hirata, S., Call, J. & Tomasello, M. (2016). Great apes anticipate that other individuals will act according to false beliefs. Science 354: 110-114.

Pinker, S. (2010). The cognitive niche: Coevolution of intelligence, sociality, and language. PNAS 107: 8993-8999.

Premack, D. & Woodruff, G. (1978). Does the chimpanzee have a theory of mind? The Behavioral and Brain Sciences 4: 515-526.

Imagem de abertura: Chimpanzés no Instituto de Pesquisa sobre Primatas da Universidade de Kyoto superam humanos em jogos competitivos estratégicos. A foto mostra Aymu, então com 5 anos e meio de idade, realizando um teste de memória. (Primate Research Institute of Kyoto University). Reproduzido de http://www.latimes.com/science/sciencenow/la-sci-sn-chimp-game-theory-humans-20140605-story.html

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