Para entendermos os celacantos precisamos da evolução

Não compreender evolução é tão grave quanto insistir que a Terra é plana. Tratamos disso anteriormente, distinguindo entre compreender evolução e acreditar em evolução. Hoje ilustramos os prejuízos para uma conversa proveitosa sobre evolução quando não há compreensão suficiente.

Basta fazer uma busca no Google com as palavras-chave “celacanto” e “evolução” para encontrar uma série de textos e imagens de sites e outros veículos criacionistas ou vinculados ao design inteligente (DI) afirmando que o celacanto seria evidência contrária à teoria darwinista, porque seria um fóssil vivo, não teria evoluído, teria a mesma forma que tinha há milhões de anos. Este é um bom exemplo de como uma conversa sobre ciência é desencaminhada por uma falta de compreensão da teoria evolutiva, ou, pior, por uma intenção de distorcer a compreensão para defender uma posição tomada de antemão. De um lado ou de outro, perdemos uma oportunidade de discutir uma maneira legítima de explicar a diversidade e as adaptações das espécies, fruto do trabalho de centenas de cientistas através de pelo menos um século e meio, e muito bem apoiada por evidências, um critério fundamental para a aceitação de uma teoria científica. Desse modo, perdemos, ademais, uma oportunidade de nos enriquecermos culturalmente, não obstante no que acreditemos ou não.

Vejamos um texto sobre o celacanto que está sendo distribuído pelo whatsapp (entre muitos). Uma imagem de um fóssil do celacanto é acompanhado pelo texto: “Aqui temos um fóssil de um celacanto!! Os evolucionistas diziam que eles começaram a existir há 400 milhões de anos!!” Em seguida, temos a imagem de um celacanto vivo e o texto: “Os evolucionistas diziam que o celacanto havia sido extinto há 65 milhões de anos atrás (sic.)!” E, por fim, a suposta chave de ouro do argumento: “E o que é pior: depois de 400 milhões de anos você nota alguma diferença entre o celacanto vivo e o fóssil????” Disso conclui-se: “Não seja idiota como eles!! Não caia nessa canoa furada!!!! Macroevolução não existe!!!” O argumento explora, pois, duas supostas falhas da perspectiva evolutiva: (a) os cientistas achavam que o celacanto havia se extinguido, mas estavam enganados; (b) o fóssil do celacanto e sua forma atual são semelhantes, sugerindo que não teria havido mudanças e, portanto, não haveria macroevolução.

“Nós contra eles”: estratégia que só gera incompreensão

Quando um argumento é construído nesse estilo “nós contra eles”, é evidente que não há qualquer esforço de compreensão. Esse é um estilo que encontramos com bastante frequência entre pessoas que estão em algum tipo de cruzada. A perspectiva dogmática não é exclusividade de criacionistas. Ela pode se manifestar inclusive entre seus mais ferozes críticos! No vídeo “O vírus da fé”, vemos Richard Dawkins, por exemplo, expressando ideias com as quais concordamos, como a de que “nas aulas de ciências, por que não se pode simplesmente ensinar ciência?”, ao colocar em questão a ideia de que se deveriam ensinar ideias oriundas de outras formas de conhecimento, como as ideias criacionistas, num espaço destinado ao ensino de conhecimentos científicos, como a teoria darwinista da evolução. Mas, ao mesmo tempo, vemos Dawkins não fazendo esforço para compreender as pessoas religiosas, especialmente aquelas que não são tão fundamentalistas quanto a maioria das pessoas com as quais conversa ao longo do vídeo. Não é razoável assumir, por exemplo, que pessoas religiosas tenham uma mente que se encontra num estado de infância permanente, como ele afirma no mesmo vídeo. Pode-se até dizer que, ao escolher algumas das pessoas religiosas mais fundamentalistas que jamais escutamos, ele comete uma séria injustiça com muitos, quiçá a maioria dos religiosos, que têm uma visão muito mais liberal de suas religiões e de seus textos sagrados.

Não é muito difícil parecer razoável diante dos argumentos fundamentalistas, por vezes assustadoramente radicais, que se descortinam ao longo do vídeo. O mesmo não acontece, contudo, quando Dawkins se vê diante de um clérigo anglicano que tem uma visão muito mais liberal – e, no nosso entendimento, razoável – de sua religião. Ao se deparar com alguém que assume uma interpretação mais sofisticada dos textos que considera sagrados do que um fundamentalista, Dawkins simplesmente questiona a efetiva adesão do clérigo à sua religião, coloca em xeque sua legitimidade como seguidor desta religião, chega a dizer que um crente moderado trai tanto a razão quanto a fé. Este é um velho truque retórico: se não consegue bater seu adversário no argumento, tente desqualificá-lo. Se é preciso caricaturar todos os religiosos como fundamentalistas para ganhar o jogo retórico, faça-o.

No entanto, estas são atitudes que minam a possibilidade de uma conversa produtiva sobre religião. O que a postura de Dawkins mostra, sobretudo, é a negação a um esforço de compreensão, como uma das estratégias numa cruzada de “nós” contra “eles”. O exemplo de Dawkins é importante para nós porque mostra que esta é uma negação também encontrada entre cientistas, o que nos ajuda a deixar claro que evitamos uma visão maniqueísta e simplista da situação. É um exemplo que ajuda a evitar a simples oposição ciência-religião, que nutre os argumentos do próprio Dawkins, mas não descreve apropriadamente as relações entre estas instituições humanas ao longo da história ou nos dias de hoje.

Argumentos panfletários sobre o celacanto

Isso nos leva de volta aos argumentos sobre o celacanto presentes em panfletos criacionistas e vinculados ao DI. Ali temos a mesma retórica cheia de ódio que opõe “nós” e “eles”, minando qualquer tentativa de entendimento. Temos a mesma oposição simplista ciência-religião que nos priva de uma boa conversa sobre esses dois modos – cada qual legítimo em contextos específicos – de interpretar o mundo e nossas vidas. Não, isso não é o mesmo que assumir algum relativismo radical, a ideia de que qualquer ideia é tão boa quanto qualquer outra. Ideias são ferramentas e, como ferramentas, elas funcionam ou não funcionam, ou, no mínimo, funcionam melhor ou pior. A ciência não é uma ferramenta melhor do que filosofia estética, por exemplo, para dar conta da experiência do belo, da experiência que temos ao apreciarmos, digamos, um quadro de Monet, ou Wutherings Heights, de Kate Bush. O criacionismo não é uma boa ferramenta para entender o celacanto. Não há sequer sombra de qualquer argumento que traga dificuldade ao pensamento evolutivo nas conjecturas curiosas em torno do celacanto que reproduzimos acima.

O que estes textos panfletários sobre o celacanto fazem não é oferecer uma crítica ou uma reflexão. Eles manipulam o conhecimento e ignoram informações cruciais, para criar uma caricatura do conhecimento científico. Ao optar por essa rota, consideramos que eles afrontam não só os cientistas, mas muitas pessoas que são religiosas mas aspiram a entender melhor o mundo da ciência, sem ver nisso qualquer ameaça à sua fé. Os autores desses textos sobre o celacanto não estão sendo fieis aos próprios seguidores do criacionismo que podem ter dificuldade de entender evolução e somente são confundidos por seus argumentos. É completamente razoável ficar intrigado sobre como algo que era considerado extinto pode subitamente aparecer vivo, ou achar difícil entender como algo vivo pode ser aparentemente tão parecido com um fóssil muito antigo. Nenhum cientista se incomodaria em responder a perguntas como estas, porque elas possuem um fundo de curiosidade legítima. Ficar intrigado diante do celacanto revela uma curiosidade saudável.

Mas, se imaginarmos uma pessoa religiosa com tal curiosidade, o caminho escolhido por esses textos sobre o celacanto é fornecer informações equivocadas e argumentos falaciosos que inviabilizam um melhor entendimento. Em vez de arregaçar as mangas e dar explicações mais apropriadas e completas acerca dos celacantos, o esforço é só negativo: trata-se de rejeitar ideias evolutivas com qualquer retórica possível.  Mas mesmo que os autores desses textos sobre os celacantos que circulam como manifestos pró-criacionismo ou DI tivessem a intenção de oferecer uma crítica da visão evolutiva sobre estes organismos, eles conseguiriam? Os argumentos que apresentam nos sugerem que possivelmente não. Há também considerável falta de compreensão de evolução em sua abordagem dos celacantos. Este é o ponto que queremos agora destacar, para ilustrar a importância de entender evolução.

Os celacantos sob uma lente evolutiva

Vejamos alguns pontos chave dos panfletos criacionistas para, a partir deles, podermos enxergar como a ciência explica os celacantos.

Note-se, primeiro, que esses panfletos perdem de vista que há duas espécies de celacanto atualmente vivendo no planeta, Latimeria chalumnae, encontrada na costa da África oriental, e Latimeria menadoensis, encontrada na Indonésia. A Ordem Coelacanthiformes apresenta 5 famílias e 22 gêneros, incluindo uma série de espécies extintas. Não faz sentido se referir simplesmente ao “celacanto”, inquirir se ele se modificou ou não desde milhões de anos atrás e concluir que macroevolução não ocorre. Isso mostra que quem escreveu esses argumentos não sabe sequer a forma como o termo “celacanto” está sendo usado. Estamos falando de muitas espécies de um clado que teve um dia maior representatividade na fauna terrestre e que hoje está reduzido a duas espécies. A própria existência desse clado é um fenômeno macroevolutivo e não se pode falar destes organismos como se estivéssemos falando de uma única linhagem, perguntando se alguém vê diferença ou não.

Caso tenhamos nesses panfletos o engano de tratar celacantos como se constituíssem uma única espécie, isso implicaria que nada do que se está dizendo tem a ver com padrões evolutivos acima do nível da espécie e, assim, não faria sentido tirar conclusões sobre macroevolução. Contudo, se os autores entendem que os celacantos não constituem uma única espécie, já que o nome vulgar é usado para designar várias espécies, todo o assunto diz respeito à macroevolução e, logo, não faz sentido, tampouco, concluir que o que se está dizendo mostraria que macroevolução não existe. De um modo ou de outro, temos equívocos sérios, que mostram a necessidade de compreender evolução para se construir um raciocínio apropriado, mesmo que seja para dizer que não se acredita em evolução.

Segundo, a descoberta de celacantos vivos não é algum tipo de “prova” da fragilidade do conhecimento evolutivo. Ao contrário, mostra conhecimento vivo e mutável, um campo que produz novas evidências e, mais do que isso, diante das evidências, se mostra capaz de explicá-las e de integrar os celacantos na explicação da evolução dos seres vivos. Por exemplo, o estudo do genoma de cinco celacantos resultou numa série de informações importantes sobre a evolução desse clado e sobre a transição dos vertebrados da água para a terra. A diversidade genética entre os indivíduos era muito baixa, o que sugere que o tamanho das populações das quais se originaram era muito pequeno ou sua taxa de evolução, muito lenta. Quando o genoma do celacanto africano foi divulgado, uma conclusão importante foi, de fato, a de que genes codificadores de proteínas evoluíam de modo mais lento do que observado em tetrápodes, superclasse de vertebrados terrestres dotados de quatro membros. Aliás, uma taxa de evolução lenta explicaria porque, numa apreciação grosseira, baseada apenas na morfologia externa dos organismos, não poderíamos detectar diferenças visíveis numa fotografia de celacantos fósseis e viventes. Celacantos não são, estritamente falando, fósseis vivos: eles seguem evoluindo como todo e qualquer ser vivo, como mostram, por exemplo, diferenças genéticas entre populações de celacanto da costa oriental africana. Isso mostra como a expressão “fóssil vivo” pode levar a descaminhos do raciocínio e que, talvez, seja melhor evitá-la.

Na análise dos genomas de celacantos, foram encontrados muito genes que codificam proteínas receptoras olfatórias ou de feromônios, substâncias químicas secretadas ou excretadas que mediam respostas sociais de organismos de uma mesma espécie. Mas o que é mais interessante é que estes receptores exibem propriedades características de receptores encontrados em tetrápodes, que cumprem papel na detecção de moléculas trazidas pelo ar. O estudo dos celacantos, ao se ocupar não apenas da morfologia externa, mas também de outros aspectos, como a fisiologia, nada fala contra a teoria evolutiva. Ao contrário, estudando o genoma de celacantos, podemos trazer à tona as relações evolutivas entre estes peixes antigos e os animais que fizeram a transição da terra para o mar.

Por fim, temos mais um equívoco evidente nas aventuras de defensores do criacionismo e do DI em torno dos celacantos. Não é na forma externa que se detecta necessariamente mudança evolutiva. Muitas mudanças evolutivas estão continuamente ocorrendo em diversos níveis do fenótipo, por exemplo, em sequências de nucleotídeos do DNA, em sequências de aminoácidos em proteínas, na fisiologia dos organismos, em sua anatomia interna, e mesmo em detalhes da morfologia externa que ninguém poderia ver comparando uma foto de um fóssil com uma foto de um celacanto vivo.

Estudos sobre celacantos têm dado vez a avanços na elucidação de como vertebrados aquáticos ancestrais deram origem, por meio da evolução, a animais terrestres. Tudo isso é ignorado nos panfletos criacionistas ou vinculados ao DI, que cometem verdadeiros abusos com os pobres celacantos, enquanto objetos do entendimento biológico. O que podemos concluir então? A disposição de negar uma ideia sem nem mesmo entendê-la direito não leva a nada além de obscurantismo, jogos de cena, tiradas fáceis e uma série de manobras retóricas que não ajudam mas prejudicam nosso entendimento do mundo e de nós mesmos. Não se trata, claro, de que alguém tenha de necessariamente acreditar numa dada ideia (seja um preceito bíblico, seja evolução, ou o que seja), mas de que devemos compreender aquilo de que estamos falando para que possamos ter conversas úteis, informativas, que nos enriqueçam mutuamente e que nos levem a entendermos uns aos outros, mesmo quando não concordamos. Nada disso é ajudado pelas cruzadas de “nós” contra “eles”, sejam os cruzados cientistas, criacionistas, defensores do DI, ou defensores de outras visões quaisquer.

 

Charbel N. El-Hani (Instituto de Biologia/UFBA)

Diogo Meyer (Instituto de Biociências/USP)

 

PARA SABER MAIS:

Amemiya, C. T. (2013). The African coelacanth genome provides insights into tetrapod evolution. Nature 496: 311-316.

El-Hani, C. N. & Mortimer, E. F. (2007). Multicultural Education, Pragmatism, and the Goals of Science Teaching. Cultural Studies of Science Education 2: 657-687.

Fay, B. (1996). Contemporary philosophy of social science: a multicultural approach. Malden, MA: Blackwell.

Hermann, R. S. (2012). Cognitive Apartheid: On the Manner in Which High School Students Understand Evolution without Believing in Evolution. Evolution: Education and Outreach 5: 619-628.

Moreira-dos-Santos, F. & El-Hani, C. N. (2017). Belief, Knowledge and Understanding: How to Deal with the Relations between Different Cultural Perspectives in Classrooms. Science & Education 26: 215-245.

Nikaido, M. et al. (2011). Genetically distinct coelacanth population off the northern Tanzanian coast. PNAS 108: 18009-18013.

Nikaido, M. et al. (2013). Coelacanth genomes reveal signatures for evolutionary transition from water to land. Genome Research 23: 1740-1748.

Smith, M. U., & Siegel, H. (2004). Knowing, believing, and understanding: what goals for science education? Science & Education 13: 553–582.

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