As roupas novas do gene

A compreensão atual dos sistemas genômicos nos distancia da visão poderosa que a dupla hélice e o dogma central da biologia molecular nos propiciaram, e nos lançam na aventura de encontrar uma nova visão, que seja igualmente poderosa

Em 1953, James Watson (1928-) e Francis Crick (1916-2004) apresentaram um modelo que explicou a estrutura do DNA, o modelo da dupla hélice, que estabeleceu esta molécula como a base da herança biológica. Como discute Rudolf Hausmann, em seu livro sobre a história da biologia molecular, até a publicação do modelo da dupla hélice, ainda havia debate na comunidade científica sobre qual molécula presente no cromossomo seria a base da herança, o DNA ou as proteínas. Foi somente então que, uma vez estabelecido o DNA como base material da herança, uma visão realista sobre o gene, como uma unidade estrutural e funcional que era parte dessa molécula, ganhou larga aceitação.
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Sexo é bom (para o genoma)

Novos experimentos mostram que o preço pago por engajar em reprodução sexual é compensando por vantagens evolutivas

A ideia de que o sexo faz parte da reprodução é algo tão natural para nós que podemos esquecer que há muitas outras formas de reprodução. A reprodução sexual é o processo que resulta na geração de novos seres vivos através da união de dois gametas, geralmente vindos de indivíduos diferentes.  Mas a reprodução pode também ocorrer sem sexo: na partenogênese um óvulo não fecundado se desenvolve, gerando um adulto. Na propagação vegetativa, grupos de células originam novos seres, algo que ocorre, por exemplo, em plantas que podemos propagar a partir de um pedaço de caule ou de folha.  Nesses casos, há reprodução sem sexo, ou assexual. Continue Lendo “Sexo é bom (para o genoma)”

O mistério da pena vermelha no pica-pau amarelo

Cientistas descobriram que aparição de pica-paus com penas vermelhas na costa leste dos EUA foi causada pela introdução de amoras exóticas.

Stephen Jay Gould comentou, certa vez, como a compreensão de grandes questões da biologia depende da investigação minuciosa de detalhes aparentemente sem importância da história natural dos seres vivos. Charles Darwin, lembrava-nos Gould, amadureceu suas ideias revolucionarias escrevendo livros inteiros sobre cracas, orquídeas e minhocas. O próprio Gould, conhecido por suas opiniões ambiciosas sobre a teoria da evolução, dedicou vários anos da sua vida ao estudo da morfologia das conchas de caramujos das Ilhas Bermudas. Continue Lendo “O mistério da pena vermelha no pica-pau amarelo”

Coevolução Gene-Cultura

Estudos recentes sugerem que mudanças na estrutura social e cultural das sociedades humanas podem promover e acelerar sua evolução biológica.

Práticas culturais têm alterado drasticamente as condições ambientais e comportamentais de nossa espécie, promovendo mudanças rápidas e marcantes em nosso genoma. Um ramo da genética de populações teórica, conhecido como Teoria da Coevolução Gene-Cultura, estuda os fenômenos evolutivos que surgem das interações entre os sistemas de transmissão genéticos e culturais, mostrando através de diversos exemplos como a transmissão cultural pode modificar o processo de Seleção Natural em humanos. Cultura é entendida, nesse contexto, como o conjunto de informações capazes de modificar o comportamento dos indivíduos e adquiridas pelos membros de um grupo através de ensinamento, imitação e outras formas de transmissão social. Continue Lendo “Coevolução Gene-Cultura”

Dois significados de “gene” e o determinismo genético

A confusão entre dois significados distintos de gene favorece ideias deterministas genéticas.

É muito comum nos depararmos com a afirmação de que foi encontrado algum “gene para” uma característica. Essa afirmação não tem lugar apenas quando falamos de doenças monogênicas (que envolvem somente um gene), como, por exemplo, a fenilcetonúria, mas também em relação a características complexas, como inteligência, agressividade ou até mesmo felicidade. Para a maioria das pessoas, quando falamos em um gene “para” alguma característica, estamos dizendo que o gene determina a característica. Ou seja, estamos assumindo uma visão determinista genética. Continue Lendo “Dois significados de “gene” e o determinismo genético”

Quais fatores determinam a diversidade genética em animais?

Um artigo recente explora os fatores que explicam por que algumas espécies possuem mais variabilidade genética do que outras. As respostas encontradas aproximam estudos genéticos de conceitos ecológicos.

Quase todas as espécies possuem variabilidade. Ao nível genético, a variabilidade pode ser definida como a quantidade de diferenças que há entre sequências de DNA presentes em diferentes indivíduos. Entender a variabilidade genética tem implicações teóricas e práticas: ela é a matéria prima da seleção natural e, também, um fator chave a ser considerado na hora de planejar políticas de conservação (espécies pouco variáveis são tipicamente vistas como mais ameaçadas de extinção).

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Os habitantes da minha pele

Pesquisadores mapearam todas as espécies de fungos, bactérias e vírus que ocupam diferentes partes do corpo humano e como elas variam no tempo.

No início da microbiologia, para identificar uma bactéria era necessário cultivá-la em um meio de cultura apropriado e depois reconhecê-la ao microscópio com o uso de corantes específicos. Com o avanço das técnicas de biologia molecular nas últimas décadas, tornou-se relativamente simples identificar uma espécie de bactéria a partir da sequência do seu DNA. Isso revelou uma surpreendente diversidade de microrganismos que não podiam ser identificados por técnicas tradicionais.  Continue Lendo “Os habitantes da minha pele”