Mais uma barreira para mulheres no mundo acadêmico

Além das várias barreiras enfrentadas por meninas e mulheres, principalmente na área de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (abreviadas em inglês como STEM), as mulheres recebem também menos crédito autoral do que seus colegas do sexo masculino.

Modified from Projektiveplane4bb.jpg, CC BY-SA 3.0 by Darapti

Não deve ser surpresa para a maioria de nós o fato de que vivemos em uma sociedade desigual. As desigualdades sociais são inúmeras, e podem ser estudadas por diversos ângulos, incluindo a desigualdade de renda, de escolarização, e de acesso a cultura ou a serviços básicos como saúde, saneamento e segurança. Podemos também analisar as desigualdades de raça, orientação sexual, ou habilidades físicas e cognitivas, e como essas desigualdades são acentuadas por uma combinação de fatores (ou uma combinação de desigualdades), o que hoje chamamos de interseccionalidade. Mas um artigo publicado recentemente na revista Nature me inspirou a escrever especificamente sobre a desigualdade de gênero e, particularmente, a desigualdade de gênero na comunidade científica e áreas afins. Antes disso, no entanto, é importante ressaltar que falar em desigualdade de gênero não significa acreditar que todas as mulheres estão igualmente sujeitas a discriminação. As mulheres negras, as mulheres homossexuais e as mulheres trans são, sem dúvidas, alvos de mais opressão do que as mulheres brancas, por exemplo, pois estão expostas a situações nas quais o racismo, a homofobia e a transfobia se superpõem ao sexismo. Antes de embarcarmos nessa jornada, não poderia deixar de ressaltar que o papel da mulher na ciência, particularmente na Genética, já foi discutido aqui no Darwinianas em um post incrível intitulado “As mães da Genética”, de Fevereiro de 2020.

Então, vamos lá. Historicamente, as mulheres foram impedidas de cursar o ensino superior, de se engajar profissionalmente, ou mesmo de participar de reuniões e sociedades acadêmicas. Por exemplo, The Linnean Society of London, a mais antiga sociedade voltada ao estudo das Ciências Naturais, foi fundada em 1788 por Sir James Edward Smith. Seus mais ilustres membros incluem Charles Darwin, Alfred Russel Wallace, Henry Walter Bates e Robert Brown, cujas contribuições resultaram em avanços significativos para o nosso entendimento do mundo natural. Apesar da grande importância dessa sociedade para o desenvolvimento do conhecimento científico da época, as primeiras naturalistas mulheres só foram admitidas como membros em 1904, 116 anos após a sua fundação. E não foi por falta de contribuições de importantes naturalistas mulheres da época, como, por exemplo, Margaret Jane Benson, Emma Louisa Turner e Beatrix Potter, para citar apenas algumas. Infelizmente, essa desigualdade de gênero não é coisa do passado, como alguns podem pensar. The Linnean Society levou mais 69 anos para eleger a sua primeira presidente mulher, Irene Manton, em 1973.

Aqui no Brasil, a Faculdade de Medicina da Bahia, a primeira faculdade de Medicina do país, fundada em 1808, levou mais de 40 anos para aceitar alunas. Foi apenas em 1887 que a primeira mulher, a Dra. Rita Lobato, venceu a discriminação e o sexismo estrutural, tornando-se a primeira mulher Médica a se formar no país. No ocidente, a primeira mulher a se formar em Medicina foi a inglesa Elizabeth Blackwell, em 1849.  Não há como negar que muito mudou desde então. Na Medicina, por exemplo, o documento Demografia Médica no Brasil 2020 descreve que, apesar de os homens ainda serem a maioria entre os médicos, em 2020 as mulheres já representavam 46,6% dessa população, um aumento de mais de 15% nos últimos 30 anos. E, de acordo com o Censo da Educação Superior de 2020, as ingressantes em cursos de graduação entre 2011 e 2020 tiveram, consistentemente, maiores taxas de conclusão do que os ingressantes do sexo masculino.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), no documento Decifrando o código: educação de meninas e mulheres em ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM), de 2018, as matrículas de mulheres quase dobraram entre 2000 e 2014, com as mulheres constituindo a maioria dos estudantes de graduação e mestrado em todo o mundo. No entanto, estatísticas mundiais apontam, constantemente, para uma significativa desigualdade de gênero nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). Nos Estados Unidos, por exemplo, as mulheres perfazem apenas 28% dos profissionais em ciências, tecnologia, engenharia e matemática, com desigualdades ainda mais significativas em áreas como engenharia e computação, que são as de mais rápido crescimento e com salários mais altos. As razões são, sem dúvida alguma, multifacetadas: é surpreendente notar que diferenças de gênero na educação científica podem ser observadas desde muito cedo. Por exemplo, segundo o mesmo documento da UNESCO, estudantes de 15 anos de idade do sexo masculino apresentam desempenho em média 10% superior ao desempenho de estudantes do sexo feminino em Ciências e Matemática no Brasil. E a mesma desigualdade é observada em inúmeros países do mundo, como no Chile, na Costa Rica, na Itália e na Áustria, onde a desigualdade ultrapassa 15%, principalmente em Matemática.

Segundo a UNICEF, as desigualdades de gênero no engajamento, no interesse e nas aspirações profissionais em STEM são moldadas por normas sociais, vieses e estereótipos. Os dados apresentados nesse documento sugerem que meninas em idade escolar têm a mesma (ou maior) probabilidade de alcançar níveis de proficiência mínima em Ciências e Matemática, mas que as meninas possuem menos probabilidade de alcançar altos níveis de proficiência em STEM. Essas desigualdades de gênero estão correlacionadas a uma menor autoconfiança das meninas em habilidades ligadas a ciências, tecnologia, engenharia e matemática, quando comparada à dos meninos. E, como é de se esperar, essa baixa autoconfiança resulta em falta de interesse e engajamento, resultando, como consequência, na desigualdade de gênero que observamos no meio profissional em STEM. E no Brasil não é diferente: as normas sociais relativas àquelas que são consideradas “profissões de mulher” e “profissões de homem” continuam influenciando as decisões dos jovens. Por exemplo, o mesmo Censo da Educação Superior de 2020 ressalta que 72,8% das matrículas em cursos de licenciatura são do sexo feminino, alinhando-se à visão da ‘professora escolar’, historicamente atribuída à mulher no Brasil.

Mas, como já podemos imaginar, as barreiras não param no período escolar. O estudo recente que serviu de inspiração para esse post desvenda mais uma barreira para a diminuição da desigualdade de gênero na ciência: as mulheres recebem sistematicamente menos crédito autoral por suas contribuições do que contrapartes do sexo masculino (Figura 1).

Figura 1 – Mulheres têm menor probabilidade de serem creditadas com autorias de trabalhos científicos, independentemente do nível de desenvolvimento profissional (gráfico da esquerda), ou da área de conhecimento (gráfico da direita). Os gráficos apresentam a relação entre as contribuições de pesquisadoras em trabalhos acadêmicos e o crédito de autoria dado a essas pesquisadoras. A linha pontilhada, em ambos os gráficos, demarca uma situação onde o esforço de trabalho das pesquisadoras é proporcional ao seu reconhecimento como coautora do trabalho. Enquanto pontos acima da linha indicariam que pesquisadoras estavam recebendo crédito proporcionalmente maior do que o seu envolvimento no trabalho, pontos abaixo da linha apontam para a situação em que as mulheres se dedicam proporcionalmente mais ao trabalho do que o credito recebido pelo mesmo. Fonte: Modificado de Ross et al. (2022), Nature 608, p.137.

Esses dados são interessantes não apenas pela descoberta de mais um viés de gênero, mas também por apresentar dados relacionados à autoria de trabalhos científicos. Na ciência moderna, um dos índices sob maior escrutínio durante concursos, entrevistas de emprego e decisões de financiamento de pesquisa, tanto no Brasil como internacionalmente, é o número de publicações de um candidato. O número de publicações é um dos critérios, também, de avaliação da qualidade de um pesquisador. Esse viés, assim como muitos outros, podem resultar em um ciclo vicioso no qual a ausência de crédito autoral para mulheres resulta em pesquisadoras com menor número de publicações e com menor visibilidade na comunidade científica, interferindo na busca de empregos e financiamentos para pesquisa em STEM, e contribuindo para a redução do número de pesquisadoras mulheres em STEM. Além disso, esses dados sugerem que a desigualdade de gênero não está atrelada ao esforço e à dedicação das mulheres ao trabalho, quando comparadas a cientistas do sexo masculino. Ele derruba, assim o famoso mito da produtividade, de acordo com o qual cientistas do sexo masculino seriam mais produtivos do que cientistas do sexo feminino. É possível, assim, que a diferença no número de publicações entre pesquisadores homens e mulheres se deva ao viés de reconhecimento da autoria de pesquisadoras, e não à sua produtividade.            

Ainda temos muito caminho pela frente para gerarmos uma comunidade científica menos desigual. O primeiro passo, no entanto, é o estudo dos fatores que promovem essa desigualdade. Ao entendermos os diversos fatores, podemos combater mais efetivamente  as desigualdades por meio de políticas públicas e educação científica inclusiva e com equidade.

Ana Almeida

California State University East Bay

(CSUEB)

Para saber mais:

García-Peñalvo, F.J.; García-Holgado, A.; Dominguez, A.; Pascual, J. 2022. Women in STEM in Higher Education: Good PRactices of Attraction, Access and Retainment in Higher Education. Springer.

Gewin, V. 2019. How the scientific meeting has changed since Nature’s founding 150 years ago. Nature, 576: S70-S72.

Guarino, C. M.; Borden, V. M. H. 2017. Faculty Service Loads and Gender: Are Women Taking Care of the Academic Family? Research in Higher Education, 58: 672–694.

UNICEF. 2020. Mapping gender equality in STEM from school to work. Último acesso: 12/08/2022.

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