Lapa do Santo: uma biografia arqueológica dos povos de Luzia

Escavações arqueológicas na região de Lagoa Santa em Minas Gerais revelam como viviam os primeiros brasileiros.

Em 1836, na região de Lagoa Santa em Minas Gerais, o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund foi contraposto àquilo que seria a maior surpresa de sua vida. Na gruta do Sumidouro, ele encontrou os restos mortais de seres humanos junto a ossos fossilizados de animais extintos. Conectava-se, assim, o tempo presente com aquilo que se pensava constituir um mundo pré-diluviano e, ao mesmo tempo, confirmava-se a antiguidade da presença humana no Novo Mundo.

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A notícia das descobertas de Lund rapidamente se espalhou pelo mundo e nas décadas seguintes diversos pesquisadores, viajantes ou mesmo curiosos viriam à Lagoa Santa no intuito de descobrir se Lund estava correto quando afirmou que o homem havia coexistido com a megafauna extinta do continente americano.

Posteriormente, diversos estudos baseados na morfologia craniana desses humanos indicaram um cenário onde a América havia sido colonizada por grupos humanos distintos, os chamados povos de Luzia.

Mais recentemente, dando continuidade a essa longa tradição de pesquisas arqueológicas na região, teve início os estudos de um novo sítio arqueológico em Lagoa Santa: a Lapa do Santo.

Dentre os maiores abrigos da região de Lagoa Santa, essa lapa (ou gruta) revelou abrigar um pacote arqueológico denso, muito bem preservado, datado do final do Pleistoceno (há mais de 12.000 anos) e, mais importante, intocado. Para um arqueólogo, um verdadeiro tesouro.

Em 2001 uma equipe de arqueólogos deu início as prospecções na área abrigada do sítio. As escavações tiveram início nos anos seguintes e a princípio se pensou que o sítio não apresentaria grandes novidades. Como sempre, imaginamos que já sabíamos o que nos esperava. Ledo engano.

A primeira surpresa que nos reservava a Lapa do Santo dizia respeito à natureza dos sedimentos que compunham o sítio. Normalmente, as cavernas são preenchidas por sedimentos carregados por agentes naturais como água, vento e gravidade, mas isso não ocorreu na Lapa do Santo. Conforme ficou claro durante o avanço das escavações, todo o sedimento acumulado foi resultado direto e imediato da ação do homem. Principalmente, foi a queima de madeira em fogueiras ao longo dos milhares de anos que resultou no acúmulo de sedimento de até 4 metros de espessura. Quando consideramos que a combustão de vegetais costuma deixar nada mais do que 1% do material original, podemos ter uma ideia da impressionante intensidade com a qual esse sítio foi ocupado. Atualmente um novo projeto de pesquisa inteiramente dedicado a melhor compreender a formação da Lapa do Santo está sendo desenvolvido por pesquisadores de diversos países.

Outra surpresa veio, por assim dizer, nos acréscimos do segundo tempo: o petróglifo (gravura rupestre) mais antigo de todo continente Americano foi encontrado a mais de 4 metros de profundidade durante a última etapa de uma escavação, em 2009. O estilo do desenho é amplamente conhecido e pode ser encontrado em diversas partes do Brasil. O que torna o achado da Lapa do Santo único é que ele pode ser datado de forma confiável, mostrando que esse tipo de inscrição em pedra é milhares de anos mais antigo do que os arqueólogos imaginavam. E claro, como denuncia o apelido pelo qual a obra é agora conhecida, o “Taradinho” chamou a atenção também pela presença de um falo desproporcionalmente avantajado, abrindo espaço para uma série de novos questionamentos sobre a visão de mundo dos grupos que ocupavam o Brasil central durante o início do Holoceno.

Os sepultamentos humanos oferecem ao arqueólogo a oportunidade única de estudar os rituais funerários das populações que viveram no passado e, assim, chegar mais perto de aspectos simbólicos da cultura desses grupos. Na região de Lagoa Santa sempre se acreditou que o modo de enterramento era extremamente simples, pois eram realizados em covas rasas recobertas por blocos de pedra. Entretanto, as descobertas feitas nos últimos anos na Lapa do Santo mostraram que ao contrário do que se acreditava, na ausência de uma arquitetura sofisticada ou de ricos acompanhamentos funerários, a elaboração dos rituais mortuários passava pelo uso do próprio corpo do falecido como um símbolo. Logo após o falecimento, partes do corpo eram cortadas e removidas. Posteriormente, após a decomposição dos tecidos moles, esses ossos eram reorganizados e enterrados novamente. Uma prática comum, por exemplo, era a de juntar, num mesmo enterramento, os ossos de crianças e adultos. Outra prática comum era a de remover os dentes após a morte do indivíduo. Os dentes de diferentes pessoas mortas eram guardados até serem novamente enterrados, todos juntos.

Em suma, as escavações na Lapa do Santo estão transformando a maneira como entendemos a maneira como viviam os primeiros grupos que chegaram a Lagoa Santa. Até o presente momento, apenas começamos a entender as verdadeiras implicações desses novos achados. Muitos anos de estudos do material escavado ainda serão necessários, sendo que ainda há muito trabalho a ser feito e seguramente muitas outras surpresas ainda estão por vir.

André Strauss (Universidade de Tübingen, Alemanha)

PARA SABER MAIS:

Neves, W. A. Piló, LB. (2008). O povo de Luzia – em busca dos primeiros americanos.  Editora Globo, São Paulo.

Da-Gloria P, Neves WA. Hubbe M. (2016). Lagoa Santa: história das pesquisas arqueológicas e paleontológicas. AnnaBlume.

Guimarães, M. (2016). Os Povos de Luzia. Revista Pesquisa FAPESP.

Fotografia: Sepultamento humano sendo exumado, Lapa do Santo, Minas Gerais. Arquivo pessoal do autor.

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