Puns, baratas, chocolate e vacinas têm algo em comum e você não vai acreditar!

“Cientistas fazem uma grande revelação e você não vai acreditar!” Essa fórmula para gerar manchetes de divulgação já deve ser bastante familiar para os assíduos das redes sociais. Elas estão repletas das descobertas mais estranhas supostamente feitas por cientistas, como “cientistas revelam que o cérebro humano é programado para beijar”; “cientistas descobrem em que horário é melhor tomar banho”; “cientistas revelam quem é a mulher com o corpo mais perfeito do mundo”; “cientistas descobrem que filhos herdam inteligência exclusivamente da mãe, e não do pai!”; ou até “cheiro de flatulência pode ajudar no tratamento de câncer, diz estudo”. Essas matérias com títulos chamativos são compartilhadas milhares de vezes, mas será que cientistas realmente fizeram essas descobertas?

Há alguns anos, inúmeros veículos de notícias relataram que cheirar puns poderia reduzir o risco de enfermidades como câncer, ataque do coração, infartos, disfunção erétil, artrite e demência. No entanto, não é possível encontrar nenhuma dessas informações no artigo científico ao qual as matérias se referem. Em sua pesquisa, o grupo liderado pelo Dr. Matthew Whiteman, da Universidade de Exeter, desenvolveu uma molécula chamada AP39, utilizada para aumentar os níveis de sulfeto de hidrogênio nas mitocôndrias. 

Mitocôndrias são organelas que produzem a maior parte do ATP, uma molécula que é importante para inúmeros processos celulares. Os processos que acontecem na mitocôndria podem danificar seu material genético e levar à morte celular. Por isso, já vemos como é importante preservar a função das mitocôndrias. Células sob estresse, geralmente desencadeado por doenças, produzem enzimas que geram sulfeto de hidrogênio em pequena quantidade, o que, por sua vez, aumenta a resistência das mitocôndrias ao estresse. A molécula desenvolvida pelos cientistas, AP39, entrega pequenas quantidades desse gás, diretamente na mitocôndria. Os resultados indicam que células em placas de Petri têm maior resistência a estresse quando tratadas com AP39. Acontece que esse gás, o sulfeto de hidrogênio, é também o que dá o cheiro característico de ovos podres e de gases intestinais. E assim, a molécula que protege a mitocôndria virou “o pum que cura câncer”. Procurados pela equipe de um programa especial sobre divulgação científica, os autores da pesquisa dizem que ainda recebem pedidos de entrevistas e comentários na mídia sobre como os puns podem prevenir câncer e outras condições, mesmo nunca tendo mencionado nada disso em nenhum de seus artigos. Mostrar que uma molécula oferece benefícios no contexto de um experimento em placas de Petri, com uma concentração escolhida pelo cientista e aplicada de forma controlada, fica muito distante do cenário em que um pum é aspirado pelo nariz, numa concentração muito diferente e misturado a vários outros compostos!

Essa descontextualização das pesquisas e dos resultados científicos na mídia é muito comum e pode ser resultado da dificuldade de leitura e interpretação de artigos científicos e das recompensas a títulos e matérias sensacionalistas. Tomemos como exemplo outro artigo científico, intitulado “Estrutura de um cristal protéico heterogêneo, glicosilado, ligado a lipídio de uma barata vivípara da espécie Diploptera punctata analisada em resolução atômica” (tradução do inglês). Quantas pessoas sem interesse específico em entomologia ou química teriam vontade de ler o artigo pelo seu título? Qual seria a visibilidade da pesquisa? Para preencher essa lacuna entre a linguagem científica e o público, a divulgação científica tem papel essencial. Nesse estudo, os autores isolaram cristais proteicos de uma barata e analisaram sua estrutura e constituição. A espécie analisada é vivípara, ou seja, os embriões se desenvolvem dentro da mãe (não em ovos), e a proteína que forma os cristais é secretada pela barata para nutrir os filhotes. Os cientistas descobriram que a proteína é bastante glicosilada (ligada a açúcar) e que as proteínas isoladas de um único cristal são diferentes uma da outra, pois apresentam diferenças na sequência de seus aminoácidos (os bloquinhos que fazem as proteínas). Os autores também descobriram que a forma da proteína (sua estrutura) permitia sua associação com lipídios (gorduras). Com essas informações, os autores do estudo concluem que, devido à heterogeneidade das proteínas nos cristais, o leite da barata possui todos os aminoácidos essenciais, açúcar e lipídios necessários para o desenvolvimento das baratinhas bebês. Um único cristal teria três vezes mais energia do que o leite de vaca (comparando a mesma massa). Rapidamente, as manchetes começaram a aparecer:

– “Cientistas acham que o leite de barata poderá ser o superalimento do futuro”

– “Conheça o leite de barata, o rei da dieta do futuro”

– “Para os saudáveis de plantão: vem aí o nutritivo leite de barata”

Com a divulgação de forma um pouco exagerada, a pesquisa recebeu muita atenção, mas por uma conclusão diferente daquela tirada no artigo original. Afinal, nada na pesquisa sugere que a proteína da barata seria nutritiva para humanos, ou que tem potencial como recurso energético para nossa sociedade (considere só a dificuldade de produzir grandes volumes desse composto!). A pesquisa teve uma maior visibilidade, mas com o custo de distorcer os resultados publicados no artigo científico. Cria-se uma recompensa que perpetua o hábito. Escritores das colunas de saúde e ciência estão em uma busca constante por estudos novos e chamativos. Ao mesmo tempo, acadêmicos sofrem pressão para produzir resultados que tenham impacto na mídia e alguns exageram a importância de seus achados. É difícil imaginar uma chamada com o seguinte título: “Não descobrimos qual é o gene que aumenta o risco de obesidade, mas estamos quase convencidos de que não é o gene que estudamos”. Por isso, antes de chegar ao público, os resultados científicos passam por um tortuoso caminho no qual correm o risco de perder grande parte de seu significado original. A propósito, o determinismo genético nos relatos de “genes para” já foi tema de discussão aqui no Darwinianas.

Neste momento você pode estar se questionando se esses exageros são danosos, afinal, cheirar puns ou tentar ordenhar baratas realmente não parecem atividades arriscadas. O problema está no retrato simplificado que se faz da ciência, que é apresentada como capaz de facilmente gerar respostas retumbantes e inequívocas sobre os mais variados assuntos, e de quebra já delineia novas tecnologias que vão rapidamente melhorar nossas vidas. Na verdade, o conjunto de conhecimentos científicos cresce muito lentamente, e muitas vezes aplicações demoram para surgir. Em ciência, pequenos passos, alguns em direções opostas, vão se acumulando até que seja possível ver um cenário mais completo. Por exemplo, em um artigo publicado em 2013, foram analisados estudos que tentaram correlacionar a incidência de câncer com o consumo de alguns ingredientes comuns em alimentos. De 40 ingredientes estudados, para 36 havia pelo menos um estudo que concluía que o ingrediente aumentava ou diminuía o risco de câncer. Em muitos casos, diferentes estudos chegavam a conclusões completamente opostas (Figura 1). Em 80% dos estudos, o efeito era muito fraco. Usando estatística de forma incorreta, muitas vezes não proposital, um pesquisador pode chegar a um resultado estatisticamente significativo, mesmo com um efeito pequeno, que não será replicado em um estudo mais rigoroso.

Figura 1. Tudo o que comemos causa e previne câncer. Um alerta para a divulgação de resultados científicos de forma sensacionalista. Cada pontinho representa um estudo relacionando o consumo do ingrediente ao risco de desenvolvimento de câncer. Figura adaptada de Schoenfeld JD, Ioannidis JP (2013). American Journal of Clinical Nutrition, 97:127-34.

O mau uso da estatística foi demonstrado por John Bohannon, que, além de jornalista, tem doutorado em biologia molecular de bactérias. Como parte de um documentário, ele queria mostrar como transformar um estudo científico ruim em um título sensacionalista de alto impacto e alcance. Juntamente com seus colegas, ele recrutou um médico para conduzir o estudo, alguns voluntários e um estatístico para “massagear” os dados. Os voluntários (5 homens e 11 mulheres de 19 a 67 anos de idade) foram separados em grupos com duas dietas diferentes, com ou sem consumo de chocolate amargo. Após três semanas, o grupo que consumiu chocolate havia perdido dois quilogramas, em média. A conclusão é de que o chocolate amargo leva a perda de peso, certo? Foi o que a mídia alemã divulgou e logo foi copiada no mundo inteiro. Aqui no Brasil chegou em várias versões, como por exemplo: “Pesquisa Alemã Mostra Como o Chocolate Aumenta em 10% seu Emagrecimento”. O que nenhuma das matérias de divulgação informou foi o número de voluntários (15, pois uma das pessoas desistiu) e nem o número de variáveis testadas e a chance de ser um resultado espúrio. Propositalmente, os pesquisadores testaram 18 variáveis diferentes. Considerando que cada um dos testes tinha a chance de 5% de apresentar um resultado falso positivo, eles tinham mais de 60% de chance de obter uma associação significativa ao acaso.

Essas são razões pelas quais estudos individuais não devem ser divulgados de forma sensacionalista. É preciso um conjunto de evidências e estudos para que se possa chegar a uma conclusão. Quantas vezes não lemos sobre os riscos ou os benefícios do café, do vinho, do ovo, entre outros? O problema aqui é que essas informações conflitantes exageradas pela mídia diminuem a confiança das pessoas na ciência e nos seus processos. As pessoas não culpam a mídia pelo relato exagerado ou incorreto. Culpam a ciência por não se decidir se uma coisa faz bem ou mal. Isso é injusto e problemático, particularmente num momento em que o orçamento na ciência sofre uma erosão. Ainda mais preocupante é quando a desconfiança na ciência abre espaço para charlatães vendendo pseudociência e para obscurantismo como o de grupos que negam o aquecimento global ou a eficácia de vacinas.

A própria desconfiança a respeito das vacinas começou após a divulgação prematura de uma relação causal entre vacinas e autismo. Andrew Wakefield publicou um artigo em 1998 no qual ele alegava que a administração de vacinas causava autismo. O artigo foi reconhecido como fraude, retratado (retirado da revista) e o autor, que, além de outras condutas incorretas, falsificou dados, foi impedido de praticar medicina. Mesmo com a retratação e a série de artigos que continuou mostrando a ausência de relação entre vacinas e autismo, o dano causado é irreparável. Um número cada vez maior de pessoas deixa de vacinar seus filhos por medo irracional e infundado, trazendo de volta doenças previamente erradicadas em vários países.

Nas descrições da relação entre a ciência e o público muitas vezes encontramos as palavras “distância”, “lacuna” ou “barreira”. É clara a necessidade de interlocutores que possam falar as duas linguagens. O problema não está em traduzir os resultados científicos em histórias curtas e mais atrativas. O problema está na veiculação exagerada ou errada dos resultados, na falta de fontes confiáveis, e na escassez de informações precisas sobre os estudos. A melhor forma de verificar os resultados e separar o joio do trigo seria, sem dúvida, recorrer ao artigo original. Mas, além da barreira dos jargões científicos, ainda temos a barreira da língua, já que os artigos são geralmente publicados em inglês. Neste caso, é melhor buscar por outras menções e descrições da mesma pesquisa. Muitos cientistas e divulgadores de ciência estão abrindo o caminho para uma nova forma de comunicação em ciência e talvez seja possível encontrar os mesmos resultados sendo descritos de outra forma. O importante é buscar o consenso sobre o assunto. A realidade é que cada estudo científico tem suas particularidades e limitações, que devem ser mencionadas na divulgação. A falta de menção a elas pode servir como alerta para os leitores. Relendo as matérias citadas com isso em mente, poderemos concluir que vacinas são seguras, chocolate não causa perda de peso, não teremos leite de barata nos supermercados (por mais apetitoso que isso possa parecer) e aqueles que alegaram que estavam fazendo o bem com seu sulfeto de hidrogênio verão que estão devendo sinceras desculpas.

Tatiana T. Torres (USP)

Para saber mais:

Editorial (2017) Why researchers should resolve to engage in 2017. Nature, 541:5–5.

Diálogos USP (2017) Não se faz ciência sem responsabilidade e comprometimento. Jornal da USP, 31/03/2017.

Peters, HP (2013) Gap between science and media revisited: Scientists as public communicators. Proceedings of the National Academy of Sciences, 110: 14102-14109.

de Bruin WB, Bostrom A (2013) Assessing what to address in science communication. Proceedings of the National Academy of Sciences, 110:14062–14068.

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