Ser ou pertencer: eis a questão

Socialidade começa de forma simples, induzida por forças organizadoras ecológicas que intensificam as interações sociais, dando oportunidade para o surgimento de variados experimentos sociais naturais

O filósofo francês Jean Paul Sartre costumava dizer que ‘o inferno são os outros’. Viver em sociedade parece ser aquilo que nos transformou em humanos, mas conviver com outros requer muita paciência. As regras de convívio impõem limites à nossa tão preciosa liberdade, e a estratificação social escancara uma injustiça contra a qual toda rebelião é pequena, e o status quo impera novamente sob um horizonte de distantes harmonias sociais.

Neste sentido, talvez caiba lembrar que as revoluções sociais não são uma conquista recente de organizações marxistas, ou mesmo do humanismo de uma revolução francesa. Não são nem mesmo uma conquista humana, se quisermos ser precisos. Se abrirmos bem os olhos veremos que o próprio nascimento da vida social, nas múltiplas espécies em que a socialidade ocorre, foi a cada vez uma nova revolução. Há inúmeras espécies animais de vida social, seja entre os insetos, que se associam para a produção de engenhosas arquiteturas sociais, na forma de colméias, cupinzeiros, ou formigueiros, seja entre pequenos roedores pelados e quase cegos que vivem em sociedades subterrâneas (rato toupeira pelado), seja entre aves, felinos, aranhas, afídeos, ácaros, lagartas, enfim, para onde se olhe a vida em sociedade existe, resiste, e insiste. Dessa forma, cada espécie social é um experimento natural acerca das formas possíveis de socialidade, das maneiras possíveis de coexistência, cooperação e altruísmo, e da miríade de meios para o controle do egoísmo, da trapaça e da corrupção de nossos dias. Vale a pena conhecer estas estratégias de convivência, se quisermos buscar uma luz no fim do túnel.

Antes mesmo do surgimento das sociedades, a transição de um estilo de vida unicelular (solitário) para a ampla coordenação comportamental entre as células de um indivíduo multicelular (células organizadas em uma vida social) foi também uma revolução vital. Outras transições evolutivas revolucionárias ocorreram, como a passagem de procariotos para eucariotos, que se deu após uma feliz sociedade entre espécies distintas. Fenômeno semelhante se deu com o surgimento da reprodução sexuada, que requer uma associação íntima entre indivíduos de uma mesma espécie. Finalmente, a mera passagem de replicadores isolados (partículas de DNA auto-clonáveis) para grupos de replicadores com ações coordenadas (cromossomos) visando sua reprodução conjunta, representou um salto evolutivo gigantesco, envolvendo a coordenação entre unidades isoladas, ou seja, um certo tipo de atividade social e cooperação entre unidades genéticas. Estas revoluções biológicas foram caracterizadas em detalhe em um livro clássico de John Maynard-Smith e Eörs Szathmáry: As grandes transições evolutivas. Em cada uma delas estamos vendo justamente o surgimento de uma organização entre elementos simples, que passam a compor uma unidade mais complexa, social.

Neste ponto alguém pode objetar, enfurecido, que não faz sentido algum comparar sociedades humanas com sociedades animais, porque apenas nós temos cultura, mente, subjetividade, discernimento, razão, capacidade de planejamento e, mais que tudo, liberdade para sermos o que bem entendermos. Claro, não há dúvida que cada espécie tem características próprias, mas daí a afirmar quais sejam estas características que nos definem, há um longo debate. Além disso, se temos exclusividades, temos também, certamente, características compartilhadas com algumas outras espécies, ou mesmo com todas as espécies, pois, afinal, descendemos todos de um mesmo ancestral comum. Mais que isso, mais que uma história evolutiva compartilhada, temos características compartilhadas porque vivemos todos em um só mundo, que impõe a todos as mesmas limitações fundamentais, de modo que temos todos que respeitar leis universais, leis de organização, ou de escala, se quiserem assim chamá-las. Por exemplo, à medida que aumentam de tamanho, organismos, empresas ou cidades seguem uma mesma lei de crescimento, ou alometria, em função da qual muitas de suas características se alteram de forma semelhante e não linear. Isso se dá porque o rendimento ótimo de um sistema requer, a cada tamanho, que a atividade conjunta de suas partes se dê com um determinado grau de contato e um determinado grau de compartimentalização entre seus elementos, gerando um ganho em escala que segue uma lei comum, independente da espécie que está se organizando socialmente (ou de quais elementos componham o sistema). Assim, podemos e devemos sair do pedestal em que nos colocamos e ouvir aquilo que os ínfimos têm a dizer, o que nos dizem as vespas, as aranhas, os cupins e os ácaros. Podemos descer do altar de divindade a que nos alçamos e ouvir essa prima pobre da religião, nossa já longeva ciência biológica, muito rejuvenescida após um século e meio de darwinismo.

E o que nos dizem os biólogos? Se dermos ouvidos a alguns biólogos pretensamente radicais, teremos a impressão de que a socialidade é apenas um epifenômeno do funcionamento dos genes. Para eles a organização social é essencialmente prisioneira da organização genética, e o altruísmo que pensamos nutrir pelo próximo é apenas um disfarce superficial do profundo egoísmo de nossos replicadores genéticos. O famoso livro de Richard Dawkins (O gene egoísta) é o verdadeiro (ir)responsável por este estado de coisas. Dawkins popularizou a falsa ideia de que somos apenas elaboradas marionetes de nossos genes, os quais estariam em permanente competição egoísta pelo domínio de nossos meios de reprodução. Esta ideia capturou a mentalidade de nosso tempo, e destruiu em grande parte a possibilidade de uma divulgação séria em ciências biológicas. Nenhum geneticista moderno defende que os organismos são elaboradas máquinas genéticas, e o mecanicismo da ciência moderna não implica que os níveis de organização inferiores (os genes) controlem os níveis de organização superiores, ou seja, não implica que os genes comandem o comportamento dos indivíduos e determinem o funcionamento de grupos sociais. Inclusive, acontece frequentemente o inverso, quando a experiência individual em um grupo social novo leva, via aprendizagem, a alterações importantes de funcionamento na maquinaria genética dos neurônios. Neste sentido, poderíamos inverter a lógica de Dawkins, e dizer que as marionetes seriam os próprios genes, que ligaríamos e desligaríamos na medida de nosso desejo, ou do imaginário social.

A ideia de que os genes controlam a vida social, ou seja, a ideia de que podemos ser reduzidos ao funcionamento genético, guarda semelhanças com uma discussão sobre a origem da vida. Inicialmente, pensou-se que o DNA seria a primeira molécula viva; posteriormente, passou-se a defender a ideia de que essa seria o RNA; e atualmente vem ganhando espaço a ideia de que o metabolismo teria originado a vida. Segundo esta última tese, o funcionamento bioquímico teria gerado ciclos auto-sustentáveis simples, ou seja, ciclos bioquímicos que produzem substâncias que auxiliam na manutenção do próprio ciclo. Tais ciclos auto-sustentáveis simples teriam dado tempo suficiente e gerado a complexidade necessária para o surgimento de moléculas como o RNA e, posteriormente, o DNA. E o que isso tem a ver com a origem da socialidade? Bem, se biólogos pretensamente radicais nos dizem que a socialidade decorre de leis genéticas, poderíamos a eles perguntar: será que o metabolismo social não veio antes dos genes sociais? Ou seja, será que a interação social não antecede a maquinaria genética que, supostamente, controlaria o comportamento social? Se assim fosse, a lógica do controle seria novamente invertida e, apesar de termos genes que afetam o comportamento social, seria a interação social que estaria no controle destes genes, antecedendo-os evolutivamente, e regulando sua expressão a cada instante para atender às demandas contemporâneas de uma vida em grupo. Novamente os genes seriam as marionetes controladas por um sistema externo, que abrange e abarca a maquinaria genética.

Quanto à origem da socialidade, os indícios são de que o comportamento social surge a partir da oferta concentrada de recursos abundantes e não individualmente monopolizáveis. Se indivíduos solitários se agrupam ao redor de recursos abundantes, é a distribuição destes recursos que inicialmente organiza a vida social e, assim, o início do processo é produzido a partir dos efeitos da ecologia sobre os indivíduos. Este passo inicial rumo à socialidade implica uma heteronomia, um controle ecológico (por oposição a genético) da organização social. Isso não significa que genes são irrelevantes: dizer isso seria tão absurdo quanto sugerir que átomos de carbono são irrelevantes para a célula. Se o que estamos sugerindo estiver correto, os genes apenas não estariam na origem do fenômeno social: eles basicamente responderiam a leis criadas em um nível de organização que não é o deles: o nível das redes de relações sociais.

Claro que há distintos aspectos no fenômeno social. Neste momento estamos focando na origem da socialidade, que poderia ser devida àquilo que estamos denominando metabolismo social, ou auto-organização. A socialidade, no entanto, envolve outros e importantes aspectos, como a manutenção e a transformação da socialidade. No que se refere à manutenção ou estabilidade do grupo social, ela seria obtida apenas se os ganhos da vida social fossem muito intensos, o que permitiria que os grupos sociais passassem de temporários a permanentes, através da sobreposição de gerações. Com o tempo, poderia haver a transformação dos grupos sociais em novas unidades de seleção natural (superorganismos): estas seriam as transições evolutivas de Maynard-Smith & Száthmary (v. acima), transformações muito raras por requererem a supressão da reprodução nos elementos do sistema em formação, e o surgimento de uma forma de reprodução para este novo sistema (o novo nível de organização).

É uma longa e sinuosa estrada esta da transformação social, mas ela começa de forma simples, com indivíduos se auto-organizando ao redor de recursos fartos e concentrados. Bem, quem sabe não estamos no caminho certo, concentrando recursos fartíssimos em cada vez mais exíguos espaços? Só não sei se dá para aglomerar muitos indivíduos, e gerar vastas interações sociais ao redor de malas e mais malas de dinheiro apertadas em tão minúsculos apartamentos …

Hilton Japyassú (UFBA)

Para saber mais:

Barabási, A. L. (2017). The elegant law that governs us all. Science: 138.

Bourke AFG. 2011. Principles of Social Evolution. Oxford, UK: Oxford Univ. Press

Foley, R. (2002[1987]). Another unique species: patterns in human evolutionary ecology. Cambridge University Press.

Korb, J., & Heinze, J. (2016). Major hurdles for the evolution of sociality. Annual review of entomology, 61.

Maynard Smith J, Szathmáry E. 1995. The Major Transitions in Evolution. Oxford, UK: Freeman All

Foto de https://www.nextnature.net/2013/07/what-ant-colony-networks-can-tell-us-about-what’s-next-for-digital-networks/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.