Um Olhar Histórico Sobre a Ciência da Resiliência

Desde sua origem ciência da resiliência busca aproximar pesquisa socioecológica da política e tomada de decisão

A chamada ciência da resiliência tem sido considerada uma moldura teórica poderosa para a compreensão e gestão da dinâmica de sistemas socioecológicos (ver sumário acessível de suas ideias centrais em What is resilience?, publicação do Stockholm Resilience Centre). O poder dessa moldura teórica resulta do fato de que fornece uma visão integrativa dos sistemas socioecológicos e de sua dinâmica, apoiando-se – de maneira francamente interdisciplinar – em campos tão diversos como a ecologia, a economia, as ciências políticas, entre outras. Uma das ideias chave é a de que a ciência e a gestão devem abordar sistemas socioecológicos a partir da suposição de que apresentam uma dinâmica distante do equilíbrio,permanecendo por períodos relativamente longos em estados transientes, instáveis, e sendo propensos, assim, a pontos críticos de mudança, ou seja, alterações surpreendentes de regimes de comportamento. Isso contradiz em grande medida o modo como esses sistemas têm sido gerenciados, com base na suposição de que ficam por mais tempo em estados estáveis. As consequências são importantes: em vez de uma gestão para estabilidade, otimização, produtividade máxima, a ciência da resiliência sugere uma gestão para capacidade adaptativa, diversidade de arranjos produtivos e sociais, diversidade de soluções (por vezes, incluindo soluções sub-ótimas), como aspectos que favorecem resiliência do sistema.

Charles Curtin e Jessica Parker publicaram no periódico Conservation Biology, em 2014, um artigo que situa a construção da ciência da resiliência no contexto da história da ecologia.

A ciência da resiliência começou a ser construída no início dos anos 1970, a partir do Grupo de Política Ecológica (Ecological Policy Group), liderado por Crawford S. (Buzz) Holling, na University of British Columbia, no Canadá. Suas raízes se encontram nas teorias ecológicas sobre diversidade e estabilidade, entre os anos 1950 e 1960, e no pensamento holístico de Aldo Leopold (1887-1948), Charles Elton (1990-1991) e Arthur Tansley (1871-1955), entre outros. Também não podemos perder de vista a influência dos movimentos de contracultura da década de 1960, que levou a mudanças importantes na ciência, especialmente com a chegada de uma nova geração de cientistas, que cresceram naquela atmosfera cultural.

Curtin e Parker mostram como a ciência da resiliência surgiu no contexto do debate entre ecologia evolutiva e ecologia de sistemas, tendo um papel central na controvérsia o papel da ciência ecológica face à tomada de decisão e às práticas de gestão. Para um pesquisador preocupado com a diminuição da lacuna entre pesquisa e prática/implementação na ecologia e na educação, este é um tópico que interessa muito.

Do lado da ecologia evolutiva, predominava no final dos anos 1960 e começo dos anos 1970, uma defesa do trabalho científico voltado para a construção de modelos gerais, e não para um conhecimento mais situado, mais próximo dos problemas práticos da gestão. O principal pesquisador na ecologia evolutiva de então, Robert MacArthur (1930-1972), entendia a ciência como a arte da abstração. Do lado da ecologia de sistemas, Ken Watt e outros teóricos defendiam que a ecologia deveria ser mais acurada e aplicável, para responder de modo mais efetivo aos problemas ambientais. Assim, em vez de modelos altamente abstratos, a ciência ecológica deveria produzir modelos menos generalizados e mais próximos da solução de problemas concretos. De um lado, podemos dar uma pitada de razão a MacArthur: modelos e teorias científicas são tanto mais capazes de explicar quanto mais generalizadas são, recobrindo grande quantidade de casos particulares. Tais modelos abstratos e altamente generalizados mostram grande potencial de transposição para novos casos, mas demandam tradução para cada situação concreta, com aporte de informações locais, ausentes do modelo ou da teoria, pelo seu alto grau de abstração. E podemos dar também uma pitada de razão a Ken Watt: há uma necessidade efetiva de tradução de modelos para situações concretas, para que sejam utilizáveis na resolução de problemas reais.

Parece que a melhor opção nesse caso está num caminho sintético: a produção de modelos tão gerais quanto possível, mas com indicações (heurísticas) sobre como traduzi-los para situações concretas, situadas, nas quais os problemas (socio)ambientais se colocam. Por exemplo, modelos gerais que indiquem qual informação local é necessária para aplicá-los a situações concretas.

Naquele contexto do final dos anos 1960 e começo dos anos 1970, o cenário era de divisão, sem tais caminhos de síntese. A ecologia evolutiva deu origem à biologia da conservação, na qual discussões sobre a lacuna entre pesquisa e implementação seguem na ordem do dia (ver, p. ex., Knowing but not doing: Selecting priority conservation areas and the research-implementation gap [Conhecendo mas não fazendo: Selecionando áreas prioritárias para conservação e a lacuna pesquisa-implementação], publicado em Conservation Biology, por Andrew T. Knight e colaboradores). A ecologia de sistemas, por sua vez, desembocou na ciência da resiliência, que seguiu uma trajetória distinta daquela construída pela ecologia evolutiva e biologia da conservação. Esta trajetória situou a ciência da resiliência na encruzilhada de abordagens sistêmicas na pesquisa, na gestão e na política ambientais. Nesta posição, a ciência da resiliência nasce com características fortemente interdisciplinares, buscando construir corpos integrados de conhecimentos disciplinares para abordar problemas reais. Nasce também transdisciplinar, reunindo conhecimentos de cientistas ao de outros atores sociais, que são relevantes para resolver tais problemas.

Para o Grupo de Política Ecológica, liderado por Holling, as abordagens convencionais da ecologia frequentemente não eram relevantes ou suficientes para a gestão efetiva dos sistemas ecológicos. Eles desenvolveram uma nova abordagem teórica, a ciência da resiliência, que almejava conectar perspectivas sociais e ecológicas numa abordagem global dos problemas enfrentados por sistemas socioecológicos. Além disso, procuraram meios para tornar esta teoria mais acessível aos atores sociais envolvidos na tomada de decisão e gestão ambientais. Diminuir a lacuna pesquisa-implementação era e continua sendo uma motivação central dos teóricos da resiliência, desde o começo de sua tradição de pesquisa. Esta tradição se expressou de três formas diferentes, mas complementares: a ciência da resiliência, o manejo adaptativo e o planejamento (design) de políticas ecológicas.

A ciência da resiliência tomou como ponto de partida o conceito de resiliência ecológica, proposto por Holling, entendido como a capacidade de um sistema de absorver perturbação sem sofrer mudança para outro regime de comportamento (ver outra postagem do blog, na qual discutimos resiliência ecológica e indicadores de mudanças críticas de sistemas socioecológicos).

Nessa postagem, queremos destacar a proposição de que a unidade de análise para a compreensão dos problemas socioambientais e para a intervenção por meio da gestão é, para esta ciência, um sistema socioecológico. Reconhece-se, assim, a importância de não separar, na investigação e na intervenção, os componentes sociais e ecológicos, dando ênfase sempre à sua interdependência.

Isso conduz à ideia de que se deve buscar uma gestão integrada, que se expressa no chamado manejo ecossistêmico. Se pretendemos enfrentar os problemas (socio)ambientais que afetam, digamos, a Baía de Todos os Santos, não devemos atacar cada problema em separado, mas sim o sistema socioecológico, que inclui toda a Baía de Todos os Santos, assim como as comunidades humanas que com ela interagem. Isso não significa deixar de lado a análise de diferentes compartimentos do sistema, por meio de abordagens disciplinares, mas sim que cada abordagem deve ser integrada a tantas outras, que se debruçam sobre diferentes compartimentos, num modelo socioecológico integrado, necessariamente interdisciplinar. Podemos ver com clareza como a ciência da resiliência demanda mudanças nas abordagens que têm sido usadas na gestão de sistemas socioecológicos. É aqui que entra o engajamento no planejamento de políticas ecológicas.

Por fim, os desafios de uma gestão integrada de sistemas socioecológicos são certamente imensos. Daí a importância do manejo adaptativo, conceito usado pela primeira vez em 1978, num estudo de Carl J. Walters e Ray Hilborn. A ideia básica é a de que, na gestão de sistemas complexos, propostas de manejo devem ser testadas em estudos de campo, com escalas cada vez maiores e monitoramento apropriado, de modo a podermos investigar suas consequências para o sistema socioecológico, antes de implementá-las em larga escala. Desse modo, o risco de respostas surpreendentes, e potencialmente catastróficas, poderia ser estabelecido em escalas mais gerenciáveis. Isso se coaduna bem com o princípio de precaução, que nos parece fundamental quando intervimos em sistemas complexos, sobre os quais nosso conhecimento apresenta grande incerteza (não somente pelos nossos limites cognitivos, mas por atributos do próprio sistema, como a natureza probabilística, ou estocástica, de seus processos).

Não é necessário grande esforço para concluirmos que não temos feito intervenções nos sistemas socioecológicos do modo preconizado pelo manejo adaptativo. De um lado, isso mostra que temos corrido grandes riscos na gestão de tais sistemas, os quais não são objeto de cenários futuros, e sim de experiências cotidianas das sociedades atuais, a exemplo do aquecimento global. De outro, torna bastante clara a relevância do tripé básico da tradição de pesquisa iniciada nos anos 1970 pelo Grupo de Política Ecológica: ciência da resiliência, manejo adaptativo e planejamento de política ecológica.

Charbel N. El-Hani (Instituto de Biologia/UFBA)

Figura: Os subsistemas centrais numa moldura teórica para a análise de sistemas socioecológicos (de: Ostrom, E. 2009. A General Framework for Analyzing  Sustainability of Social-Ecological Systems).

PARA SABER MAIS:

Curtin, C. G. & Parker, J. P. (2014). Foundations of resilience thinking. Conservation Biology 28: 912–923.

Farrall, M. H. (2012). O conceito de resiliência no contexto dos sistemas socio-ecológicos. Ecologi@ 6: 50-62.

Gunderson, L. H., Allen, C. R. & Holling, C. S. (Eds.). (2012). Foundations of Ecological Resilience. Island Press.

Holling, C. S. (1973). Resilience and stability of ecological systems. Annual Review of Ecology and Systematics 4:1–23.

Stockholm Resilience Centre. (2014). What is resilience? An introduction to social-ecological research. Stockholm: Stockholm University.

Walters, C. J. & Hilborn, R. (1978). Ecological Optimization and Adaptive Management. Annual Review of Ecology and Systematics 9: 157-188.

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