A Era dos Mortos-Vivos: Por que muitas espécies de plantas estão a caminho da extinção

Cientistas estimam que o processo de extinção em plantas leva mais tempo do que em animais, e que uma em cada cinco espécies de plantas vasculares está em processo de extinção.

Foto: State of the World's Plants Report, Royal Botanical Gardens, Kew.

Um documento recente produzido pelo Royal Botanical Gardens, localizado em Kew, subúrbio de Londres, a respeito do estado atual das plantas vasculares, chamou a atenção do mundo. De acordo com o relatório, o Brasil é o país de maior diversidade de plantas vasculares do planeta, com mais de 32.000 espécies descritas, das quais 18.423 são endêmicas da flora brasileira. As plantas vasculares formam um grande grupo de plantas terrestres, incluindo as samambaias, os pinheiros ou gimnospermas, e as plantas com flores, também conhecidas como angiospermas. As plantas vasculares constituem a vasta maioria das plantas utilizadas pelos seres humanos.

O relatório do Royal Botanical Gardens traz outras informações curiosas, como o fato de que o Brasil lidera, desde 2008, o ranking de países com maior número de novas espécies descobertas de plantas vasculares, com ~200 novas espécies descritas anualmente. Esse número perfaz um total de 2.220 novas espécies descritas desde 2006, seguido da Austrália, com 1.648, e China, com 1.537. Em média, desde 2004, 2.000 novas espécies de plantas vasculares são descritas todos os anos.

Contudo, o relatório aponta também dados alarmantes: estima-se que, das aproximadamente 390.000 espécies conhecidas de plantas vasculares, 50.000 estejam em risco de extinção. De maneira semelhante, a International Union for Conservation of Nature (IUCN) estima que, no ano de 2016, 21% das espécies de plantas vasculares estão em risco de extinção, o que significa que uma em cada cinco espécies pode desaparecer do planeta em breve. Números semelhantes foram produzidos na década de 1990, a partir de modelos baseados em perda de hábitat. Há aproximadamente 25 anos, cientistas estimaram que enfrentaríamos uma perda de 4.000 a 30.000 espécies de plantas até o ano de 2015, baseados principalmente na velocidade de destruição de hábitats, isoladamente a principal causa de perda de biodiversidade no planeta. Entretanto, uma análise cuidadosa da Lista Vermelha da mesma IUCN mostra que apenas 142 espécies de plantas vasculares são consideradas extintas na natureza. Assim, uma pergunta óbvia se coloca: qual o motivo de tamanha discrepância? Por que apenas 142 espécies são consideradas extintas, quando os modelos baseados em perda de hábitat previam números 10 a 100 vezes maiores?

Mesmo se considerarmos 142 espécies extintas como uma medida conservadora, este número ainda está muito distante das estimativas feitas pelos ecólogos no início da década de 1990. Como aponta um estudo recente, a discrepância entre as estimativas e o número observado de espécies extintas não pode, infelizmente, ser explicada por uma redução das taxas de destruição ambiental. Nos últimos 25 anos observamos um aumento das taxas de destruição de áreas naturais, incluindo florestas tropicais, por exemplo, principalmente devido à expansão da agricultura industrializada. O que, então, poderia explicar tamanha discrepância?

Em Julho desse ano, o ecólogo Quentin Cronk, em um comentário recente na revista Science, levantou uma hipótese interessante: apesar da discrepância entre os números estimados e os números observados, afirma Cronk, podemos estar em meio a uma extinção em massa, um fenômeno em andamento, cujos efeitos apenas serão observados no futuro próximo. Ou seja, estaríamos caminhando para a extinção permanente de milhares de espécies de plantas vasculares, apesar de poucos indivíduos dessas espécies ainda sobreviverem na natureza. Esse período é o que ecólogos chamam de “extinção latente” (extinction lag time), também conhecido como “tempo de relaxamento” de extinção (relaxation time).

Durante esse período, os indivíduos sobreviventes a um evento de extinção, como a destruição de uma floresta, representariam os últimos sobreviventes das suas espécies, que estariam, no entanto, funcionalmente extintas, visto que esses poucos indivíduos estariam incapacitados de perpetuar a espécie na natureza.

Alguns ecólogos consideram esses sobreviventes como “mortos-vivos” (the living dead), os últimos de uma linhagem em extinção latente, incapazes de restabelecer populações viáveis das suas espécies, que se tornariam permanentemente extintas com a morte desses indivíduos. Em plantas vasculares, esse período de extinção latente, aponta Cronk, é relativamente longo, quando comparado à extinção latente da maioria das espécies animais. Diversos fatores contribuem para um aumento no período de latência em plantas vasculares. Dentre eles, podemos citar os bancos de sementes presentes nos solos, a capacidade de reprodução assexuada e de auto-fertilização em muitas espécies, além de uma maior sobrevida, quando comparadas à maior parte dos animais. Dessa maneira, temos fortes razões para acreditar que o período de latência de extinção em plantas vasculares excede aquele observado para a maior parte dos animais, e chega, em florestas temperadas, a ultrapassar 100 anos.

Se levarmos em conta essas considerações, podemos estar em maus lençóis: muitas das espécies de plantas vasculares estariam em período de extinção latente, com indivíduos isolados ainda sobrevivendo por algumas décadas, mas fadadas à extinção permanente com a morte desses indivíduos. Se as atividades humanas nos últimos 25 anos causaram um evento de extinção em massa, seus efeitos em plantas vasculares apenas serão sentidos nos próximos 100 anos, devido ao seu longo período de extinção latente. As previsões de extinção da década de 1990 estariam refletindo, assim, a extinção latente de milhares de linhagens, sendo que uma em cada 5 espécies de plantas vasculares estaria representada por poucos indivíduos que não passariam de “mortos-vivos”, os últimos representantes dessas espécies em extinção.

Vivemos, assim, a Era dos “mortos-vivos”, ao menos quando tratamos de plantas vasculares. Apesar de sombrio, esse aumento do período de latência de extinção de plantas vasculares suscita questões interessantes. Seríamos capazes de identificar os “morto-vivos” na natureza? Caso consigamos, o que deveríamos fazer? Além disso, poderíamos entender esse período de latência como a última chance para que esforços de conservação tentem evitar a extinção permanente dessas espécies. No pior dos casos, o longo período de extinção latente de plantas vasculares nos dá um pouco mais de tempo para conhecermos os organismos que perderemos no próximo século.

Foto: State of the World’s Plants Report, Royal Botanical Gardens, Kew.

Ana Maria Almeida

(Instituto de Biologia/UFBA; California State University East Bay/Hayward)

Para saber mais:

(1) W. V. Reid, in Tropical Deforestation and Species Extinction, T. C. Whitmore, J. A. Sayer, Eds. (Chapman Hall, London, UK, 1992), pp. 55–73, https://portals.iucn.org/library/sites/library/files/documents/FR-006.pdf

(2) Steffen, et al. (2015). Planetary boundaries: Guiding human development in a changing world. http://science.sciencemag.org/content/347/6223/1259855.full.pdf+html

(3) Kuussaari, M. et al. (2009). Extinction debt: a challenge for biodiversity conservation. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0169534709001918

5 comentários em “A Era dos Mortos-Vivos: Por que muitas espécies de plantas estão a caminho da extinção”

  1. Interessante! O tema segue o padrão da Scientific American Brasil. Esse tema alcança Ecologia e Ecologistas em grande medida mas, deixa um estimulante forte para biólogos , botânicos e uma lista extensa de outros estudiosos afins, preocupados com o planeta e sua dinâmica para se manter. Que a Vida dá seus pulos, já sabemos. Cabe-nos, entretanto, como seres vivos conscientes, a oferta de extensa parcela de contribuição, até mesmo por uma questão de sobrevivência.
    Excelente, texto para discussão na Segunda e terceira Séries do Ensino Médio…

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    1. Caro Valter, obrigada pelo comentário. Sim, precisamos divulgar essas idéias, principalmente entre estudantes do Ensino Médio, para que possamos construir uma sociedade mais consciente e envolvida nas questões ambientais. Como você bem coloca, nós, como seres vivos conscientes, precisamos atuar para modificar essa situação, contribuindo da maneira que nos for possível, mesmo que o intuito último seja apenas a nossa sobrevivência. Abraços.

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      1. Oi Valter e Ana,
        Interessante também a discussão sobre possíveis posições éticas que nós, humanos, como seres dotados de consciência e opções, portanto, passiveis de responsabilização face aos problemas socioecologicos, poderíamos assumir. Isso envolve um leque de opções desde um antropocentrismo forte, muito comum em humanos, ate antropocentrismos mais moderados, biocentrismos ou ecocentrismos. As posições possíveis são várias e o conhecimento sobre elas fundamental para opções bem fundamentadas. Infelizmente, poucas oportunidades de formação têm sido oferecidas para tal formação ética, em termos gerais. Há um aspecto, contudo, no qual não temos opção: Necessitando de 1,5 terras para manter nossos padrões de produção e consumo, com base no calculo da pegada ecológica global da humanidade, numa conta que evidentemente não fecha, não podemos deixar de discutir, com a profundidade que o tema demanda, nossa (in)sustentabilidade. Sem dúvida isso passa pelas discussões entre as desigualdades regionais e globais no desenvolvimento humano e nas pegadas ecológicas. Mas aí estamos já na seara de uma postagem a ser feita.

        Abs
        Charbel

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