A longa jornada evolutiva das plantas até os nossos pratos

Cientistas encontram fóssil de espécie próxima ao fisális moderno, datando de 52 milhões de anos atrás, em região da Patagônia conhecida popularmente como “o fim do mundo”

De onde vêm os vegetais que utilizamos na nossa alimentação? Essa é uma pergunta interessante, que frequentemente resulta em respostas curiosas. Por exemplo, o clássico brasileiro ‘feijão com arroz’, talvez o prato mais comido em todo o Brasil, tem histórias complexas. Vejamos:

O termo arroz se refere à semente de pelo menos sete espécies de gramíneas do gênero Oryza: O. sativa, O. glaberrima, O. barthii, O. latifolia, O. longistaminata, O. punctata e O. rufipogon. Apesar da diversificação da família das gramíneas (Poaceae) ter provavelmente acontecido em torno de 65 milhões de anos atrás, o gênero Oryza surgiu por volta de 10 milhões de anos.

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Figura 1: O feijão com arroz, prato típico dá culinária brasileira, tem história evolutiva interessante. (Fonte: http://www.contapraeu.com.br/curiosidades/origem-tradicao-brasileira-arroz-feijao/)

Assim como ocorreu com muitos animais, muitas espécies de plantas também foram domesticadas pelo homem, que realizou cruzamentos e selecionou formas que eram ideias para o seu uso. No caso do arroz asiático, o tipo mais comumente utilizado na alimentação em todo o mundo, a origem de sua domesticação ainda é controversa. A visão mais aceita hoje é de que a espécie O. sativa foi domesticada na Ásia, particularmente na região do Vale do Rio Yangtzé, na China, por volta de 10 mil anos atrás. Apesar de bem menos estudada, a domesticação do arroz africano tem uma história não menos intricada, mas estudos apontam para a sua domesticação ao longo do Vale do Rio Níger. Apesar da forte ligação histórica entre Brasil e África, comemos, em larga medida, as variantes domesticadas do arroz asiático. Foram, provavelmente, os portugueses que trouxeram o arroz asiático ao país, séculos depois da sua introdução no sudoeste da Europa pelos turcos.

O termo feijão também se refere a um conjunto de várias espécies (por exemplo, Phaseolus vulgaris, P. dumosusP. coccineusP. acutifolis e P. lunatus ), das quais o P. vulgaris é, de longe, a mais consumida e economicamente importante. Estudos moleculares indicam que o gênero Phaseolus originou-se por volta de 8 milhões de anos atrás, e sua diversificação, no México, ocorreu entre 5 e 2 milhões de anos.

A história da domesticação do feijão é um pouco menos controversa. O cenário mais provável é que a origem dos vários tipos de feijão se situe na Mesoamérica, região do centro do México, e que de lá diversos eventos de domesticação seguiram cursos independentes nas Américas.

Em suma, evolutivamente o nosso velho feijão com arroz não tem nada de muito brasileiro, apesar de ser um ícone da culinária nacional.

Assim ocorre também com uma grande diversidade de outros vegetais que compõem a nossa dieta ou a nossa paisagem. Por exemplo, o coqueiro (Cocos nucifera), elemento importante das paisagens praianas do nordeste do Brasil, foi introduzido no Novo Mundo há apenas aproximadamente 2.500 anos e, no Brasil, a sua introdução está provavelmente ligada à chegada dos portugueses. C. nucifera teve, provavelmente, duas origens de cultivo: no sudeste asiático e nas margens do subcontinente indiano. Assim, uma árvore símbolo de parte importante do litoral do Brasil originou-se, na verdade, em outras praias.

Recentemente, um artigo publicado na revista Science apresentou uma descoberta importante, que modifica a nossa visão a respeito da história evolutiva da família dos tomates (Solanaceae).  Essa família de plantas engloba algo em torno de 2,700 espécies, muitas das quais são economicamente importantes, como a batata (Solanum tuberosum), o tomate (Solanum lycopersicum), a berinjela (Solanum melongena), o tabaco (Nicotiana tabacum), além do gênero Capsicum, que inclui os pimentões e a pimenta ‘chili’. Também dentro dessa família encontramos o gênero Physalis, que engloba não apenas o fisális (Figura 2z), fruta conhecida no Brasil, como também o tomatillo (Physalis philadelphica), ingrediente essencial na culinária típica mexicana. Os frutos do gênero Physalis  apresentam uma característica notável. Em geral, os frutos são total ou parcialmente cobertos por uma casca fina e frágil, derivada do cálice floral. O cálice floral é composto pelo conjunto de sépalas, os primeiros órgãos, geralmente verdes, da flor. Em muitas espécies do gênero Physalis, o cálice envolve completamente o fruto e cria um bolsão de ar capaz de promover a flutuação do mesmo. Assim, acredita-se que a permanência desse cálice nos frutos desse gênero exerce importante papel na dispersão das sementes, pois permite que os mesmo sejam carregados pela água por longas distâncias.

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Figura 2: Fotos dos fósseis de Physalis infinemundi (A, H), encontrados em depósitos datados de 52 milhões de anos atrás, na região da Patagônia. Representação do posicionamento das massas continentais da Terra há aproximadamente 50 milhões de anos (M), quando o continente americano estava bem próximo da Antártica. (Z) Fruto do fisális moderno (gênero Physalis), com o seu cálice característico (*), conhecido também como síndrome do cálice inflado (do inglês, Inflated Calix Syndrome – ICS). Setas vermelhas indicam o padrão característico de veias no cálice. (Fontes: Imagens dos fósseis (A, H), (Wilf et al 2017) http://science.sciencemag.org/content/355/6320/71/tab-pdf; Mapa da Terra há 50-45 milhões de anos (M), https://wattsupwiththat.com/2014/04/22/todays-antarctic-region-once-as-hot-as-california-florida/comment-page-1/; Fruto do fisális (Z), Wikipedia, https://pt.wikipedia.org/wiki/Physalis#/media/File:Physalis.jpg).

Em seu artigo, Wilf e colaboradores encontraram, em depósitos da região de Laguna Hunco, na Argentina, fósseis com características semelhantes aos frutos das espécies modernas de Physalis. Os frutos fossilizados (Figura 2) apresentavam não apenas o cálice típico do gênero, devido à chamada Síndrome do Cálice Inflado (do inglês, Inflated Calix Syndrome – ICS), como também o padrão de distribuição de veias do cálice (setas vermelhas, Figura 2), ambas características peculiares do grupo.

Os resultados de cuidadosa análise da morfologia dos frutos encontrados, somados a análises filogenéticas incluindo outros membros da família das solanáceas, apoiam a identificação de Physalis infinemundi como membro do gênero Physalis.

Talvez a consequência mais curiosa desse achado tenha relação com a idade das solanáceas. A idade do gênero Physalis, anteriormente estimada em 10 milhões de anos com base em estudos moleculares, passa a ser não menos que 50 milhões de anos, com base nos fósseis encontrados, resultando em idades ainda muito maiores para toda a família. Essa descoberta implica a visão de um mundo já povoado por solanáceas com características reprodutivas especializadas, como o cálice inflado, há pelo menos 50 milhões de anos. Não apenas isso, mas sugere que a região da Patagônia, onde os fósseis foram encontrados, era uma região quente e úmida, onde cálices inflados serviriam como mecanismos de flutuação e dispersão de sementes. A Patagônia de hoje, gélida, seria bem diferente daquela de 50 milhões de anos atrás. Naquela época, o “fim do mundo”, como é conhecida a região, era quente e úmido.

Assim como as histórias narradas acima, o conhecimento da história evolutiva dos animais e vegetais que nos cercam, ou daqueles que comemos ou utilizamos, nos oferece um novo olhar sobre nossos hábitos diários. Que outras histórias surpreendentes podemos conhecer a respeito dos nossos alimentos? Fica lançado aqui o desafio.

Ana Maria Almeida

(California State University, EUA, Universidade Federal da Bahia, Brasil)

Para saber mais:

Albala, K. 2013. Food: A cultural culinary history. The Teaching Company.

Bellucci, E. et al. 2014. Genomic origin, domestication and evolution of Phaseolus vulgaris. IN: Capítulo 20, R. Tuberosa et al. (eds.). Genomics of Plant Genetic Resources. Springer.

Huang et al. 2012. A map of rice genome variation reveals the origin of cultivated rice. Nature, 490: 497-501.

Särkinen, T. et al. 2013. A Phylogenetic framework for evolutionary study of the nightshades (Solanaceae): a dated 1000-tip tree. BMC Evolutionary Biology 13, doi: 10.1186/1471-2148-13-214.

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