Animais não-humanos cometem suicídio?

Seria o suicídio uma característica única dos humanos? A questão do suicídio em outros animais pode ser mais importante do que muitos pensam.

Albert Camus um dia escreveu: “há apenas uma questão filosófica realmente séria e esta é o suicídio”. Muitos pensarão que se trata de uma afirmação exagerada. Concordo. Mas não podemos deixar de apreciar o poder dessa hipérbole. Possivelmente, devemos chamar a atenção para um problema que por vezes é negligenciado em nossas reflexões.

O suicídio levanta questões espinhosas sobre a vida e a morte. E ele parece ser algo tipicamente humano, ao menos à primeira vista. Parece evidente para muitos que animais não-humanos não poderiam cometer suicídio. Afinal, suicidar-se dependeria de alguns atributos que muitos supõem que apenas humanos possuem: subjetividade auto-reflexiva, livre arbítrio, consciência da própria morte. Na ausência de tais atributos, não poderia haver suicídio e, assim, a ideia de suicídio entre animais não-humanos não passaria de uma ilusão antropomórfica. Repetidamente, nós, humanos, buscamos argumentos para criar abismos de diferença entre nossa espécie e os outros animais. Repetidamente, essas barreiras são derrubadas. O suicídio é mais uma dessas barreiras em franca queda. Um dia, quiçá, aceitaremos com orgulho a natureza animal de nosso ser, deixando de lado os delírios de grandeza que nos acometem.

Como ficará evidente nos próximos parágrafos, repensar a barreira do suicídio entre humanos e animais não-humanos nos levará a repensar vários outros abismos que insistimos em colocar entre nós e eles, mostrando que, como toda e qualquer espécie, nós somos apenas mais uma espécie única.

Desde tenra idade, somos ensinados que os humanos estão acima de todos os outros animais, por possuírem alguma coisa especial, seja razão, linguagem, subjetividade, livre arbítrio. Essas ideias são reforçadas em várias visões de mundo e têm sérias consequências, por supostamente nos atribuírem um status moral excepcional, que afeta como pensamos e falamos sobre outros animais, e também como os tratamos. Elas são, por assim dizer, um convite ao especismo e à restrição dos sistemas ecológicos e da biodiversidade à mera condição de recursos a serem usados, com implicações importantes para o modo (insustentável) como nos relacionamos com o restante da natureza, ao nos colocarmos acima e além, e não dentro dela.

Outra consequência dessas ideias é que elas afetam como interpretamos dados sobre a riqueza e complexidade das vidas cognitivas, comportamentais e sociais dos animais não-humanos. Podemos estar predispostos a recusar a priori hipóteses que desafiam nossa crença na suposta superioridade e singularidade de nossa espécie, não importando quanta evidência a seu favor esteja disponível.

Malgrado esse viés contrário à hipótese do suicídio em animais não-humanos, na última década a controvérsia a este respeito se tornou mais acirrada, à luz de pesquisa empírica sobre as capacidades desses animais e reflexão filosófica sobre o modo como entendemos nosso lugar na ordem das coisas, em contraponto com o lugar dos demais animais. A questão filosófica posta à mesa pelo suicídio animal já mostra que o problema tem maior importância do que muitos imaginariam.

Num artigo recente, David Peña-Guzmán se dedica a examinar os atributos supostamente exclusivos dos humanos que tornariam inconcebível o suicídio em outros animais. Comecemos com a subjetividade auto-reflexiva, que corresponde à capacidade de um animal de compreender a si mesmo como agente capaz de uma ação (ou seja, como um “Eu”). A falta de subjetividade auto-reflexiva implicaria, então, a impossibilidade do suicídio em animais não-humanos, porque o suicídio seria um ato reflexivo em que o agente é ao mesmo tempo sujeito e objeto. Ele demandaria uma sofisticação subjetiva que animais não possuiriam.

Peña-Guzmán identifica dois problemas com esse argumento. O primeiro é que ele pressupõe uma visão dicotômica sobre a subjetividade auto-reflexiva, como se ela fosse uma propriedade do tipo tudo-ou-nada. Contudo, não se pode assumir que este seja necessariamente o caso, devido à natureza do processo evolutivo, frequentemente caracterizado por mudança gradual e continua, que nos faz esperar que diferentes espécies animais possuam tipos e graus distintos de consciência subjetiva.

Além dessa razão teórica, evidências empíricas obtidas em vários estudos apoiam essa hipótese. Como Bernard J. Baars argumenta, se inferimos que a experiência de um humano é subjetiva com base em evidência comportamental e neurocientífica, somos forçados a reconhecer que evidência bastante similar está disponível em outros mamíferos e, possivelmente, em algumas espécies que não são mamíferos.

Marc Bekoff e Paul W. Sherman identificam ao menos três tipos de subjetividade que se distribuem no reino animal de maneiras elaboradas e não-lineares, não sendo mutuamente exclusivas. A subjetividade auto-referenciada corresponde à capacidade de distinguir animais que são membros da própria espécie daqueles que não o são. Esse tipo de subjetividade tem papel importante em desmistificar a consciência, uma vez que não depende de cérebro ou cognição, ocorrendo no sistema imune e em criaturas desprovidas de cérebro. A capacidade de distinguir entre Eu e outro, no sentido de que o animal se mostra capaz de compreender, mesmo que tacitamente, os limites de seu próprio corpo e de diferenciar a si mesmo em relação aos outros, é um outro tipo de subjetividade, na língua inglesa, capturada pelo termo self-awareness. Por fim, a capacidade de pensar sobre o próprio comportamento em relação às ações dos outros é outro tipo de subjetividade, capturada por termos como metacognição e, na língua inglesa, self-consciousness (de difícil diferenciação de self-awareness na língua portuguesa). Este último tipo de subjetividade é mais comum em animais que vivem em estruturas sociais com hierarquias flexíveis, como os primatas. A diferenciação desses tipos de subjetividade reforça a ideia de que a consciência reflexiva evolui constantemente num contínuo e em múltiplas direções, não podendo ser limitada a um juízo dicotômico.

A inconsistência interna é outro problema do argumento de que apenas humanos possuiriam subjetividade auto-reflexiva e poderiam, assim, cometer suicídio: de um lado, há humanos com comportamentos suicidas documentados que não satisfazem os requisitos para ter subjetividade auto-reflexiva, como as crianças; de outro, há animais não-humanos que regularmente passam em testes de auto-reconhecimento e, assim, satisfazem requisitos de reflexividade, a exemplo de grandes macacos, golfinhos, elefantes asiáticos e até mesmo aves, como a gralha europeia.

O contra-argumento à ocorrência de suicídio em animais não-humanos baseado na subjetividade auto-reflexiva não fica de pé diante de tais argumentos: para excluir todos os animais não-humanos do conjunto de espécies nas quais se observa suicídio, ou teríamos de assumir conceito muito restrito de suicídio, que excluiria alguns humanos nos quais se observam comportamentos suicidas, ou, para incluir todos os humanos, teríamos de assumir conceito muito liberal, que inevitavelmente inclui animais não-humanos.

Alguns autores usam o conceito de livre arbítrio para argumentar contra o suicídio em animais não-humanos, com base em intuições comuns que tratam o suicídio como uma expressão de um livre arbítrio que seria exclusivamente humano. Contudo, há muitos problemas com esse argumento, como Peña-Guzmán nos lembra. De um lado, pode-se argumentar pela possibilidade de que animais não-humanos também tenham livre arbítrio. O primatologista japonês Tetsuro Matsuzawa, que trabalhou com chimpanzés por décadas, foi levado a concluir, por exemplo, que esses animais agem livre e voluntariamente, com base em livre arbítrio.

Se aceitarmos, como a evidência nos impele a fazê-lo, que animais têm preferências (por exemplo, por certos alimentos ou abrigos, ou parceiros nas interações sociais), que eles expressam e buscam essas preferências em diversos contextos, que eles planejam o futuro (como chimpanzés que escolhem galhos como ferramentas antes de se deslocar por quilômetros para usá-los para capturar formigas ou cupins), que mantêm intenções por longos períodos de tempo (como no caso de um macho beta numa sociedade primata que articula uma série de coalizões para tentar suplantar o macho alfa), que concordam ou discordam de diferentes situações, e fazem escolhas informadas que não estão determinadas de antemão, será difícil compreender qual exatamente seria a diferença entre esses atributos e o livre arbítrio que enxergamos em nós, mais ainda como se poderia discernir se um dado comportamento está associado a livre arbítrio ou não em termos empíricos. Não espanta, então, que nenhuma teoria cientifica contemporânea explica o suicídio com base no conceito de livre arbítrio.

De outro, pode-se argumentar que não existe livre arbítrio, nem mesmo em humanos. Esse conceito tem um tom anti-naturalista, pouco compatível com a epistemologia cientifica. Definir suicídio em termos de livre arbítrio pode colocar esse fenômeno num pedestal metafisico, onde se torne inalcançável pelas práticas e explicações científicas. Isso se torna claro quando alguém se recusa a aceitar a existência de comportamentos suicidas em animais não-humanos (por exemplo, de um rato que segue um gato pelo cheiro e termina sendo morto) porque podem ser explicados por causas puramente naturais, de modo que não seriam “verdadeiros” suicídios. No caso do rato, por exemplo, o comportamento suicida resulta de atividades do parasita Toxoplasma gondii.  Mas o que diríamos então de suicídios humanos que podem ser explicados de modo naturalista, como no caso de suicídios induzidos por drogas anti-depressivas, como os inibidores seletivos da recaptação da serotonina? Não seriam suicídios “verdadeiros”? A distinção parece um tanto arbitrária.

Em suma, não utilizamos o conceito de livre arbítrio para explicar suicídio humano. Por que empregá-lo, então, para estabelecer ou não a existência de suicídio em animais não-humanos?

Outro argumento mobilizado contra a ideia de suicídio em animais não-humanos diz respeito à hipótese de que eles não poderiam conceitualizar “morte” e, assim, não poderiam voluntariamente optar pela própria morte. Dois contra-argumentos podem ser construídos nesse caso. De um lado, mesmo assumindo que animais não humanos não tenham um conceito de morte, para fins do argumento, não é evidente que isso implicaria não poder cometer suicídio, visto que se assume que humanos que não possuem tal conceito formado, como crianças, podem cometer suicídio. De outro, não é evidente, como muitos pensam, que animais não conceitualizem a morte. Basta considerarmos evidências de rituais funerários em diversas espécies animais, incluindo mamíferos, como raposas-vermelhas, elefantes, golfinhos e gorilas em cativeiro, e aves, como corvos e gralhas, para concluirmos que a morte tem papel mais central nas vidas de muitos animais do que usualmente imaginamos, não sendo uma ideia inconcebível, então, que eles conceitualizem a morte. Ou, ainda, evidências de sentimentos de luto, melancolia e tristeza em muitos animais, quando parentes ou companheiros morrem, indicam um entendimento da diferença entre vida e morte.

Há até mesmo um campo emergente de pesquisa, a tanatologia em Pan (Pan thanatology), o gênero que inclui chimpanzés (Pan troglodytes) e bonobos (Pan paniscus), que se dedica a investigar como esses animais se relacionam com a morte. Tem sido mostrado, em tais estudos, que bonobos e chimpanzés têm um entendimento da morte que vai além da experiência da tristeza, envolvendo rituais em torno dela, incluindo regras comunais para o tratamento de animais da mesma espécie que se encontram moribundos e de seus corpos após a morte. Bonobos, por exemplo, frequentemente impedem que outros toquem ou movimentem os corpos de parentes ou companheiros mortos, mesmo que isso implique colocar-se em risco. Fêmeas de chimpanzés foram observadas carregando nas costas os restos mumificados de seus filhotes mortos por semanas ou meses, o que contraria a hipótese, levantada por alguns pesquisadores, de que apenas humanos podem se encontrar num estado de negação da morte. E tampouco esse estado parece restrito à nossa linhagem e a nossos parentes mais próximos, uma vez que o mesmo comportamento é observado em diversas espécies de mamíferos terrestres, como gorilas, babuínos, macacos, lêmures e geladas, e aquáticos, como diversas espécies de golfinhos e baleias.

 

A hipótese do suicídio animal e a continuidade da evolução

Há razões convincentes para assumir, de uma perspectiva científica, que o suicídio não seja um fenômeno exclusivamente humano. Contudo, cientistas que defendem abertamente essa possibilidade ainda são uma minoria. Devido a temores como o de soar “antropomórfico”, muitos cientistas podem estar colocando de lado questões que requerem abordar o que Marc Bekoff denomina “as vidas emocionais dos animais”, incluindo o suicídio.

Entre os cientistas que admitem a hipótese do suicídio em animais não-humanos, alguns consideram que esses animais exibem funcionamento mental associado a suicídio em humanos, experimentando estados emocionais como desamparo, letargia e muitos sintomas de depressão, como ansiedade crônica, agressividade, problemas no sono, incapacidade de experienciar estados de prazer e alegria (anedonia). Alguns chegam a exibir patologias homólogas a condições psiquiátricas humanas relacionadas ao suicídio, como transtorno do estresse pós-traumático, transtornos alimentares, e transtornos de personalidade antissocial ou esquizoide, inclusive respondendo a prescrições de medicamentos utilizados em tais condições em humanos.

Além disso, animais não-humanos frequentemente exibem os mesmos tipos de comportamentos autodestrutivos qualificados, em seres humanos, como “suicidas”. Muitos animais, como macacos rhesus, coelhos, ratos, psitacídeos, polvos, mostram todo o espectro de tais comportamentos, da automutilação ao autocanibalismo, especialmente em cativeiro e isolamento. Se capturados ou separados de indivíduos com os quais têm proximidade, animais podem voluntariamente parar de se alimentar até a morte. Outros perdem interesse em atividades vitais características de suas espécies quando se encontram em condições sub-ótimas, especialmente quando estas fogem ao seu controle. Pode-se concluir, da revisão de tais estados emocionais e comportamentos observados em animais não-humanos, que a evidência existente mostra – no mínimo – que a possibilidade de suicídio em tais animais não pode rejeitada a priori.

Peña-Guzmán introduz uma teoria evolucionista e continuísta para abordar comportamentos suicidas como pontos num espectro que inclui humanos e animais. Esse espectro inclui uma série de atividades animais que são auto-dirigidas e podem resultar em agravos sérios ao animal ou na terminação de sua atividade vital, seja subitamente, seja ao longo de uma extensão de tempo. Comportamentos auto-destrutivos são tratados nessa teoria como expressões da renúncia-à-conservação (conservation-withdrawal), um processo complexo, que pode ser realizado de diferentes maneiras e que leva um animal a desativar ou negar suas atividades de conservação da própria vida. A aposta de Peña-Guzmán é que o estudo científico do suicídio poderá beneficiar-se do entendimento do suicídio como um contínuo de comportamentos de renúncia-à-conservação.

Essa teoria continuísta coloca de lado qualquer suposição de um abismo entre humanos e não-humanos. Ela rejeita a noção popular de que algo nos torna biologicamente únicos, que não sobrevive a qualquer análise informada, que rapidamente conclui que toda e qualquer espécie biológica possui características que lhes são únicas. Tecnicamente, uma espécie, para ser identificada como tal, deve ter ao menos uma “autapomorfia”, uma característica derivada de alguma característica ancestral que lhe seja única. Ou seja, por definição, se algo é uma “espécie”, então tem algo de “biologicamente único”. Torna-se trivial dizer que humanos constituem uma espécie única: é um truísmo sem maiores consequências. A opção por uma maior humildade, apropriadamente ciente da nossa condição na história da Terra, tem muito mais consequências para nosso entendimento de nós mesmos e nosso posicionamento normativo (aquele que diz respeito ao que devemos fazer) na nossa relação com os outros animais, os sistemas ecológicos e o planeta como um todo. Infelizmente, os humanos são demasiadamente chegados a projetar a si mesmos para além do que são.

 

Charbel N. El-Hani

Instituto de Biologia/UFBA

PARA SABER MAIS:

Baars, B. J. 2005. Subjective experience is probably not limited to humans: the evidence from neurobiology and behavior. Consciousness and Cognition 14: 7-21.

Bekoff, M. & Sherman, P. 2004. Reflections on animal selves. Trends in Ecology and Evolution 19: 176-180.

Peña-Guzmán, D. M. 2017. Can nonhuman animals commit suicide? Animal Sentience 2017.78

Preti, A. 2011. Do animals commit suicide? does it matter? Crisis 32: 1-4.

Imagem reproduzida de Estudo: Chimpanzés usados em pesquisa médica mostram sinais de estresse pós-traumático (Study: Chimps Used in Medical Research Show Signs of Post-Traumatic Stress) (https://www.voanews.com/a/chimps-used-in-medical-research-show-signs-of-post-traumatic-stress-124703424/163583.html).

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