Ainda estamos evoluindo?

Será que nossa espécie continua evoluindo? Para alguns pesquisadores, o desenvolvimento tecnológico e os avanços médicos nos isolam dos efeitos da seleção natural, essencialmente freando o processo evolutivo. Aqui retomo essa questão e argumento que, apesar das inovações culturais, a evolução continua ocorrendo.

Sabemos muito sobre como mudanças evolutivas nos trouxeram até os dias de hoje. Mas o que o futuro nos reserva? Nossa espécie continua evoluindo? Daqui alguns milhares de anos os humanos serão diferentes de hoje?

Uma percepção bastante comum é que, para a nossa espécie, a evolução parou. A lógica por trás dessa ideia é que a medicina moderna e as inovações tecnológicas permitem que pessoas sobrevivam e passem para seus descendentes traços que, no passado, teriam sido eliminados pela seleção natural. Por exemplo, no passado uma boa visão seria importante, protegendo-nos de predadores e permitindo longas caminhadas em terrenos perigosos. Em tal cenário, os míopes estariam em apuros, pois seriam presas mais fáceis e estariam mais sujeitos a acidentes. Assim, a seleção natural favoreceria a acuidade visual e eliminaria da população os genes associados à má visão. Mas invenção dos óculos teria mudado tudo. É seguro dizer que, nas sociedades modernas, ser míope não reduz em nada as chances de sobrevivência e reprodução. A tecnologia estaria nos protegendo de interações com o ambiente relacionadas à seleção natural, minando a relevância desta última.

Argumentos semelhantes a esse valem para outros desafios. Se vacinas nos protegem de doenças infecciosas e alimentos podem ser cultivados e criados, por que haveria seleção natural? Afinal de contas, não dependeríamos de inovações de nosso sistema imune para responder a doenças ou de atributos físicos para obter alimentos. De fato, muitas mudanças ocorreram na história de nossa espécie nos últimos milênios, entre elas, o desenvolvimento de ferramentas sofisticadas, da agricultura e da medicina. Mas, conforme argumentarei a seguir, essas inovações não implicam um freio à mudança evolutiva.

Em primeiro lugar, devemos lembrar que a seleção natural não é o único processo envolvido na evolução. Como vimos em outros posts, o processo de deriva genética é uma importante força evolutiva, explicando mudanças na composição genética de uma população como consequência do acaso. Isso quer dizer que, mesmo sem seleção, mudanças podem ocorrer. Pensando dessa forma, podemos até imaginar que a evolução de nossa espécie está caminhando cada vez mais rapidamente: mudanças que antes eram prejudiciais são agora toleradas e, então, nossos genomas acumulam mais diversidade e inovações.

Precisamos também lembrar que inovações culturais geralmente mudam a forma como a seleção ocorre, mas não a eliminam por completo. Considere o desenvolvimento da agricultura e do pastoralismo, aquisições recentes na nossa espécie (tendo ocorrido nos últimos 10 mil anos). O uso do leite de vaca como recurso alimentar acelerou as mudanças evolutivas relacionadas ao papel de enzimas que digerem o açúcar contido no leite. A agricultura permitiu que populações humanas se tornassem grandes e sedentárias, criando um ambiente que favorece a disseminação de doenças infecciosas. Como consequência, na Africa subsaariana a malária tornou-se comum e a seleção natural favoreceu mutações que contribuem para a resistência frente a essa doença. Mudanças culturais ocorreram, mas não eliminaram a evolução em nossa espécie; ao contrário, geraram novas pressões evolutivas. Isso aconteceu no passado recente, mostrando que à medida que nossa espécie desenvolvia novas tecnologias, a evolução não estava parando, mas mudando seu curso.

Há outra razão para esperar que a evolução humana não irá parar. Pense no crescimento populacional humano, que ocorre numa taxa exponencial. Alcançamos 7,5 bilhões de pessoas no globo recentemente. Nunca antes na história de nossa espécie nasceram tantas novas crianças. Cada nascimento representa uma oportunidade para o surgimento de uma nova mutação, pois na formação dos gametas dos pais frequentemente ocorrem erros na hora de copiar o DNA. O imenso tamanho populacional significa que estamos gerando abundante matéria prima para a evolução, originando genomas com mutações até então inéditas na nossa espécie. Será que alguma dessas mutações representará uma grande vantagem, e se tornará comum no futuro? Ainda que especulativa, a minha resposta é que essa possibilidade existe. O tamanho populacional imenso implica que há um reservatório de mutações sem precedentes, favorecendo as chances de que uma mutação vantajosa esteja presente.

Há um outro modo importante através do qual o curso de nossa evolução está mudando. Nunca antes houve tanta mistura de povos de diferentes continentes. As migrações que ocorreram desde os períodos das grandes descobertas, até os imensos (e muitas vezes, dramáticos) movimentos migratórios de hoje geram sociedades que são cada vez mais diversas, com misturas de povos vindos de diferentes continentes. Qual a consequência genética dessa mistura? Geneticistas sabem que a maior parte das mutações prejudiciais possui duas características: elas são raras (poucos indivíduos as possuem) e são recessivas. A recessividade significa que o aspecto prejudicial dela só se manifesta quando a pessoa carrega duas cópias da mutação, uma recebida de cada progenitor. Como sabemos que as mutações raras geralmente não são compartilhadas entre povos de diferentes continentes, é pouco provável que o descendente de um casal formado por uma africana e um europeu, por exemplo, tenha duas cópias da mesma mutação prejudicial. Assim, as mutações que cada progenitor passa ao descendente seriam mascaradas pelo material genético do outro progenitor, livre da mutação. Isso resultaria numa baixa taxa de surgimento do traço prejudicial. A mistura entre povos representaria então uma proteção frente aos efeitos das mutações prejudiciais.

A mistura também tem outro efeito. Quanto maior a troca de genes, menor será a diferença genética entre os provos de diferentes continentes. Já vimos num post anterior que as diferenças genéticas entre grupos comumente chamados de “raças” são mínimas. Com o aumento da miscigenação, a tendência é que a humanidade se torne ainda menos subdividida, do ponto de vista genético.

O que tentei mostrar nesse texto é que a nossa espécie está mudando em muitos aspectos. O surgimento da medicina e de inovações culturais, o crescimento populacional e a mistura de povos de diferentes continentes são todos fatores que influenciam o curso da evolução. Porém, eles mudam a forma como a evolução ocorre. Mas ela não parou.

Diogo Meyer

Universidade de São Paulo

Para saber mais:

Templeton A. R. 2014. The Future of Human Evolution. Pp 809-816 In Losos JB, Baum DA, Futuyma DJ, Hoekstra HE, Lenski RE, Moore AJ, Peichel CL, Schluter D, and Whitlock MC, eds. The Princeton Guide to Evolution. Princeton, NJ: Princeton University Press.

Gregory Cochran and Henry Harpending. 2008. The 10,000 Year Explosion: How Civilization Accelerated Human Evolution. New York, NY: Basic Books.

2 comentários em “Ainda estamos evoluindo?”

  1. Gostaria de deixar registrado meu apreço e agradecimento por este blog. Os textos possuem uma qualidade e atualidade admirável para minha informação e para uso em minhas aulas.
    Muito obrigado

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