Não precisamos de árvores somente para abraçá-las

Reconhecer que os serviços ecossistêmicos providos pela biodiversidade podem evitar pandemias como a Covid-19 é um passo importante, mas é necessário ir além. Num mundo invertido, onde há menos florestas e mais desigualdades sociais, o que podemos fazer?

Jogue o lixo no lixo. Não deixe água parada. Lave as mãos. Preserve o meio ambiente.

Nenhuma dessas mensagens é incomum no nosso cotidiano. Embora muito importantes e geralmente aceitas por nós, elas escondem, por praticidade, um conjunto de relações e eventos que justificam a sua contundência. Essas frases traduzem o entendimento científico sobre o ciclo de doenças transmissíveis e a conservação da biodiversidade em ações muito práticas e simples. Mas, o que está por trás destas palavras de ordem? Bem, para responder esta pergunta é preciso considerar duas coisas:

  1. Que a saúde das pessoas está condicionada a vários fatores para além dos biomédicos, por exemplo, as condições socioeconômicas e ambientais são determinantes importantes para saúde individual e coletiva.
  2. Uma das formas de organizar esses fatores em ordem de prioridade para a prevenção de doenças transmissíveis é colocando a conservação da biodiversidade em primeiro lugar conciliada a outros fatores sociais.

Daqui para frente vou me referir somente às doenças transmissíveis do tipo zoonoses (zoo = animal; noso= doença), que são doenças transmitidas de animais não-humanos para humanos. As zoonoses ocorrem como um resultado da interação de quatro componentes: um agente infeccioso, que pode ser vírus, bactérias, protozoários ou vermes; um ciclo de transmissão, que é o processo pelo qual o agente infeccioso se dissemina; um hospedeiro, organismo no qual o agente infeccioso se multiplica e causa a doença propriamente dita; e o ambiente, todo o entorno, imediato ou não, que favorece ou restringe a proliferação da doença. Temos inúmeras zoonoses no Brasil: doença de Chagas, uma zoonose protozoária; dengue, zika, chikungunya e febre amarela, zoonoses virais.

O fator sobre o qual quero chamar a atenção aqui é que a emergência de zoonoses que nos acometem atualmente é atribuída ao aumento do impacto humano sobre sistemas naturais. Animais silvestres contêm naturalmente agentes infecciosos (vírus, fungos, bactérias e protozoários) nos seus organismos. Assim, se assumirmos uma perspectiva humana, esses animais funcionam como um “reservatório de doenças” que podem nos afetar. Uma vez que esses animais são usados para consumo ou há contato direto com humanos, por exemplo, por meio do tráfico, os agentes infecciosos que neles se encontram podem chegar à população humana. Quando isso ocorre, as consequências não são de fácil previsão; afinal, a forma de transmissão, os sintomas, bem como os tratamentos que podem servir para prevenir ou tratar a doença são necessariamente desconhecidos até o momento em que a doença nos atinge. O coronavírus SARS-CoV-2, que causa a doença COVID-19, ilustra esse percurso. Acredita-se que sua chegada à população humana se deu por dois fatores mencionados acima: consumo e tráfico de animais silvestres.

Mas você pode estar pensando que isso tudo está distante da realidade brasileira; afinal, o novo coronavírus não surgiu aqui. Então, vou relatar outro processo que não tem a ver com ingestão direta e tráfico de animais silvestres (mesmo que ambos sejam muito comuns no Brasil). Como disse anteriormente, animais silvestres têm sua “reserva infecciosa”, que pode chegar a nós. Contudo, esses animais podem ser não-palatáveis. Acredito que ninguém gostaria de comer um mosquito ou um percevejo, mas alguns mosquitos, percevejos e outros insetos gostam, por sua vez, de se alimentar de outros animais, mais especificamente, de seu sangue. São os conhecidos insetos hematófagos (hemato= sangue; fagos=comer). Em uma área preservada com bastante vegetação existem mamíferos, por exemplo, disponíveis para saciar a fome desses insetos hematófagos, assim como existem outros animais (sapos, por exemplo) que ingerem esses insetos. Ambas as interações, inseto que se alimenta do sangue do mamífero e sapo que se alimenta do inseto, configuram duas relações ecológicas bastante conhecidas, parasitismo e predação, respectivamente. Conjuntamente e em última análise, estas interações ecológicas contribuem com o controle de doenças. Uma vez que áreas vegetadas são suprimidas, ou seja, desmatadas, esses insetos com a sua “reserva infecciosa” vão à busca de alimento (sangue) em outros mamíferos: nós. E, assim, podemos ter a transmissão e manifestação de uma doença na nossa população.

Se você mora em uma área urbanizada, deve estar familiarizado com o surgimento de novos empreendimentos imobiliários construídos sobre um pedaço de terra onde outrora havia vegetação. Exemplos clássicos de zoonoses que seguem este percurso também são cotidianos: dengue, zika, chikungunya, febre amarela e doença de Chagas. Uma discussão interessante sobre o pico epidêmico da zika que ocorreu entre 2015 e 2016 pode ser vista na série Epidemia do podcast 37 graus. A conclusão que salta aos olhos é que a conservação da biodiversidade garante que esse conjunto de interações e processos, que é conhecido como o serviço ecossistêmico de regulação de doenças, seja efetivado. Nesse sentido, a prevenção de epidemias por meio da conservação é evidente e urgente.

Uma vez reconhecido o efeito da perda da biodiversidade para a saúde humana o que fazer, então?  Aqui proponho dois caminhos que são complementares e que podem ser combinados a tantos outros. O primeiro versa sobre a valorização da ciência. A conservação biológica, enquanto área do conhecimento científico é um campo interdisciplinar e, portanto, compreende a mobilização de informações científicas de diversas áreas, tanto consolidadas quanto que precisam ser mais investigadas. Dentro deste campo de estudo, a compreensão sobre o surgimento de zoonoses e sua relação com a conservação da biodiversidade não é novidade. Assim, perspectivas integradas e críticas, construídas no bojo das abordagens inter- e transdisciplinares que contemplem ensino, ambiente, biologia, economia e política têm muito a acrescentar neste debate, bem como podem orientar decisões que assegurem a nossa saúde coletiva. Nesse sentido a criação de espaços de interação entre diversos atores sociais, em que suas diferentes visões sejam colocadas numa arena de debate, e que tais visões integrem-se, servindo para intervir na tomada de decisão em instâncias institucionais e governamentais, pode ser um caminho mais promissor. O Instituto Mãos da Terra (IMATERRA) ilustra muito bem esta perspectiva. De modo geral, são, portanto, necessários diálogos constantes entre diferentes setores sociais e ações estratégicas que direcionem para um espaço de convivência com menos recorrência de zoonoses, que podem tornar-se, como temos testemunhado, epidemias e pandemias.

O segundo caminho diz respeito a uma reestruturação social que leve a um maior questionamento de valores consumistas que têm dominado nossas sociedades há meio século ou mais, bem como das desigualdades sociais, de maneira que sejam encaradas como inadmissíveis. Sejamos honestos, as epidemias são recorrentes em nosso cotidiano, e o debate atual está na crista da onda não só porque mata muita gente, mas também porque a COVID-19 restringe nossa liberdade e nossos interesses mais egoístas. A nova pandemia nos ensina muitas coisas: não podemos passar por este período e retornar a vida “normal”. A vida não era de fato normal. Vivemos num mundo com desigualdades abissais, que não traz segurança para ninguém, mas, principalmente, não a traz para os grupos populacionais negligenciados pelo Estado. Precisamos de um novo modelo sociopolítico e econômico de produção e consumo. Mais especificamente, necessitamos de estratégias de ocupação do solo em áreas rurais e urbanas que conduzam a paisagens com mais vegetação e que sejam mais seguras, pois além da grande disseminação de doenças, deslizamentos de terra, alagamentos e mortes por soterramento são recorrentes em áreas urbanas. É preciso lembrar também que a população que mais sofre com esse contexto tem cor e endereço, pois vive em grande parte em favelas onde a presença do Estado, no sentido de proteger e assegurar a saúde e demais acessos a direitos, serviços e oportunidades à população, é inexpressiva.

 

Caren Queiroz Souza

INCT IN-TREE / Doutoranda em Ecologia UFBA

 

PARA SABER MAIS:

Crist, M. What the Coronavirus means to climate change, The New York Times, 27/03/2020.

Wolf, N., Dunavan, C.P., Diamond, J. Origins of major human infectious diseases. Nature, v.447, 2007.

Scott, J.  Biodiversity loss is hurting our ability to prepare for pandemics, World Economic Forum, 09/03/2020.

Corlett, R.T, Primack, R.B., DeVictor, V. et al. Impacts of the coronavirus pandemic on biodiversity conservation Biological Conservation, v.246, 2020.

Ribeiro, L. B. & Silva, M. G. O comércio ilegal põe em risco a diversidade das aves no Brasil. Ciência e Cultura, v. 59, 2007.

3 comentários em “Não precisamos de árvores somente para abraçá-las”

      1. Não escrevemos uma versão em português, imaginando tratar-se do artigo publicado em Ethnobiology and Conservation, sobre COVID-19. Parte do conteúdo se origina da postagem aqui em Darwinianas “Covid-19: A necessidade de um olhar transdisciplinar ”

        Abraços
        Charbel

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