O inverno está aqui: os mortos-vivos do mundo real

Se você faz parte do mundo dos vivos, está em um dos dois grupos: ou está discutindo possíveis teorias para o final da série de televisão “Game of Thrones”, ou fica completamente perdido nas discussões que misturam intrigas políticas e guerras medievais com criaturas fantásticas como lobos gigantes, corvos de três olhos, dragões, gigantes, crianças da floresta, Os Outros e mortos-vivos. Fã da série ou não, provavelmente já ouviu a frase: “o inverno está chegando” (do inglês “Winter is coming”), representando a aproximação dos mortos-vivos vindos das áreas mais geladas do continente fictício. O quão distante está a ficção do mundo real quando falamos dos mortos-vivos (zumbis) e de seu controle pelos Outros?

De acordo com os neurocientistas Timothy Verstynen e Bradley Voytekshow, há patologias que podem causar o modo característico de caminhar e a personalidade assassina dos zumbis. Os cientistas educadores se baseiam na cultura popular dos zumbis e identificam comportamentos zumbis característicos que podem ser explicados usando neuroanatomia, neurofisiologia e relações entre cérebro e comportamento. Por exemplo, os movimentos característicos dos zumbis poderiam ser explicados por alguma lesão no cerebelo. Pacientes com ataxia espinocerebelar apresentam falta de coordenação que resulta em pernas rígidas, postura ereta e andar pesado. A incapacidade de fala e os grunhidos dos zumbis também poderiam ser explicados por patologias reais. Uma lesão na área de Wernicke do córtex cerebral (resultando na afasia de Wernicke) pode deixar pacientes com um diálogo deficiente ou até mesmo incapazes de dialogar. Outra característica dos zumbis é a falta de sono. Eles podem passear dia e noite à procura de presas, sem descanso. Essa forma extrema de insônia sugere alguma lesão no hipotálamo. O estado de vigília dos zumbis é semelhante ao observado em animais com lesões nos neurônios que promovem o sono, os neurônios do núcleo ventrolateral pré-óptico (VLPO). O dano específico nas células VLPO em ratos, com a microinjeção de um agente neurotóxico, levou a uma insônia que persistiu por mais de três semanas!

Os mortos-vivos de “Game of Thrones” têm uma característica particular: eles não se movem aleatoriamente, nem vagam em busca de uma presa qualquer. Parece que algo (ou alguém) está controlando suas ações, o Rei da Noite muito provavelmente. Esse comportamento também não é exclusivo da ficção. Na natureza, vários animais “zumbificados” são controlados por outros organismos, em geral parasitas e parasitóides que modificam o comportamento de seus hospedeiros em benefício próprio. A vespa Ampulex compressa depende de baratas para completar o seu ciclo de vida. Sua picada não paralisa a barata, mas introduz uma neurotoxina que a permite controlar a barata-zumbi. A vespa segura a barata pelas antenas e a leva, como pela coleira, até o seu ninho onde suas larvas devorarão a obediente presa. O protozoário Toxoplasmose gondii, um parasita que só se reproduz sexuadamente nos intestinos de gatos, infecta roedores (hospedeiros intermediários) removendo o seu medo inato dos gatos. Sem medo, os roedores viram uma presa fácil e o parasita ganha uma carona para chegar nos intestinos do gato. Um fungo parasita altera drasticamente o comportamento de formigas carpinteiras da espécie Camponotus leonardi, fazendo com que elas se tornem semelhantes a zumbis e morram em um local com ótimas condições de reprodução para o fungo. Por fim, vespas parasitóides do gênero Glyptapanteles depositam seus ovos em lagartas da espécie Thyrinteina leucocerae, transformando-as em guarda-costas-zumbis das pupas do parasitóide. Quando as larvas parasitóides saem do hospedeiro para se transformar em pupas, o hospedeiro para de se alimentar, permanece próximo às pupas, derruba predadores com violentas oscilações de cabeça e morre antes de atingir a idade adulta. Assim, o comportamento parece ser induzido pelos parasitóides “reis-da-noite” e confere benefícios exclusivamente a eles.

Uma das características mais óbvias de um zumbi, no entanto, é a sua morte seguida da reanimação. Uma pesquisa publicada na semana passada no periódico Nature mostra que nem isso é mais exclusivo da TV. Vrselja e colaboradores da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, foram capazes de restaurar a atividade celular em cérebros de porcos que estavam mortos por quatro horas. Estudos anteriores em humanos e outros animais mostraram que as reservas de oxigênio, as atividades elétricas e a consciência são perdidas dentro de segundos após a interrupção do fluxo sanguíneo. As reservas de glicose e ATP se esgotam em minutos e brevemente são iniciados processos que levam à morte celular. Algumas observações, no entanto, fizeram os cientistas desconfiarem da inevitabilidade da morte celular após privação do fluxo sanguíneo. Por exemplo, tecidos obtidos de cérebros de mamíferos mortos há vários minutos podiam ser utilizados para o estabelecimento de culturas de células viáveis e até para registros de atividades eletrofisiológicas. Vrselja e seus colaboradores então levantaram a hipótese de que, em condições apropriadas, algumas funções moleculares e celulares de cérebros de mamíferos poderiam ser restauradas após um intervalo pós-morte prolongado. Para testar esta hipótese, os cientistas criaram um sistema (e uma solução) para realizar a perfusão (passagem de fluído para os tecidos) dos cérebros com intervalos pós-morte de uma a 10 horas. Usando o novo sistema, que batizaram de BrainEx, eles conseguiram restaurar algumas atividades celulares como respostas inflamatórias gliais, atividade sináptica espontânea e metabolismo cerebral. De acordo com os autores, a maior contribuição da descoberta será no estudo das funções cerebrais, aumentando a nossa capacidade de estudar complexas interações celulares e conectividade no tecido. Esperam assim contribuir para a descoberta de tratamentos para acidentes vasculares cerebrais, lesões cerebrais e doenças como Alzheimer.

Zvonimir Vrselja disse que em nenhum momento eles conseguiram observar o tipo de atividade elétrica organizada associada à percepção ou consciência. Restaurando sinais de vida sem consciência? Soa como um zumbi! Na série de TV, os mortos-vivos podem ser mortos definitivamente apenas com fogo. Vrselja e seus colegas também não conseguiriam reanimar as células após um incidente com fogo. Então não há nada com o que se preocupar. Se algum dia um cientista nos moldes das piores figuras da ficção cientifica tentar usar a reanimação para criar um exército de zumbis assassinos, “Dracarys!” neles!

Tatiana Teixeira Torres (USP)

 

Para saber mais:

Partes I e II da série produzida pelo TED-Ed e narradas pelos neurocientistas Tim Verstynen e Bradley Voytek. Na animação, os educares usam as características dos zumbis para ensinar neurociência de uma forma bastante atrativa para os alunos. As legendas em Português do Youtube estão disponíveis.

Matéria traduzida da BBC Earth trazendo vários exemplos de casos de “zumbificação” na natureza, incluindo formigas, vespas, pererecas e plantas.

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