Mérito de seus genes, mérito de seu país

Há alguns poucos anos tivemos um grande debate nacional sobre a meritocracia. No geral, a ideia que prevalecia, vinda de tempos imemoriais, era a de que meritocracia, sempre muito valorizada, implicava em oferecer as melhores oportunidades (de emprego, de vagas no ensino superior, etc.) aos melhores qualificados. 

Assim, os vestibulares levariam os indivíduos com melhor nota às melhores universidades, as entrevistas de emprego levariam os mais qualificados a terem maiores salários. Este raciocínio se choca com uma parte importante de nossa cultura cristã, que prega o oposto desta versão de meritocracia: enquanto sociedade, deveríamos dar mais apoio aos desvalidos, aos que não conseguiram galgar os postos de poder na sociedade. Este pensamento cristão, parecido a um subsídio aos ineficientes, chega a dar urticárias em liberais. Para eles, subsidiar os menos qualificados implica, no longo prazo, em transformar sociedades sadias em uma espécie de asilo para mentalmente incapazes. A meritocracia seria assim a forma de se selecionar o joio do trigo social, tornando as sociedades mais capazes e competitivas. O pensamento liberal, dessa forma, defende a meritocracia por um argumento que ao final se assemelha muito à gica da seleção natural: os melhores devem prosperar (e se reproduzir), para que a sociedade prospere.

A este ponto, antevejo vários leitores querendo abandonar a leitura: vim aqui ler sobre ciência; por que misturar política suja com ciência pura? Isso é igual a misturar futebol com religião! Entendo estas preocupações, e esclareço de cara que não vou discutir nenhuma situação política concreta (o que poderia esquentar demais os ânimos), mas apenas evidenciar efeitos gerais de posturas políticas sobre questões muito básicas na pesquisa, evidenciar como esta postura política pode tornar relevantes certas questões de pesquisa, ou como ela pode facilitar determinadas interpretações em detrimento de outras.

Vou ilustrar este ponto com um estudo recente. Há poucas semanas publicou-se na prestigiosa Nature (Human Behaviour) o artigo Influências genéticas no sucesso social durante e após a era Soviética na Estônia. Como vocês podem ver, não sou eu que estou forçando a barra em misturar política e ciência: o objetivo central do artigo é avaliar o efeito do sistema de governo na antiga União Soviética sobre a genética da população. A primeira questão que se coloca é: por que alguém se perguntaria sobre o efeito de um sistema de governo na constituição genética da população? Por que alguém teria expectativas de que sistemas diferentes de governo levariam a diferentes constituições genéticas? Por mais que pareça uma expectativa meio despropositada, há vários indícios de que aspectos da cultura afetam a evolução genética. O mais conhecido destes indícios é nossa atual capacidade para a digestão de leite (lactose) em adultos humanos, que foi selecionada pela prática cultural de se criar rebanhos de ovinos e bovinos, iniciada há cerca de 10 mil anos atrás. Certo, mas este efeito da cultura sobre a evolução genética se dá quando temos uma cultura que altera o ambiente seletivo (introduzindo sistematicamente leite na dieta de humanos adultos) por muitas e muitas gerações sucessivas, ou seja, muitos séculos encadeados: este não é nem de perto o caso da transição de sistema de governo da antiga União Soviética para hoje. O sistema Soviético de governo durou poucos anos na Estônia Soviética, e terminou também há alguns poucos anos. Pode a evolução genética ocorrer em um espaço de tempo tão curto? Aqui também temos uma resposta positiva: até mesmo a morfologia do bico de aves pode evoluir morfologicamente em uma dezena de anos, basta que tenhamos uma boa variabilidade genética no início do processo, e que as novas pressões seletivas sejam fortes (por exemplo, que o bico mais longo seja muito, mas muito mais útil que o bico curto). Certo, sendo assim, a estranheza inicial que sentimos com o título do artigo, ligando diretamente genes e sistema de governo, começa, estranhamente, a se diluir (embora valha ressaltar que nenhum dos argumentos acima aparece no citado artigo).

Muito bem, reduzidos os receios de uma indesejada infiltração política na pesquisa, passemos então a analisar os resultados do estudo, agora com um espírito mais desarmado. Em linhas gerais, conclui-se que indivíduos da era pós soviética apresentam maior herdabilidade de seu desempenho escolar e social. Até aqui, nada parece ser muito provocativo, porque não interpretamos ainda este resultado. Para os autores, a maior influência genética no desempenho escolar e social se deve à meritocracia introduzida na Estônia pós Soviética. Aí os liberais começam a entrar em êxtase (e os esquerdistas começam a ter urticária): para o autores do estudo, a escolha dos melhores qualificados (meritocracia) teria feito com que os genes da inteligência (ao final, desempenho escolar deve estar ligado à inteligência) fossem selecionados, e assim a importância dos genes dos indivíduos passou a ser maior para o processo educacional. Dizendo de outro modo: o sistema Soviético (não meritocrático) teria feito com que os piores fossem igualados aos melhores, anulando a seleção natural sobre o desempenho escolar, e assim levando os ‘maus’ genes (os da inteligência mediana e negligente) a permanecerem na população. Para ficar ainda mais óbvio o que está sendo dito nas entrelinhas do artigo, pense no uso de óculos: com o advento dos oftalmologistas, os portadores de miopia, hipermetropia, astigmatismo (cárie, culpa, cãibra, afasia: e o pulso, ainda pulsa) passaram a conviver entre os ‘normais’, de modo que a cultura do uso de óculos aumentou a diversidade genética da população, permitindo a sobrevivência a reprodução de variados genes ligados a doenças da visão. Assim, o que os autores estão no fundo dizendo é que o sistema Soviético permite a sobrevivência de uma infinidade de indivíduos desviantes no quesito aprendizagem, coisa que a meritocracia dos sistemas capitalistas impediria, por separar o joio do trigo genético. Ficou claro agora que não há como escapar da política em um artigo como este, e que a interpretação dos resultados tem um viés político óbvio (e anti-Soviético)?

Para início de conversa, vamos ser claros: de que valor de herdabilidade estamos falando? Qual a capacidade explicativa dos genes no sucesso educacional ou social dos Estonianos? O que os autores encontram é que os genes explicam algo em torno de dois porcento do sucesso educacional ou social. Sendo assim, em primeiro lugar, cuidado: mesmo se concordarmos com o estudo, só podemos dizer que os genes explicavam muito pouco do desempenho dos Estonianos soviéticos e que passaram, com a meritocracia, a explicar um tantinho a mais. Assim, temos que ter cuidado com a retórica, porque muitas vezes resultados pequenos são muito inflamáveis.

Alguém poderia objetar que há uma enormidade de outras explicações para isso. Os próprios autores não outras possíveis causas para a mudança da herdabilidade da aprendizagem e sucesso social. Grandes mudanças no nível geral de riqueza, na cultura e nos valores sociais emergiram na Estônia contemporânea, mas os autores não consideram que estas mudanças poderiam afetar a herdabilidade. Será? O que é herdabilidade, afinal? Herdabilidade de um traço (por exemplo, aprendizagem) é, tecnicamente, a razão entre sua variância genotípica e sua variância total na população, o que é aritmeticamente o inverso da variância ambiental (se ignorarmos, como frequentemente acontece, a interação e a covariância entre genótipo e ambiente). Isso ressalta uma faceta importante da ideia de herdabilidade: ela não mede o controle que um gene tem sobre o fenótipo (a aprendizagem, no caso), porque se mudamos o ambiente, mesmo sem mudar os genes, a herdabilidade genética pode se alterar. Assim, é de se estranhar o descaso com que os autores tratam as reconhecidamente profundas mudanças na sociedade Estoniana (ou seja, na variância ambiental ou, como os autores indicam: em sua riqueza, cultura, e valores sociais), apontando sumariamente que tais mudanças existiram, mas que elas não explicariam alterações na herdabilidade genética.

Indo além, poderíamos também falar de uma herdabilidade ambiental, que seria, por simetria, o inverso da variância genética. Esta ideia de uma herdabilidade ambiental, no entanto, é estranha ao arcabouço teórico da síntese evolutiva de meados do século passado, que não discute heranças ecológicas (por exemplo, herdarmos a casa de nossos pais, aves herdam locais de nidificação, etc.). Isto ilumina um ponto interessante: o ambiente, na síntese evolutiva, é apenas indutor do fenótipo: ele leva a diferentes expressões de um mesmo gene, e apenas neste sentido é que o ambiente é entendido como causa do fenótipo. Já o genes são entendidos como causa neste mesmo sentido (são indutores do fenótipo), mas também em um sentido mais fundamental: por serem herdáveis, por passarem de geração em geração, são eles que, ao final, podem evoluir lentamente. Ora, o ambiente tem esta mesma propriedade, também herdamos fortunas, também herdamos bibliotecas, também herdamos valores humanos que estão presentes em nosso ambiente social. Se incluímos em nossa teoria esta nova herdabilidade, a ambiental, passamos a nos perguntar outras coisas. Por exemplo: se na Estônia então comunista a economia era planificada, a educação também o deveria ser. Assim, imaginamos que um sistema educacional mais fortemente sob o controle de um estado planificador deveria mudar menos no tempo: haveria assim maior herdabilidade ambiental. Neste sentido, ao mudarmos de um ambiente educacional planificado para outro meritocrático, esperaríamos uma redução na herdabilidade ambiental (variância ambiental dividida pela variância total), o que poderia ser obtido através do aumento da variância populacional total. Assim, deste novo ponto de vista, o que a teoria iria prever é que, em sociedades meritocráticas, deveria surgir uma maior diferença entre os indivíduos, no que se refere a sucesso educacional e social. Parece uma previsão testável, e muito diferente: a meritocracia levaria à desigualdade social.

Agora chegamos a um ponto absolutamente crucial. Imagine se estimássemos a média da altura humana medindo um só indivíduo. Claro, ninguém confiaria nesta estimativa. É por isso que todo estudo científico se baseia em inúmeras réplicas (amostras independentes) do fenômeno a ser estudado. A pergunta dos autores no estudo em questão é: grandes mudanças sociais (como a ocorrida na Estônia) levam a mudanças na herdabilidade genética? Para responder a esta pergunta, precisamos de uma grande amostra de mudanças sociais abruptas. Quantas réplicas tem este estudo publicado na Nature? Pasmem: os autores só estudaram uma mudança: a da Estônia. Publicaram na Nature a estimativa da altura humana medindo um só indivíduo! Em um caso assim, flagrantemente equivocado, o que temos que nos perguntar é como é que um estudo deste pôde ser publicado em uma revista de tanto prestígio. Aí é que podemos começar a entender como de fato funciona a ciência, como ela não é independente do restante da cultura que a cria e conduz.

A ciência se faz dentro de uma sociedade que tem seus valores, princípios, e limitações, e muitas vezes tais valores podem cegar os cientistas para questões básicas. Um exemplo desta cegueira que se faz dentro de uma cultura: os autores deste artigo partem da premissa de que a sociedade meritocrática se caracteriza por uma maior igualdade de oportunidades, que ela reduziria assim o impacto de desigualdades ambientais, tais como privilégios e privação (alimentar, educacional, etc.). Partindo de nossa experiência em um Brasil claramente meritocrático, mas absurdamente desigual, me parece francamente difícil entender esta correlação automática que os autores enxergam entre a meritocracia e a igualdade de oportunidades. Ao contrário, o que temos visto com o avanço contemporâneo do capitalismo (meritocrático por excelência) mundo afora, é um imenso aumento nas desigualdades sociais, uma redução crescente e abusiva das igualdades de oportunidade. Claro está que os autores partem de premissas a meu ver francamente equivocadas, mas tais premissas aparentemente são compartilhadas por toda uma cultura (a cultura inglesa no Reino Unido, país citado diversas vezes no artigo, elogiosamente, como uma referência em meritocracia). Ao que parece, este pano de fundo cultural compartilhado contamina, por assim dizer, tanto as as previsões quanto as interpretações do estudo, como também o corpo de revisores do periódico. Ciência e cultura andam de mãos dadas, sempre, para o bem e para o mal. Felizmente, temos muitas culturas no mundo.

Hilton Japyassú (UFBA)

Para saber mais:

Lewontin, R. C. (2001). The triple helix: Gene, organism, and environment. Harvard University Press.

Piketty, T. (2014). O capital no século XXI. Editora Intrínseca.

Rimfeld, K., Krapohl, E., Trzaskowski, M., Coleman, J. R., Selzam, S., Dale, P. S., … & Plomin, R. (2018). Genetic influence on social outcomes during and after the Soviet era in Estonia. Nature Human Behaviour, 1.

Scott-Phillips, T. C.; Laland, K. N.; Shuker, D. M.; Dickins, T. E.; West, S. A. (2014). “The Niche Construction Perspective: A Critical Appraisal”. Evolution. 68: 1231–1243.

Visscher, P. M., Hill, W. G., & Wray, N. R. (2008). Heritability in the genomics era—concepts and misconceptions. Nature reviews genetics, 9(4), 255.

Uma consideração sobre “Mérito de seus genes, mérito de seu país”

  1. Texto bastante instigante, discussão muito pertinente, complexa e cheia de aristas. Só quero pôr em dúvida duas afirmações do autor sobre as quais ele fundamenta boa parte da arguição e que refletem certa visão ingênua sobre o capitalismo: 1. “…o avanço contemporâneo do capitalismo (meritocrático por excelência)…” e; 2. “…partindo de nossa experiência em um Brasil claramente meritocrático, mas absurdamente desigual…”. Considero que o capitalismo não se desenvolveu, nem se produz e reproduz sobre uma tábula rasa. O capitalismo não é um jogo ou competência limpa estabelecida sobre um conjunto claro, organizado e estrito de regras. O que mais caracteriza o capitalismo não é uma romântica e idealizada meritocracia; o que o melhor caracteriza é a corrupção implícita nele, os jeitões, as guerras, o engano e roubo em massa, a apropriação violenta da natureza, da ciência, da razão e das paixões humanas. Em nossas sociedades capitalistas os melhor posicionados na pirâmide social não são os mais inteligentes, nem os que mais se esforçam, nem os mais solidários, nem os mais empáticos. Geralmente no capitalismo os melhor posicionados são os mais cruéis e os que sem trabalhar herdam riqueza, poder, terras e capitais… Nas ruas, nas cadeias, na periferia, nas margens, nos hospícios, existe uma multidão de pessoas anônimas que num sistema justo estariam brilhando. Recomendo a leitura do best seller de Thomas Piketty.

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