O sono da civilização

O sono tem muitas funções e pode ser um dos motores de nossa evolução ao propiciar tempo livre e um rico imaginário para nossas inovações

De criança, sonhava sempre. Sonhos elaborados, com começo meio e fim, animados, e emocionantes, como um cinema mudo colorido onde tudo é em primeira pessoa. Assim como os filmes hoje em dia, meus sonhos vinham também em uma sequência progressiva de histórias concatenadas. Voar, por exemplo, era tema frequente, e o fim do sonho de ontem era, invariavelmente, o começo do de hoje, e assim voava cada dia mais alto, mais longe, e mais seguro, nestas minhas lições noturnas de autonomia.

Na interpretação de Freud, os sonhos estão ligados ao processamento de vivências do dia anterior, às quais ele poeticamente chamava de ‘restos do dia’. Em termos neurais, este processo tem relação estreita com a consolidação de memórias, de modo que a privação de sonhos poderia até mesmo ter efeitos adversos, levando potencialmente a transtornos de memória.

Embora alguns possam defender que a função do sono é o sonhar, dado seu efeito na consolidação das memórias e na facilitação do aprendizado, alguns autores defendem funções muito mais prosaicas. Para estes, o sono seria o catador de lixo do cérebro, eliminando metabólitos secundários de neurônios, os quais podem ser tóxicos em altas concentrações. Durante o dia, o líquido entre neurônios acumula detritos, já que seu fluxo (e consequente limpeza) ocorre basicamente durante o sono. Isto leva a uma consequência curiosa: quanto maior a densidade de neurônios em relação a superfície de limpeza do cortex, maior a produção de metabólitos e, portanto, maior a necessidade de dormir. Isto explica porque grandes mamíferos, como girafas e elefantes, dormem pouquíssimo (3 a 4h/dia), enquanto pequenos mamíferos, como morcegos, dormem demais (20h/dia). Explica também porque bebês dormem muito e idosos pouco: a densidade de neurônios por área de superfície cortical cai bastante com a idade e com o tamanho. Em termos evolutivos, aumentar o tamanho absoluto do cérebro levaria a uma diminuição das horas de sono, ou seja, a um aumento no tempo livre para buscar alimento, refúgio e parceiros. Em sentido inverso, ter pouco tempo livre implica pouco tempo para comer e, assim, implica ser pequeno (podendo assim comer pouco) ou obter alimento muito energético (ser carnívoro).

O sono é uma propriedade emergente do cérebro que é altamente estruturada, com fases como o sono sem (NREM) e com (REM) movimentos oculares rápidos. Na fase REM, o cérebro está ativo, como que acordado, nossa percepção está muito reduzida, e despertar é muito difícil.

Entre os primatas, nós humanos temos um sono muito diferenciado. Dormimos bem menos (em torno de 4h menos), e com muito maior qualidade (maior proporção de sono REM) que a média dos primatas. Apenas nós humanos abandonamos completamente o hábito de dormir na copa das árvores, diminuindo potencialmente a perturbação do sono causada pela necessidade constante de equilíbrio nos galhos. Ao mesmo tempo, o contato com o solo durante o sono aumenta o resfriamento do corpo. Este conjunto de alterações evolutivas aumentou a exposição do gênero Homo à predação/parasitismo, assim como ao risco de ataque por bandos rivais. Estas novas pressões seletivas devem ter conduzido a múltiplas alterações comportamentais, tais como o dormir coletivo, o uso de fogueiras noturnas para aquecimento e fumigação (diminuindo a perturbação por mosquitos e pernilongos), e a busca de abrigos noturnos protegidos. Tais adaptações poderiam ter facilitado a evolução de sono de boa qualidade (alta proporção de sono REM), o que possibilitaria uma redução no tempo total de sono, liberando assim tempo para outras atividades, como forrageamento, formação de vínculos sociais, elaboração de ferramentas, e transmissão social de informação. Além disso, a melhoria na qualidade do sono traria ganhos cognitivos, com um aumento na consolidação de memórias e na capacidade de aprendizagem.

Uma questão relevante seria: como conseguimos dormir tão profundamente por tanto tempo, sem sermos alvo de predadores ou atos de rapinagem? Buscando responder a esta pergunta, Samson e colaboradores estudaram o povo Hadza, caçadores-coletores nômades que vivem nas savanas do norte da Tanzânia. O padrão de sono-vigília foi detectado através do registro em tempo real do movimento, através de um actígrafo: sono e vigília diferem muito quanto ao tipo de movimentação. Os resultados da pesquisa são surpreendentes. Nas noites, a qualquer horário do sono, as chances são de que apenas 60% dos indivíduos estejam de fato dormindo. Ao longo de 20 noites, registrou-se um total cumulativo de apenas 18 minutos nos quais todos os componentes do grupo estavam dormindo ao mesmo tempo. Aparentemente, os Hadza conseguem dormir muito porque revezam o sono dentro do grupo, ou seja, há sentinelas no grupo. No entanto, esse revezamento se dá naturalmente, sem a necessidade de troca de turnos planejada, já que há grande variação individual no tipo de sono (indivíduos matutinos, vespertinos etc.). Os modelos estatísticos elaborados na pesquisa mostram que tamanha variabilidade no ritmo circadiano não pode ser explicada pelo acaso, e é em parte devida às mudanças de sono com a idade: os idosos são naturalmente bons sentinelas, por dormirem menos profundamente, por um tempo menor. Assim, ao evoluirmos do sono arborícola (como os demais primatas) para o sono no chão, evoluiu também uma estratégia coletiva de assincronia no sono, de modo a garantir naturalmente a existência de sentinelas.

Neste ponto, um novo dilema evolutivo passa a perturbar minhas noites de sono. Como teria evoluído essa distribuição assimétrica de sono? Em animais, a troca de turnos de vigilância tem sido modelada matematicamente pela teoria dos jogos, baseada no toma-lá dá-cá: eu te ajudo (faço vigília) hoje e você retribui amanhã. No entanto, essa estrutura de assimetria grupal do sono, observada nos Hadza, não pode ser modelada dessa forma, porque não é um jogo de altruísmo recíproco entre indivíduos que colaboram entre si, e sim um jogo de equipe. Essa equipe de sono altamente assimétrico pode ser facilmente selecionada na competição, dentre equipes (bandos) menos eficientes na defesa do grupo contra predadores noturnos. No entanto, a distribuição assimétrica de sono não é uma característica de um indivíduo, e assim dificilmente emergiria de um processo de seleção de variações entre indivíduos. A seleção de grupo é um tópico controverso para evolucionistas, que em geral privilegiam explicações baseadas na seleção dentre variações individuais, mas essa controversa possibilidade é neste caso particularmente provável, na medida em que essa fuga do ambiente arborícola coincidisse com o nascimento da cultura, que se caracteriza como um fator de coesão grupal, além de um novo sistema de herança.

Sim, nosso profundo sono parece ter nos oferecido riscos, mas, como vimos, precisamos do sono por muitos motivos. Um último motivo, inteiramente especulativo e por isso mesmo delicioso, é que o sono permitiria o exercício de um tipo particular de raciocínio. Costumamos nos vangloriar da linguagem oral como um feito civilizador, fonte do linear raciocínio lógico-dedutivo, o qual teria permitido o surgimento da ciência e da tecnologia. No entanto, há muito mais que ciência na cultura que nos define. Nas artes as imagens são fundamentais, presentes em esculturas, monumentos, pinturas, dança, ou mesmo na arte das ruas, do grafite ao vestuário. Talvez o potencial criativo das artes venha, primitivamente, de nossa habilidade de sonhar. O sonho (este que realizamos durante o sono REM) parece exercitar uma lógica não-verbal, não-linear, uma lógica diferente, de contágio, na qual uma imagem conduz à próxima por semelhança ou associação, formando um fluxo onírico, uma trama que nos leva a lugares improváveis. Sonhar seria o exercício de uma linguagem imagética primordial, uma linguagem sem verbo ou predicado, mas cheia de simbolismo, que extrai dos argumentos sua essência, saltando de conclusão em conclusão, queimando etapas e sendo capaz de concluir pelo inesperado.

É antiga a ideia de que o sonho seria uma força criativa, e há culturas que valorizam sobremaneira o sonhar. Em momentos de crise, como o que vivemos agora, buscar sonhos que catalisem novamente a ação coletiva pode ser o que de mais objetivo tenhamos a fazer. Afinal, talvez o surgimento da civilização e do mundo simbólico provenha desta reflexão com imagens, destes pensamentos rupestres que saem dos sonhos para pintar cavernas, deste imaginário que transborda do indivíduo e povoa um mundo. Se assim for, ainda há tempo, ainda temos esperança, ainda podemos repetir o milagre de se sonhar uma outra civilização.

Hilton Japyassú (UFBA)

 

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Para saber mais:

Cappelini I, Barton RA, McNamara P, Preston BT, Nunn CL. 2008 Phylogenetic analysis of the ecology and evolution of mammalian sleep. Evolution 62, 1764 – 1776. (doi:10.1111/j.1558- 5646.2008.00392.x)

Herculano-Houzel S. 2015 Decreasing sleep requirement with increasing numbers of neurons as a driver for bigger brains and bodies in mammalian evolution. Proc. R. Soc. B 282: 20151853. http://dx.doi.org/10.1098/rspb.2015.1853

Samson, D. R., & Nunn, C. L. (2015). Sleep intensity and the evolution of human cognition. Evolutionary Anthropology: Issues, News, and Reviews, 24(6), 225-237.

Samson DR, Crittenden AN, Mabulla IA, Mabulla AZP, Nunn CL. 2017 Chronotype variation drives night-time sentinel-like behaviour in hunter–gatherers. Proc. R. Soc. B 284: 20170967. http://dx.doi.org/10.1098/rspb.2017.0967

Xie L et al. 2013 Sleep drives metabolite clearance from the adult brain. Science 342, 373–377. (doi:10.1126/science.1241224)

Imagem de abertura: http://www.lovethispic.com/

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