Macacos universais e a cognição nossa de cada dia

Macacos e humanos compartilham área cerebral para processamento de informação sobre interações sociais.

Ser ou não ser um macaco, foi a questão de sempre que não quer calar nunca, na ciência, na religião, na vida. Darwin acertou em cheio quando colocou o dedo nesta chaga exposta, retirando o ser humano de sua confortável posição, ali no centro da criação, perfurando nosso inflado ego, que já havia sido avariado por Copérnico (que retirou nossa casa do centro do sistema solar e do universo), e sendo seguido por Freud, que retirou nossa consciência do centro nevrálgico de nossas tão louvadas racionais decisões. O estrago foi tamanho que a chaga continua exposta, apesar dos inúmeros curativos e cuidados a ela dedicados. Uma das últimas fronteiras nesta batalha entre macacos e humanos é a neurociência. Será que nosso cérebro, para além de nossa genética, é semelhante em morfologia e funcionamento ao cérebro de nossos irmãos macacos?

À primeira vista, para um cientista desavisado, a pergunta pode até mesmo parecer tola. Claro que devemos encontrar semelhanças no cérebro, tanto quanto na genética, na fisiologia, ou na anatomia destes grupos irmãos, quer dizer, dos hominíneos, de um lado, e dos grandes símios (chimpanzés, gorilas) de outro. Mais que isso, devemos encontrar semelhanças ainda mais antigas, ligando nosso cérebro até mesmo ao cérebro de macacos filogeneticamente mais distantes (primos evolutivamente mais distantes). Mas talvez esta expectativa de semelhança tenha um limite claro: talvez estes macacos selvagens não compartilhem de nossa delicada inteligência social. Talvez eles não compartilhem de nossa elaborada socialidade, nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, de entender o desfecho de uma interação social através daquilo que se convencionou chamar de teoria da mente, ou seja, esta nossa capacidade de simular os outros dentro de nós mesmos, de adivinhar seus pensamentos e prever seus comportamentos. Esta compreensão do funcionamento social, que envolve inclusive a nossa tão especializada linguagem oral, essa socialidade abusiva e abusada é nossa, e não deve ser compartilhada com símios selvagens em uma natureza bruta, em luta permanente pela sobrevivência a qualquer custo. Será?

Comecemos pelas semelhanças comportamentais. Afinal, se tem algo que o cérebro controla, é o comportamento. Pois bem, macacos também reconhecem interações sociais e seu significado, rapidamente e sem esforço aparente, e inferem a hierarquia social a partir destas interações, que envolvem vários comportamentos distintos, como catação, brincadeira, luta, entre outros. Assim como nós, eles também compreendem a interação entre objetos inanimados, seus movimentos e colisões, prevendo adequadamente a trajetória de alimentos em queda com base na força destas interações e na força da gravidade. Tais semelhanças comportamentais se refletem em semelhanças no processamento neural? Um estudo recente investigou as áreas cerebrais ativas durante a visualização de interações sociais e de interações físicas, não sociais, tais como a de um coco ricocheteando nos troncos de palmeiras e outras árvores durante sua queda ao solo. Através da ressonância magnética funcional a atividade do cérebro de macacos Rhesus foi registrada enquanto observavam vídeos variados: dois colegas interagindo, dois objetos colidindo, dois colegas agindo separadamente (cada um para um lado), dois objetos movendo-se separadamente sem se tocar, objetos parados, e mesmo cenas visualmente complexas sem interação alguma. Simplificando toda uma parafernália científica que adorna o estudo, após um longo e complexo procedimento metodológico e estatístico, os autores concluem que sim, há uma região no cérebro que se ativa durante a interação social, mas não durante a interação entre objetos inanimados, e nem mesmo durante a manipulação de objetos por indivíduos. Enfim, há uma área para a socialidade no cérebro dos macacos Rhesus.

Percebam que, embora este longo e complexo procedimento metodológico e estatístico esteja sendo ignorado, é bom deixar claro o que significa ignorá-lo: significa ignorar um conjunto de decisões que os cientistas tomam, mesmo considerando que muitas destas decisões possam ser controversas. Significa adotar como adequados os “mapas” do cérebro, como se eles de fato revelassem algo que está sendo registrado diretamente pelas máquinas. No entanto, isso não ocorre: os maravilhosos mapas de socialidade no cérebro não estão mostrando nada que tenha sido registrado pelas máquinas durante o funcionamento do cérebro. O que eles estão mostrando é uma síntese de múltiplas operações entre distintos mapas do cérebro, operações que dependem crucialmente da adoção de modelos corretos sobre o funcionamento dos equipamentos utilizados na mensuração, de modelos consensuais sobre o funcionamento do cérebro, e de modelos estatísticos. Significa, basicamente, que não estamos falando de uma simples fotografia do cérebro.

Mas prossigamos. Vamos de fato ignorar tais análises, e tomar por verdadeiro seu resultado final: há uma área do cérebro que analisa interações, particularmente interações sociais. Qual a decorrência deste resultado para nossa questão principal? O ponto principal é que a área cerebral que analisa interação social nos macacos é funcional e anatomicamente semelhante a uma área no cérebro humano que também avalia o comportamento social. Ou seja, o último reduto, a neurociência, confirma: Darwin estava certo, e detalhes impressionantes do funcionamento e da morfologia cerebral de macacos e humanos parecem ser homólogos (evolutivamente equivalentes). Nossa semelhança ocorre até mesmo naquilo que julgávamos ser exclusividade nossa: nossa tão exacerbada quanto cultuada socialidade.

Aqui, talvez, um biólogo mais radical poderia se enervar e bradar ao vento: mas meu Deus do céu, por que ainda hoje nos causa surpresa a semelhança entre macacos e humanos? E ele tem razão! E ele não tem razão! Tem razão em função do tempo que demora para a humanidade assimilar este parentesco símio, e tem desrazão ao persistir no erro de ignorar a religião como uma potência civilizatória que se contrapõe a este parentesco. Todas as civilizações tiveram, todas as nações têm religiosidade, de modo que há também um aspecto de universalidade neste aspecto de nosso comportamento, e não me surpreenderia se neurocientistas descobrissem até mesmo áreas do cérebro ligadas à religiosidade.

Agora, para além das controvérsias, cabe uma reflexão sobre a natureza dos dados que as neurociências nos trazem. O que significa dizer que temos uma área no cérebro dedicada exclusivamente a uma determinada função? O pano de fundo desta busca de “áreas no cérebro” é o mesmo pano de fundo da morfologia comparada, o mesmo raciocínio que utilizamos acima para dizer que somos parentes dos macacos. Se temos semelhança, esta semelhança significa parentesco, significa que há herança deste caráter. Se há herança deste caráter, temos genes associados ao desenvolvimento desta área do cérebro, ligados à sua formatação, importantes para regular seu funcionamento e dar-lhe uma função particular (p.ex., compreender as interações sociais). Diferentes áreas do cérebro têm diferentes funções, respondem a diferentes pressões seletivas, e se desenvolvem em resposta à ativação de diferentes genes. Pronto. Agora chegamos em uma inferência extremamente perigosa, e estamos interpretando um resultado de neurociência como evidência para a genética subjacente a uma função cerebral específica.

Para mostrar a falácia deste argumento, gosto de apontar um estudo com furões que expõe diretamente esta falácia. Furões são pequenos mamíferos, parentes das lontras,  que foram, por um equívoco da humanidade, considerados animais de estimação por um brevíssimo intervalo de tempo: até que todos os donos cansassem de trocar seus sofás perfurados, transformados em tocas. Eles nascem fofos e brincalhões, com muito a aprender. São altriciais, ou seja, como nossos próprios bebês, nascem muito despreparados para o mundo, e terminam boa parte do crescimento cerebral na primeira infância. Aproveitando-se desta altricialidade, os pesquisadores conectaram, em furões recém-nascidos, as projeções da retina de um de seus olhos (o nervo óptico, que transporta informação visual) ao córtex auditivo. Como o córtex auditivo tem uma formatação em camadas neurais especializadas para o processamento de informação auditiva, a expectativa era que tais furões ficassem cegos de um dos olhos, embora devessem enxergar normalmente com o outro olho. Reciprocamente, a expectativa era que os furões ficassem surdos de um dos lados, já que as conexões auditivas estariam inervando o córtex visual, incapaz de processar informação sonora. Qual não foi a surpresa quando estes filhotes, já adultos, mostraram enxergar e escutar perfeitamente dos dois lados. Ao inspecionar, via ressonância magnética funcional, o córtex visual que recebe informação auditiva, constatou-se sua semelhança com um córtex auditivo. Já o córtex auditivo que recebe informação visual se assemelha, no adulto, ao córtex visual normal.

O que este resultado inesperado tem a nos dizer acerca da informação genética para os módulos cognitivos (o módulo da visão, da audição, ou mesmo do reconhecimento de interações sociais)? Este resultado mostra que não há nada intrínseco em um módulo cognitivo, mostra que a formatação do funcionamento de um módulo no córtex cerebral depende basicamente da estimulação que esta região vier a receber. Isto mostra que não há nenhuma informação genética que predisponha um módulo a ser auditivo, ou visual, ou social. Um módulo é auditivo se recebe informação auditiva, é visual apenas se recebe informação visual. É a estimulação que determina a função e se, hipoteticamente, implantarmos em um bebê microprocessadores que alimentem instantaneamente uma área do córtex com vibrações da crosta terrestre, teremos uma área cortical especializada na detecção de movimentos tectônicos.

Com esta nova informação, retornamos ao resultado inicial, o de que foi localizada uma área para processar interações sociais no córtex de macacos Rhesus. Ora, mas uma região se transforma em um módulo social se, e apenas se, nela chegarem informações acerca de interações sociais. Com esta nova informação cai por terra a inferência de que deve necessariamente haver uma rede gênica particular que tenha sido selecionada para regular o desenvolvimento de uma área especificamente social no córtex. O sistema nervoso central, em particular o córtex, se organiza muito em função da estimulação que recebe, importando assim do ambiente sua estruturação. Além disso, qualquer comportamento deverá, necessariamente, ser organizado em uma rede neural, pois não há comportamento que não passe pelo sistema nervoso. Assim, encontrar uma rede neural que processa uma determinada informação é um resultado de certa maneira muito trivial, que não diz nada acerca de como é que esta rede neural veio a se especializar.

Isto coloca em questão as causas da real continuidade entre as espécies, em particular quando lidamos com o comportamento e a cognição das espécies, para além de sua genética, fisiologia e morfologia. A semelhança cognitiva entre humanos e primatas pode ser fruto de uma semelhança no seu sistema social, na forma de socialização de seus filhotes, associada a outras semelhanças gerais e inespecíficas, ligadas à conectividade entre grandes áreas do sistema nervoso, que dão o pano de fundo para a especialização de áreas particulares neste sistema. Há muito espaço para convergência e paralelismo evolutivo em um sistema nervoso que é basicamente desenhado para ser plástico, ajustável às demandas do momento, e do desenvolvimento. Em particular, a auto-organização pode ser uma das fontes primordiais de convergência nas particularidades de sistemas cognitivos que apresentem semelhanças em outras escalas espaciais.

Hilton F. Japyassu (UFBA)

Para saber mais

Cabej, N. R. (2011). Epigenetic principles of evolution. Elsevier.

Powell, R., Mikhalevich, I., Logan, C., & Clayton, N. S. (2017). Convergent minds: the evolution of cognitive complexity in nature. Interface Focus 7(3):1-5.

Sharma, J., Angelucci, A., & Sur, M. (2000). Induction of visual orientation modules in auditory cortex. Nature, 404(6780), 841-847.

Sliwa, J., & Freiwald, W. A. (2017). A dedicated network for social interaction processing in the primate brain. Science, 356(6339), 745-749.

Von Melchner, L., Pallas, S. L., & Sur, M. (2000). Visual behaviour mediated by retinal projections directed to the auditory pathway. Nature, 404(6780), 871-876.

Figura de abertura: Semelhança neural entre macacos e humanos: efeito de semelhança na socialização? (foto: Rhesus e filhote, em http://www.monkeyworlds.com/rhesus-macaque/)

Uma consideração sobre “Macacos universais e a cognição nossa de cada dia”

  1. Caro Professor,
    Muito bacana a discussão sobre a aproximação entre Homo sapiens sapiens e Rhesus. Tenho dúvidas se realmente podemos falar em aproximações entre humanos e macacos, posto que a própria aproximação questiona esse ideia de categoria “humana”, de maneira que se impõe a necessidade de repensar se: desumaniza-se o Homo, ou humaniza-se o Rhesus.
    Além disso, é importante nos atentarmos que as relações de empatia não são apenas entre organismos da mesma espécie. Esse “outro que vivemos em nós” e que os macacos e diversos outros seres vivos também vivem, não é apenas um indivíduo da própria espécie, estabelecendo uma possibilidade que alguns antropólogos compreendem como uma relação social entre Homo sapiens sapiens e demais seres empáticos. Essa compreensão coloca os demais seres na condição de pessoa em condição de relação, como propõe Tim Ingold. Pessoa e relação nos possibilita propor a humanização desse outro interlocutor. O que sugere a necessidade de toda uma convivencia com os animais bastante diferente desta que até mesmo a biologia desenvolve ( objetificante). Neste sentido, não vejo apenas a religião como opositora à semelhança entre os grupos mencionados, mas a própria biologia, e seu ensino, que ainda diferencia, em suas práticas, e ética, as maneiras com que ainda enxerga os demais seres vivos como objetos à serviço de nossa sociedade.

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