Empatia e diálogo intercultural

A empatia poderia fornecer bases para um diálogo intercultural? Depende de como a entendemos. Em especial, depende de uma transição de visões internalistas para visões relacionais da empatia.

No Laboratório de Ensino, Filosofia e História da Biologia (LEFHBio), no Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia, trabalhamos com educação intercultural. Entendemos educação intercultural como a prática de um diálogo de saberes, por exemplo, entre o conhecimento científico produzido a partir de cânones do Ocidente moderno e o conhecimento de comunidades indígenas ou de pescadores e marisqueiras. Mas não trabalhamos apenas a compreensão teórica da educação intercultural. Vamos a campo, trabalhando com comunidades e professores e professoras de suas escolas, para produzir, de modo colaborativo e participativo, práticas interculturais no trabalho cotidiano das salas de aula. Nesse contexto, estamos sempre em busca de ideias que nos mostrem novos caminhos a serem seguidos ou que permitam que lancemos olhares críticos sobre nossas próprias experiências.

Um conjunto interessante de tais ideias adentrou nossas experiências a partir de conversas com Claudia Sepulveda, da Universidade Estadual de Feira de Santana, companheira de muitos anos de diálogo sobre esses assuntos e de práticas de colaboração com professores da educação básica. Incomodada com as ideias de cordialidade e compaixão como referenciais para pensar uma educação pautada no entendimento entre diferentes, ela me provocou com a ideia de empatia como possível substituto daqueles limitados conceitos.

Foi assim que nos defrontamos com a literatura sobre comunicação intercultural, na qual o tema da educação para empatia tem sido discutido há muitos anos. Num dos artigos que mais nos chamou a atenção, Sara DeTurk pergunta: por que a experiência intercultural nos ajuda a desenvolver visões de mundo flexíveis e maior tolerância pelas diferenças?

Desde os anos 1960, tem-se buscado identificar características, habilidades, atitudes, comportamentos e experiências que capacitariam as pessoas para encontros interculturais. A partir de tais esforços, foram desenvolvidas propostas de treinamento intercultural, visando educar pessoas capazes de agir de acordo com normas específicas de uma dada cultura, de comunicar-se com sucesso em situações interculturais e de colocar-se no lugar dos membros de outras culturas. Não é difícil ver por que pessoas, governos, corporações teriam interesse nessa forma de capacitação. Mas, para além desse interesse, o mundo contemporâneo parece cada vez mais necessitar de uma maior capacidade de as pessoas lidarem com encontros interculturais. “Empatia intercultural” figura na literatura sobre comunicação intercultural como uma capacidade que seria importante em tais encontros. Trata-se, contudo, de um conceito controverso.

 

O que seria empatia intercultural?

Enquanto alguns autores argumentam que é impossível empatia na comunicação intercultural, outros atribuem a ela um papel central em interações interculturais. Tamanha discordância parece depender, de modo importante, da maneira como se entende o que é empatia. Numa discussão sobre a empatia no contexto do ensino sobre comunicação intercultural, Benjamin J. Broome identifica uma série de definições atribuídas a esse termo. A empatia já foi entendida como uma característica de personalidade, uma habilidade de prever o estado interno de outra pessoa de maneira acurada, uma habilidade cognitiva de assumir o papel do outro, uma habilidade de comunicar um sentido de entendimento de outro, uma forma de identificação emocional. A maioria dessas conceitualizações vem da psicologia e do aconselhamento e, por sua natureza individual, internalista, se mostram limitadas em situações interculturais, nas quais os limites de se colocar na posição do outro são ainda mais claros do que no interior de uma mesma cultura.

Uma série de desenvolvimentos no campo da comunicação intercultural moveu o entendimento da empatia para longe desse foco psicológico individual e internalista. Milton J. Bennett, por exemplo, trouxe contribuição importante para o entendimento da empatia em situações interculturais ao questionar a “regra de ouro”: devemos tratar os outros como queremos ser tratados. Essa regra traz implícita uma suposição que é um dos fundamentais do etnocentrismo, a de uma similaridade que implica compromisso com uma realidade única e absoluta: os outros seriam como nós e haveriam de querer ser tratados similarmente. Mas qual seria a alternativa à regra de ouro?

De modo instigante, Bennet introduz o que denomina “regra de platina”: devemos tratar os outros como eles tratariam a eles próprios. Em contraste com a regra de ouro, para seguirmos essa regra, devemos nos engajar numa busca para realmente entender o outro, em vez de projetarmos a nós mesmos sobre o outro. A partir dessa transição para uma ideia menos etnocêntrica, Bennett entende empatia como a participação imaginativa, intelectual e emocional na experiência de uma outra pessoa. Passamos assim de uma visão psicológica internalista para uma visão comunicativa, interpretativa, interacional da empatia. Não é deslocamento trivial. Temos aí alteração importante no entendimento dessa ideia: a empatia passa a ser entendida como fenômeno situado nas relações, e não nos indivíduos.

Esse deslocamento leva a uma abordagem relacional na qual a empatia é entendida como um significado compartilhado construído na interação de pessoas e grupos. Concebendo conhecimento e significado de uma perspectiva participativa e situada, Broome reforça a ideia de que participação imaginativa na experiência do outro é essencial para desenvolver empatia. Temos aí outro deslocamento importante: conhecimento e significado não seriam algo que as pessoas possuem em sua cabeça de modo interno e individual, mas algo que emerge quando as pessoas agem juntas, de maneira situada e participativa.

Esta é uma visão consonante com uma tendência importante nas ciências cognitivas, a cognição situada, que tem implicações importantes para o entendimento da aprendizagem, como ilustrado, por exemplo, pelo trabalho de Jean Lave e Etienne Wenger. Para esses autores, a aprendizagem se situa em comunidades de prática, que são grupos de indivíduos com conjuntos distintos de conhecimentos, habilidades e experiências, envolvidos em processos colaborativos nos quais compartilham informações, ideias, interesses, recursos, perspectivas, atividades, com a finalidade de construir conhecimento coletivo e compartilhado orientado para uma prática comum. Nessas comunidades, que podem ter papel importante na aproximação entre pesquisa acadêmica e a tomada de decisão, gestão e ação na inovação educacional e na conservação ambiental, aprendizagem resulta de participação. Essa participação é entendida como “periférica legítima” quando uma pessoa novata numa prática é reconhecida como membro legítimo de uma comunidade a ela dedicada, ganhando acesso ao repertório compartilhado da comunidade, o que lhe permite mover-se de uma participação parcial na prática, tal como constituída num dado momento histórico, a uma participação plena. Dessa perspectiva, aprender não é apenas um processo cognitivo, mas uma reconstrução da identidade, mediante absorção da cultura da prática e pela cultura da prática. Embora existam elementos cognitivos em jogo, há muito mais do que isso: ao aprendermos de modo bem-sucedido uma prática, nós nos tornamos outras pessoas, reconstruímos nossa identidade pela aprendizagem.

Outras ideias relevantes para uma compreensão dialógica da empatia podem ser encontradas numa proposta inicialmente concebida como alternativa a este conceito visto de uma perspectiva internalista: a escuta interpretativa de John Stewart. Na escuta interpretativa, ação comunicativa criativa e produtiva resulta na construção coletiva de uma compreensão subjetiva que não é o mesmo que empatia como um estado psicológico interno, que supostamente nos colocaria no lugar do outro. Como enfatiza Broome, a empatia não resulta de uma construção individual de entendimento do outro, seja em termos cognitivos ou afetivos, mas de uma série de aproximações do ponto de vista do outro por meio de interação social. Dessa interação, podem emergir entre eu e o outro novos significados sobre os dois lados da relação, uma “terceira cultura” na qual eu e o outro construímos uma empatia mútua. Não se trata de reproduzir em mim o significado das experiências do outro. Trata-se de produzir novos significados na relação com o outro. Empatia relacional requer, pois, implicação mútua em experiências compartilhadas.

A transição de uma visão internalista para uma visão relacional da empatia é avanço importante. Não que seja suficiente para a compreensão das relações interculturais. Afinal, para que membros de uma cultura compreendam as experiências de membros de outras culturas, é preciso entender também como se configuram relações de poder entre eles. Este deve ser um tema para outra conversa, contudo.

Nessa postagem, nosso propósito principal foi discutir a empatia como produto emergente de uma relação criativa e imaginativa com a experiência do outro, de um engajamento e implicação mútua que permite acessar experiências que podem tornar-nos pessoas com visões de mundo mais flexíveis e não com maior tolerância (porque afinal de contas é bem pouco dizer que toleramos os diferentes), mas com maior entendimento e valorização das diferenças. O mundo necessita, com urgência, de mais pessoas com essas capacidades.

Charbel N. El-Hani

Instituto de Biologia/UFBA

 

 

PARA SABER MAIS:

Bennett, M. J. (1979). Overcoming the golden rule: Sympathy and empathy. Annals of the International Communication Association 3: 407-422.

Broome, B. J. (1991). Building shared meaning: Implications of a relational approach to empathy for teaching intercultural communication. Communication Education 40: 235-249.

DeTurk, S. (2001). Intercultural empathy: Myth, competency, or possibility for alliance building? Communication Education 50: 374-384.

Lave, J. & Wenger, E. (1991). Situated Learning: Legitimate Peripheral Participation. Cambridge: Cambridge University Press.

Samovar, L. A. et al. (2013). Intercultural Communication: A Reader. Boston, MA: Cengage Learning.

Stewart, J. (1983). Interpretive listening: An alternative to empathy. Communication Education 32: 379-391.

Imagem reproduzida de: https://sites.google.com/site/itrestrumenti/topic-taught/global-empathy

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