Este corpo mente

Conversar livremente com animais, como Alice, no país das maravilhas, é um sonho para muitos. Para o filósofo da mente, no entanto, traduzir as mentes animais mais se assemelha a um pesadelo, à vida em um eterno labirinto de incompreensões.

Afinal de contas o que significa possuir uma mente? É comum ouvirmos que animais são irracionais. Decorreria daí, por exemplo, que eles não possuiriam mente? Ou seria ainda pior, e para termos mente, teríamos mesmo é que ter consciência, e nesse caso correríamos o risco de ver metade do congresso nacional subitamente despossuído de mente?

Para evitarmos excesso de confusão, o primeiro ponto de acordo para um debate menos passional é nos certificarmos de que somos todos evolucionistas. Nem que seja por democracia, deveríamos dar aos animais não humanos o direito à mente. Se os excluímos de partida, então estamos solitários no mundo da mente, dominado assim por uma única (e populosa) espécie. Parece injusto começar o debate desta forma, excluindo por princípio milhões de espécies irmãs, que navegam conosco este pó das estrelas que chamamos Terra. Podemos até mesmo, ao final do debate, concluir que sim, somos os únicos a termos mente, mas esta seria a conclusão do debate, e não o seu princípio. Se admitimos que estamos juntos nesta barca Terra, que a vida aqui surgiu e se diferenciou em longo processo evolutivo, então todos os seres vivos, ou ao menos os animais, poderiam ser animados por mentes.

Por outro lado, em um mundo darwiniano, todos os processos, e a mente é um destes processos, surgem em um ponto do passado evolutivo, e a partir daí se diferenciam. Assim, não temos como expectativa que todos tenham mente, nem que exista apenas um tipo de mente. Ao contrário, nossa expectativa é que tenhamos muitos tipos de mente dentre as milhões de espécies do planeta. Neste caso, nossa tarefa pode ser uma de duas: ou bem buscamos a origem e a definição de nosso tipo humano de mente, ou somos mais ambiciosos, e buscamos as qualidades mínimas de uma mente, qualquer que seja ela. Neste primeiro texto, vamos ser pouco ambiciosos, e vamos tentar definir a mente humana, que no geral é aquilo que, por sermos eternos bebês egocêntricos, mais nos interessa. Mas não se iludam, esta pequena ambição esconde muito trabalho.

Quando falamos de mente, não estamos nos referindo à consciência. Freud já deixou claro há mais de um século que nossas ações são em grande parte arquitetadas de forma inconsciente. Assim, a consciência é apenas a ponta do iceberg da mente humana. Quando falamos de mente humana também não estamos falando de razão, ou raciocínio, da lógica no encadeamento de nossas ações. O prêmio Nobel de economia deste ano foi dado a Richard Thaler justamente pelo impacto de sua descoberta de que nós não somos agentes econômicos racionais. Sempre achamos que nossa tarefa acabará antes do que ela efetivamente acaba, sempre escolhemos um ganho menor e imediato a um ganho maior em um futuro mais longínquo, enfim, há muita irracionalidade nas decisões mais importantes de nossas vidas: aquelas que se referem à nossa economia pessoal. Assim, se formos buscar um atributo claro de nossa mente, o mais adequado seria dizer que ela é irracional.

Assim, a que nos referimos quando falamos de mente humana? Estamos nos referindo a atributos importantes tais como capacidade de planejamento, de uso de estratégias e abstrações, tais como números, conceitos ou palavras em uma língua. São estes os atributos que nos permitem imaginar um futuro, discorrer sobre o passado, enfim, nos descolarmos do aqui e do agora e navegarmos em um mundo interior. A mente seria propriamente este mundo interior no qual podemos viver, descolados do mundo real. Para alguns, isto significa que a mente é uma espécie de palco onde nossos devaneios estão em cena, onde os personagens da vida real representam um papel ficcional. A linguagem é importante neste sentido, porque boa parte da ação nesta peça teatral interior se faz de vozes dizendo o que fazer, quando e onde. Mas não precisamos superestimar a linguagem verbal, porque temos também uma poderosa linguagem não verbal, gestual, que os bebês manejam muito bem antes mesmo de terem o domínio da palavra. De qualquer modo, é através da linguagem verbal que passamos as informações para as gerações seguintes, o que permite nada mais nada menos que o acúmulo de cultura com o caminhar das gerações: uma das mais auspiciosas conquista da mente humana.

Pois bem, se nos centramos nesta ideia da mente como um mundo interior povoado de conceitos, números e outras abstrações, bem como memórias de imagens e sons, que manejamos para o planejamento de ações e tomada de decisões, agora podemos avaliar a presença de tais elementos em outras espécies, não humanas. Embora à primeira vista pareça improvável que este conjunto de atividades altamente complexas esteja presente em outras espécies, uma rápida busca nos mostra resultados surpreendentes, como aranhas capazes de usar números, abelhas capazes de formar conceitos abstratos (como: acima, ou abaixo), ou corvos capazes de planejar suas ações com grande antecedência. Comecemos pelas surpreendentes aranhas.

Habilidades numéricas foram evidenciadas em várias espécies, tanto em papa-moscas quanto em construtoras de teia. As aranhas sabem contar, por exemplo, quantas presas estão guardadas em seu estoque particular, e se roubamos um pacote com quatro presas pequenas enquanto elas estão distraídas em outras atividades, ao retornarem elas procuram tal pacote por muito mais tempo que aquele que devotam a um pacote com uma única presa (mesmo que esta presa única tivesse o peso somado das quatro presas pequenas). Papa-moscas apresentam um representação numérica que diferencia uma de duas presas, agrupando as quantidades restantes (3, 4, …) em uma categoria de “muitas” presas, e apresentam indícios claros de planejamento em suas caçadas.

Sigamos com as abelhas. As proezas de memória espacial das abelhas já são há tempos reconhecidas, mas suas capacidades envolvem muito mais que danças indicando onde está o alimento. Abelhas não apenas formam categorias e conceitos, como entendem relações entre conceitos abstratos, tais como igual/distinto, maior/menor, acima/abaixo. Experimentos variados em condições semi-naturais validam a existência de tais habilidades: abelhas voando livremente podem, por exemplo, aprender a evitar um segundo objeto quando ele é igual ao primeiro que ela encontrou logo antes, e não evitá-lo se ele for distinto do primeiro.

Finalmente, corvos aprendem facilmente a carregar uma ferramenta específica (escolhida dentre muitas) para um segundo recinto onde ela será finalmente útil para a obtenção de alimento. Eles também aprendem a selecionar fichas e carregá-las para um segundo recinto, onde elas poderão então ser trocadas por alimento: corvos planejam sua refeição futura. Além da capacidade de planejamento, os corvos usam e elaboram ferramentas, aprendem a resolver problemas observando indivíduos que já sabem resolvê-los, têm uma memória espacial prodigiosa, escondendo centenas de sementes sob a terra para depois recuperá-las, e sabem perfeitamente quais de seus colegas estavam olhando-os escondendo tais sementes.

Claro, chimpanzés, gorilas, e outros grandes primatas também possuem habilidades semelhantes, além serem capazes de aprender linguagem de sinais e elaborar frases curtas, dialogando de forma relativamente simples com os cientistas em seus laboratórios. Isto tudo dito, parece que não sobra muita coisa que seja assim, digamos, exclusividade nossa, algo como uma marca registrada de nossa mente humana. Podemos ir além, mostrando que a cultura, este pináculo de complexidade da humanidade, também existe, não apenas em primatas, mas até mesmo em animais muito mais simples, como, novamente, as abelhas. Abelhas são capazes de aprender novas tarefas observando colegas que sabem resolver estas tarefas; mas elas não copiam simplesmente seu colega, pois elas aprimoram aquilo que aprenderam. Não é esse mesmo o fundamento da cultura? Uma geração copia a anterior, aprimorando aquilo que aprendeu, e passando isso novamente adiante?

Pois bem. Agora passamos à segunda etapa deste texto, na qual faremos rapidamente o papel de advogado do diabo. Se todos estes animais não humanos conseguem proezas equiparáveis às dos humanos, porque será que apenas nós estamos destruindo o planeta inteiro, povoando todos os biomas e extinguindo todos os recursos naturais? Alguma coisa de especial temos que ter para sermos assim de longe os mais eficientes destrutores do planeta.

Há algumas críticas importantes a estes estudos da mente não humana. Vou apontar duas principais. A primeira corre mais ou menos assim: aranhas contam o número de suas presas, mas não sabem contar o número de namorados que tiveram, ou o número de vezes que elas construíram suas teias, ou o número de predadores que tentaram dela se alimentar. Ou seja, para que o número que a aranha utiliza seja comparável ao número que nós humanos utilizamos, aquele número tem que ser algo abstrato, independente do objeto que está sendo numerado. Se assim fosse, tanto faria contar presas, como contar predadores, namorados ou o que quer que fosse. Se aranhas não conseguem fazer isso, é porque para elas o número não é algo abstrato, e sim concreto: para elas pode ser que não exista o número sozinho, separado do número de presas. A segunda crítica diz respeito aos conceitos serem abstratos. Para termos certeza de que os animais estão formando conceitos abstratos, temos que retirá-los de seu ambiente natural, e ver se seus feitos cognitivos continuam a ser surpreendentes em situações desnaturais. Nós inventamos conceitos de coisas que não existem no mundo natural, e é esta capacidade que nos permite criar tanta tecnologia e alterar tanto o mundo. Talvez as habilidades cognitivas dos animais estejam muito presas à sua ecologia concreta, aos problemas de sobrevivência que eles enfrentam. Talvez suas habilidades sejam especializadas na resolução de problemas particulares que eles encontram na sua vida natural e, se assim for, novamente, esta seria uma diferença fundamental entre nós, e eles.

Finalmente, cabe dizer que talvez não seja possível tentar mensurar toda a diversidade de mentes animais com uma só régua. Se as mentes evoluíram produzindo uma árvore de parentesco entre as mentes das variadas espécies, talvez tenhamos que ter não uma régua, mas uma árvore de medir mentes. Ao fim e ao cabo, se existe uma árvore da vida, não parece justo nos utilizarmos como medida de todas as coisas.

Hilton F. Japyassu (UFBA)

Para saber mais:

Japyassú, H. F., & Laland, K. N. (2017). Extended spider cognition. Animal Cognition, 1-21.

Loukola, O. J., Perry, C. J., Coscos, L., & Chittka, L. (2017). Bumblebees show cognitive flexibility by improving on an observed complex behavior. Science, 355(6327), 833-836.

Chittka, L., & Jensen, K. (2011). Animal cognition: concepts from apes to bees. Current Biology, 21(3), R116-R119.

Van Belle, S., & Scarry, C. J. (2015). Individual participation in intergroup contests is mediated by numerical assessment strategies in black howler and tufted capuchin monkeys. Phil. Trans. R. Soc. B, 370(1683), 20150007.

Créditos da imagem: Alice’s Adventures in Wonderland. Ilustração de John Tenniel, de 1865.

 

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